Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (05/07/2016): “O leitor, este ‘sujeitinho’ que caminha conosco”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, falei sobre uma das mais antigas questões: para quem escrevemos? Partindo da desastrada declaração de Bernardo Carvalho (nunca é saudável defender a arte literária em detrimento do leitor, que é um dos seus pólos essenciais, pois não existe livro sem leitor, quando escrevemos já estamos lendo), refleti sobre escritores que desprezavam os seus leitores e outros que escreviam em conjunto com eles. Mas também falei da correspondência educada de Flaubert com seus leitores indignados por causa de “Madame Bovary” e seu espelho incômodo, e também falei de Dostoiévski encontrando o seu Leitor Ideal – e, por Deus, ele era um baita chato.

Boa leitura!

 

O leitor, este “sujeitinho” que caminha conosco

 

A nova velha discussão dessa semana é tão antiga quanto a expressão “mais antiga do que andar para frente”. Em uma palestra na FLIP – Feira Literária de Paraty, o escritor Bernardo Carvalho, diante da questão “para quem se escreve?”, respondeu de forma taxativa: “Não me interessa se o leitor lê ou não lê; eu quero que se foda. O que eu quero é fazer a minha literatura”. Tal declaração despertou uma onda de raiva e de interpretações metafísicas sobre o real alcance da resposta, com pessoas se posicionando a favor ou contra.

É possível que o uso do palavrão tenha sido o combustível para tanta polêmica, pois a mesma frase – sem o palavrão – é dita desde o início dos tempos. Aliás, encontra-se na origem do movimento que Benjamin Constant chamou de “arte pela arte” e que teve ninguém menos do que Aristóteles como seu iniciador. Somente no século XVIII ganhou o nome de “estética”, de acordo com Alexander Baumgarten, mas muitos artistas pautaram as suas obras pelo absoluto desrespeito ao público e concentração no fazer artístico. Viviam em uma bolha criada pela sua própria arte. Que o diga Baudelaire, cujas poesias escandalizaram a sociedade da época e disse escrever não para ser lido, mas pelo simples ato de escrever, ou o próprio Edgar Allan Poe, o qual pregou as benesses da beleza estética sobre os gostos do público em “A filosofia da composição”. É uma maneira de pensar a literatura, e não pode ser considerada nem certa e nem errada.

Por outro lado, existe uma constelação de grandes escritores que seguiam as vontades do público e nem por isso eles se venderam ao mercado. Conseguiram aliar o seu fazer artístico ao gosto dos leitores, atendendo, assim, à trindade maior da literatura segundo Antonio Candido: autor – obra – público.  À guisa de exemplo, Charles Dickens foi um best seller enquanto estava vivo. Escrevia folhetins mensais nos jornais de Londres e, no intervalo de tempo em que cada publicação saía, observava as reações do público e a sua empatia ou desgosto com os personagens, moldando a história para tirar o máximo de suspense. Segundo estimativas, Dickens vendeu mais de 4 milhões de exemplares das suas obras enquanto estava vivo, o que é um feito para qualquer autor. A mesma conduta foi seguida por outros escritores, como Henryk Sienkwiecz, Machado de Assis e Alexandre Dumas, que lançou em folhetim as suas obras máximas, entre as quais “Os três mosqueteiros” e “O conde de Montecristo”. Dumas tinha uma peculiaridade interessante: como recebia por linha escrita, o autor francês precisava preencher espaços nas folhas e, assim, abusava dos diálogos inúteis, no estilo de “Oi.”, “Oi.”, “Tudo bem?”, “Tudo bem, e contigo?”. Ganhava assim quatro linhas e, por conseguinte, recebia mais dinheiro. Isto não prejudicava em nada a sua literatura, além de ajudar na criação do clima e deixar os leitores mais sedentos pelos momentos em que a história avançava de forma serelepe nas cenas de ação.

