Texto publicado no Literatortura (13/05/2016): “A última vez”

Na minha coluna dessa semana no Literatortura, tratei de como é importante nos concentrarmos no momento vivido ao invés de ficar tentando capturá-lo de qualquer forma. É algo que tenho observado: a quantidade de gente hipnotizada por aparelhos eletrônicos, incapazes de se concentrarem nas outras pessoas e de estabelecerem laços com os problemas humanos. Estou fazendo um movimento contrário, concentrando-me em mim e nas minhas vivências para manter o foco naquilo que realmente importa.

Boa leitura!

 

A última vez

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A vida é feita de uma sucessão incessante de atos e sensações que sentiremos sempre pela última vez. Ou, pelo menos, será a última vez até que aconteça de novo, mas, mesmo em tal eventualidade, nunca será igual à outra ocasião. Assim, estamos constantemente fazendo algo e nos despedindo daquilo que fizemos. O momento não vai voltar. Nunca voltará.

Hemingway afirmou que olhava cada experiência na sua rotina como se fosse a última vez, e estava certo. Encarar o mundo que nos cerca em uma atitude de eterna despedida é uma forma de valorizar o instante. Os artistas possuem a ilusão de segurar o segundo da inspiração através da arte. Podemos imaginar Rodin maravilhado vendo um beijo em um jardim e o transformando em mármore, assim como não é tão difícil pensar em Monet diante de um por do sol tremeluzente sobre as águas ainda tépidas de um oceano, pensando em como desejaria possuir para sempre o momento que se escapava entre seus dedos.

Em um de seus textos mais famosos, Barthes diz que a fotografia surgiu como uma forma de perpetuar o momentâneo e garantir que ele não mais fugisse. É o que vemos hoje, mas no seu extremo mais cruel: ao invés de viver a sensação e se embebedar dela, as pessoas parecem mais preocupadas em preservá-la para depois mostrar para os outros. É a espetacularização daquilo que não vivemos. Não faz muito tempo, em uma cortina lírica da OSPA – Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, chamou atenção uma senhora que, sentada ao meu lado, estava mais preocupada em gravar pequenos trechos dos cantores para colocar no Facebook, com frases como “Curtindo muito a OSPA!” ou “Adorando o concerto!”. É um paradoxo, pois o que ela menos estava fazendo era curtir ou assistir ao concerto. Podia dizer para os outros, mas estava somente de corpo ali, e não de alma. É provável que, ao retornar para casa, a senhora tenha se sentido vazia ou pensado que a cortina lírica foi ruim. Ela não estava vivendo o instante, preferia estar o gravando para recordar algo que sequer vivera.

Devemos recapturar a magia do momento que iremos perder. Trazer de volta a ideia um tanto angustiada de Hemingway: estou vivendo algo pela última vez. Seja um beijo ou um soco, seja um elogio ou uma ofensa, será a última vez que o fato acontecerá naquelas condições. Depois daquele dia, será um outro fato, e devemos aproveitar ao máximo o momento que estamos vivendo.

O mundo está cheio de eventos bonitos e horríveis, e todos acontecem ao nosso redor. Passamos ao largo deles, pois optamos por não olhar, por não nos concentrarmos no instante. Temos medo do que iremos perder se não estivermos sempre olhando para todos os lados – mesmo que o custo seja não ter foco em nenhum. Muitas pessoas reclamam dos celulares e de como eles distraem durante encontros, mas estamos cercados de distrações, desde a música que toca de fundo em um restaurante até a televisão solitária a grunhir incompreensões junto à parede. Existe uma grande falta de concentração naquilo que realmente importa. Somos uma sociedade cada vez mais distraída e superficial, com uma atenção dispersa em tantos elementos que ainda bem que a respiração é algo feito sem pensar, senão metade das pessoas já teriam morrido por esquecer de encher os pulmões de ar.

