Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (10/05/2016): “Como sobreviver ao apogeu da era do clichê”

Na minha coluna no Medium da Dublinense dessa semana, falei de um dos maiores males da atualidade: a disseminação acelerada de clichês. As pessoas desaprenderam a pensar com as próprias palavras, e a imaginar livremente, e isto faz com que todo mundo fique repassando as mesmas ideias mastigadas.

Mas também falei das insuportáveis analogias entre a situação política vivenciada pelo Brasil atual com “House of Cards” e “Game of Thrones”; falei de Henfil e de dobermans pretos; falei de como manter a concentração; falei sobre Vermeer pintando os quadros na sua sala de estar e de Napoleão e Júlio César dormindo no meio das batalhas; contei a história de como Robert Louis Stevenson encontrou uma maneira de terminar “A ilha do tesouro” e falei de Ihara Saikaku, “o poeta dos 20 mil”, que escreveu 23.500 haicais no espaço de vida de uma mosca.

Boa leitura!

 

Como sobreviver ao apogeu da era do clichê

 

Uma das consequências mais nefastas do atual momento de instabilidade política que o Brasil atravessa é a proliferação indiscriminada de clichês. Eles nunca foram tão rápidos – e tão devastadores. Alguém tem uma ideia criativa, coloca no Twitter ou no Facebook e, minutos depois, o seu pensamento está correndo o mundo, sendo apropriado por outras pessoas não tão inovadoras, tendo imagens acrescentadas, até exaurir por completo a criatividade inicial. Estamos vivendo no apogeu da era do clichê: ele nunca esteve tão presente como nos tempos atuais.

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Não sei quem foi a primeira pessoa que comparou a situação política do Brasil aos seriados “House of Cards”, da NETFLIX, e “Game of Thrones”, da HBO. O fato é que, em algumas horas, tantas pessoas tinham feito a mesma ligação que, longe de ser algo engraçado, passou a ser um monumento à preguiça de pensar livremente. Pois isto é ser clichê: todos nós temos a capacidade de ser criativos, mas preferimos usar a ideia já gasta de outra para não precisarmos criar as nossas.

A propósito, eis outra magia dos clichês atuais: as pessoas normalmente criam referências e ideias novas com base em seriados de televisão, frases de programas de auditório e filmes do cinema. A literatura ocupa uma posição subalterna na formação dos novos clichês. Raros são os literários, e são tão intrincados que poucos são capazes de associá-los aos livros, pois não o leram. Na era da rapidez da informação, vivemos a velocidade até na hora de formular ideias gastas.

Alguns anos atrás, li um texto de Henfil com o qual tive identificação instantânea e recordo com certa frequência. A começar pelo seu título, “A inspiração é um cachorro preto, um doberman bem aí atrás de você”. Para mim, funciona exatamente dessa forma: a inspiração está sempre me caçando, em uma correria insana na qual tenta morder meus calcanhares, e escrevo sob a crescente pressão de outras histórias que persistem em tomar o lugar daquela que estou redigindo. Se parar de correr, a inspiração me engole, me mastiga e cospe longe, então só tenho a opção de não parar.

Henfil aborda assim a imagem que associou ao ato criativo: “Foi aí que eu intuí para eles que há duas formas de você criar. Uma delas é que você só cria com um cachorro preto atrás. O que significa o cachorro preto? É a urgência, é a necessidade concreta, o prazo estourando. É aquele negócio assim. Você está doente, com o joelho arrebentado, mas vem um cachorro preto, um doberman atrás de você. E aí você corre e, se preciso, até pula n’água sem saber nadar. Se for para subir num poste, você sobe. A urgência, a necessidade, é a mãe da criação. Isso tem a ver com uma frase do técnico de futebol Gentil Cardoso aos seus jogadores: ‘eu quero que vocês vão na bola como num prato de comida’. A necessidade é um negócio essencial Eu fiz alguns exercícios em relação a isso. Eu pegava, de repente, e dizia: vamos desenhar agora, tem dois minutos para acabar. Então, as coisas saíam e eles até se assustavam. Mas, claro que saíam: eu soltava o cachorro preto!”

O “doberman” não precisa ser um prazo estourando ou uma situação urgente. A própria criação possui métodos de nos pressionar para que venha à tona. A obra artística é uma necessidade por si só, não uma possibilidade. Quando o artista se expressa, ele cria um prazo particular e um tempo todo seu. A necessidade da obra de arte não segue os ditames humanos e, assim, o artista se esquece de comer, de dormir, de descansar, envolvido por uma pressão que só acabará quando colocar o último ponto na obra. Não deixa de ser uma pena que as pessoas não se comportem assim, com essa noção inata de necessidade, para os fatos da sua vida, que ficam rolando de um lado para o outro sem serem resolvidos de vez.

