Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (03/05/2016): “A vida, essa baleia branca que tenta nos matar”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu tratei sobre o maior medo dos seres humanos: encontrar o momento perfeito – ou a obra ideal – e não ser capaz de confrontá-lo.

De lambuja, falei de Hawthorne e de Melville, uma das belas amizades forjadas através da literatura, do filme “No coração do mar” e do inusitado método de pintura do Ticiano: olhar o esboço do quadro como se encara a um inimigo.

Boa leitura!

 

A vida, essa baleia branca que tenta nos matar

 

Na semana passada, assisti ao filme “No coração do mar” (2015). Ele conta a história do baleeiro Essex que, no inverno de 1820, foi atacado em alto mar, de forma inesperada, por uma baleia a qual estava perseguindo. O depoimento de um dos sobreviventes serviu de base para Herman Melville escrever “Moby Dick”, um dos maiores romances que já existiu.

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No entanto, para mim, o filme nem foi tão interessante quanto uma subtrama que acontecia nos intervalos da destruição implacável promovida pela baleia. Em algumas ocasiões, o sobrevivente do Essex, Thomas Nickerson, mencionou para Melville que ele “não é um escritor de verdade como Hawthorne” e a história da baleia assassina nascera para ser contada por escritores de gabarito como Nathaniel Hawthorne. No filme, Melville engolia em seco e fazia de conta que não escutara, mas a sombra da perfeição literária de Hawthorne pairava o tempo inteiro sobre ele.

Não se exige adequação absoluta com a verdade para tramas ficcionais, e é possível que tal diálogo tenha alguma dose de realidade (Hawthorne foi mesmo um dos maiores escritores americanos). Contudo, não existiu tal tipo de competição de talentos entre Melville e Hawthorne. Na época em que estava escrevendo “Moby Dick”, Melville e Hawthorne já eram bons amigos, tanto que Melville dedicou a obra para o outro “com admiração pelo seu gênio”. Grandes espíritos acabam estabelecendo uma boa interlocução, e os dois autores não só apreciavam um o estilo do outro como também trocavam impressões sinceras e críticas estilísticas em frequentes cartas.

Herman Melville e Nathaniel Hawthorne eram também vizinhos de propriedade, e as famílias de ambos costumavam se visitar mutuamente. Suas terras, localizadas em Berkshire County, em Massachusetts, distavam seis milhas entre si. Um detalhe interessante sobre esta região dos Estados Unidos é que uma série de escritores fenomenais se concentraram ao seu redor: além de Melville e Hawthorne, moravam próximos Oliver Wendell Holmes, James Russell Lowell e Fanny Kemble.

Os dois escritores apreciavam longas caminhadas, e só podemos imaginar o que conversavam nos seus passeios, a troca de experiências e de ideias que ocorria nas pradarias tranquilas desta região quase bucólica dos Estados Unidos. Sophia Hawthorne observou a relação: “o Sr. Melville, geralmente silencioso e pouco comunicativo, derrama as ricas inundações de sua mente e experiência para [Nathaniel Hawthorne], tendo certeza de que será entendido, completamente seguro de uma interpretação ampla e generosa e do mais delicado julgamento”.

Chegaram até nós algumas cartas que Melville escreveu, não as respostas de Hawthorne, e elas nos permitem ver um relacionamento fraterno (parte dos biógrafos inclusive afirmam possuir uma vertente quase homossexual, mas são conjecturas) – e muitos receios sobre o fazer literário.

Uma das dúvidas chama atenção: eles deveriam mesmo escrever determinadas obras? Um homem seria capaz de escrever o abismo que se esconde dentro da sua imaginação, ou deveria deixar a obra que sonhou para outras pessoas mais calejadas, seguras e preparadas? Hawthorne – autor de “A letra escarlate” – e Melville – que, além de “Moby Dick”, escreveu clássicos como “Bartleby, o escriturário” – tinham dúvidas se eram os homens indicados para escrever as obras que imaginaram. É uma indagação que às vezes nos assombra. Somos capazes de aguentar a história – ou a carga emocional – que a vida depositou sobre os nossos ombros? Temos realmente a capacidade de suportar tanta dor, tanto sofrimento ou até mesmo tanta alegria?

