Texto publicado no Literatortura (29/04/2016): “Indagações sobre o olhar de um cachorro”

Na minha coluna da semana passada no Literatortura, falei sobre cachorros e gatos.Não nego que sou um “cachorreiro”, ainda que simpatize com todos os bichos. Quem não gosta de bichos não deve gostar de seres humanos.

Mas minha reflexão começou ao tentar escrever uma breve elegia para um cachorro morto e descobrir, um pouco inquieto, que só lembrava do olhar repleto de pena que ele me direcionou. Mas aproveitei para falar da gata de Montaigne, que praticamente mostrou para o filósofo como deveria ser a sua forma de pensar, de Nathaniel Hawthorne, assim como alguns cachorros famosos da literatura, terminando com o gato que viu Derrida nu (e o livro que o filósofo escreveu a respeito do seu desconforto).

Boa leitura!

 

Indagações sobre o olhar de um cachorro

adeus-a-linguagem

Ontem, o cachorro pertencente a um amigo meu morreu. Certa vez, em um encontro casual na rua, calhou a mim conhecê-lo: o Sansão – sempre reclamei que tal nome era um clichê – era um labrador afável, com pelo amarelo e olhos cheios de piedade. É significativo que eu recorde mais dos seus olhos do que do cachorro em si. Na época do nosso encontro, pareceu-me que o cachorro olhava para mim com pena, como se soubesse de algo desconhecido.

Meu amigo e sua esposa fizeram um bonito tributo nas redes sociais ao cão falecido. Juntaram fotos engraçadas, algumas melancólicas, e não tardaram a aparecer depoimentos comovidos dos outros amigos do casal sobre o cachorro. Sansão deixou um rastro de admiradores. Entretanto, no meio das declarações, percebi um relativo incômodo. Ninguém sabe direito o que é, mas as palavras deixam entrever a sombra de uma vergonha, como se não tivéssemos merecido Sansão.

Pensei em escrever palavras que expressassem a minha simpatia pelo luto que eles estão passando – pois a morte de um animal pode causar grande sofrimento psíquico -, mas esbarro no mesmo obstáculo. Sansão sabia algo desconfortável sobre a natureza humana e, o pior, tinha pena de todos nós. A Humanidade tentou de tudo quanto é jeito, mas não conseguiu enganar o cachorro. Ele sabia aquilo que de mal e pérfido e generoso e sublime se escondia por trás da nossa aparência. No fundo do seu olhar, estava a resignação: “vocês são assim, e nunca irão mudar, não interessa quanto dinheiro, amor e vitórias conquistem”.

Por mais inusitado que pareça, Sansão me fez lembrar Michel de Montaigne. Muitos anos atrás, o filósofo estava escrevendo junto à sua mesa quando ergueu os olhos e notou, no sofá, a sua gata encarando-o fixamente. Ela miou, pedindo carinhos, e Montaigne ficou dividido entre continuar escrevendo e brincar um pouco com o animal. Pois foi neste momento de indecisão que os olhares de ambos se encontraram e, por um segundo delirante, Montaigne ousou ver o mundo através dos olhos da sua gata. O que ela estava pensando? Como enxergava o homem diante de si? Quem estava brincando ali, o homem com a gata ou o inverso? O filósofo sintetizou esta dúvida ao escrever “Quando brinco com minha gata, quem sabe se ela não se distrai comigo mais do que eu com ela?”

Alguns biógrafos consideram esta cena familiar – e o pensamento surgido dela – como a base do pensamento de Montaigne. Ao sair de si mesmo e colocar-se no lugar do outro, em uma inversão do ponto de vista que lhe possibilitou ver o mundo de um ângulo diferente, Montaigne mostrou que não podemos julgar as demais pessoas tomando por fundamento a nossa visão sobre elas, mas tentando ver a situação pelos olhos alheios e entender como o pensamento do outro se constrói.

