O beijo queimou-lhe o coração, mas persiste na sua Ideia

Assusta um pouco que, na festa em comemoração aos seus noventa anos, Bertrand Russell tenha iniciado o discurso do seu brinde com a seguinte frase: “Durante toda a minha vida ouvi dizer que o homem é um animal racional. Em todos esses anos, não encontrei nenhuma prova disso.”

É preocupante. Estamos falando de alguém que chegou aos noventa anos de idade e manifestou nunca ter encontrado um ser humano racional pela frente. E não é qualquer um que fez tal constatação: foi Bertrand Russell, uma das pessoas de inteligência mais completa que já pisou na Terra. Alguém que foi matemático e filósofo, e teve destaque nas duas carreiras. Um homem que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura e, ao mesmo tempo, criou a Filosofia Analítica, para resumir de forma grosseira as suas qualificações extraordinárias.

Por algum tempo, torci para que fosse uma ironia de Russell, mas os anos passam – estou chegando aos quarenta -, e a verdade parece cada vez mais incontornável: está difícil achar gente racional. Os que se jactam da sua racionalidade e inteligência não raro são os mais intransigentes e cruéis, pois mascaram a sua intolerância com base em um duvidoso senso de que “eu sim sei a verdade, e não é a sua, então vou te ensinar”. Não existe debate possível quando um lado se arvora de ser o único dono da verdade.

Bertrand Russell

Bertrand Russell

Bertrand Russell defendia a liberdade. Não esta liberdade idiota dos tempos atuais, em que as pessoas são livres para dizer o que desejam, desde que concordem comigo. O filósofo pregava a liberdade que está antes  da doutrinação, na origem de tudo; a liberdade inclusive de ter liberdade, pois podemos optar por não sermos livres.

Para chegar a tal ideal, Russell estipulou um Decálogo. Não é uma ideia muito criativa, até Deus e Horacio Quiroga fizeram Decálogos; parece que, quando alguém não sabe muito o que fazer, estipula dez regras e acha que o mundo inteiro estaria melhor se as obedecesse. No entanto, o diferencial do Decálogo de Russell é que ele não tenta impor condutas, mas considera como um lembrete para o próprio indivíduo lembrar da sua liberdade de pensamento em relação aos outros:

I – Não tenhas certeza absoluta de nada;

II – Não consideres que valha a pena esconder evidências, pois as evidências sempre e inevitavelmente surgirão;

III – Nunca tentes desencorajar o pensamento, pois com certeza tu terás sucesso;

IV – Quando encontrares oposição, mesmo que seja de teu cônjuge ou de teus filhos, esforça-te para superá-la através do argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória que depende da autoridade é ilusória;

V – Não tenhas respeito pela autoridade alheia, pois há sempre autoridades contrárias a serem achadas;

VI – Não utilizes o poder para reprimir opiniões que consideres perniciosas, pois as opiniões irão reprimir-te;

VII – Não tenhas medo de possuir opiniões contra o senso comum, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas;

VIII – Encontra mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância passiva, pois, se valorizas a inteligência como é teu dever, o primeiro será um mais profundo que a segunda;

IX – Seja absoluto e escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentares escondê-la;

X – Não tenhas inveja daqueles que vivem num paraíso dos tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso.

São conselhos sábios, para lembrar a nós mesmos que somos livres para pensar o que bem desejarmos. Sem doutrinações, sem imposições, sem debates infrutíferos com paredes sem argumentos. Somente nossas reflexões, e o direito de possuí-las.

Nos últimos tempos, tenho recordado muito do “Grande Inquisidor”, personagem de “Os Irmãos Karamázov”, de Dostoiévski. Estou entre aqueles que o consideram um dos grandes – senão o maior – personagem da Literatura Mundial.

Recapitulando um pouco o romance: o “Grande Inquisidor” aparece em um trecho de “Os Irmãos Karamázov”. Ele faz parte de um poema que Alexei Karamázov pretende um dia escrever. O homem resume a trama do poema para seu irmão, Ivan Karamázov, e o simples fato de um personagem acessório ganhar vida própria diz muito a respeito da genialidade de Dostoiévski.