Este bilateralismo é irritante, lembra um Gre-Nal que nunca termina. É possível ter as duas posições sobre a arte sem que uma implique em desconsiderar a outra. Podemos ouvir o leitor ou desconsiderá-lo. No final do dia, o importante é fazer um bom trabalho para nós mesmos e, se atingirmos outros leitores, melhor ainda. Se o objetivo for só ter mais leitores e escrever para eles, qual seria o problema? Eu não leio o Bernardo Carvalho – pelo visto estou na parte de leitores mundiais que não o leem e logo merecem ir, ficando em expressões antigas, para o diabo que nos parta -, mas ele também não deve me ler e nós dois somos felizes com os leitores que se interessaram pelos nossos trabalhos.

Os leitores, 1914, Martin and Edith Stein Collection

Os leitores, 1914, Martin and Edith Stein Collection

No “Livro dos Cinco Anéis”, Miyamoto Musashi diz que “a tática para ganhar de um homem é igual à tática para ganhar de mil homens”. O mesmo pode ser dito quanto aos leitores: ter um leitor é tão valioso quanto ter 100 ou um milhão. Por meu lado, eu prefiro pensar em Umberto Eco que, em “Seis passeios pelos bosques da ficção”, afirmou que todo autor escreve para uma única pessoa, a quem chama de Leitor Ideal. Ele seria uma figura imaginária, o interlocutor perfeito, o ser para quem o leitor dirige em segredo a sua história, aquele que não só irá entendê-la como será capaz de ver até as nuances que escaparam ao autor. Passamos a vida toda escrevendo para este Leitor Ideal, o qual não conhecemos ainda, mas que está por aí, em algum lugar do mundo.

Eco diz que, em última análise, o Leitor Ideal é uma projeção do seu autor, ou seja, o escritor conversa consigo mesmo através da obra. Considero uma opção muito solitária e, sinceramente, espero não estar escrevendo para dialogar comigo, seria mais fácil e cômodo bater papo com o espelho. Sou mais utópico. Realmente acredito que, em algum lugar do mundo, existe uma Leitora Ideal (sempre imaginei no gênero feminino) que, um dia, lerá algo que escrevo, entrará de cabeça na minha obra e, em seguida, virá me confrontar com um conhecimento a meu respeito que sequer eu possuo.

Minha Leitora Ideal é meu nêmesis, alguém que finalmente me explicará para mim mesmo. Alguém que irá me exaurir, literariamente falando. Enquanto não surge tal figura imaginária e se transforma em realidade, eu vou me divertindo com os leitores e leitoras “errados”. Gosto muito da ideia de que cada texto que escrevemos tem um único objetivo em vista, que toda a história da literatura não passa de iscas em anzóis que colocamos no oceano de livrarias e bibliotecas à espera de um único peixe, enquanto outros se aproximam e flertam com a morte. Nunca terei certeza de que tal Leitora Ideal existe. Talvez ela já tenha morrido, talvez ainda venha a nascer daqui a 100 ou 1000 anos. De qualquer forma, é para ela que escrevo, e os outros leitores são somente “danos colaterais” de uma bomba literária de efeito descontrolado.

Não escrevemos para os leitores, mas apesar deles. Antes que me crucifiquem, não uso o “apesar” de forma pejorativa. Quero dizer que imaginamos uma espécie de leitor para nosso livro, alguém que entenderá a elegância ou a virulência da prosa, e acabamos nos deparando com amigos gozadores, com críticos sérios e outros nem tanto, com fanáticos religiosos, com gente preconceituosa que gostaríamos que não estivessem com o nosso livro nas mãos, com ex-namoradas que encontram em uma frase um ataque sutil, com familiares que passam a ter medo de eventuais indiscrições e, até mesmo, com leitores que não nos conhecem. Os leitores acabam nos sufocando na tentativa de encontrar sentidos para o livro, e escutar seus elogios ou eventuais inconformidades também é perigoso.

