Obras Inquietas – 05: “O questionador da esfinge” (1863), de Elihu Vedder

No quinto texto da minha coluna sobre arte, “Obras Inquietas”, eu falo de “O questionador da esfinge”, um quadro de Elihu Vedder. Um viajante que faz uma pergunta temível para a esfinge, a pergunta que todos faremos um dia.

Interessante a trajetória de Elihu Vedder. Foi um pré-rafaelita que acabou se fascinando em retratar mitos e fantasias, mas o rótulo é posterior ao seu fascínio: ele pintava antes mesmo de ser assim considerado. Interessava-se em especial por esfinges e, nos seus quadros, existem micro-histórias em desenvolvimento. O espectador flagra um evento no seu meio ou fim, como se surpreendesse voyeuristicamente uma trama em pleno andamento.

No texto, participações especiais – e não-creditadas – do “Ozymandias”, de Shelley, de “O imortal” e “O livro da areia”, de Borges, do próprio Elihu Vedder em uma meta-aparição, de Sófocles conversando com Gilgamesh, entre outros amigos que chamei para festejar no deserto.

Boa leitura!

“O questionador da esfinge” (1863), Elihu Vedder

 

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A caminhada se estende por muitos anos. Os pés do viajante ressentem-se de feridas mal saradas, de pedras sorrateiras, das terras quentes de muitos países. Ele andou por tanto tempo que esqueceu quem era; trocou suas memórias familiares por um punhado de tâmaras na última parada. Escreveu o nome na areia algumas vezes, tentando lembrar-se, até que letras viraram riscos e, enfim, seu nome perdeu-se em meio ao silêncio do deserto. Tão inúmeros foram os ventos que afligiram a pele do viajante que não sabe mais se areia bate no seu corpo ou sai dele, se não é uma estátua de pó caminhando na tempestade, se é homem ou sonho de um outro ser. Tudo chega ao fim, e hoje é o último dia da jornada, pois ele encontrou a esfinge. A mesma obsessão do seu Deus distante.Em meio a um reino morto, ela espia ruínas com a curiosidade indiferente de quem se sabe eterna. Distante, a canção das estrelas vem encontrar sua morte aos pés da esfinge. Observa o pequeno homem com a inexorabilidade da pedra; outros já estiveram ali. O criador dela nunca esteve, mas sempre a sonhou. O viajante ajoelha e a pergunta tão temida sai em uma rajada de medo, a saliva da língua estrangeira misturando-se aos grãos de areia que infestam a sua alma desde que começou a caminhar. É a pergunta da criação, o motivo de tudo, de toda a dor, sofrimento, angústia. A esfinge continua impassível, mas o homem escuta a pedra ciciar algo. Aproxima-se e coloca o ouvido perto da estátua. A boca de pedra parece sorrir quando murmura a sentença impossível com o som rasgante de pedregulhos raspando, “diga-me teu nome e direi quem és”. O recém-chegado leva a mão à boca para ocultar o grito de horror: a resposta estava o tempo inteiro dentro de si e, agora, encontrava-se vagando à solta por entre as dunas, lambida pelo sol que espalha sua raiva sobre o mundo inteiro. Mergulhada na areia, a esfinge sonhada por tantos anos, perseguida com tanta obsessão pelo pintor, pelo viajante, por todos nós, espera a próxima alma que irá estraçalhar.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2016/10/27/obras-inquietas-05-o-questionador-da-esfinge-1863-de-elihu-vedder/

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Arquivado em Arte, Crônicas, Elihu Vedder, Impressões, O questionador da esfinge, Obras Inquietas, Pintura, Produção Literária

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