Vejo muita gente reclamando de bloqueios criativos, seja para escrever livros, seja para redigir teses, dissertações, ensaios, trabalhos acadêmicos. Para todos, a minha resposta é sempre a mesma: um bloqueio criativo só existe se você acreditar nele. Se tratarmos o texto como algo que deve ser conquistado a cada vez que escrevemos uma página, não temos tempo para nos dar ao luxo de vermos o bloqueio. A única alternativa é seguir em frente.

Existe uma noção romântica de que os textos surgem como uma espécie de carícia dada pelo autor na página, um enlevo espiritual. Mentira. Textos existem para serem subjugados, colocados de joelhos e implorarem por perdão. Um texto deve ser vencido, e isto acontecerá a duras penas, com perda de sangue, gritos e cicatrizes morais: na escritura, não existe a alternativa de chegar a um consenso em que as duas partes vão sair felizes. Ao contrário, os dois lados sairão insatisfeitos. O texto sai gritando em silêncio do corpo do autor, que, por sua vez, sente-se exausto ao trazer a luz a sua obra, sentindo-se como Zeus quando removeu Palas Atena da sua cabeça, levando uma bela marretada de Hefesto.

Nenhum escritor teve tamanha noção de que existia um cachorro preto correndo atrás de si do que Robert Louis Stevenson. Afinal, não bastando sofrer com o texto, ele próprio criou o doberman que iria persegui-lo. Em 1880, Stevenson viajou para Braemar, uma aldeia localizada na Escócia. Acossado por uma tosse incessante e repleta de sangue, o escritor ficou preso na cabana e, enquanto não melhorava, dedicou-se a fazer o desenho de um mapa de tesouro com o seu enteado, Samuel Lloyd Osbourne, de 12 anos. O mapa ganhou detalhes cada vez mais interessantes e, em algum momento, Stevenson sentiu a necessidade de escrever aquela história para não perdê-la, dando início ao romance que seria chamado de “A ilha do tesouro”.

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O mapa de “A ilha do tesouro”, de Stevenson

Durante um largo período, o escritor dedicou-se à história com afinco, preenchendo páginas e páginas, criando as figuras de Jim Hawkins e Long John Silver. No entanto, quando chegou ao capítulo 16, a história sumiu. Acabara a inspiração. Ele se sentia incapaz de escrevê-la, e isto o levou a fazer uma auto-análise: “Eu tinha 31 anos; era um chefe de família; estava mal de saúde; e ainda não havia encontrado o meu caminho.”

Levou um ano para Stevenson retomar a história, e tudo graças a um “doberman” que o próprio autor criou. Ele enviou o livro para uma publicação infantil chamada “Young Folks”, que começou a publicá-lo em fascículos. Imaginou que a história estava fadada ao esquecimento, mas fenômeno contrário aconteceu: os leitores adoraram, esperando os capítulos com ansiedade. O fã mais ardoroso de “A ilha do tesouro” era a mesma pessoa que mudara o seu título original (“O cozinheiro do mar”): o editor de “Young Folks”, James Henderson. Quando soube que Robert Louis Stevenson não acabara o livro e estava bloqueado, um Henderson em pânico ordenou que ele resolvesse o assunto, e o quanto antes.

Com esta pressão na cabeça, o escritor viajou para Davos, na Suiça, e tomou uma decisão crucial: não iria mais se preocupar com o livro. Ia aproveitar o descanso para colocar a leitura em dia. Quando estava prestes a desistir, a criatividade ressurgiu, e com força. Passou a escrever um capítulo por dia, em um ritmo delirante, até que concluiu a obra, espantando mais a si mesmo do que ao editor.

Para Stevenson, foi necessário criar um motivo forte para que terminar o livro. A imaginação não foi capaz de dar conta da história e, assim, somente a urgência e o desespero seriam os combustíveis necessários para terminá-la. Muitas pessoas costumam deixar os seus planos de vida inacabados. A tática do autor escocês de criar as condições necessárias para fazer a criatividade aflorar demonstra que, às vezes, se algo não está funcionando da forma que desejamos, o melhor é criar uma forma de ficarmos com medo, pois, citando Máximo Gorki, “o medo é tão saudável para o espírito quanto um banho para o corpo”.

No início de “A inspiração é um cachorro preto, um doberman bem aí atrás de você”, Henfil fala que precisamos desmistificar a ideia de que a criatividade é algo divino, “um espírito santo que baixa”, e afirma que a criatividade é uma questão de concentração. “Que sem concentração ela não acontece, e esta concentração às vezes é dolorosa, demora muito tempo e dá um trabalho danado.” É uma lição importante para qualquer coisa que se faça na vida: ser capaz de manter a concentração enquanto todo o resto tenta nos distrair. O pintor holandês Johannes Vermeer pintou todas as suas obras na sala da casa, cercado pela mulher, pela sogra e pelos 15 filhos (quatro morreram de forma precoce). Nunca se soube de Vermeer reclamando que não conseguia dosar as cores de “Moça de brinco de pérola” por que a balbúrdia das crianças estava insuportável. Napoleão e Julio César tinham o hábito de tirar gostosas sonecas em meio a batalhas sangrentas, e nenhum soldado relatou que eles reclamavam do barulho atrapalhando o seu sono. Manter a concentração para criar é o verdadeiro desafio, ainda mais em tempos modernos, onde tudo convida para a distração e para o prazer.