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Gustave Flaubert passou por um grande problema por causa dos seus leitores. Após o lançamento de “Madame Bovary”, em 1857, tão convincente era a trama, tão realista – não é por nada que a consideram a obra realista por excelência – que Flaubert recebeu uma enxurrada de cartas indignadas de leitores afirmando que ele tinha contado a sua história. Para quem lê “Cartas exemplares”, que junta algumas das cartas, fica claro que, até o momento em que publicou “Madame Bovary”, as dúvidas de Flaubert cingiam-se ao estilo, à trama, ao cenário, aos personagens. Depois que o livro foi publicado, as cartas de Flaubert viraram explicações polidas de que, não, ele não tinha se baseado na história de Fulano para compor a história de Charles Bovary, ou que não, ele não estava contando o incidente na festa de Beltrana dentro do seu livro, e sim uma outra festa imaginária. Flaubert era um homem educado, respondia para os seus leitores sobre as suas angústias mundanas, mas sempre penso que o escritor devia se deliciar de ter criado algo tão palpável que as pessoas se viam nos lugares dos personagens.

Nem sempre encontrar o Leitor Ideal pode ser uma experiência aprazível. Também pode ser um espetáculo de horrores, ser lido e decifrado por alguém que não só nos odeia, como possui críticas ponderadas e irônicas sobre o nosso trabalho. Assim, é possível que nenhum escritor tenha recebido um ataque mais virulento de um leitor do que o próprio Dostoiévski. Tão violento foi que o autor russo escreveu uma reportagem no jornal, chamada de “Meia carta de um sujeito”.

Apesar de Dostoiévski, possivelmente irritado, chamar-lhe de “um sujeito” – algo que já passa toda uma carga valorativa sobre o que ele pensa do leitor em questão, este “sujeitinho” -, ele se identificou na carta enviada para a redação do jornal. Assinou a carta como “Um observador silencioso”, o qual, de silencioso, verificamos não ter nada. Rousseau disse que “todo homem honesto deve assinar aquilo que escreve”. Lembro que, partindo desta frase, Schopenhauer conclamou os escritores “probos” da Europa a se juntarem contra os autores anônimos e forçá-los a colocarem os próprios nomes nas obras, o que sempre achei uma ideia divertida: escritores que assinam suas obras contra os anônimos, heterônimos e pseudônimos, eis uma batalha épica.

No início da sua resposta a este leitor, Dostoiévski afirma: “Confesso que a publicarei [a carta] apenas para me ver livre dele.” Em seguida, o escritor menciona que, apesar de lhe criticar, o “observador silencioso” se considera um dos seus maiores amigos e defensores: “Ele já escreveu em meu lugar e a meu favor três ‘anticríticas’, duas ‘notas’, três ‘notas de passagem’, um ‘a propósito’, e, finalmente, ‘um guia de bom comportamento’.” E foi esse último que irritou Dostoiévski: “Nesta última e polêmica obra, sob a aparência de um sermão feito contra meus ‘inimigos’, é a mim que ataca, e ataca usando um tom que, em matéria de energia e fúria, ainda não encontrei outro igual, nem mesmo entre meus ‘inimigos’.”

O que fez o leitor para irritar tanto Dostoiévski? O próprio autor responde: “Ele quer que eu publique tudo!” O Leitor Ideal de Dostoiévski é tão encantado com a sua obra que reclama pelo fato do autor não publicar mais ou não publicar tudo aquilo que escreve. Ele quer mais, muito mais, e tem a audácia de reclamar para o próprio autor da sua “preguiça de publicação”.

É um texto engraçado, ainda mais por que é possível ver um Dostoiévski furibundo enquanto lê a carta do Leitor Ideal. Relata a resposta privada que enviou para o leitor, dizendo que publica o que quiser e quando quiser, e deseja lidar sozinho com os seus inimigos, não precisa de ajuda. Em seguida, Dostoiévski tenta analisar psicologicamente o seu Leitor Ideal. Diz que ele é um “homem amargurado, que diariamente causa amargura a si próprio”.

Menciona um traço interessante da personalidade do outro, o qual denomina de “energia cívica”. Diz que o “observador silencioso” escreve para o autor unicamente em função do seu “dever cívico” ou, nas palavras do autor russo, “Até confessou, com certo orgulho, mas com uma sinceridade que lhe é prejudicial, que não escrevia absolutamente para me defender, mas apenas para, aproveitando o ensejo, expressar as suas ideias, já que estas não eram aceitas por nenhuma redação”.

