E contudo eu sou e vivo, névoa impelida

Não conhecia esse poeta, John Clare (1793-1864), mas, graças a indicação feita pela minha amiga Marina Franconeti no Facebook, acabei lendo hoje parte da sua obra e senti-me estranhamente confortado. Não tem sido tempos fáceis. É bom ler poemas que nos fazem lembrar de que ainda somos, que ainda estamos aqui, que ainda vale a pena.
Depois, fui ler mais sobre a vida do autor e descobri que John Clare teve uma existência horrível, repleta de sofrimentos e de humilhações. Ele tinha 1,5m e, por isso mesmo, era alguém que se sentia melhor com os rejeitados, com os excluídos e com os animais. Também teve o grande azar de nascer pobre em uma zona rural e dela raramente sair e, por isso mesmo, era um poeta sozinho no meio de um mundo de trabalhadores braçais e agricultores, almas pouco afeitas à poesia. Passou os seus últimos 23 anos de vida internado em um hospício. Lançou três livros, que não venderam quase nada. E, ainda assim, John Clare nunca parou de escrever, nunca desanimou, nunca se rendeu.

 

John Clare

John Clare


Entre os poemas dele, destaca-se uma lindeza: “Eu sou” (“I am”), com essa sentença curta e grossa, esse estatuto de indivíduo, “E contudo eu sou e vivo, névoa impelida”.

Eu sou

Eu sou, mas o que eu sou não importa a ninguém:
Dos amigos sou como memória perdida.
As minhas próprias mágoas me consomem –
Elas surgem e vão-se, multidão esquecida,
Como sombras de exaltado, reprimido amor –
E contudo eu sou e vivo, névoa impelida

Para o nada do escárnio e da gritaria,
Para o mar vivo de os sonhos despertos,
Onde não se sabe o que é a vida ou alegria
Mas onde ocorre o naufrágio de meus afetos.
Mesmo os mais queridos, os que mais prezo,
Estranhos são – mais estranhos mesmo que o resto.

Estar onde ninguém esteve, são desejos meus,
Onde mulher não chorou ou sorriu contente –
E lá poder viver com meu Criador, Deus,
Dormir como na infância dormi docemente,
Estar assim, sem perturbar nem ser perturbado,
Erva, em baixo – por cima, o céu abobadado.

(Coloquei a tradução, mas não tinha o nome do tradutor. Apesar disso, tradutor desconhecido: ótimo trabalho, hein)

Mas vale a pena ler no original também:

I am

I am! yet what I am who cares, or knows?
My friends forsake me like a memory lost.
I am the self-consumer of my woes;
They rise and vanish, an oblivious host,
Shadows of life, whose very soul is lost.
And yet I am—I live—though I am toss’d

Into the nothingness of scorn and noise,
Into the living sea of waking dream,
Where there is neither sense of life, nor joys,
But the huge shipwreck of my own esteem
And all that’s dear. Even those I loved the best
Are strange—nay, they are stranger than the rest.

I long for scenes where man has never trod—
For scenes where woman never smiled or wept—
There to abide with my Creator, God,
And sleep as I in childhood sweetly slept,
Full of high thoughts, unborn. So let me lie,—
The grass below; above, the vaulted sky.

 

Ou esse pequeno fragmento, que revela uma poesia abortada ainda no seu início, mas dotada de beleza própria, na tradução do Luís Augusto Fischer:

Fragmento

A linguagem não consegue dizer o que Amor prescreve

A alma jaz enterrada na tinta que escreve.

 

Eis a versão original:

 

Fragment

Language has not the power to speak quat love indites

The sould lies buried in the ink that writes.

 

Às vezes, é estranho o caminho que uma obra literária leva para chegar até o seu leitor em determinado momento da vida dele. Fiz uma postagem sobre esse poema no Facebook e, em minutos, me disseram que ele foi citado em uma série de televisão, “Penny Dreadful”, em um contexto que se relacionava muito bem com um personagem. A Marina chegou a esse poema por meio do seriado, eu cheguei ao autor por meio da menção da Marina e, assim, a literatura acabou chegando ao leitor que dela necessitava e no momento oportuno, ao melhor estilo Deus “ex-machina”.

Lendo a história de John Clare e a sua obra poética, impossível não pensar nos seus percalços pessoais – e que, mesmo imerso no mais insondável pântano do desespero, ele manteve a sua coerência e encontrou forças para escrever uma obra poética sólida. O homem passa, a obra continua. A alma mora na tinta que escreve.

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