A verdade que preferimos não ver e, ainda assim, existe

Ser santo não é fácil, e ser um santo filósofo mais complicado ainda. Se hoje as pessoas gostam de fazer perguntas tentando encontrar contradições e brechas nos pensamentos alheios, no passado, para um santo filósofo, as perguntas eram bem mais complicadas e os dilemas quase insolúveis.

Assim, não espanta que São Tomás de Aquino – autor da “Suma Teológica”, um dos livros que formatou o pensamento da Igreja Católica – tenha recebido uma consulta cretina e capciosa a qual, por trás de palavras simples, escondia uma questão tão complexa que podia custar a sua vida.

Perguntaram-lhe o que era mais poderoso, mais convincente e mais importante observar: o poder do rei, a influência do vinho, o fascínio da mulher ou a força da verdade (“utrum veritas sit fortior inter vinum et regem et mulieram”).

Não se enganem com a simplicidade aparente da questão, pois ela é repleta de maldade. Se considerasse qualquer coisa acima do poder do rei, São Tomás de Aquino estaria desconsiderando um dos princípios básicos da monarquia, de que o poder do rei deriva em linha direta de Deus. Se dissesse que pessoas sob influência do vinho podiam mentir, ceder aos encantos das mulheres e não observar a figura do rei estaria permitindo a desobediência dos padrões mais básicos da civilização em benefício do estado de embriaguez. Se considerasse mais forte a sedução feminina, o santo filósofo daria a elas o controle da relação, algo impensável para a época. Se afirmasse a prevalência da verdade, permitiria que fosse mais relevante um conceito fluido e indefinido, que depende mais da pessoa que a emite do que da verdade propriamente dita. Afinal, quem de nós pode dizer o que é a verdade?

São Tomás de Aquino

São Tomás de Aquino

São Tomás de Aquino saiu do enrosco com muita habilidade. Primeiro, disse que vinho, rei, mulher e verdade são conceitos tão opostos que não permitem uma comparação justa, pois pertencem a gêneros diferentes. Com este preâmbulo, o santo filósofo já saiu pela tangente, desculpando-se de forma prévia da sua resposta.

Em seguida, afirmou que todos os elementos encontram um único ponto em comum: eles realizam uma ação sobre o coração humano. O vinho age sobre nosso aspecto corporal. A mulher, com seu poder de sedução enlouquecedor (“delectatio venera”), age sobre a natureza sensível dos homens. O rei atua sobre a vontade intelectual dos homens, pois possui o comando da lei divina para melhor discipliná-la sobre o planeta. Assim, a única e mais poderosa força que age sobre o espírito humano é o desejo de buscar a verdade em tudo o que faz ou, nas palavras de São Tomás de Aquino, “vires corporales subiciuntur animalibus, vires animalis intellectualibus et intellectuales practicae speculativis… ideo simpliciter veritas dignior est et excellentior et fortior”, as quais, em uma tradução livre, significam “os animais estão sujeitos às forças do corpo, a força do animal é mais digna do que o entendimento do intelectual, a razão prática é simplesmente mais forte e mais excelente do que a razão especulativa, e a verdade é mais forte do que todos eles.”

Buscamos a verdade, mas não gostamos de encontrá-la. Preferimos a mentira, o conforto da ilusão, a esperança ínfima. Preferimos ser enganados ao invés de ver a verdade que esclarecerá tudo. Criamos verdades falsas para esconder aquela única que refulge no fundo do rio como um diamante esperando ser revelado.

Quanto mais diante dos nossos olhos a inapelável verdade, mais insistimos em não vê-la, em ignorá-la, em fazer de conta que não está ali. Para São Tomás de Aquino, a verdade existe de acordo com o conhecimento que temos da coisa. Ou seja, quanto menor o conhecimento, menor a nossa capacidade de chegar à verdade. A única maneira de chegar à verdade de qualquer coisa seria através do conhecimento, pois a verdade não estaria condensada na coisa em si. Assim, para o santo filósofo, a verdade encontra-se, de forma principal, no intelecto, e, em segundo lugar, na coisa em si considerada.

Deve ser por isso que recusamos tanto a ver a verdade. Ela machuca. Em especial quando dita diretamente por alguém: eu não te quero. Você fracassou. Eu não sinto nada por você.  O eufemismo e a ilusão ludibriam a verdade algumas vezes, até o momento em que ela se torna tão inquestionável que só resta aceitá-la e viver com as suas consequências.

"Apoteose de São Tomás" mostra São Tomás afzendo aquilo que mais gostava: tentando acalmar os Cismas da Igreja Católica.

“Apoteose de São Tomás” mostra São Tomás fazendo aquilo que mais gostava: tentando acalmar os Cismas da Igreja Católica.

São Tomás de Aquino encontrou a verdade que passou a vida toda procurando. Três meses antes de morrer, ele estava orando na Capela do convento dos dominicanos em Nápoles com outros padres. Quando a oração acabou, os demais padres levantaram-se para sair, mas ele decidiu ficar mais alguns minutos. São Tomás de Aquino nunca disse o que aconteceu, e só podemos confiar no depoimento do sacristão Dominic de Caserta que, ao entrar na capela, percebeu o santo filósofo levitando de joelhos enquanto chorava. Na sua frente, estava Cristo crucificado, que lhe disse: “Escreveste bem sobre mim, Tomás. Qual recompensa desejas em troca?”. A resposta foi “Nada além de ti, Senhor.”

A partir deste momento, nenhuma palavra saiu mais do corpo de Tomás de Aquino. Elas tinham se esgotado. Ele escrevera tudo o que desejara, e Deus concedeu-lhe o supremo favor de evitar que as histórias, palavras e reflexões continuassem aflorando como água de uma fonte que nunca seca. Quando o secretário Reginaldo de Piperno pediu para que ele voltasse a ditar as sua sobras, o santo respondeu com tristeza: “Não posso mais, Reginaldo, tudo o que escrevi não passa de palha.”

São Tomás afirmou que “levar os homens à verdade é o maior benefício que se pode prestar aos outros”. Ainda assim, a dor de estar diante dela é o que nos faz repudiá-la, pois sabemos qual é a verdade, só preferimos que não seja aquela, que algo mude a sua inexorabilidade, que sejamos salvos por um deus ex machina. Mas a verdade é um filme em que a cavalaria não vai aparecer para nos salvar.

Aceitar a verdade é admitir que somos pessoas cheias de palavras que visam a negar a existência dos fatos incontestáveis. Somos criaturas repletas de subterfúgios que, no fundo, não passam de tentativas estéreis de disfarçar a dura, inapelável verdade que nos espera no final do caminho, com a sua voz de pedra a recordar nosso fracasso, nossa fragorosa derrota. Diante da verdade, não passamos de palha.

 

 

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