Como conviver com o silêncio

Desde antes de nos conhecermos como seres humanos, ele já caminha ao nosso lado, onipresente e distante. Alguns o consideram temível, outros o veem como um bálsamo. O silêncio possui muitas facetas, mas há quem o considere o verdadeiro criador do Tempo, o Deus que está por tudo e dentro de cada coisa.

As pessoas possuem medo do silêncio e, assim, preenchem a sua vida de sons e de ruídos. Ligam televisões, escutam músicas, falam alto – tudo para fugir da solidão. Não ouvir nada amplifica a grande verdade: estamos sozinhos. Não existe ninguém que possa preencher o nosso silêncio interno, e enfrentar os próprios pensamentos é entrar em uma espiral de insanidade.

O silêncio pode dizer segredos e originar reflexões desagradáveis; melhor sufocá-lo antes que nos incomode. Pergunto-me se todas as experiências artísticas não são formas de acabar com esse silêncio que nos carcome ao redor. Tenho a frequente tentação de escrever a história humana sob a ótica de pequenas criaturas assustadas com a ideia de confrontar o silêncio e inventando guerras, amores, livros, ódios.

Um equívoco muito comum é imaginar o silêncio como a ausência de som. Na verdade, ele é algo muito maior: é o vazio de não existir e, portanto, faz parte de toda a existência. Pensei nisto após assistir entrevista feita com o maestro Daniel Barenboim para o “La Nación” em 03 de agosto de 2016 (a entrevista completa está no link http://www.lanacion.com.ar/1924146-daniel-barenboim-martha-argerich-es-una-de-las-artistas-mas-grandes-que-han-existido ), quando o entrevistador lhe perguntou o que era o silêncio:

“-¿Qué es el silencio?

-Es probablemente lo más complejo que existe en la música, porque el silencio está en permanencia, está aun antes de empezar. Pero el silencio es como alguien que te persigue y hace con vos todo el camino. Porque si no mantenés una nota hasta el final, se te cae. ¿Y dónde se te cae? En el silencio. Hacés un crescendo enorme como en el último tiempo de la Novena sinfonía de Bruckner y la orquesta chilla, grita y uno no da más: cortás el acorde y el silencio es aún más fuerte. Hay mucha gente que no lo entiende. Piensa que el silencio es ‘antes’, ‘después’ y ‘de vez en cuando’, o ‘entre’, como si fuese una coma o un signo de exclamación. No. El silencio es parte integral de la música. El silencio es para el sonido como la ley de gravedad.”

Eis uma tradução acurada da resposta feita pela minha amiga, a escritora Alexandra Lopes da Cunha:

O que é o silêncio?

– Provavelmente, o mais complexo que existe na música, porque o silêncio está em permanência, ainda está antes de começar. Mas o silêncio é como alguém que te persegue, que te acompanha durante todo o caminho. Porque se não manténs a nota até o final, ela se te escapa. E escapará para onde? Para o silêncio. Fazes um crescendo enorme, como no último tempo da Nona Sinfonia de Bruckner, a orquestra chia, grita, não é possível aguentar mais: cortas o acorde e o silêncio é ainda mais forte. Muitos não compreendem. Pensam que o silêncio é ‘antes’, ‘depois’ e ‘de vez em quando’, ou ‘entre’, como se fosse uma vírgula ou ponto de exclamação. Não. O silêncio é parte integral da música. O silêncio está para o som como a lei de gravidade.”

música

Manter o silêncio, prolongá-lo, rompê-lo, manuseá-lo a nosso favor, tudo isso também é uma habilidade. Grandes pessoas são aquelas que conseguem resistir à tentação de preencher o silêncio com qualquer som e procuram o barulho exato que lhe dê algum significado.

Assim como a música tende ao silêncio, o mesmo ocorre com as artes. Criamos para tirar o vazio dos nossos peitos e espalhar vozes e angústias pelo mundo.

Eu tenho um sonho que, como todos, é egoísta. Ambiciono chegar ao silêncio absoluto. O momento em que não precisarei mais falar ou ser cercado por desesperos alheios na forma de sons. O momento em que chegarei à última palavra, a declaração derradeira que escreverei. Eis o segredo de todo texto, e o medo misturado com alegria cada vez que inicio um: nunca sei se conseguirei chegar ao final, seja se estiver escrevendo um livro, seja se for uma lista de supermercado. Não sei se, de repente, sem aviso prévio, no meio de alguma frase, simplesmente todas as palavras irão me abandonar e o texto acabará, assim como as minhas forças e vontade de escrevê-lo. Cada mísero texto e a mesma dúvida me acomete: será este que irá quebrar as minhas pernas? Será este, enfim, o último?

Deixar de pensar, eis o sublime silêncio. A barreira do som é algo que desejamos quebrar por que, além dela, está o tão sonhado silêncio. Como diz Cecília Meireles, que sempre tem o poema certo para a hora oportuna, achar o silêncio é perder os limites, “não falar palavras vãs” como tantas pessoas fazem, não valorizando a força das palavras:

Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde és Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa, completamente silencioso,
Até a glória de ficar silencioso,
Sem pensar.

