Texto publicado no Literatortura (05/05/2016): “Para quê escrever ficção?”

Na minha coluna dessa semana para o Literatortura, tentei responder a uma das mais ancestrais questões: existe algum motivo para escrevermos ficção? Uma das definições possíveis para o homem, algo que distinguiria o humano do animal, seria a capacidade de criar ficções. Mas, já estamos lotados de histórias, nossas e dos outros. Por qual motivo inventamos outras histórias?

No meio, a resposta. Contamos histórias para aguentar a vida.

Mas também falei de minha experiência com mexilhões, do falso mexilhão de estimação da Margaret Atwood e de “Attracta”, um conto incrível de William Trevor, sobre a mudança que uma história acabou efetuando sobre a visão de mundo de uma mulher.

Boa leitura!

 

Para quê escrever ficção?

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Se existe uma verdade no mundo é a máxima da conservação da matéria de Lavoisier: na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.

Podemos amplificar a ideia de Lavoisier e transportá-la para literatura, pois nenhuma história é criada ou perdida, ela se transforma. Às vezes vira livros, em outras ocasiões vira piada e pode chegar até mesmo a nunca existir, permanecendo escondida no fundo da recordação. Sei de escritores que registram em papéis, blocos ou cadernos qualquer ideia que lhes surge, outros que gravam seus pensamentos e até aqueles que não anotam, confiantes de que a boa imaginação sempre dará um jeito de ressurgir em meio aos escombros do cotidiano. São métodos diferentes que possuímos para tentar segurar a história antes que ela desvaneça diante da mais breve brisa.

A história nunca morre, está sempre em andamento. Não recordamos propriamente das pessoas, mas das memórias que elas nos evocam, das pegadas que deixaram nas nossas vivências. Somos seres que andam por aí derramando histórias a cada passo que damos, e todas se juntam na Grande Narrativa Universal, na qual fazemos parte relutante ao lado de Nero, de Hitler, de Napoleão e de bilhões de outras narrativas. Isto nos força a pensar: por qual motivo precisamos contar histórias que não acontecem conosco? A base da ficção é imaginar cenários inexistentes na nossa realidade objetiva, mas já temos histórias próprias suficientes para preencher algumas vidas. Não seria melhor falar das nossas ao invés de criar outras narrativas?

Podemos aplicar Lavoisier também com sentimentos. Eles nunca deixam de existir – transformam-se em outra coisa, seja indiferença, amizade ou até mesmo o compartilhamento desajeitado de memórias em comum. Algum tempo atrás, em uma troca de recordações com uma ex-namorada de muitos anos do passado, mencionei a ocasião em que fui apresentado ao pai dela. A moça não lembrava, então contei: tínhamos ido a um restaurante na beira da Lagoa, em Florianópolis. Como bom tímido, estava em silêncio total, receando falar alguma impropriedade perto daquele homem com olhar tão ameaçador. No momento de escolhermos os pratos, o “sogro” disse que sabia o que ia pedir para nós dois, “para ver se você é homem de verdade, ‘gaúcho’.” Pediu um prato com mexilhões: em uma panela aquecida, cheia de um molho que suspeito ser vinagrete, o garçom colocava mexilhões ainda vivos, que fritavam aos pulos. Quando paravam de se debater (talvez mortos), eram colhidos da panela, ainda quentes, e devorados.

Não era uma experiência muito agradável de se ver, ainda menos de estar nela. Era um teste e, apesar de não saber o que estava em dúvida ali, tive uma reflexão pragmática: o prato com mexilhões vivos era um dos mais caros do restaurante. Não seria lógico imaginar que eles pretendiam matar os seus clientes ou deixá-los enjoados cobrando um preço tão elevado. Também não podia retroceder, encontrar uma alternativa e menos ainda repudiar a “oferta”, pois isso me diminuiria aos olhos do homem que tentava ver se “eu era digno de sua filha” (por mais defasado que tal conceito seja). A única alternativa viável era me entregar ao momento e, assim, sem titubear, ao lado do pai da minha ex-namorada, comemos os mexilhões saltitantes e em agonia.

Quando terminei de contar a história que tínhamos vivido em conjunto, ela riu e disse que lembrava de tudo, mas não daquela forma. A situação não fora engraçada ou cômica. Ao contrário, fora um filme de terror. A moça ficara com raiva do pai por me colocar em tal situação, e brava comigo por eu aceitar o jogo proposto. Achava que eu deveria confrontar o homem, manifestando meu desagrado, pois era ela quem precisava se impressionar comigo, não o seu pai. No entanto, a forma com que eu contara era tão divertida que, apesar da crueldade da cena e das suas múltiplas implicações, ela preferia lembrar o passado conforme a minha narrativa, e não da maneira que o vivenciara.

