Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (26/04/2016): Eu, Gustavo M. C., plagiado e se divertindo”

Na minha coluna da semana passada no Medium da Dublinense, falei de como fui recentemente plagiado – e das atitudes que eu e outros escritores tomamos quando isto acontece.

Conforme referi, o plágio não me irrita ou chateia, ele me diverte. Ainda mais nos temos atuais, em que basta colocar qualquer frase “suspeita” no Google e o seu autor de verdade acabará surgindo. Menos mal que estou bem acompanhado entre outros autores que já foram plagiados – ainda que os motivos dos plágios que eu sofro são deveras espúrios e infames. Afinal, se vão me plagiar, bem que podiam existir objetivos mais nobres.

Contudo, tenho divergências em relação aos demais escritores. Para mim, o negócio não é se estressar com o plágio, mas usá-lo como força motriz para impulsionar a obra. Enfim, só existe um eu, e isso não podem me tirar de mim.

Boa leitura!

 

 

Eu, Gustavo M. C., plagiado e se divertindo

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Na semana passada, novamente descobri que plagiaram os meus textos. Acontece com relativa frequência, em torno de duas ou três vezes por ano. Eis o risco de se escrever de forma pública: ao colocar algo no mundo, ele se sujeita a ser replicado, distorcido, manipulado e, às vezes, até mesmo lido.

Escrever para que todos leiam é um risco calculado. Ora, eu sei que palavras escritas podem ser utilizadas com os mais diferentes propósitos. Os textos que não gostaria que fossem usados jamais deixo à solta. Pelo contrário, estão bem presos no meu computador, e alguns ainda repousam quentes no papel em que foram depositados (às vezes tenho paranoias com meu computador, suspeito que ele interfere nos escritos).

Perguntaram-me se eu me importava em ser vítima de plágio. De forma alguma, desde que não exista algum tipo de ganho material, pois daí eu seria responsável indireto pelo o que o outro fizesse com minha produção intelectual. Meus textos possuem vida própria. Assim que saem de mim, estão destinados a caminhar pelo mundo. Alguns são rapidamente esquecidos, outros lembrados com constância. Ainda existem aqueles que continuam repercutindo entre leitores e, às vezes, sou agraciado com um texto do passado que retorna ao meu conhecimento, citado por alguém. Também acontece de serem usados contra mim, para embasar eventuais argumentos: mal sabem as pessoas que o autor, assim que acaba de escrever o texto, não é mais o mesmo, já mudou.

Os meus textos foram utilizados com os mais diferentes objetivos, desde propaganda política até autoajuda e propósitos libidinosos. Acho divertido quem utiliza algo que escrevi para conseguir provar o seu ponto de vista (ou para conquistar uma mulher). Mais interessante seria se tentassem escrever as suas próprias posições ao invés de utilizar as dos outros. Ao menos, seria sincero. Começar qualquer espécie de relação com uma mentira é arriscado demais. Melhor ser verdadeiro a correr o risco de que o outro descubra que você é uma fraude.

O que me tranquiliza em relação a eventuais plágios é que somente eu sei escrever o que escrevo. Não existem dois escritores iguais. A pessoa pode citar meus textos como se fosse produção sua, mas não me duplicar. Pode soar inteligente ou interessante ou perspicaz ou irônico (ou chato, pernóstico, incompreensível), mas tal imagem desmoronará em alguns minutos de conversa, e a frustração será mais violenta. Gostem ou não, somente eu sou eu. Podem usar as minhas palavras, mas não tentar achar que são iguais a mim.

O primeiro caso de plágio que se tem notícia aconteceu na Roma Antiga, e envolveu chororô sobre autoria. O grande Virgílio aproveitou a madrugada chuvosa na capital do Império Romano para pichar a porta do palácio de Augusto com um dístico: “Chove toda a noite, mas as celebrações serão realizadas amanhã / César divide com Júpiter o império do mundo”. Sim, Virgílio – antes de escrever a “Eneida” e dar uma volta com Dante pelo Inferno em “A Divina Comédia” – também pichava palácios governamentais.