Não foram poucas as vezes em que saí com pessoas tão distraídas que não escutaram ou entenderam quase nada do que falei. Para não entrar na esparrela de pensar e regurgitar ideias alheias – deixe-me pensar e imaginar sozinho, mundo, não preciso das ideias prontas de vocês – e para me concentrar nas riquezas que moram na minha memória e que raramente revisito, tenho feito um exercício imaginário: pensar nas coisas que fiz pela última vez, naquilo que nunca se repetirá. Algumas eu não sabia que eram a última vez, e existem outras que eu talvez ainda volte a fazer, mas a graça de uma lista é também a sua instabilidade.

Foi assim, mediante um esforço da memória em conjunto com a recapturação quase obsessiva do momento já transcorrido, que redescobri alguns tesouros esquecidos no meu interior. Não pensem que pretendo viver no passado, pois nem todas as recordações são boas, mas gosto de tê-lo como um guia para valorizar o presente, para saber que posso estar perdendo algo precioso por simples desatenção.

Por exemplo: a última vez em que escutei uma leiteira, estava em Tiradentes, cidade de Minas Gerais. No hotel quase sem hóspedes, o assobio constante era o único som preenchendo aquela manhã de verão. Nos tempos atuais, todas as pessoas aquecem o leite em fornos de microondas, é raro usar leiteira. É provável, inclusive, que algumas pessoas nem saibam para que serve uma leiteira, estes anacrônicos objetos que possuíam como única função esquentar leite. Elas são instáveis, temperamentais, desorientadas: é necessário vigiá-las e interpretar os seus silvos para que o leite não se precipite e caia sobre o fogão. Hoje percebo que leiteiras não são uma forma de aquecer o leite, e sim um exercício de paciência.

A última vez em que li um livro realmente bom, aqueles capazes de se encaixarem com perfeição na minha visão de mundo e de literatura, foi “Crônicas marcianas”, do Ray Bradbury. Quando terminei, ergui-me da cadeira e passei um longo tempo caminhando de um lado para o outro na minha casa, as imagens e palavras reverberando de forma ensandecida na cabeça. Ao me deitar naquele dia, eu estava realizado, e até hoje busco sentir o mesmo em cada livro que leio.

A última vez em que um índio antigo, de olhos cor de catuaba, deu-me um cachimbo para tragar, dizendo que isto iria abrir a minha mente, eu fumei e não senti nada. Foi decepcionante. No entanto, não tem manhã que eu não abra os olhos e pense que, talvez, esteja sonhando toda essa minha vida – e todos vocês – dentro de um delírio de ervas, e que hoje, sim, irei despertar e vocês nunca terão existido, e a vida recomeçará de verdade a partir do momento em que traguei o cachimbo.

A última vez em que ganhei uma corrida, eu estava no colégio e meus oponentes estavam se recuperando de uma violenta gastroenterite sofrida por conta da ingestão de salada de maionese estragada. Ainda assim, foi uma corrida dura, decidida nos últimos 150 metros. Foi bom cruzar a linha de chegada em primeiro lugar. Também foi a única vez em que venci algo assim, e esta sensação – a de ocupar o lugar mais alto do pódio – ninguém pode me tirar.

A última vez em que escrevi uma carta de amor para uma moça, deu tudo errado, e eu nunca mais escrevi cartas de amor.

A última vez em que estive diante do mar, eu não imaginava que seria a última. Pretendia retornar no outro dia, mas choveu. Fiquei o tempo inteiro reclamando da quantidade de pessoas na beira do mar, do preço da água mineral e do milho verde, do barulho saído de um carro próximo, ao invés de pensar naquilo que era importante: o calor do sol, o resfolegar das ondas, os barcos – misto de nuvens com sonho – que tinham chegado às terras míticas que moram na linha do horizonte.

A última vez em que beijei uma mulher, eu também não sabia que, dentro do beijo, com um travo amargo de dor que remetia ao gosto do batom, morava o fim. Se soubesse, talvez o beijo teria sido diferente, mas a verdade é que todo beijo tem que ser encarado como o último – até o dia em que for.

A última vez em que tomei um porre, não lembro nada do que aconteceu. Mas meus amigos lembram, e aquilo que eles contam é tão insano que só pode ser verdade. Existe algum tipo de misericórdia no esquecimento.