É um exercício difícil de realizar. Tentar entender como alguém se posiciona diante do mundo implica em abandonar opiniões arraigadas e concentrar-se nos motivos que levaram o outro a pensar daquele jeito. Ter tal tipo de grandeza de espírito faz muito falta atualmente. Todos parecem se arvorar em detentores da verdade e, por conseguinte, quem não pensa como eu, torna-se automaticamente meu inimigo declarado. No entanto, a pessoa chegou àquela visão de mundo com base nas suas vivências, e não tem as mesmas experiências e pensamentos que nós. Também não está errada em pensar diferente. O fato de sermos incapazes de entender como o outro chegou a um determinado tipo de conclusão é um atestado da falha do nosso pensamento. Considerar o mundo como uma bipolaridade insana, no qual existe o meu lado e o lado inimigo, é a maior prova de que não sabemos nos comportar em sociedade.

Percebo tal incapacidade de sentir o outro no Direito. Às vezes, acontece do juiz julgar alguém com a seguinte afirmativa “se eu estivesse na tua situação, não teria agido desta forma”. Mas o juiz não está, e claro que as suas experiências não são as mesmas da outra pessoa. O correto seria perguntar-se, antes de condenar ou inocentar: acaso ele tivesse os conhecimentos do outro e tivesse passado pela sua vida, teria outra atitude que não a decisão tomada?

Não existe uma verdade absoluta, existem diferentes maneiras de contar a mesma história. Nenhum de nós está coberto de razão. Diziam os estóicos: “só sei que nada sei, e nem isto eu sei se sei direito”. Seríamos mais prudentes se adotássemos o benefício da dúvida ao invés de fazer julgamentos sumários.

Acaso as pessoas lessem mais, perceberiam o estrago que representa a falta de leitura. Ler é se posicionar através da visão do outro, entender o drama do personagem como se fosse nosso. Entrar na pele ficcional de uma figura imaginária. Todos sabem que Raskólnikov agiu errado em “Crime e Castigo”, de Dostoiévski, mas, seguindo o mundo através do seu conjunto de crenças e valores, as atitudes do personagem são justificáveis – ele não tinha como agir de outra forma, não sem violentar a sua verossimilhança.

Não faz muito tempo que, em um evento, escutei a palestrante afirmar que “Madame Bovary”, de Flaubert, era um romance machista no qual a personagem foi punida – pelo autor – por ter desejos de mulher. Quem diz isso nunca leu “Madame Bovary”, e é bem possível que tenha consultado um resumo escolar da obra. Ao contar a história de Emma Bovary, Flaubert investe contra as convenções sociais que sufocavam os desejos e vontades femininas. É o contrário do machismo. Além disso, ler uma obra procurando vieses machistas, feministas, racistas ou qualquer outro tipo de conceito acaba por limitar o espectro da leitura, e funciona semelhante a um julgamento: se o juiz tiver a ideia prévia de condenar alguém, vai procurar qualquer mínimo elemento para embasar a sua vontade, descartando as provas contrárias em benefício da sua opinião. Assim, a condenação será inevitável, tudo por que o juiz não entendeu a opinião alheia, preferindo impor a sua ao invés de compreender a do outro. Se Nero quisesse matar o gladiador, não interessava o triunfo que ele tivesse conseguido, ainda assim o polegar estaria apontado para baixo.

Montaigne viu a grande verdade: a opinião é somente uma questão de ponto de vista. O homem olha uma gata brincando e pedindo afagos; para a gata, o homem está fazendo uma tarefa supérflua, e brincar com ela é mais importante. Quando Sansão despejava o seu olhar de pena sobre as demais pessoas, era por que ele tinha idade o suficiente para saber que somos desinteressantes, nós e nossos “grandes” dramas.

Não foi à toa que Montaigne escreveu: “Essa deficiência que impede a comunicação entre eles e nós, por que não será tanto nossa quanto deles? É de conjecturar a quem cabe a falha de não nos entendermos; pois não os entendemos mais do que ele a nós. Por essa mesma razão, eles podem considerar-nos estúpidos, como consideramos a eles.” O fato de não entendermos o que os animais dizem não quer dizer que eles sejam estúpidos, pois, para eles, pode ser o contrário – os seres humanos, sim, não fazem sentido algum.

