Obras Inquietas – 04: “O mundo de Christina” (1948), de Andrew Wyeth

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, lá no Artrianon (www.artrianon.com), eu falei de “O mundo de Christina” (1948), um dos quadros mais famosos dos Estados Unidos, de autoria de Andrew Wyeth.

Alguns detalhes interessantes sobre esse quadro – e que tentei passar no meu texto – é que Christina Olson era uma mulher que, devido a um surto de poliomelite ainda na infância, passou a vida a rastejar. Era vizinha de Andrew Wyeth e, mesmo sendo frequentemente retratada por ele, nessa pintura, “O mundo de Christina”, foi a esposa do pintor quem serviu de modelo.

Tentei trabalhar com três tempos (o tempo de alguém que se arrasta, o tempo do pintor fazendo a obra, o tempo da esposa), ao lado de três pontos de vista (da inspiração, da modelo e do artista) e juntando ainda passado, presente e futuro. Tenho algumas dúvidas se funcionou, mas a ambição era realmente grande para um espaço tão curto de texto.

Boa leitura!

 

4. “O mundo de Christina” (1948), Andrew Wyeth

andrew-wyeth-christinas-world-1948

 

Deitada no campo onde o trigo foi recém-colhido, a jovem contempla o sol frio do fim de outono a lamber as telhas da sua casa. Arrastando-se no campo, a aleijada ambiciona somente chegar até a sua cama, tão longe, tão no horizonte, antes que a chuva transforme o percurso em uma longa sucessão de barro e medo. Recostada na grama, a mulher escuta os murmúrios sôfregos do artista enquanto deposita tinta na tela, uma pincelada lenta e excruciante de cada vez. Ainda ofegante depois da queda que colocou fim à sua corrida, a adolescente olha para a casa, estremecendo ao ver a silhueta nervosa do pai a lhe aguardar. Rastejando no chão, que insiste em cortar de novo os seus joelhos em eterna cicatrização, joelhos de quem não consegue mais ficar ereto, a doente colhe verduras, pretextando ainda ter alguma utilidade para a família. A esposa do artista sufoca um bocejo, esperando que ele termine logo aquela porcaria de quadro, ela precisa fazer o jantar ainda. O pintor olha as espáduas da sua mulher e surpreende-se ao imaginar as costas nuas da outra, a rastejante, e lembra os ossos cortando as omoplatas, o desenho da coluna vertebral por baixo da pele cremosa, e mexe o pincel com força redobrada. O silêncio, ninguém nunca soube o quão bom é o silêncio recheado de vento no meio do campo de trigo; ali ninguém me julga, ali eu sou ninguém. A solidão, ninguém nunca soube o quão horrível é se sentir sozinho quando estamos rastejando atrás da boa vontade alheia. O artista olha as costas da sua esposa e pensa na musa disforme para quem construiu um mundo de tinta; a esposa pensa no jantar do pintor e no quão inusitado é servir de modelo para uma aleijada. Enquanto isso, no mundo de Christina, o verdadeiro, arrasta-se a mulher que não possui esperança alguma de salvação – os primeiros pingos começam a cair. Christina chora, mas o quadro futuro esconderá o desespero do seu rosto: o chão é um mundo hostil para quem se arrasta.

 

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2016/10/20/04-o-mundo-de-christina-1948-andrew-wyeth/

1 comentário

Arquivado em Andrew Wyeth, Arte, Impressões, O mundo de Christina, Obras Inquietas, Produção Literária

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