Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (24/05/2016): “De colete desabotoado e sem gravata”

Na minha coluna no Medium da Dublinense nessa semana, eu tentei explicar o motivo pelo qual estou permanentemente alienado do mundo ao redor. Não é uma conduta intencional, mas mera questão de tempo – e de sobrevivência da minha reflexão. Não consigo ler jornais e acompanhar programas de televisão quando os considero superficiais, mal redigidos e chatos. Portanto, prefiro dedicar meu tempo aos livros e à apreciação da arte. Além disso, o nível dos argumentos e ideias alheios é constrangedor. Melhor não me contaminar e ficar dentro da minha esfera de interesse.

Mas falei também das grandes lições de vida (e de literatura) que estou recebendo ao ler as cartas que Anton Tchekhov trocou com outros escritores.

Boa leitura!

 

De colete desabotoado e sem gravata

 

Acontece com relativa frequência, mais ou menos da mesma forma que ocorreu ontem. Alguém me perguntou, “viste o que aconteceu no Congresso?”, e se surpreendeu ao descobrir que eu não tinha a mínima ideia. Espantou-se ainda mais ao perceber o meu total desinteresse em saber o “algo importante” que acontecera no Congresso Nacional, e perguntou se estava me sentindo bem, estando tão alienado da realidade.

Admito que, nos últimos três anos, quase não tenho lido jornais, com exceção de alguns suplementos culturais. Também não assisto telejornais, novelas e nem mesmo partidas de futebol. Darwin tinha mais razão do que imaginava: a vida é uma eterna seleção natural, e estamos toda hora tomando decisões que podem ou não levar a uma evolução do pensamento. No meu caso, chegou um momento da vida em que precisei optar se priorizava a leitura das notícias do dia a dia (que são vastas e consomem um bocado de tempo) ou se leria todos os livros que sempre sonhei ler. Acabei optando pela segunda alternativa.

Em um momento inicial, as pessoas mais próximas preocuparam-se, achando que eu estava em processo de alienação do mundo. Elas possuíam uma dose de razão e, no princípio, foi complicado viver à margem da velocidade da informação. Contudo, com o passar dos meses, a situação se estabilizou. Os livros possuíam toda a informação desejada, era só encontrá-las. Escutava as notícias em algum destes desvãos do cotidiano (dentro de uma lotação, esperando em uma fila de banco, visitando alguém) e era o suficiente saber delas, sem necessitar maiores aprofundamentos feitos por uma pessoa desconhecida – em geral um repórter – dotado de pensamentos repletos de lugares comuns e platitudes. Era plenamente capaz de formar meu convencimento pessoal com base nos livros que lia. Não tenho vergonha alguma de admitir que, na última Copa do Mundo, estava distraído escrevendo enquanto as pessoas assistiam aos jogos, e só sabia dos resultados escutando eventuais foguetórios.

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Não julgo quem toma a decisão de passar o dia lendo jornais ou analisando programas de televisão, em especial noticiários. Percebo nelas certa abnegação, um sacrifício voluntário: “estou fazendo isso por que alguém precisa fazer o trabalho sujo de separar o joio do trigo, desvincular a manipulação da verdade”. São como Ifigênias, inocentes sacrificados pela boa sorte do exército grego na guerra contra os malvados troianos – apesar de ninguém saber informar muito bem que é o Grande Inimigo da Ordem Mundial, ou seja, estamos numa guerra eterna contra alguém que sequer sabemos quem é. Inclusive imagino que, um dia, terão seus nomes listados em algum monumento de honra à pátria. É algo respeitável, apesar de eu não possuir tamanha vocação ao auto-sacrifício.

