Texto (e fotos) publicado no site “Por que hoje é sábado”, edição especial “Mulheres lendo” (16/07/2016)

Quem me conhece, sabe que, entre as dezenas de assuntos que me interessam (para ficar em alguns mais recentes, encontro-me lendo sobre o sistema jurídico da Atenas antiga e sobre as evoluções do conceito de virtude em Samuel Richardson e Marquês de Sade), estão as mulheres leitoras e, em especial, a forma com que a arte, a fotografia e a propaganda costumam retratá-las.

Pode parecer um assunto pouco relevante, mas não é. Desde os primórdios, a leitura foi considerada uma atividade feminina, e existem representações abundantes de mulheres de todas as idades lendo. Os homens saíam para a guerra e viam com condescendência as mulheres com um livro na mão, atribuindo-lhes, assim, um caráter sonhador e descolado da realidade. É muito interessante constatar como esse discurso silencioso – e de dominação – perpassa por toda a História da Arte e é retratado até os dias atuais, quando consideramos natural ver uma mulher com um livro e algo destoante enxergar um homem lendo. Sei por experiência própria: quando levo um livro para algum lugar, os olhares de pasmo que me lançam são frequentes.

Inclusive, quando aparecem homens e mulheres lendo na mesma imagem, geralmente é o homem que aparenta estar lendo em voz alta para a mulher, e isso passa uma espécie de doutrinação tácita. Poderia falar de Santo Agostinho e dos benefícios da leitura silenciosa, mas, ora bolas, estou sempre falando de Santo Agostinho.

Existiu uma mudança progressiva nas imagens de mulheres lendo, e isso é algo que me encanta. No passado, é possível ver que as imagens mostravam mulheres lendo como se fosse uma fuga da realidade, como se elas fossem burras e precisassem de livros para entender o que estava acontecendo. No entanto, nos últimos anos – não sou capaz de precisar o momento exato – as imagens passaram a representar força, conhecimento, inteligência. Algum dia, penso em escrever algo mais detalhado sobre o assunto.

Hotel Lobby (detail) 1943. Edward Hopper (1882-1967).

Hotel Lobby (detail) 1943. Edward Hopper (1882-1967).

Em torno de um ano atrás, criei um painel no Pinterest intitulado “Woman Reading”, que inclui mais de 527 imagens de mulheres lendo, desde pinturas clássicas até propagandas de revistas, desde mulheres famosas até desconhecidas, desde pintores renomados até outros que ninguém ouviu falar. Convido todos a visitarem o site: https://br.pinterest.com/gmeloczekster/woman-reading/

Sabendo desse meu interesse, o Milton Ribeiro, que gerencia o blog “Por que hoje é sábado”, pediu para que eu escolhesse algumas imagens de mulheres lendo e escrevesse um ensaio em homenagem a elas. Foi mais difícil do que eu imaginava fazer texto e imagem casarem entre si com doses duplas e interligadas de significados. Ainda mais por que tentei despersonalizar a questão e transformar o livro no narrador do texto: um livro que se apaixona pela sua leitora, assim como toda obra se apaixona perdidamente por aquele que se atreve a devassar as suas páginas. Não é assim que o amor devia funcionar?

Também fiz um pequeno easter egg do tipo que só eu acho legal: escrevi um texto que serve tanto para mulheres lendo quanto para homens na mesma atividade. Um texto unissex: o livro pode se apaixonar por ambos os sexos, ele não tem problemas com gêneros de leitores.

Boa leitura!

http://miltonribeiro.sul21.com.br/2016/07/16/porque-hoje-e-sabado-mulheres-lendo-2/

Deixe um comentário

Arquivado em Arte, Leitura, Livro, Mulher

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s