Certo dia, Jesus resolve voltar ao mundo e está caminhando pelas ruas de Sevilha quando um enterro aparece no seu caminho. As pessoas o identificam e os pais  imploram para que ele intervenha, trazendo a criança morta de volta à vida:

“De repente, ouve-se um grito e a mãe lança-se aos Seus pés: ‘Se és Tu, ressuscita-me a filha!’ – e estende-Lhe os braços. O préstito para, pousam o caixão nas lajes. Jesus contempla-o com piedade e a Sua boca profere suavemente, uma vez mais: ‘Talitha kum’, e a moça levantou.”

No mesmo instante, passa pela praça o Grande Inquisidor e presencia a cena:

“É um ancião quase nonagenário, de elevada estatura, de rosto ressecado, olhos cavados, mas onde havia ainda uma centelha. Não traz mais a pomposa veste com a qual se pavoneava ontem diante do povo, enquanto eram queimados os inimigos da Igreja Romana. Retomara sua velha batina grosseira. Seus sombrios auxiliares e a guarda do Santo Ofício seguem-no a uma distância respeitosa. Detém-se diante da multidão e observa de longe. Viu tudo, o caixão depositado diante dele, a ressurreição da menininha, e seu rosto ensombreceu-se. Franze suas espessas sobrancelhas e seus olhos brilham com um clarão sinistro. Aponta o dedo e ordena aos guardas que prendam. Tão grande é o seu poder e o povo está de tal maneira habituado a submeter-se, a obedecer-lhe sem questionar, que a multidão se afasta imediatamente diante dos esbirros; em meio dum silêncio de morte, estes o pegam. Como um só homem, aquele povo se inclina até o chão diante do velho inquisidor, que o abençoa sem dizer palavra e prossegue seu caminho.”

A partir de então, o Grande Inquisidor procede ao interrogatório de Jesus Cristo, e toda a sua argumentação é no sentido de forçar o Filho de Deus a negar a própria condição divina. Usa ameaças, subterfúgios, arcabouços teológicos. De forma alternada, o Grande Inquisidor seduz, encanta e aterroriza. Em parte da conversa, começa-se a discutir a ideia de liberdade e de como os homens precisam ser submetidos a algo para se sentirem livres. A discussão se encaminha naturalmente ao cerne da divergência entre os dois personagens: existe livre arbítrio genuíno ou só gostamos de pensar que ele existe, mas somos escravos que sequer conseguem olhar os grilhões que nos amarram ao chão e nos impedem de voar?

The-Pope-and-the-Inquisitor

É preocupante perceber o quanto existem Grandes Inquisidores tentando tolher os nossos pensamentos e forçando-nos a negar o que sabemos. O direito de ter uma opinião trouxe consigo uma faceta desagradável, que é a tentativa de imposição das suas ideias a qualquer custo. A única coisa que pode nos ajudar é o respeito ao outro e aos seus pensamentos, mesmo que seja contrário a nós mesmos.

Por isso gosto tanto do final dessa parte de “Os irmãos Karamázov”, quando Alexei conta o final que imaginou:

“- O fim que eu tinha pensado era este: O inquisidor cala-se, espera um momento a resposta do Preso. O Seu silêncio é opressivo. O Cativo escutou-o sempre fixando nele o olhar penetrante e calmo, visivelmente decidido a não lhe responder. O velho gostaria de que Ele lhe dissesse alguma coisa, mesmo que fossem palavras amargas e terríveis. De repente, o Preso aproxima-se em silêncio do nonagenário e beija-lhe os lábios exangues. Mais nenhuma resposta. O velho tem um sobressalto, mexe os lábios; vai até à porta, abre-a e diz: ‘Vai e nunca mais voltes… nunca mais.’ E deixa-o ir, nas trevas da cidade. O Preso vai embora.

– E o velho?

– O beijo queimou-lhe o coração, mas persiste na sua Ideia.”

Mesmo corroído pela culpa, o Grande Inquisidor prefere permanecer fixo na sua visão de mundo, e também há honra em tal decisão. Não existem vencedores ou derrotados em qualquer debate de ideias. Ele defendeu a sua ideia, Jesus manteve-se fixo na sua, e ambos saíram fortalecidos. Eis o maior sintoma da falta de racionalidade dos dias atuais: achamos que o outro existe para ser convencido quando, na verdade, precisamos trabalhar melhor é o nosso próprio argumento.

 

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