São escolhas que as pessoas tomaram com base naquilo que lhes importava, e quem sou eu para dizer se estou mais certo ou errado do que outro indivíduo? O fato da realidade mesquinha do cotidiano ser desinteressante para mim não me força a convencer outras pessoas a largarem de mão as notícias. Façam bom proveito delas, aliás. Seria interessante que não me julgassem, mas daí já é pedir demais. Estamos sobre constante julgamento, e nem Kafka imaginou tal probabilidade – o mundo não como um processo movido por motivos desconhecidos, mas como um julgamento eterno no qual todos são juízes, jurados e executores.

Na condição de alguém voluntariamente semi-excluído do mundo, um Pária do Universo nos moldes do Wakefield descrito por Nathaniel Hawthorne, posso dizer que tudo parece muito previsível. A cada semana um escândalo, em geral protagonizado por atores cujos nomes mudam, mas não o modus operandi. As mesmas questões irrespondíveis tentando ser respondidas com pensamentos eivados de clichês. Pessoas que analisam a situação por um prisma e acham-no ser o único correto. As mesmas velhas piadas, os mesmos jargões cansativos, a mesma bola entrando em redes idênticas. Se o preço de ficar dentro da sociedade da informação seja receber milhares de informações irrelevantes ou repetidas, quase não compensa. A literatura – e, por extensão, as artes – parecem muito mais vibrantes e questionadoras.

No momento, encontro-me entretido com a correspondência deixada por Anton Tchekhov. Quanto mais leio, mais me convenço de que ele nunca esteve falando de literatura, e sim sobre a vida. Vejo mais originalidade e utilidade em cartas de um escritor russo antigo do que em boa parte das manchetes dos jornais que se encontram nas bancas. As observações dele, longe de se limitarem à vida na Rússia do século XIX, podem ser aplicadas no nosso dia a dia.

Tinha noção de que Tchekhov era um dos maiores contistas que o mundo já teve, mas não imaginava que ele possuía o hábito de receber obras de outros escritores, lê-las e mandar comentários individuais com dicas, críticas (algumas corrosivas) e elogios.  Muitos conselhos que Tchekhov dá para escritores  são lições que podem ser aplicadas para suavizar as agruras da rotina diária a que as informações abusivas nos submetem.

Por exemplo, uma carta enviada para Dmitri Grigorovitch em outubro de 1888: “Ainda não tenho do mundo uma concepção política, religiosa e filosófica; mudo-a todo mês, e por isso devo limitar-me somente à descrição de como os meus protagonistas amam, casam-se, procriam, morrem e de como falam”. Na época da carta, Tchekhov tinha 28 anos e, distante de arroubos juvenis , de uma prosa panfletária ou da certeza de saber as respostas para todos os problemas humanos, não estava preparado para ter uma opinião única nos seus escritos. Preferia descrever a cena e deixar seus pensamentos vacilantes, permitindo-se mudar de ideia à medida que evoluía a sua reflexão. Para o nosso mundo, um lugar tão repleto de certezas que passa a impressão de que todos nasceram com o pensamento já indelevelmente formado, a humildade de admitir que não ter certeza de nada é um importante aprendizado.

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Anton Tchekhov

Em um caderno de anotações deixado pelo escritor, um rompante: “Não me permita Deus julgar ou falar aquilo que não sei e não entendo!” Eis um conselho que Tchekhov dá para si mesmo, e é outra decisão sábia, em especial nos dias atuais, quando as pessoas parecem dominar todos os assuntos, desde táticas futebolísticas até a microdinâmica das relações do Oriente Médio. O pior nem é opinarem sobre o assunto, mas julgar os outros com base nas suas próprias visões de mundo. Não existe maneira de um julgamento ser justo quando não entendemos muito bem a outra pessoa e, para entender o outro, é necessário não só ouvi-lo, mas reconhecer o mundo através dos seus olhos.

