Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (21/06/2016): “Quando artistas vão a enterros”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu me diverti horrores falando do que acontece quando artistas vão a enterros.

Alguma coisa devo ter feito muito errado, pois fazia tempo que não me divertia tanto com algo que escrevia. É um texto trágico, ainda que engraçado: falei de Edvard Munch no canto do quarto pintando as reações da sua família enquanto a própria irmã morria; falei de um quadro em que a Morte nos encara nos olhos como se dissesse “vou ir atrás de ti, curioso de uma figa”; falei de Gustave Courbet pintando o enterro do tio e a sua resposta misteriosa quando lhe perguntaram o que o quadro queria dizer; falei de Nikolai Leskov se vangloriando em um conto por ter ido ao enterro de Dostoiévski e terminei com um indignado e revoltadíssimo Emile Zola escrevendo sobre o enterro de Gustave Flaubert, de todas as desgraças cômicas que aconteceram (uma dica: o caixão de Flaubert trancou na sepultura e não tinha jeito nem de subir e nem de descer), e com uma participação especial de Guy de Maupassant como “o tio louco que vai em velórios e fica contando, com riqueza de detalhes, como estava o cadáver”.

Aproveitei para brincar com a autoficção e com a minha noção do que cada obra de arte representa – espero que não me matem.

Espero que também se divirtam comigo. Rir sozinho das piadas é horrível.

Boa leitura!

 

Quando artistas vão a enterros

 

Todo bom artista é, em si, um bisbilhoteiro da desgraça alheia. Assim como o centroavante cujo maior mérito é “saber se colocar dentro da área” (uma das muitas expressões confusas na língua e que só fazem sentido no futebol), o artista é aquela pessoa capaz de se posicionar diante de uma cena, pegar a sua essência e transformá-la em algo maior. Como são incapazes de ver a realidade que os outros contemplam, são as pessoas ideais para ver não o mundo como ele é, mas como gostaríamos que fosse. Agindo assim, transformam o banal e o patético naturais do cotidiano em eventos decisivos para a História da Humanidade – mesmo que seja algo tão prosaico quanto uma unha encravada ou um passeio por Dublin.

No passado distante, cada rei ou imperador que se prezasse possuía, entre os membros mais importantes do seu “entourage”, um escriba, o homem ou mulher oficialmente designado para ver a realidade do reino e transmutá-la em algo épico. Muitas das descrições espetaculares de batalhas que chegaram até nós são resultado da criatividade exagerada de escribas, que viam centenas de milhares de inimigos onde existia um punhado, ou que enxergavam dificuldades extremas em obstáculos mínimos. A História da Arte é fecunda de artistas financiados pelos detentores do poder, precisando ceder o seu talento de vez em quando para retratá-los, desde que, nas horas vagas, pudessem se entregar aos seus devaneios artísticos particulares.

Se algum dia você desejar que algo fique realmente bonito, com as necessárias doses épicas ou tragicômicas, o ideal é chamar um artista. Eles são capazes de tirar ouro da mais ingrata pedra, procurando sempre uma maneira de fazer com que o rotineiro acabe se tornando transcendental.

Isso acontece com qualquer fato do nosso cotidiano, como, por exemplo, um funeral. Não existe nada mais enfadonho e repleto de clichês do que morrer: todos nós chegaremos a tão lamentável obviedade em algum momento. Talvez por isso, todos os funerais – assim como os casamentos e os batizados – são semelhantes entre si. Quem esteve em um, esteve em todos. Portanto, quando um artista mostra um funeral, ele precisa fazer algo que, ao mesmo tempo em que guarde semelhança com o presenciado, também encontre repercussões em outros eventos semelhantes.

No quadro de Edvard Munch, “Morte no quarto da doente” (1896), o único elemento faltante na composição é justamente o corpo sem vida. O pintor norueguês preferiu se concentrar nas pessoas. Todos os rostos aparecem com as feições desvanecidas, com exceção de uma mulher, que encara de forma fixa o espectador da sua desgraça, como se estivesse desafiando o seu voyeurismo mórbido. Ou uma crítica à obsessão do próprio artista em flagrar aquele momento íntimo de dor da família, pois a cena no quarto revela a consternação gerada após a morte da irmã de Munch. Afinal, enquanto todos se lamuriavam, o artista estava em um canto do quarto esboçando a sua obra, seja em papel, seja em um esboço mental.