A concentração necessita ser exaustivamente burilada. Conseguir mantê-la é bem complicado, pois some como se fosse fumaça em meio a um vendaval. A concentração é um exercício diário e paciente, no qual às vezes perdemos e, em outras, ganhamos. Depois de ser afiada até a perfeição, qualquer pessoa será capaz de permanecer concentrada mesmo que o mundo esteja desmoronando ao seu redor.

Henfil trata também da informação: o artista necessita sempre estar informado antes de fazer a sua obra. O segredo não seria colocar toda a informação na obra, mas dissecá-la, pegar os seus elementos essenciais, e só então criar algo novo. Uma grande obra se forma quando o artista é capaz de pegar elementos díspares e recombiná-los com outra lógica. Sobre isto, Henfil menciona “Você pode olhar as coisas e não ver. É a informação que faz com que você veja as coisas”.

Quando falo dos insuportáveis clichês que preenchem o nosso cotidiano de hoje – e não se iludam, boa parte dos clichês saem justamente dos jornalistas que deveriam combatê-los com galhardia exemplar -, refiro-me à incapacidade geral de articular novas informações com base em elementos existentes. Pegar a ideia de alguém e apossar-se dela de forma displicente, fazendo de conta que é sua, pode até conseguir algumas risadas de quem pensa que o outro é original, mas ele está enganando a si mesmo. É melhor criar e errar sozinho do que ficar repetindo piadas alheias em troca de uma popularidade efêmera, pois a pessoa que não tem medo de criar acabará um dia acertando, enquanto que o repetidor de ideias nunca será mais do que uma caixa de ressonância da criatividade alheia. Qualquer um pode ser criativo, em especial se não tiver preguiça de criar.

Que o diga Ihara Saikaku, escritor japonês que viveu entre 1642 e 1693. Apenas alguns dos seus romances chegaram até nós, notabilizando-se pela descrição dos comerciantes da sua época, e por isto ele é mais conhecido como romancista. No entanto, antes de se dedicar aos romances, Saikaku foi um poeta famoso. Como integrante da Escola Danrin, Saikaku também se opunha ao mais famoso escritor de haicais da época, Matsunaga Teitoku. Eram duas maneiras diferentes de ver a literatura: enquanto Teitoku prestava atenção no lento desbastar das sílabas e imagens poéticas, o outro buscava a espontaneidade e o improviso.

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Obra de Ihara Saikaku

Em 1671, Saikaku escreveu 1.600 haicais no espaço de um dia e uma noite, feito que impressionou a sociedade literária japonesa da época. Em 1680, em novo recorde, escreveu 4.000 haicais em 24 horas. Contudo, foi em 1684 que Saikaku ganhou o apelido de “O poeta dos 20 mil”, quando escreveu extraordinários 23.500 haicais no espaço de vida de uma mosca, ou seja, algumas horas, o que representou 17 conjuntos de 17 sílabas por minuto.

Não se pode negar a extraordinária criatividade e concentração de Ihara Saikaku, capaz de escrever milhares de poemas em uma questão de horas. Muitos deles eram considerados incompreensíveis – a utilização do improviso traz consigo este dilema, nem todos os haicais funcionavam – e, por este motivo, o poeta japonês recebeu dos seus adversários literários um epíteto que o relacionava com extravagância e hermetismo: “Saikaku, o holandês”.

Os clichês que infestam o nosso dia a dia são desgastantes, mas também servem como lição. Enquanto buscarmos resolver as nossas aflições usando fórmulas batidas e receitas prontas, seremos incapazes de evoluir, e isto vale tanto para a literatura quanto para a arte, para a política, para a economia… É quando todos pensam da mesma forma que devemos olhar para o lado e pensar diferente, pois é ali que o doberman está nos esperando, ansioso para nos colocar para correr. A única maneira que existe de sermos criativos é pensar fora das ideias de todo mundo. Não sair por aí distribuindo os pensamentos alheios e tentar pensar de forma livre ainda é a melhor – e mais deliciosamente surpreendente – opção.

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/como-sobreviver-ao-apogeu-da-era-do-clich%C3%AA-a0d77c1a9c36#.k8mu24dvf

 

 

2 Comentários

Arquivado em Bloqueio Criativo, Clichê, Henfil, Ihara Saikaku, Literatura, Robert Louis Stevenson

2 Respostas para “Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (10/05/2016): “Como sobreviver ao apogeu da era do clichê”

  1. espetacular e atualíssimo!

  2. Preciso de concentração e disciplina. Talvez, adote a ideia do Doberman.

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