Não é segredo para ninguém o quanto narrativas açucaradas tornaram-se quase uma obrigatoriedade em algumas notícias. Há um consenso de que, se for contada uma história comovente, o leitor ficará mais identificado com ela. No entanto, percebo o resultado contrário: quanto mais tentam fazer chorar, mais ridículo fica. Quem lança mão de tal estratagema para transmitir uma história qualquer é a típica pessoa que, ao ler um livro e se comover, achou que o escritor estava agindo com tal objetivo quando, na verdade, o escritor bom mesmo é aquele que deixa a história comover por si mesma.

Em carta mandada para Lídia Avílova em março de 1893, Tchekhov afirma “Você vem fazendo grandes progressos, mas permita-me repetir-lhe um conselho: escreva com mais frieza. Quanto mais a situação é sentimental, tanto mais frieza é necessária para escrever, e o resultado é mais sentimental. Não convém açucarar.” É uma lição válida para tudo na vida. Quanto maior a frieza na nossa análise do fato, quando maior a distância, menor a chance de deixarmos a emoção contaminar a verdade e distorcê-la. Pessoas passionais não tomam decisões corretas. Elas acabam cometendo erros, os quais, não raro, são irreparáveis.

A lição de Tchekhov para descrever mulheres e a natureza é engraçadíssima: “As mulheres devem ser descritas de modo a fazer com que o leitor sinta que você está de colete desabotoado e sem gravata; o mesmo se aplica à natureza. Conceda-se um pouco de liberdade”, ele diz para Aleksandr Lazariev em carta de 1888. Um leitor apressado pode imaginar que o contista russo prega o relaxamento na descrição de paisagens naturais e de mulheres, mas é o contrário: ele defende a liberdade, o direito de nos permitirmos algo. A única maneira de transmitir frescor e viço em uma narrativa é relaxando, e não contraindo. Não é uma boa forma também de vivermos uma relação, “de colete desabotoado e sem gravata”? Sem obrigações, sem exigências, sem cobranças?

Muitas outras lições saem das cartas de Anton Tchekhov, mas a mais decisiva é o credo que ele mesmo estabelece sobre o que é ser um bom artista e, por extensão, um bom ser humano. Em carta enviada em outubro de 1888 para Aleksei Plechtchéiev, o escritor afirma: “Não sou nem liberal, nem conservador, nem progressista, nem monge, nem indiferencista. Queria ser um artista livre, mais nada, e lamento Deus não ter me dado forças para isso. Detesto a mentira e a violência sob todos os aspectos […]. O farisaísmo, a estupidez e a arbitrariedade reinam não só nas casas dos comerciantes e nas cadeias; eu os vejo na ciência, na literatura, entre os jovens… Por isso, não nutro uma predileção especial nem pelos gendarmes, nem pelos açougueiros, nem pelos cientistas, nem pelos escritores, nem pelos jovens. Considero preconceitos marcas e rótulos. Meu santuário é o corpo humano, a saúde, a inteligência, o talento, a inspiração, o amor e a liberdade absoluta, a insubordinação à violência e à mentira, onde quer que essas duas últimas se manifestem. Aí está o programa que eu seguiria, se fosse um grande artista.”

Uma lição valiosa. Quem determina que precisamos ser algo fixo na vida? O ideal é libertarmos as nossas mentes de preconceitos, marcas e rótulos. Não precisamos gostar de ninguém, e muito menos odiar os outros. Quanto mais passo ao largo do império abusivo que é a necessidade quase imperativa de informação constante nos tempos atuais, mais percebo a liberdade do pensamento que decorre da minha própria apreensão da realidade, sempre através do filtro artístico.

A arte não dá informações, ela permite ressignificar o mundo e fazer as suas engrenagens terem algum sentido. Portanto, perdoem a minha relativa alienação das notícias. Apesar de não me sentir incluído nos vibrantes (?) assuntos que os meios de comunicação proporcionam em um bombardeio diário, estou me sentindo muito bem, com meu colete desabotoado e a gravata jogada ao léu.

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Arquivado em Anton Tchekóv, Dublinense, Generalidades, Informação, Literatura

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