Passeando com a sombra de Walt Whitman

Tem acontecido com frequência, e não cansa de me perturbar: a sensação de estar em um lugar, ou passar por uma situação, ou escutar alguém falando, e pensar “eu já vi isto acontecer, eu já escutei esta frase, eu já estive aqui”. No meu íntimo, sei que não vivenciei aquilo, mas a sensação é tão vívida que levo algumas horas para entender o que aconteceu.

Um dos males de ser uma criatura intertextual é que as leituras aderiram à minha personalidade de tal forma que não consigo mais saber onde está a experiência vivida e aquela imaginada. Não sei mais onde termina o homem e começa o livro, e é uma sensação desconcertante. Nos últimos tempos, comecei a me policiar para não fazer tantas referências literárias no interior das conversas; minha voz estava se tornando um mosaico de frases de livros e de pensamentos de autores.

Diante da minha confusão interna, não foi espantoso estar hoje caminhando na Redenção e ter percebido, com um susto, que já vivera este dia.

A sensação de estar repetindo um dia já vivido me acompanhou durante toda a minha jornada. Eu já tinha visto aquela fumaça que saía do meu corpo quente em contato com o ar enregelante. Já pensara sobre o funcionamento dos meus pulmões, bombeando ar para dentro do corpo enquanto o sangue corria em rios generosos. Já percebera a sombra das árvores e a dança das luzes, inclusive escrevera a respeito delas. Mais do que tudo, pensava na atmosfera, na sua ausência de gosto, na sua indiferença gritante às poucas pessoas que caminhavam pelo parque em horário tão adiantado.

Tive certeza de que já escrevera este texto. Só podia ser, ele estava impresso na memória.

Levei uma parte da manhã para descobrir que não tinha sido eu quem descrevera o meu passeio pela Redenção. Na realidade, foi o Walt Whitman quem fez tal descrição, quase 130 anos atrás do dia de hoje acontecer.

Está lá, em “Flores da relva”, um dos melhores livros já escritos. A segunda parte do poema “Canção de mim mesmo” descreve o meu passeio matinal de hoje da forma exata com que eu lembrava tê-lo escrito:

Casas e cômodos cheios de perfumes, prateleiras apinhadas de perfumes,
Eu mesmo respiro a fragrância, a reconheço e com ela me deleito,
A essência bem poderia inebriar-me, mas não permitirei.

A atmosfera não é um perfume, mas tem o gosto da essência, não tem odor,
Existe para a minha boca, eternamente; estou por ela apaixonado
Irei até a colina próxima da floresta, despir-me-ei de meu disfarce e ficarei nu,
Estou louco para que ela entre em contato comigo.

A fumaça da minha própria respiração,
Ecos, sussurros, murmúrios vagos, amor de raiz, fio de seda, forquilha e vinha,
Minha expiração e inspiração, a batida do meu coração, a passagem de sangue e de ar através de meus pulmões,
O odor das folhas verdes e de folhas ressecadas, da praia e das pedras escuras do mar, e de palha no celeiro,
O som das palavras expelidas de minha voz aos redemoinhos do vento,

Alguns beijos leves, alguns abraços, o envolvimento de um abraço,
A dança da luz e a sombra nas árvores, à medida que se agitam os ramos flexíveis,
O deleite na solidão ou na correria das ruas, ou nos campos e colinas,
O sentimento de saúde, o gorjeio do meio-dia, a canção de mim mesmo erguendo-se da cama e encontrando o sol.

Achaste que mil acres são demais? Achaste a terra grande demais?
Praticaste tanto para aprender a ler?
Sentiste tanto orgulho por entenderes o sentido dos poemas?

Fica esta noite e este dia comigo e será tua a origem de todos os poemas,
Será teu o bem da terra e do sol (há milhões de sóis para encontrar),
Não possuíras coisa alguma de segunda ou de terceira mão, nem enxergarás através do olhos de quem já morreu, nem te alimentarás outra vez dos fantasmas que há nos livros.
Do mesmo modo não verás mais através de meus olhos, nem tampouco receberás coisa alguma de mim,
Ouvirás o que vem de todos os lados e saberás filtrar tudo por ti mesmo.

Walt Whitman

Walt Whitman

Lendo o poema, lembrei por que gosto tanto deste trecho em especial. É por causa de dois versos que, no meu entendimento, são o cerne da memória que retenho das palavras de Walt Whitman, o motivo delas me assombrarem dentro do cotidiano. O primeiro contém a explicação para o título, “O sentimento de saúde, o gorjeio do meio-dia, a canção de mim mesmo erguendo-se da cama e encontrando o sol.“: gosto de imaginar toda pessoa como uma declaração corporal e orgulhosa de uma canção, uma música que se ergue, espreguiçando-se, contra o sol nascente.

O segundo verso é “Fica esta noite e este dia comigo e será tua a origem de todos os poemas“, pois é uma bela declaração de amor: em troca de uma noite e um dia de companhia, o poeta promete que todos os poemas terão como ponto de origem uma única pessoa. É uma barganha justa, quase uma súplica, e um bocado piegas, mas eu gosto mesmo assim. Sempre digo que o escritor excelente não se faz nas dezenas de acertos, mas no momento em que erra e deixa o humano aparecer nos desvãos da sua névoa criativa.

Walt Whitman é um dos escritores mais universais que existe. Quase tudo que pensarmos, ele colocou de uma forma bonita dentro dos seus versos. Não espanta que Fernando Pessoa, no poema “Saudação a Walt Whitman” (uma maravilhosa homenagem), escreveu o seu amor e admiração, chamando-o de “seu irmão em Universo” e declarando “E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas, / De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma.”

Eis outro mal das criaturas intertextuais, como é o meu caso, o de Walt Whitman, o de Fernando Pessoa e o de tantos outros leitores que ultrapassaram o limite saudável de leituras em uma vida: nunca caminhamos sozinhos. Estamos sempre com dezenas de fantasmas andando ao lado. A literatura mora no ar.

1 comentário

Arquivado em Fernando Pessoa, Intertextualidade, Literatura, Temas de crítica literária, Walt Whitman

Uma resposta para “Passeando com a sombra de Walt Whitman

  1. Então… Só vou deixar registrado aqui que um dia eu passei uma madrugada inteira encostada numa parede devaneando sobre a última cena de “Um copo de cólera”, pois na minha frente tinha a cena cuspida e escarrada.

    E já perdi as contas de quantas vezes vejo algo e faço um link com cenas de obras de arte, livros, filmes… Já tentei me policiar, mas sabe, desisti. A vida é mais divertida quando temos intertextualidades!

    Grande abraço!

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