No dia seguinte, enquanto os romanos viam o dístico e elogiavam o seu autor desconhecido, um poeta chamado Batilo apareceu e declarou-se como responsável pelos versos. Na outra madrugada, Virgílio voltou a pichar um dístico na mesma porta, abaixo de onde escrevera o anterior: “Eu escrevi esses versos e outro veio e os roubou / Assim, [os versos] são teus, mas não [vieram] de ti”.

Virgílio teve uma saída elegante, mas a alfinetada que deu em Batilo foi significativa. Ele podia se apoderar dos versos largados em uma parede, mas nunca da alma do poeta que os engendrou. Prova maior de que Virgílio estava certo é que o seu nome continuou na História da Literatura, e Batilo – que usufruiu das glórias momentâneas por um trabalho que não lhe pertencia – acabou desaparecendo nas curvas do Tempo.

Tudo é uma questão de como lidar com os copiadores: não é necessário hostilizá-los, processá-los ou insultá-los, mas ser melhor do que eles. Que o diga Cervantes. Quando escreveu “Dom Quixote”, o livro encerrava com o Cavaleiro da Triste Figura retornando para casa, machucado e doente, para passar o resto da vida em sua terra. Era um final digno, e que parodiava os finais dos romances de cavalaria, em que o heroi retorna para casa.

Quixote em diferentes livros e autores

No entanto, alguns anos depois do final de “Dom Quixote”, surge um novo livro com mais aventuras do fidalgo. E este livro – que entrou para a História como o “Quixote de Avellaneda” – se dizia ser a continuação real da obra de Cervantes. Teria sido escrito por Alonso Fernández de Avellaneda, um desconhecido, e que se identificava como o verdadeiro autor de “Dom Quixote”.

Imaginem a fúria de Cervantes. Escreve uma obra, sabe que é o seu autor, e, de repente, tem a sua autoria questionada. Pior ainda: os seus personagens foram utilizados por outro escritor com toda a liberdade, criando textos e subtextos que Cervantes jamais teria feito (o Quixote de Avellaneda estabelece um novo interesse amoroso, o que vai contra a essência do livro original). Para extremo azar do autor espanhol, o “Quixote de Avellaneda” ainda era um livro mal escrito. Não bastando surfar na onda do sucesso do original – pois a dita “continuação de Dom Quixote” virou um sucesso de vendas -, ainda estava destruindo o seu legado literário. E não havia como processar o impostor (ou matá-lo, algo mais apropriado para a época), pois ele era desconhecido.

Algo necessitava ser feito, e logo. Levou 10 anos, mas foi uma vingança à altura. Miguel de Cervantes retomou a história que imaginava encerrada e fez a segunda parte de “Dom Quixote”, a qual ficou ainda melhor do que a primeira. Em um senso de oportunismo único, no início do segundo volume, vemos Dom Quixote em casa descobrindo que existe um falso Dom Quixote. Ele lê as aventuras deste falsário, desmascarando as suas contradições e problemas. Cervantes aproveita para desancar o estilo de Avellaneda, transformando-o em personagem do livro. Não são poucas as críticas que realiza, e a sensação final é de devastação da obra falsa. O Dom Quixote “real” está ali, não o falso. Os leitores não tardam a reconhecer que o Dom Quixote de Cervantes é o verdadeiro.

A vingança de Cervantes contra o plagiador foi absoluta. Conseguiu incorporar a criação alheia na mitologia da própria obra, revelando o seu caráter de imitação malfeita. A segunda parte de “Dom Quixote” é literariamente melhor trabalhada, possui conflitos mais definidos; não se pode esquecer que Sancho Pança cresce, assumindo inúmeras facetas e conseguindo o seu próprio estatuto de personagem inesquecível, desvinculando-se do cavaleiro a que servia. Ao final, a chave de ouro e a reafirmação da identidade do próprio autor: Cervantes mata Dom Quixote para proteger o status da criação. Ninguém mais utilizará o personagem, pois ele deixou de existir.