"Morte no quarto da doente" (1896), Edvard Munch

“Morte no quarto da doente” (1896), Edvard Munch

Alguns poderiam dizer que é uma maneira de lidar com a dor, uma fórmula escapista de atenuar o impacto da notícia, mas muitos considerariam a conduta de Edvard Munch como fria e desalmada: esperar a morte da sua irmã para desenhar a cena e todos os seus detalhes. Revelar a intimidade dolorosa da família e torná-la um objeto de fruição estético. Contudo, observando-se o quadro, percebemos que não é somente a morte da irmã de Munch que está nele, mas o jeito perdido com que cada família se comporta quando um ente querido morre. O artista tinha em mente algo muito maior do que a sua irmã, mas, como explicar isso para os outros sem soar insensível?

Três anos antes, Munch já flertara com o tema. Em “Ao lado do leito de morte (Febre)” (1893), o pintor colocou a mulher morta de costas para a cena, concentrando-se novamente nas pessoas que acompanhavam a cena e as suas reações. Todos estão rezando, imersos na dor, com exceção de uma figura feminina, cujos olhos fixam-se – com censura e curiosidade – nos eventuais espectadores da obra. É um olhar hipnótico, e sempre imaginei esta mulher anônima como a própria Morte encarnada, olhando o espectador do quarto como quem diz “um dia tu estarás morrendo e eu também estarei aqui, curioso de uma figa”. Mas é só a minha interpretação deturpada, que, em geral, reinterpreta as pinturas ou como representações imagéticas da vida e da morte ou como construções auto-referenciais da arte, ou seja, nada muito preocupante – dependendo do ângulo.

"Ao lado do leito de morte (Febre)", Edvard Munch

“Ao lado do leito de morte (Febre)”, Edvard Munch

Gustave Courbet também pintou um enterro, e fez questão de representar o trivial, mas com a pretensão de passar uma ideia muito maior do que a imagem. Em “Enterro em Ornans” (1849), chama atenção a quantidade de pessoas presentes ao enterro. Elas estão divididas em três blocos: homens, mulheres e membros do clero.

Contudo, o detalhe mais interessante está diante da tumba recém-aberta: o crânio perdido, um pouco deslocado do sentido da cena. Existem duas explicações possíveis, e ambas são fascinantes. O crânio poderia ser uma referência ao texto da Bíblia, o qual afirma que, assim que Cristo expirou, a terra se abriu e o crânio de Adão reapareceu. Outra possibilidade é que o crânio remeta à cena do cemitério em “Hamlet”, de Shakespeare. Um crânio em uma pintura nunca é somente um crânio, precisa representar algo.

Existem evidências históricas de que, nesta pintura, Courbet inspirou-se no enterro de um tio seu, usando-o como molde imaginário. No entanto, quando perguntado sobre o sentido do quadro, o pintor francês misteriosamente respondeu que ele representava a morte do Romantismo, uma análise muito legal de se pensar a respeito e que, infelizmente, não tenho espaço para fazer aqui. Assim como um crânio nunca é somente um crânio, uma pintura nunca representa somente aquilo que os olhos podem ver, ela está imbuída de ideias que escapam dos sentidos mais básicos e afundam-se no pântano das ideias do seu autor.

"Enterro em Ornans", Gustave Courbet

“Enterro em Ornans”, Gustave Courbet

A literatura também possui descrições de funerais que aconteceram mesmo e, em quase todas elas, mais do que a realidade chata do evento, existe uma maneira ficcional de ver o tema. O russo Nikolai Leskov, no conto “A propósito de A Sonata a Kreutzer”, realiza uma ousada autoficção – antes que os escritores brasileiros a inventassem – e narra o enterro de ninguém menos do que Dostoiévski:

“Sepultavam Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski. O dia era inóspito e sombrio. Eu não me sentia bem, e com grande esforço acompanhei o caixão até os portões do Mosteiro Niévski. Ali comprimia-se uma multidão. Em meio ao aperto, ouviam-se gemidos e gritos. O dramaturgo Aviérkiev erguera-se acima da multidão e gritava algo. A sua voz soava forte, mas não era possível distinguir as palavras. Alguns diziam que ele impunha ordem e o elogiavam por isso, enquanto outros se irritavam. Sobrei entre os que não foram admitidos no interior dos muros e, não vendo razão para continuar ali, à distância, voltei para casa, bebi um chá quente e adormeci. Por causa do frio e das diversas impressões, sentia-me muito cansado, e dormi tão pesada e longamente que não me levantei para o almoço. E almoço nesse dia nem cheguei a provar, pois, às muitas impressões, ainda veio juntar-se, inesperadamente, uma outra, nova e muito perturbadora para mim.”