O Leitor Ideal de Dostoiévski era o protótipo das pessoas que entram hoje nas redes sociais e acham que conseguem consertar o mundo fazendo “textões”. Sempre me fascinou aqueles que possuem tal ideal nobre, o de conscientizar os outros sobre aquilo que devem pensar, usando o tom monocórdio de uma lição quase professoral. Afirma Dostoiévski que o Leitor Ideal gasta todo o seu tempo e dinheiro mandando cartas para os jornais e revistas de Moscou com a “esperança doce, mesmo que vã, de demarcar para si um cantinho fixo na revista”. Acrescenta, com espanto:

“O que me deixa abismado é que de modo nenhum pude descobrir, mesmo em suas vinte e oito cartas, quais são as suas inclinações e o que propriamente pretende. Uma confusão só… Com os métodos grosseiros, com o cinismo do seu nariz avermelhado e o ‘cheiro desagradável’ de suas palavras delirantes e de suas botas esfarrapadas, surge uma espécie de seda velada de ternura, de algo ideal, de um tipo de crença na beleza, de Sehnsucht (nostalgia) de algo, por alguma razão, perdido, e tudo isso se revela nele de um modo profundamente repulsivo. E, em suma, estou farto dele.”

Dostoiévski publica metade da carta do “sujeito”, pois a primeira parte é “absolutamente impublicável”, por conter uma série incessante de ataques contra quase todas as editoras de São Peterbsurgo e de Moscou. A metade final é uma série de conselhos – “ingênuos”, na opinião do escritor – que o “observador silencioso” fornece para eventuais folhetinistas, adotando um “tu” aconselhador e tolerante que irrita tanto Dostoiévski que ele destaca ser uma opção do autor para que pareça ser “como nas odes de tempos longínquos”. Não bastando, quando o autor russo comunicou que só publicaria metade da carta do “sujeito”, este lhe solicitou para que a parte publicada começasse a partir de um ponto-e-vírgula, não de um ponto final. Se é para ser chato, melhor ser chato até as últimas consequências.

Aconselho plenamente a leitura da meia carta do Leitor Ideal de Dostoiévski tentando ensinar outros escritores como devem escrever histórias interessantes (e, indiretamente, nas entrelinhas, falando dos erros e acertos do próprio Dostoiévski). Seus conselhos são eivados de sugestões engraçadas e de opiniões ferinas, como quando diz: “Afinal, qual seria o teu triunfo? Raciocina se fores capaz: teus folhetins não representariam a mesma coisa? Tu não apareces toda semana, em dado dia, nu e com todos os pormenores à mostra diante do público? E a troco de que, a troco de que tu te esforças tanto?”. A sua petulância e verve faz com que tenhamos a mesma reação do autor russo: uma mistura de ternura com extrema raiva.

Não se pode esquecer que o “observador silencioso” tinha Dostoiévski como modelo de boa escrita, e esta é a maior alegria dos leitores: auxiliar os escritores a entrarem na selva quase insondável que é o seu próprio texto. Cada leitor acha que é o destinatário secreto da visão de mundo engendrada por um autor e, assim, cada um deles se acha único, pois realmente é – a leitura é uma experiência solitária e, por mais que conversamos a respeito, sempre estamos sós dentro do livro. Não escrevo para leitores em específico, mas para quem deseja pegar meu livro e caminhar comigo por algum tempo em um lugar que só existe na minha imaginação. Pois a leitura não passa disso: uma maneira de acabar com a solidão do autor, do leitor e do próprio livro.

 

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/o-leitor-este-sujeitinho-que-caminha-conosco-f3b6087a9c10#.hyp72kvbb

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Arquivado em Arte pela arte, Charles Dickens, Dostoiévski, Dublinense, Gustave Flaubert, Leitor, Literatura, Madame Bovary, Temas de crítica literária

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