Obras Inquietas – 01: “O Jardim da Morte” (1896), de Hugo Simberg

Antes de começar, uma breve explicação: a Aline Pascholati, do Artrianon – https://artrianon.com/ – me convidou para escrever uma coluna sobre arte. Não sei nada de arte, não tenho conhecimentos teóricos o suficiente, mas notei que as obras que ficam na minha memória são aquelas que, de uma forma ou de outra, me transmitem inquietude, desconforto, inadequação. Toda obra de arte desperta isto, mas algumas me tocam de um jeito diferente e acabam se tornando mais memoráveis, e a razão disto nem eu sei direito, mas espero descobrir. Por isso, o nome da coluna é “Obras Inquietas”, e nela mostrarei pinturas, esculturas, fotografias, músicas, danças, quadrinhos, objetos e até livros que me deixaram inquieto, ao passo que, em pequenos textos, tentarei desconstruir meus receios.

O homem é pequeno, ainda que a ambição seja grande. Pretendo chegar a 1000 obras (ou seja, 1000 inquietudes), mas o que eu conseguir fazer – e tiver forças – estará ótimo. E quem quiser contribuir com as próprias perplexidades, sinta-se livre para me indicar autores e obras que vou agregando os desconfortos de vocês aos meus.

Talvez mil seja uma estimativa modesta, afinal de contas.

Espero que gostem. No primeiro texto, “O Jardim da Morte”, do pintor finlandês Hugo Simberg.

 

01. “O Jardim da Morte” (1896), de Hugo Simberg

 

Hugo Simberg, "O Jardim da Morte"

Hugo Simberg, “O Jardim da Morte”

 

No Jardim da Morte, jaz a Vida. A Morte cuida bem das vidas que trouxe ao mundo. Jardineira hábil, apara arestas, rega as plantas ainda no seu início, permite que elas se desenvolvam e até mesmo frutifiquem. No entanto, também possui caprichos: se achar que alguma planta não se desenvolve da maneira esperada, ela a corta sem piedade e parte para outra semente, outra vida para chamar de sua. Ela possui seu próprio Tempo, e sua Vontade é soberana e sem motivo algum que não seja o de ter uma flor mais bonita do que as dos outros canteiros. “Seja uma boa plantinha”, sussurra a Morte com sua voz cheia de dentes ossudos, e a Vida estremece diante do olhar da Ceifadora. A Morte caminha pelo jardim, cumprimentando as outras Mortes que cuidam das respectivas plantinhas. Às vezes, para perto de um canteiro e conversa com a irmã sobre adubos, estimulantes, pragas e venenos, contemplando com olhos distraídos a vida que se desenrola, lenta, valente, trêmula, no solo nem sempre favorável da existência. Apesar do medo de estar sempre diante do olhar atento de várias versões de uma única Morte, a Vida cresce, passando de semente para muda ainda instável, dela para o viço cheio de alegria verde da adolescência e, a seguir, a maturidade repleta de experiência que contempla com destemor o vento a sacudir as vidas próximas, a chuva que dá alívio e aterroriza, o calor tíbio e o frio hesitante que insistem em lhe dobrar, até o momento em que tudo que a planta consegue pensar é quando os dedos sem alma, que tanto sonharam belezas e glórias para ela, virão enfim colhê-la, depositando um beijo frio nas pétalas cansadas.  No Jardim da Morte, a Vida espera o momento da colheita.

 

Texto originalmente publicado em https://artrianon.com/2016/09/29/obras-inquietas-01-o-jardim-da-morte-1896-de-hugo-simberg/

Deixe um comentário

Arquivado em Arte, Crônicas, Hugo Simberg, Impressões, Obras Inquietas, Produção Literária

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s