A última vez em que eu escutei uma cachoeira, não escutei mais nada ao redor, e ter a noção de que a cachoeira tinha aquele mesmo som ensurdecedor por anos e anos a fio, que nenhuma voz ou grito de animal ou piar podia se altear diante dela sem ser possuído pelo seu estrépito e incorporado à sua essência raivosa, foi algo que me fez repensar muitas coisas sobre a minha vida.

A última vez em que eu tive medo, estava começando esse texto. Antes da primeira palavra, sempre existe medo; antes da segunda, um pouco menos. Cada palavra que escrevo é uma luta solitária contra o medo de não ser capaz de transmitir a ideia. Sempre terei medo. Nunca saberei se tive sucesso, e assim virão outros e mais outros textos.

A última vez em que tive um sonho feliz, eu era dono de uma biblioteca com todos os livros que sempre desejei ler. Acordei me sentindo indecentemente feliz e, agora, cada livro que compro ou ganho, fico mais e mais próximo da noção de felicidade completa experimentada só em sonho.

A última vez em que vi a minha avó, eu estava jantando. Ela beijou-me a testa e disse “Boa noite, nos falamos amanhã”. Isto nunca aconteceu. E eu queria que tivesse acontecido.

A última vez em que me senti completo, inteiro, único, eu estava em uma beira de estrada do Uruguai, sentado na beira da estrada com um grupo de trabalhadores do campo. Era um dia quente, e o nosso ônibus estava esperando a chegada de um guincho. Sentado naquele lugar perdido, com um grupo de desconhecidos, em determinado momento notei que estavam todos em silêncio. Percebi que o céu não tinha um azul só, mas muitos; que o verde dos campos suaves não era um verde único, mas algo de inesperada agressividade, que gritava a sua existência para o mundo; que as nuvens iam de um extremo ao outro da abóbada, e elas não eram uma linha, mas várias camadas, umas sobre as outras, em um canibalismo repleto de selvageria silenciosa. Um trabalhador ofereceu-me sua cuia para tomar um mate e eu aceitei. Tive inesperada noção de que aquilo ali – o estar sozinho no Uruguai, ao lado de homens que não mais veria, todos irmanados ao redor de um mate e cercados por aquela natureza cheia de cores que só existem no mundo real – nunca mais se repetiria. Ao mesmo tempo em que fiquei triste por ter tal noção, também soube que estava no lugar certo e na hora certa para vivê-la com intensidade.

Quando comecei este exercício, tinha o receio de me chatear pensando em tudo o que já aconteceu e não mais se repetiria. No entanto, um inesperado orgulho se apossou de mim. Hoje posso dizer que eu vivi. Não vivi tudo o que outros já viveram – aos 33 anos, Alexandre o Grande já tinha conquistado meio planeta -, mas as experiências que tive foram reais e engrandecedoras, até mesmo as ruins. Também tive a sorte de encontrar excelentes pessoas, que me ajudaram a ver muitas coisas boas e péssimas a meu próprio respeito. Descobri mais a meu respeito pensando naquilo que já passou ao invés de escutar as opiniões distorcidas dos outros. Não precisei tirar fotos do concerto e colocar no Facebook para saber que ele estava bom; eu estava vivendo o concerto por não saber – e no caso da OSPA é uma realidade – se ainda estarei vivo em uma próxima cortina lírica.

Talvez a grandiosidade da vida seja saber que estamos sempre vivendo o último momento de cada sensação, de cada medo, de cada alegria. Até o dia em que for mesmo o último. Contudo, até lá, muitas últimas vezes ainda irão nos esperar.

Texto originalmente publicado no link http://literatortura.com/2016/05/a-ultima-vez/

1 comentário

Arquivado em Irrepetibilidade, Literatortura, Momentos

Uma resposta para “Texto publicado no Literatortura (13/05/2016): “A última vez”

  1. Nossa, excelente post! Me fez refletir um monte de coisa também….

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