Contar histórias não é propriamente questão de talento, mas uma maneira de analisar o mundo através de um ângulo diferenciado. Quando contei a história que outra pessoa já conhecia, mudando somente o enfoque, ela deixou de ser aquilo que foi e assumiu um inédito caráter de lição de vida. Não era mais a história de “o dia em que comi mexilhões vivos”, mas transformou-se em “o dia em que tive a minha masculinidade colocada à prova e como reagi ao teste”. Era quase uma “jornada do herói” às avessas.

Tinha inclusive a dúvida existencial muito importante com que me deparei: vale a pena sacrificar aquilo que somos e pensamos por alguém? Consegui isto por meio da mudança do enfoque. No entanto, tenho certeza também de que poderia colocar o tom que melhor desejasse aos meus propósitos, podia transformar os fatos vivenciados em uma comédia quase pastelão ou em uma tragédia épica. Bastava querer.

Eis um motivo interessante para escrevermos histórias: a realidade é chata demais com a sua visão cartesiana do mundo. Ficcionalizar – ou recontar – a realidade é o que nos permite aguentá-la.

Recordo a história do mexilhão de Margaret Atwood. Pode parecer perseguição minha aos inocentes mexilhões, mas não é. Uma história corrente entre os biógrafos de Margaret Atwood era que, quando ela estudava em Harvard, tinha, sobre a sua mesa no quarto, um vidro com um mexilhão. Quando os colegas lhe perguntaram o motivo de possuir tal molusco, Margaret teria respondido “Ele é muito leal.”

Muitos anos depois desta história correr o mundo, um jornalista voltou a perguntar para a escritora sobre o famoso mexilhão. Margaret suspirou e depois respondeu: “Antes de mais nada, você não consegue manter um mexilhão num vidro em sua mesa por mais de 24 horas, ele morre. Segundo, nunca tive um mexilhão num vidro sobre minha mesa. Terceiro, a história era um tipo de variação de uma história real que aconteceu com minha cunhada, não comigo. Ela tinha um caranguejo-eremita de estimação, sobre o qual observava: ‘Ele é muito leal’. Mas chegou a um triste fim, porque o puseram num aquário em cima da TV, e ficou quente demais.”

A história trágica do caranguejo-eremita da cunhada de Margaret percorreu estranhos caminhos até se tornar uma lenda incômoda na vida da escritora. Não conseguimos seguir o rastro da narrativa, como ela saiu da vida de uma pessoa, mudou de molusco e de propósito e aderiu às estranhezas que se esperam de um escritor, mas não resta dúvida de que é uma história saborosa, mesmo inverídica.

Ainda assim, é possível imaginar que, em algum dia, cercada por um grupo de pessoas, Margaret Atwood contou a história do caranguejo-eremita de sua cunhada. Contou com tamanha vivacidade que os ouvintes, não bastando gostarem da história, acabaram se apropriando dela, aumentando-a, cortando adereços desagradáveis, mudando os personagens e acrescentando detalhes, até que a ficção substituiu a realidade.

Eis a magia da boa história: não pertence ao seu autor, mas às pessoas, que interferem com a trama até o momento em que a desfiguram por completo e ela vira outra narrativa. É possível que contamos histórias uns para os outros não só para revogar a realidade que nos cerca com as suas regras inflexíveis, mas para que nossas narrativas se entrelacem com sonhos e histórias de outras pessoas, em um canibalismo incessante, até que surja algo muito mais interessante do que a verdade. Entre a ficção e a realidade, publique-se a ficção. É ela quem corrige o mundo e o torna um lugar palatável para coexistirmos, e é saudável imaginar as histórias como o grande lubrificante que permite a existência da máquina da Humanidade sem degringolar de vez.

Afirma o ditado popular que quem conta um conto, aumenta um ponto. Não é algo ruim: modificando as histórias, podemos mudar as mentalidades de quem nos escuta e, talvez, até mesmo influenciá-los.

Na semana passada, li um conto de um escritor irlandês quase desconhecido no Brasil, William Trevor. A história me foi passada com um comentário que resume as suas intenções: “um libelo contra o terrorismo”. O resumo vale como uma forma de limitar a história e condicionar a leitura, então prefiro ler sem tais amarras.

O conto se chama “Attracta”, e faz parte do livro “Lovers of their times”, de 1978. Attracta é uma professora de 60 anos, solteira, e que mora na casa deixada de herança por uma tia distante. É uma mulher simples, sem grandes aspirações na vida, com dias que se limitam a mimetizar o dia anterior.

Certa manhã, ao ler o jornal, Attracta se descobre atraída pela história de uma suicida de Belfast, Penelope Vade. O marido de referida moça, um militar inglês, fora decapitado pelo IRA, e a cabeça dele tinha sido enviada para a esposa dentro de uma lata de biscoitos. Penelope ficou tão mexida pela situação que, desejando fazer algo como resposta, viajou para Belfast e se uniu ao Movimento das Mulheres pela Paz. O problema é que os jornais noticiaram a sua triste história, atraindo atenção. A casa onde a moça estava foi invadida por sete combatentes do IRA, que a estupraram. Em seguida, Penelope Vade cometeu suicídio.

