Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (07/06/2016): “Junho, o mês em que estamos em perigo”

Na minha coluna da outra semana no Medium da Dublinense, falei sobre a melancolia que só existe no mês de junho.

Mas não fui tão sombrio assim e também falei sobre assuntos alegres! Falei de um famoso verso de um poema de James Robert Lowell que poucos conhecem no Brasil, um verso sozinho que define junho; falei dos Fireside Poets, que escreveram poemas para serem lidos ao lado da lareira (que perigo!); falei das anotações deixadas por Baudelaire, que era um grande poeta e, apesar disso, um homem desprezível; falei de Maximo Gorki, que usava os junhos para se trancar no quarto e brigar com os personagens das suas tramas; falei de Marcel Proust, que escreveu um prefácio tão bom sobre seus hábitos de leitura que acabou virando livro, e falei que, apesar do clima lá fora nos empurrar para a melancolia, ainda assim junho é o melhor mês para mergulhar na introspecção.

Boa leitura!

Junho, o mês em que estamos em perigo

Junho é um mês interessante. Estamos oficialmente na metade do ano. Nem tão próximos do início ao ponto de pensar que dessa vez tudo vai ser diferente, nem tão perto do final, quando decidimos que, ora bolas, é melhor deixar os problemas para resolver no outro ano. Para piorar a estagnação, não temos feriados, não existem grandes comemorações (tanto que o comércio enxertou o Dia dos Namorados no meio para ter algum lucro) e não há sequer uma estação amistosa a nos esperar cada vez que saímos de casa. Pelo contrário, a indefinição da época do ano também se reflete no clima; as árvores não sabem direito se cedem ao inverno ou se abrem as portas para a primavera. O vento hesita entre nos acalentar ou nos fustigar. Junho não é um mês em que vivemos, mas um período do ano que precisamos ultrapassar.

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Não faz muito tempo, estava pesquisando textos sobre a relação entre religiosidade e o ciclo arturiano, e acabei me deparando com um trabalho de James Russell Lowell, poeta quase desconhecido no Brasil. Em “The vision of Sir Launfal”, Lowell descreve a jornada de Sir Launfal, que se aproximou do Santo Graal mais do que deveria – e acabou descobrindo-o mais próximo do que imaginava. É um poema extremamente descritivo, cheio de belas imagens; o poeta não se limita a contar como é o dia em que Sir Laufal teve a visão, mas tenta passar toda a glória dos sentidos para o leitor.

No prelúdio à primeira parte do poema, uma frase marcante: “And what is so rare as a day in June?” (em tradução livre, “e o que é tão raro quanto um dia em Junho?”). A estrofe que se segue a tal verso trata de descrever a glória de um simples e esquecido dia de junho, mencionando as flores, o murmúrio de vida que sai de todos os lados, o cheiro intoxicante da grama e das flores, as nuvens que servem de pórtico luminoso ao Paraíso, os pássaros que prosseguem no seu balé de vida e morte. No início da estrofe seguinte, Lowell sentencia: “Now is the high-tide of the year” (novamente em tradução minha, “agora é o momento culminante do ano”).

Quando li este verso, ele ficou na minha mente, e tenho lembrado dele com frequência. O que pode existir de tão raro e singular quanto um dia em junho, ou em qualquer mês, ou ano? Todos os dias são especiais, cada um do seu jeito. Vejo muitas pessoas reclamando do frio, do calor, da morte, da vida, dos crimes, da rotina, de janeiro, de junho, de dezembro, mas não conheço ninguém que se senta em um parque e simplesmente olha o dia acontecer, sabendo que tudo – os fatos bons e as circunstâncias ruins – fazem parte da mesma sensação.