Tais questões estão na origem dos pensamentos suicidas: a impressão de que a nossa existência não comporta a carga dolorosa que o destino nos legou. Uma pessoa pode considerar uma dor tão insuportável que continuar vivo não tem mais graça; outra pode achar que o amor sentido é tão grande que não existe vida sem ele. Estamos constantemente questionando nossos próprios limites, e nunca sabemos qual será a gota que vai encher de vez o copo. Para um artista, existe a severa dúvida de que a obra pode estar além das suas capacidades artísticas – que a obra pode, em suma, acabar com a sua sanidade ou, em casos extremos, até mesmo lhe matar.

Não existe exemplo mais adequado do que o escritor francês Guy de Maupassant, cuja melhor produção textual aconteceu a partir do momento em que foi diagnosticado com sífilis e sentiu a loucura se aproximando de forma progressiva. Maupassant escrevia de forma quase compulsiva para afastar os demônios, em uma corrida pela sanidade e para que a literatura lhe mantivesse vivo. Mesmo assim, tentou se matar algumas vezes, foi internado em um manicômio e nunca desistiu de pensar que a sua obra era mais importante do que a loucura e do que a morte. Quando desistiu de ter medo das suas possibilidades como escritor e soube que a vida escorria lentamente para um fim melancólico, Maupassant se entregou de forma desvairada à literatura. Somente vive de forma plena quem sabe que a morte está à espreita em cada canto da existência.

Guy de Maupassant

Guy de Maupassant

Hawthorne era um escritor cheio de dúvidas sobre as suas próprias capacidades narrativas, e talvez seja isto que o transforma em um dos maiores autores dos Estados Unidos. No livro “Hawthorne”, uma crítica longa sobre o estilo e as obras do autor, Henry James fala do diário deixado pelo estadunidense. Hawthorne estava sempre escrevendo, sempre treinando, em constante processo de aperfeiçoamento para a “grande obra”, aquela que, um dia, iria escrever. Nos seus diários (são seis longos volumes), existem questionamentos existenciais e religiosos, bem como inúmeras páginas dedicadas a descrever os movimentos de uma galinha ou as sombras de um galho na parede. Parafraseando “A fera na selva” do próprio James, Hawthorne passou a vida toda esperando o surgimento da “grande obra” e, neste intervalo, escrevia e treinava o estilo, para saber como se portar quando chegasse a hora de encontrar o tema tão sonhado.

Sobre o diário de Hawthorne, Henry James escreve, com a necessária dose de assombro: “Parecem cartas gratas e inúteis, dirigidas a si mesmo por um homem temeroso de que fossem abertas no correio e que, por isso, tivesse resolvido não dizer nada de comprometedor.” Os exercícios estilísticos de Nathaniel Hawthorne soavam incompreensíveis para uma mente cartesiana, mas Jorge Luis Borges, analisando o diário de Hawthorne e a crítica de Henry James, vai um pouco mais longe: “tenho para mim que Hawthorne registrou essas banalidades por anos a fio para provar a si mesmo que ele era real, para de algum modo livrar-se da sensação de irrealidade, de fantasmidade, que tanto o frequentava”.

Hawthorne passou a vida inteira repleto de insegurança. Sentia que caminhava ao lado de um precipício, o “romance perfeito”, aquele que definiria e justificaria toda a sua existência, e temia ser incapaz de dar concretude literária à obra cuja sombra somente divisava. Teve medo da sua própria criação, e acreditou que suas habilidades narrativas – tão arduamente experimentadas – não estariam à altura do que desejava fazer. Assim, escreveu outros livros ao invés daquele que lhe assombrava, em uma tática diversionista, e mesmo em tal atitude acabou tendo grande sucesso.

Em certo sentido, o receio de Hawthorne não é muito diferente das pessoas que divisam uma existência feliz e são incapazes de se entregarem a ela, por puro medo de que a felicidade seja boa. É mais comum do que se imagina. Conheço pessoas que possuem real receio de serem felizes e, por isso, cometem os mesmos erros ad infinitum. Elas acham melhor passar ao largo de boas situações ao invés de mergulharem nelas, mesmo que dê errado, mesmo que tudo acabe se alterando. É preferível chorar publicamente sobre a infelicidade ao invés de ser feliz em silêncio.