Attracta leu a história da suicida e não conseguiu esquecê-la. Passava o dia todo pensando no que a moça enfrentara. Contou para os vizinhos e para os amigos, que não entendiam o motivo da professora solteirona estar tão abalada por uma história que, apesar da violência, era comum naqueles tempos de guerra. Ela passou a se identificar com o drama de Penelope: os pais de Attracta tinham morrido em um conflito paralelo ao combate do exército inglês contra o IRA, em algo que foi considerado um “erro”. A professora pensava na sua vida, tão distante dos conflitos, e refletia sobre os assuntos que realmente devia ensinar para as crianças.

Em uma manhã de aula, Attracta não resistiu e leu a notícia do jornal para os seus alunos. Ao mesmo tempo, intercalou com trechos da sua própria vida. Deparou-se com a indiferença: as crianças não lhe entenderam. Uma delas afirmou: “Todo dia tem a mesma coisa no jornal”. Era a banalização da violência. A professora insiste. Deixa de lado o jornal e conta a mesma história, inserindo detalhes mais significativos – a quantidade de tiros efetuados contra o marido da moça, o jeito que o pescoço dele tinha sido cortado – enquanto que, de forma simultânea, relata situações vivenciadas com os pais, tornando-as cada vez mais palpáveis. Diante do aluno cético, ela acrescenta que as duas histórias são de horror, mas possuem finais diferentes, pois Attracta vive e a moça se suicidou.

Tentando fazer com que as crianças sintam a mesma perplexidade que a motiva, a professora volta a contar a história, preenchendo-a de detalhes pessoais (alguns inventados). Não sabe se consegue tocá-los. Assim, Attracta lança mão de um jogo narrativo arriscado e, por segundos, transforma-se na própria Penelope Vade, narrando os últimos momentos dela em primeira pessoa, como se estivesse vivenciando o drama. Após descrever o estupro pela ótica da vítima, Attracta pergunta-se: “Será que algum dia os homens que se vingaram nela serão criadores de abelhas e periquitos? Será que vão trabalhar em lojas e ser gentis com os cegos e com os surdos? Irão cuidar dos jardins de suas casas à noite e serem bons pais?”. Diante do silêncio da plateia, a professora volta a si e declara: “Só espero que Penelope saiba que há estranhos em algum lugar lamentando a sua morte”.

O sinal toca e as crianças saem correndo para o recreio. Na janela, Attracta as contempla enquanto estão brincando no pátio. Está em dúvida: será que a história tão arduamente contada adiantou de algo? Será que conseguiu fazê-los entender? Apesar das incertezas, mantém a ilusão de que a história mudou algo do mundo daquelas crianças: “O lampejo de esperança que ela ofereceu foi breve demais para surtir efeito naquelas mentes, irrelevante se comparado ao terror que lhes parecia tão familiar, tão parte da vida delas. Mas ela não podia deixar de acreditar que era importante que os monstros não continuassem a ser monstros para sempre.”

Uma semana depois, Attracta é chamada até a sala do diretor da escola, que lhe oferece um “gentil chá” e a demite. Em um momento final de fragilidade, a professora declara: “Todos os dias eu deveria ter contado sobre a coisa incrível que aconteceu nesta cidade. É importante que todos os outros saibam que Penelope Vade morreu em desespero, sem ter mais nenhuma fé na vida humana”. Contar o que aconteceu, mais do que uma forma de não esquecer o drama de Penelope, é dizer que sua história continuará existindo no mundo. Escrever ficção pode ser uma das formas que os seres humanos encontraram de fazer os nossos dramas atravessarem o tempo e o espaço para serem recontados.

Ao ler o drama da suicida de Belfast, Attracta pensou em si mesma, e é algo que somente a ficção permite: o reconhecimento do drama alheio como se fosse o seu próprio. As histórias de ambas se sobrepuseram de tal maneira que, para a professora, tornaram-se a mesma pessoa. Quando falou com os alunos, Attracta usou vários tipos de abordagem, tentando fazer com que a história repercutisse e ficasse no interior deles, semelhante a uma escritora ávida para atingir seu público. Entretanto, o objetivo mais nobre era não deixar Penelope Vade ser esquecida. Dar a voz para quem deixou de falar. Quando contamos uma história, desejamos que alguma coisa dela permaneça dentro do ouvinte – e seja capaz de alterar um pouco da sua visão do mundo. Assim, a ficção não existe por que podemos fazer, mas por que necessitamos dela para continuar dando esperança para os seres humanos.

Texto originalmente publicado no link http://literatortura.com/2016/05/para-que-escrever-ficcao/

1 comentário

Arquivado em Attracta, ficção, Generalidades, Literatortura, Margaret Atwood, Mexilhão, William Trevor

Uma resposta para “Texto publicado no Literatortura (05/05/2016): “Para quê escrever ficção?”

  1. Para quê escrever ficção? Encontrei várias respostas no teu brilhante texto.

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