Os romanos possuíam uma deusa dedicada ao silêncio: “Dea Tacita”, ou “A Deusa Muda”. Era uma divindade ligada à morte, ao obscurantismo, ao terror. Ovídio afirma que as pessoas costumavam realizar sacrifícios em nome de “Dea Tacita” para selar os lábios dos inimigos e impedir que eles se comunicassem ou fofocassem.

in-roman-mythology-dea-tacita-silent-or-mute

Não é fácil imaginar o silêncio. Manoel de Barros tentou fotografá-lo em um poema famoso, mas só conseguiu relances insuficientes de eternidade. Contudo, se existe alguém que chegou perto de tocar o manto do silêncio que os artistas tanto buscam na sua cacofonia foi John Keats. O poeta inglês teceu uma série de poesias em que tenta fazer ritmo sem palavras, sem música, sem imagens, sem nada. Esbarra na impossibilidade de tal sonho, que se desvanece como névoa nas primeiras hortas da manhã, mas a tentativa também pode ser uma forma de sucesso.

Em “Ode à uma urna grega”, Keats fala da música mais perfeita,m aquela que não possui palavras e nem sons:

Ode à uma urna grega

(tradução de Augusto de Campos)

I

Inviolada noiva de quietude e paz,
Filha do tempo lento e da muda harmonia,
Silvestre historiadora que em silêncio dás
Uma lição floral mais doce que a poesia:
Que lenda flor-franjada envolve tua imagem
De homens ou divindades, para sempre errantes.
Na Arcádia a percorrer o vale extenso e ermo?
Que deuses ou mortais? Que virgens vacilantes?
Que louca fuga? Que perseguição sem termo?
Que flautas ou tambores? Que êxtase selvagem?

II

A música seduz. Mas ainda é mais cara
Se não se ouve. Dai-nos, flautas, vosso tom;
Não para o ouvido. Dai-nos a canção mais rara,
O supremo saber da música sem som:
Jovem cantor, não há como parar a dança,
A flor não murcha, a árvore não se desnuda;
Amante afoito, se o teu beijo não alcança
A amada meta, não sou eu quem te lamente:
Se não chegas ao fim, ela também não muda,
É sempre jovem e a amarás eternamente.

III

Ah! folhagem feliz que nunca perde a cor
Das folhas e não teme a fuga da estação;
Ah! feliz melodista, pródigo cantor
Capaz de renovar para sempre a canção;
Ah! amor feliz! Mais que feliz! Feliz amante!
Para sempre a querer fruir, em pleno hausto,
Para sempre a estuar de vida palpitante,
Acima da paixão humana e sua lida
Que deixa o coração desconsolado e exausto,
A fronte incendiada e língua ressequida.

IV

Quem são esses chegando para o sacrifício?
Para que verde altar o sacerdote impele
A rês a caminhar para o solene ofício,
De grinalda vestida a cetinosa pele?
Que aldeia à beira-mar ou junto da nascente
Ou no alto da colina foi despovoar
Nesta manhã de sol a piedosa gente?
Ah, pobre aldeia, só silêncio agora existe
Em tuas ruas, e ninguém virá contar
Por que razão estás abandonada e triste.

V

Ática forma! Altivo porte! em tua trama
Homens de mármore e mulheres emolduras
Como galhos de floresta e palmilhada grama:
Tu, forma silenciosa, a mente nos torturas
Tal como a eternidade: Fria Pastoral!
Quando a idade apagar toda a atual grandeza,
Tu ficarás, em meio às dores dos demais,
Amiga, a redizer o dístico imortal:
“A beleza é a verdade, a verdade a beleza”
— É tudo o que há para saber, e nada mais.

anfora.grega

É um poema perfeito. É possível visualizar a urna grega que lhe dá origem, imaginar tudo o que testemunhou, os sons que se perderam no seu interior, o silêncio que carrega consigo durante todos os anos. Na urna grega, o pastor é sempre jovem e apaixonado, a cidade não desmorona em torno do próprio eixo, o sol nunca cansa de sorrir. Ao final, a lição de estética, “a beleza é a verdade, e a verdade a beleza” sintetiza uma visão de mundo: o importante é ser verdadeiro consigo mesmo, pois a beleza – a paz, a alegria, o arrebatamento – acabarão por surgir.

John Keats sabia da importância das palavras, mas, mais do que tudo, venerava o silêncio. Antes de morrer, deixou determinações bem específicas para a sua lápide. Não queria que ela levasse o seu nome, mas uma inscrição: Here lies one whose name was writ in water” (“Aqui jaz um homem cujo nome foi escrito sobre a água”). Não existe melhor metáfora para o silêncio do que a transitoriedade de algo escrito sobre a água, desfazendo-se dentro de uma corrente incessante.

O túmulo de John Keats, Cemitério de Roma

O túmulo de John Keats, Cemitério de Roma

A melhor maneira de conviver com o silêncio é aceitá-lo. Não ter medo de mergulhar por inteiro nos pensamentos, ou recear sorver as águas do Leto que moram dentro de cada pessoa. Depois que se aceita que o som é a exceção e o silêncio é a única coisa que pode nos acalentar, tanto nos bons quanto nos maus momentos, fica mais tolerável a ideia de viver em um mundo repleto de solidões que tentamos afastar com ruídos.

 

2 Comentários

Arquivado em Cecília Meireles, Generalidades, John Keats, Silêncio, Solidão

2 Respostas para “Como conviver com o silêncio

  1. Terminar o texto com Keats é deliciar o leitor. Beijos,

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