Os animais se entendem entre si. Não somos capazes de compreendê-los e, por isto, os consideramos irracionais, tomando por suporte nossos duvidosos padrões de racionalidade. O filósofo dá um exemplo: “De resto, percebemos muito claramente que entre eles existe uma comunicação plena e integral e que se compreendem mutuamente – não apenas os da mesma espécie como também de espécies diferentes. Em um determinado latido do cão o cavalo reconhece que existe cólera; com outro som seu, ele não se assusta.” Transportando esta ideia, a nossa incapacidade de entender o outro não deveria ser o suficiente para considerá-lo idiota, burro ou contraditório. Julgar alguém pelos nossos padrões do que seja correto não quer dizer que estejamos com os padrões corretos. Mais vantajoso seria entender os outros ao invés de julgá-los.

Curiosamente, Montaigne foi atacado por pensar assim. O bispo Bousset afirmou que, quando o filósofo aproximou o homem dos outros animais, não salientou que ele seria uma criação especial de Deus. Montaigne foi acusado de “animalismo”, ou seja, considerar os humanos iguais aos animais ao invés de criaturas derivadas do divino. Por heresia, a sua obra máxima, “Os ensaios”, foi incluída no Índex de livros proibidos do Vaticano em 1662, ficando nela até 1854.

Eu acredito que o olhar de Sansão continha uma mensagem desagradável para quem o enxergava, algo que enchia de desconforto e dúvidas. Pensei em escrever uma mensagem dizendo que Sansão era o Wakefield da Humanidade, aludindo ao excepcional conto de Nathaniel Hawthorne, “Wakefield”, mas tive receio dos meus amigos entenderem mal a alusão. Poucos escritores foram capazes de sintetizar melhor a sensação angustiante de ser um indivíduo do que Hawthorne neste conto. Ocupamos um papel na peça de teatro chamada vida, mas basta um passo para o lado e saímos sem querer do palco, com o risco de nunca mais nos reencontrarmos. Sansão podia ser o cachorro que testemunha as pequenas tragédias e vicissitudes humanas na casa ao lado, sem tomar partido, enquanto o mundo corre ao seu redor. Neste contexto, Sansão seria o Grande Pária do Universo, assim como foi Wakefield.

Um dos contos de Horacio Quiroga tem uma vibrante metáfora dos perigos que podemos sofrer por não entender aquilo que os outros estão nos falando. Em “A insolação”, um grupo de cachorros está sentado na porta de uma fazenda, descansando, em um dia de especial calor. Os nomes dos cachorros – Old, Milk, Dick e Prince – remetem à colonização da América do Sul. Eles possuem seus próprios dramas e indagações, mas um detalhe instigante: cachorros são capazes de ver a Morte, na forma de um duplo do ser que deseja matar, e o duplo está caminhando, perdido, pelo pátio da fazenda em Misiones. Quando a Morte se aproxima de Mister Jones, o dono dos cachorros, todos começam a latir, tentando alertá-lo do que vai acontecer. No entanto, Mister Jones pensa que os cachorros estão latindo sem motivo algum e continua indiferente, enquanto a Morte chega cada vez mais perto.

Também poderia falar de “O colóquio dos cachorros”, de Cervantes, com o diálogo de Cipião e Berganza sobre as suas vidas e sobre os homens com quem eles conviveram. Tanto em Cervantes quanto em Quiroga – e para outros escritores, como o Flush, de Virginia Woolf, que discute questões humanas sob a ótica de um animal testemunha – os cachorros funcionam como analistas pasmos da Humanidade que os rodeia. Enquanto os homens se digladiam pelas mais diferentes questões, os animais permanecem à berlinda, vendo tudo o que acontece e impressionando-se com a nossa incapacidade de entendermos o outro.