O mais interessante neste conto é que não possui nenhuma função narrativa a descrição do enterro de Dostoiévski. A história não possui relação com este escritor, e sim com outro: Liev Tolstói, o autor original de “A Sonata a Kreutzer”. Nikolai Leskov parte do enterro de um portento literário, insere a si mesmo como personagem e, em seguida, desconstrói o conto de outra sumidade da Literatura mundial, invertendo a história original e encontrando novas nuances nela. Assim, no curtíssimo espaço de um conto, coexistem três escritores russos (Doistoiévski, Leskov e Tolstói) com três funções diferentes: Dostoiévski como parte da descrição do dia, Leskov como personagem e narrador e Tolstói como autor da história original que está sendo reescrita. Se isso não é ser genial, não sei o que pode ser.

Nikolai Leskov

Nikolai Leskov

Dentro do conto, Nikolai Leskov usa o enterro de Dostoiévski como uma maneira de marcar presença neste momento histórico. Poderia ter sido o enterro de qualquer pessoa, mas Leskov fez questão de narrar literariamente os fatos ocorridos após a morte de Dostoiévski. Ele poderia ter começado a história no segundo parágrafo, quando aparece a mulher que vai atrapalhar a sua paz doméstica, mas preferiu mostrar, com uma boa dose do mesmo voyeurismo mórbido já mostrado por Munch, que ele esteve, sim, no enterro do grande escritor russo.

Entre as descrições de enterros feitas por escritores, nenhuma bate a narrativa que Emile Zola fez a respeito do enterro de Gustave Flaubert. É hilária. A intenção de Zola era ser completamente realista, registrando para a posteridade o momento, mas ficou tão indignado com a triste realidade que não conseguiu manter a sua isenção até o final da narrativa. A ampla descrição dos fatos ocorridos naquele dia triste, ao invés de homenagear a memória de Flaubert, acaba se tornando de uma comicidade ímpar, mostrando que o mundo real – quando retratado com muita exatidão – acaba se tornando patético, para não dizer lamentável.

Logo no início do texto, Zola relata que estava na sua casa de campo em Médan quando chegou a correspondência:

“No campo, cada vez que recebo a correspondência, experimento um aperto no coração, com medo de más notícias. Entretanto, fiz uma brincadeira: minha família estava lá, e disse rindo que a correspondência não iria de modo algum nos impedir de jantar. E, aberto o papel, li essas duas palavras: ‘Flaubert morto’. Era Maupassant que me telegrafava essas duas palavras, sem explicações. Uma pancada no crânio.”

Minha cabeça sempre se perde em divagações quando faz a seguinte sequência: Emile Zola recebendo um telegrama de Guy de Maupassant sobre a morte de Gustave Flaubert. É um dos maiores acúmulos de talento literário por frase que teremos o prazer de imaginar hoje.

Zola prossegue, descrevendo a sua reação chocada diante da morte do amigo. Começa contando a sua viagem de trem até Rouen, onde acontecerá o enterro, e faz uma descrição ensolarada e compungida do dia: “uma manhã irradiante, de longas flechas de ouro que perfuravam as folhagens repletas de tagarelice de pássaros, eflúvios frescos que emanavam do Sena e passavam como calafrios no calor. Senti lágrimas subirem aos meus olhos quando me vi só, nessa campanha sorridente, com o pequeno ruído de meus passos sobre os seixos da estrada. Pensei nele, dizia-me que tinha acabado, que ele não veria mais o sol.”

Emile Zola

Emile Zola

A seguir, Zola descreve de forma fidedigna os caminhos e estradas que pegou na região de Rouen, até o momento em que se deparou com o cortejo fúnebre de Flaubert vindo na sua direção. Entremeando com descrições do cenário e suas considerações pessoais, o escritor revela toda a dor – um tanto exagerada – que sofre pela morte do amigo. Zola chega a falar das impressões fúnebres que lhe causou uma vaca:

“Num prado, à beira do caminho, uma vaca aturdida estendia seu focinho por cima de uma sebe; quando o corpo passou, pôs-se a mugir, e esses mugidos suaves e prolongados, no silêncio, no tropel dos cavalos e do cortejo, pareciam como a voz longínqua, como o suspiro dessa campanha eu o grande morto tinha amado. Sempre ouvirei essa lamúria de animal.”