James Russell Lowell foi escritor, poeta, crítico, satirista, diplomata e abolicionista. Como todo grande ser humano, não esperou o mundo mudar para se encaixar naquilo que achava ser correto, mas lutou para modificá-lo. Ele foi um dos integrantes do Fireside Poets, um grupo de poetas de New England que tentou trazer mais poesia para o povo, simplificando a métrica e a prosódia para serem lidos – como o próprio nome diz – ao lado da lareira, o leitor estando confortavelmente instalado em uma poltrona. Uma espécie de “comfort poetry”. Lowell não tentou acabar com a predileção do povo pelos poetas ingleses proibindo-os de ler aquilo que gostavam ou xingando os outros escritores, como se tornou um hábito no mundo segregacionista (e que se diz democrático) em que vivemos, mas resolveu enfrentá-los dentro do seu próprio território: a literatura. Sempre haverá espaço para quem realmente fizer um bom trabalho, e os Fireside Poets são um exemplo de que, melhor do que dar lição de comportamento ou escrever enfadonhos “textões” moralizantes para mudar a situação, o essencial mesmo é lutar a boa luta, trincheira a trincheira, usando as armas dos adversários contra eles mesmos.

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Um dia em junho pode ser tão raro e singular quanto um dia em janeiro ou dezembro, tudo depende de como iremos encará-lo. É uma simples ilusão do Tempo, fazer-nos crer que nada acontece em junho. Tudo está acontecendo, mas não estamos observando. O ideal é que sejamos mais como Charles Baudelaire. Quando morreu, o poeta francês, autor de “As flores do mal”, deixou uma série de observações e papéis escritos sobre a sua desordenada mesa. O conjunto delas deu forma a um livro, que recebeu no Brasil o título de “Meu coração desnudado”.

Entre as inúmeras anotações de Baudelaire, algumas ofensivas e outras de uma profundidade filosófica que parte dos seus poemas carecia, encontra-se essa frase, que soa como um lembrete: “Descobrir o frenesi cotidiano” (“trouver la frénésie journalière”). Em todos os lugares do mundo, o dia está sempre transcorrendo de forma frenética, e é por estarmos concentrados em nós mesmos que deixamos de ver as maravilhas ao redor. É dever do artista encontrar o frenesi cotidiano e se embebedar das incertezas diárias. Ver um sentido tão intrincado quanto lógico em uma trilha de formigas e, ao mesmo tempo, perceber as nuances de um canto de pássaro em meio ao ruído rasgante de pneus esfregando o asfalto. Quem é capaz de distinguir a beleza selvagem – e o frenesi – de cada dia é capaz de perceber que junho, um mês que passa batido pelos calendários, possui a sua própria beleza: estar no entrelugar do tempo, na pausa para o ano respirar.

Junho também era o mês que Maximo Gorki considerava ideal para escrever. O tempo não estava nem frio em demasia e nem quente para distrações e, assim, o autor russo podia aproveitar longas horas de solidão permanecendo em casa e dedicando-se a esculpir personagens. Não era um procedimento fácil; junho esmurrava as portas tentando entrar no quarto de Gorki com sua promessa de vida fora do casulo, enquanto que o escritor estava sendo torturado pela própria imaginação:

“Com frequência sentia-me como se estivesse bêbado e tinha rompantes de loquacidade, uma espécie de libertinagem oral, resultante do meu desejo de falar de tudo o que me entristecia ou alegrava; desejava libertar-me disso, falando. Tinha momentos de torturante tensão, nos quais sentia um nó na garganta, como uma mulher histérica. Queria dizer aos gritos que Anatoli, o vidreiro, meu amigo, um rapaz sumamente talentoso, pereceria se ninguém o ajudasse; que Teresa, a prostituta, era uma boa mulher e que era injusto que fosse uma rameira e que os estudantes que a usavam não entendiam que Matitsa, a anciã mendiga, era mais inteligente que Yakóvlena, nossa jovem e livresca parteira. […] escrevi que o Volga era um rio formoso, que Kuzin, o fabricante de cerveja, era um Judas Iscariotes e que a vida era um assunto porco e penoso que matava a alma.”

É possível que somente junho seja capaz de proporcionar a melancolia essencial para o recolhimento e, por conseguinte, para a apreciação artística. Sentimo-nos mais fechados, na expectativa do que poderá acontecer no restante do ano que agora se aproxima, inexorável como um trem sem freios.