Chama atenção que, muitos anos depois de Montaigne confrontar a sua gata, outro filósofo francês esteve na mesma situação, também a descrevendo em um ensaio. Em “O animal que logo sou”, Derrida descreve o incômodo de ficarmos, nus, diante dos olhos de um animal – no caso, um gato. Sentimos uma forte vontade de nos cobrir, de manter a decência, de não expor nossas verdades, mas, em última análise, o gato também não está coberto por roupas, não está fazendo julgamentos a respeito do nosso corpo nu e muito menos tem pruridos morais. Ele está nos olhando, mas sem nos distinguir ou tratar diferente por estarmos sem roupas. Explica Derrida: “Assim, nus sem o saber, os animais não estariam, em verdade, nus. Eles não estariam nus por que eles são nus. Em princípio, excetuando-se o homem, nenhum animal jamais imaginou se vestir. O vestuário seria o próprio do homem, um dos ‘próprios’ do homem.” É um animal que está diante de outro e, se é assim, por qual motivo nos sentimos desconfortáveis?

A reflexão filosófica que Derrida faz sobre o seu desconforto, sobre o fato do gato existir como animal e não como figura de gato (“é um gatinho”), sobre as nossas noções de pudor e de vergonha, passando por uma análise do gato de “Alice no país das maravilhas” e “Alice no outro lado do espelho”, de Lewis Carrol, é fascinante. Em especial quando ele se pergunta como uma pessoa nua deve encarar o gato diante dela: como um ser sem motivações e anseios? Como um oponente? Como um terceiro? Estamos sozinhos com o gato ou, entre nós, encontram-se outras figuras imaginárias (espectros familiares, amigos, esposa, marido) ou sociais?

O ponto de vista do outro pertence a ele, por mais que tentamos influir com as nossas visões de mundo. Afirma Derrida: “o animal está aí antes de mim, aí perto de mim, aí diante de mim – que estou atrás dele. E pois que, já que ele está na minha frente, eis que ele está atrás de mim. Ele está ao redor de mim. E a partir desse estar-aí-diante-de-mim, ele pode se deixar olhar, sem dúvida, mas também, a filosofia talvez o esqueça, ela seria mesmo esse esquecimento calculado, ele pode, ele, olhá-lo. Ele tem seu ponto de vista sobre mim. O ponto de vista do outro absoluto, e nada me terá feito pensar tanto sobre esta alteridade absoluta do vizinho ou do próximo quanto os momentos em que eu me vejo visto nu sob o olhar de um gato.” O outro pode tomar as suas decisões sem que tenhamos poder de modificá-las, ainda que possamos tentar compreendê-las. Derrida não convence o gato a ver o que ele deseja que o bichano enxergue, mas pode imaginar – e entender – aquilo que o gato contempla.

Nunca saberei o que Sansão pensou quando estava me olhando. Também não escreverei nada no obituário dele (apesar deste texto funcionar como uma espécie de homenagem enviesada). No entanto, existe em mim uma impressão que, cada vez que tento esquecer, fica mais e mais evidente, e talvez seja isto que as demais pessoas que conheceram o cachorro não foram capazes de expressar, não em termos “racionais”. A sensação de que Sansão não estava me olhando, mas sim pensando naquilo que já fui e ainda poderei ser. E seus olhos cheios de carinho não estavam me julgando – estavam me perdoando.

(Texto originalmente publicado no link http://literatortura.com/2016/04/indagacoes-sobre-o-olhar-de-um-cachorro/ )

1 comentário

Arquivado em Cachorro, Filosofia, Generalidades, Gustave Flaubert, Horacio Quiroga, Jacques Derrida, Literatortura, Madame Bovary, Miguel de Cervantes, Montaigne, Nathaniel Hawthorne

Uma resposta para “Texto publicado no Literatortura (29/04/2016): “Indagações sobre o olhar de um cachorro”

  1. Já havia lido o texto sobre o Sansão, mas quando fui comentar, deu pane. Muito bonito! É o segundo texto sobre animal que escreves que me emociono. Eu também acho que eles são mais sábios. O Chico, assim como os filhotes, me compreendia tão bem, mas tão bem… Sinto muito a falta deles, e o único conforto que tenho é que eles tinham certeza do quanto foram amados.

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