Enquanto Zola descreve toda a paisagem em lamuriosos parágrafos, Maupassant para ao seu lado no cortejo e lhe conta detalhes dantescos sobre a morte de Flaubert. Quem diria que Guy de Maupassant seria uma daquelas pessoas que vão a funerais e narra, com minúcias horripilantes, o jeito que o corpo estava quando fora encontrado e o que Flaubert devia ter sentido no momento final, chegando ao ponto de relatar que o seu rosto inteiro estava negro graças à apoplexia, formando um colar ao redor do pescoço como se tivesse sido estrangulado. Zola comenta logo após tal descrição: “Uma bela morte, golpe de maça invejável, e que me fez desejar para mim e para todos aqueles que amo esse aniquilamento de inseto esmagado sob um dedo gigante.” Definitivamente, um comentário nada apropriado.

Não poderei contar todas as minúcias do enterro de Flaubert, pois a descrição é longa. Nos parágrafos seguintes, Zola irá contar os acontecimentos da cerimônia religiosa, manifestando a sua irritação com o coro desafinado (“Um jovem, certamente o filho mais velho de um vizinho, tinha uma voz aguda, dilacerante, semelhante ao grito de um animal que se degola”), com o latim pronunciado de forma errada, com as palavras insensíveis e automáticas que eram proferidas (“por esse grande homem que as pessoas enterravam em sua rotina, proferindo sobre seu caixão as mesmas notas desafinadas e as mesmas frases que teriam proferido sobre o túmulo de um imbecil”), com o baixo público no evento (“o que é inexplicável, o que é imperdoável, é que Rouen inteira não tivesse acompanhado o corpo de um dos seus filhos mais ilustres”).

Gustave Flaubert

Gustave Flaubert

É possível ver que Emile Zola, acaso tivesse vivo hoje, seria um feroz adepto dos “textões” no Facebook. Ele persiste a expor a sua inconformidade com a forma indigna com que Gustave Flaubert é tratado pela igreja, pela sociedade e até pelo exército (menciona soldados cansados disparando salvas para o ar, sem pensar em quem estavam saudando). No entanto, o apogeu da sua raiva acontece em uma cena que conseguimos imaginar com perfeição e, de tão engraçada, deveria estar em uma comédia pastelão:

“E, então, ocorreu um fato que transtornou a nós todos. Quando desciam o caixão ao jazigo, esse caixão muito grande, de gigante, não pôde entrar. Durante vários minutos, os coveiros, comandados por um homem magro, de grande chapéu negro, uma figura saída de ‘Han d’Islândia’, trabalharam arduamente; mas o caixão, de cabeça para baixo, não queria nem subir, nem descer mais, e ouvíamos as cordas rangerem e a madeira estalar. Era atroz; a sobrinha que Flaubert tanto amou soluçava à beira do jazigo. Enfim, vozes murmuraram: ‘basta, basta, esperem, mais tarde’. Partimos, abandonando lá nosso ‘velho’, que entrou enviesado na terra. Meu coração explodia.”

Não resta dúvida de que a realidade é muito mais espantosa e surpreendente quando um artista a observa. As verdades acabam sendo desmascaradas e, assim como hoje vemos a  consternação da família de Munch, as representações simbólicas no enterro mostrado por Courbet, a descrição sombria do enterro de Dostoiévski feita de forma desnecessária em um conto de Leskov e rimos das inconformidades de Zola com relação às indignidades sofridas pelo corpo de Flaubert, podemos encontrar momentos que já vivenciamos dentro das descrições feitas por outros. Pois esta é a triste realidade, a única que não pode ser ocultada: artistas ou não, passamos todos pelos mesmos dramas. A diferença é como os enxergamos.

 

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/quando-artistas-v%C3%A3o-a-enterros-78b05ac92c9c#.bigmmu8n5

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Arquivado em Arte, Émile Zola, Dublinense, Edvard Munch, Enterros, Generalidades, Gustave Courbet, Gustave Flaubert, Guy de Maupassant, Literatura, Nikolai Leskov

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