Gorki considera o melhor mês para escrever por que podia se isolar não tanto dos outros, mas de si mesmo, e fazer de conta que o mundo tinha parado por alguns dias, o que me faz lembrar uma bela frase de Stendhal: “Os homens só escrevem quando Deus não está vendo”. Talvez junho seja o mês em que Deus tira uma soneca e os homens ficam à solta no mundo.

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Ao contrário de Gorki, para Marcel Proust, junho era o mês ideal para ler. O mesmo pensamento introspectivo liga extremos tão díspares quanto Maximo Gorki e Marcel Proust: junho é um mês de entressafra, de se recolher para dentro, seja escrevendo, seja lendo. Em 1905, Proust traduziu “Sésame et les Lys”, de John Ruskin, e escreveu um Prefácio para a obra. O editor francês decidiu excluí-lo do livro e publicar em uma obra autônoma, escrevendo a seguinte observação: “Essas páginas ultrapassam tanto a obra que lhe pretende introduzir, propõem um elogio tão belo da leitura e preparam com tanta felicidade Em Busca do Tempo Perdido que quisemos, livrando-nos de sua condição de Prefácio, publicá-las na sua plenitude.”

O editor tinha razão. O pequeno texto de Proust, que recebeu o título de “Sobre a Leitura”, constitui algumas das mais belas páginas já escritas sobre a magia de ler. No seu início, Proust anuncia “Talvez não haja na nossa infância dias que tenhamos vivido tão plenamente como aqueles que pensamos ter deixado passar sem vivê-los, aqueles que passamos na companhia de um livro preferido.” Em seguida, o autor descreve os momentos de vida extrema que passou lendo e das agruras de um leitor ansioso para chegar ao término da história, mas tendo que lidar com convites para brincar no sol, com abelhas inoportunas que pousam nas folhas do livro, com as perguntas intrometidas e curiosas dos criados, com o jantar que devia ser aproveitado antes que pudesse retornar para o conforto da leitura.

Ao mesmo tempo em que saúda a leitura como a única chave mágica capaz de abrir as portas de moradas que não poderíamos normalmente entrar, Proust alerta que ela se torna perigosa quando, ao invés de nos despertar para a vida pessoal do espírito, tenta substituí-la, fazendo com que o leitor acredite que a única verdade concebível é aquela que está “depositada entre as folhas dos livros como um mel todo preparado pelos outros e que não temos senão de fazer o pequeno esforço para pegar nas prateleiras das bibliotecas e, em seguida, degustar passivamente num repouso perfeito do corpo e do espírito.” Ler demais também é perigoso, como Proust alerta, pois nos deixa acomodados e preguiçosos, achando que a única realidade possível está na imaginação. Por conseguinte, junho, com a sua junção de temperatura ideal e liberdade dos deveres sociais, também é o mês em que mais podemos ficar alienados do resto da realidade objetiva expressa por este mundo grosseiro que insiste em nos atropelar quando estamos querendo uma distração. Não é à toa que, entre os seus comentários, Marcel Proust tanto considera junho como o mês perfeito para ler quanto pensa que é o momento mais tenso do ano, o instante em que podemos nos sentir destacados do restante da Humanidade.

Quando nada acontece, qualquer fato novo pode ser uma surpresa. Junho é um mês discreto e silencioso. Seus trinta dias se arrastam com vagar, pretextando imobilidade. É um mês dedicado à introspecção, à caminhadas solitárias, à passeios noturnos sob nuvens plúmbeas, à leitura e à melancolia. Não é uma coincidência que, por uma trágica coincidência, seja o mês com o maior número de suicídios. Mergulhamos tão fundo no nosso espírito que, às vezes, podemos não voltar. Há de se ter cautela com os discretos e com os sóbrios e, da mesma forma, também devemos aproveitar o silêncio de junho para reencontrarmos um pouco de solidão, a necessária tristeza que irá destacar a alegria dos dias vindouros.

 

Texto originalmente publicado em https://medium.com/colecao-dublinense/junho-o-m%C3%AAs-em-que-estamos-em-perigo-da887d7b0dc4#.wshqyp4s0

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Arquivado em Charles Baudelaire, James Russell Lowell, Junho, Literatura, Marcel Proust, Máximo Górki, Melancolia

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