Não se pode ter medo da própria existência, assim como não devemos temer as obras que pretendemos concluir, e isto vale tanto para uma estátua quanto para uma construção nas nossas casas. Não existe tarefa tão gigantesca que não sejamos capazes de vencer. Passar a vida toda fugindo da obra – ou do confronto com ela – é perder tempo.

Oportuno recordar do grande pintor do Renascimento italiano, Ticiano. De acordo com Jacopo Palma, o Jovem, que era seu aprendiz e o enxergava trabalhar, o método do artista era sempre o mesmo. Em primeiro lugar, Ticiano espalhava sobre os quadros uma massa de cor que servia de “cama” (base) para a pintura que viria depois. Em seguida, com algumas pinceladas de diferentes cores, o pintor italiano quebrava a mesmice da “cama”. Nas palavras de Jacopo Palma, o Jovem: “Tendo esses princípios como única doutrina, em quatro pinceladas ele fazia surgir a promessa de uma figura perfeita. Esboços desse gênero satisfazem os maiores conhecedores e são uma guia desejada por muitos que buscam um método correto para se lançarem ao oceano da pintura”.

Em seguida, Ticiano realizava algo inesperado: virava os quadros de costas e colocava-os contra a parede. Ficava meses sem virá-los, e sem sequer encará-los. De costas, os quadros esperavam a finalização, e o pintor se negava a concluí-los, mas não resta dúvida de que a mente de Ticiano estava funcionando. Ele não precisava ver o quadro – a visão talvez até lhe atrapalhasse –, pois precisava ter a figura claramente disposta na sua mente antes de transformá-la em pintura.

Quando se julgava preparado para voltar ao esboço, com a imagem enfim pronta na sua imaginação, Ticiano virava o quadro, e a descrição perplexa de Jacopo Palma, o Jovem, merece destaque: “quando se dispunha a atacá-las [as pinturas] novamente, ele as observava severamente, como se se tratassem de inimigos mortais, a fim de discernir algum erro. Se encontrasse a menor coisa em desacordo com sua intenção, ele se portava como um cirurgião que, ao tratar um paciente, faz uma sangria, põe no lugar o osso deslocado de um braço ou endireita a posição de um pé sem piedade pelo sofrimento do doente.”

"Beldade ao espelho", de Ticiano

“Beldade ao espelho”, de Ticiano

Na descrição do método de criação de Ticiano, percebe-se o grande problema que Hawthorne recusou-se a ver: um artista não é amigo da sua criação, mas seu maior inimigo. Ela está no caminho da sua felicidade e, como tal, deve ser tratada como um obstáculo, não como sinônimo de completude. Da mesma forma, não devemos achar bonita ou agradável a vida em que estamos inseridos, ou os conflitos que nos colocaram desde que nascemos e sem sequer pedir nossa autorização, mas lutar contra ela até o último ar dentro dos nossos pulmões. Pensar que a nossa existência é miserável por causa das agruras impostas pelo destino é uma solução covarde. Melhor fazer como Nabokov com os seus personagens: pegar o chicote e fazer o destino e a vida se dobrarem à nossa vontade, seja ela qual for.

Em determinado momento de “No coração do mar”, Melville confessa aquilo que lhe dá maior medo: ser incapaz de escrever bem a história que a imaginação lhe fez desejar. Escrever mal a história sonhada. Nickerson não comenta o medo do escritor, mas seus olhos demonstram a realidade: todos nós temos que enfrentar baleias brancas e assassinas. A diferença é que alguns lutam de frente e com coragem contra elas, enquanto outros preferem o comodismo de ficar chorando e reclamando a respeito da existência que lhes foi legada.

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/a-vida-essa-baleia-branca-que-tenta-nos-matar-50f0bfdbd14f#.hxygwabax

1 comentário

Arquivado em Arte, Cinema, Dublinense, Guy de Maupassant, Henry James, Herman Melville, Literatura, Nathaniel Hawthorne, No coração do mar, Ticiano, Vida

Uma resposta para “Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (03/05/2016): “A vida, essa baleia branca que tenta nos matar”

  1. Lembro de ter visto que este filme estava em cartaz. Eu sabia que os autores em questão eram contemporâneos, mas não sabia que eram amigos. É… Não podemos deixar de enfrentar as situações – ou até mesmo nossos medos.

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