É possível que nunca lêssemos a segunda parte de “Dom Quixote” – e a sua devastadora morte – se não fosse Avellaneda, o plagiador. Ao retomar a história encerrada, Cervantes não só acabou de vez com as dúvidas que pairavam sobre a autoria como mostrou que somente ele era capaz de escrever “Dom Quixote”, não eventuais plagiadores e copiadores. Cervantes pegou a pena e disse: “eu sou Cervantes, eu e mais ninguém”.

Isto até que surgiu Borges que, em seu “Pierre Menard, autor de Quixote”, novamente brincou com a autoria da obra do espanhol, dizendo que, na verdade, quem escreveu “Dom Quixote” foi Pierre Menard. No entanto, isto não é um plágio, mas uma criação original feita com base em um involuntário plágio. Na sua definição de dicionário, plágio não é a coisa em si, mas um desvio, uma mirada oblíqua sobre algo existente, ou seja, algo que não está na linha reta, mas ao lado.

No conto de Borges, Pierre Menard deseja escrever “Dom Quixote”. Não copiar Cervantes, mas escrever a obra em outro tempo, outro lugar e com outras experiências. Não consegue sucesso completo, mas Menard escreve um “Dom Quixote” que, apesar de não ser o de Cervantes, é não só idêntico e diferente do dele, mas melhor. Beatriz Sarlo afirma que Borges “destroi, por um lado, a ideia de identidade fixa de um texto; por outro, a ideia de autor; e, finalmente, a de escritura original. Com o método de Menard não existem as escrituras originais e o princípio de propriedade sobre uma obra fica afetado”.

Borges brincou com o plágio e chegou à originalidade. O autor não é tão importante, mas a obra sim. Ela se despega da sua força original de invenção e ganha vida própria, podendo insuflar novas obras ou desaparecer em meio ao silêncio. O plagiador não é o criador original, mas um autor diferente, pois ele também precisa fazer escolhas e opções na hora de copiar alguém, algo que também é uma forma de criatividade.

Dos autores plagiados, dificilmente podemos achar algum mais infeliz do que o alemão  Sebastian Brant. Ele é o autor de “Das Narrenschiff” ou, como é mais conhecido, a “A nau dos insensatos”, lançado em 1494. Neste pequeno livro, Brant cria um barco onde somente entram os loucos que deveriam ser extirpados do convívio social, fazendo uma elencação de tipos sociais excluídos. O escritor alemão realiza um recenseamento completo dos pecadores e loucos que deveriam estar no navio: tinha desde adúlteros até aqueles que careciam de fé, tudo com versos pontuais que remetiam à “Divina Comédia” de Dante e ao “Paraíso Perdido” de Milton. Um verso muito famoso traça um paralelo inevitável com a obra miltoniana e os dilemas de Lúcifer: “É melhor seguir sendo laico do que comportar-se mal dentro das ordens”.

A nau dos insensatos

A nau dos insensatos

Assim que foi lançado, o livro fez tremendo sucesso. Dezenas de jornais começaram a replicar as suas páginas, e as pessoas divertiam-se ao reconhecer-se (ou aos seus semelhantes) dentro da nau dos insensatos. Não demorou dois anos e Brant sofreu o primeiro plágio, e veio do seu editor em Estrasburgo. Ele insistiu para que o escritor acrescentasse mais alguns versos para o livro ficar com mais páginas e, assim, ser vendido mais caro. Brant recusou-se, por questões estéticas, e o editor contratou um outro poeta, que acrescentou 400 linhas ao original. Brant processou o editor, mas não ficou demonstrado o plágio.

Em seguida, Jacques Locher, professor de poesia em Freiburg para quem Brant pedira que o livro fosse traduzido para o latim, resolveu “melhorar” a obra, alterando a ordem dos capítulos e incluindo versos próprios. Por mais que Sebastian Brant lutasse – e estávamos em um período sem internet -, a sua autoria foi se desvanecendo. A pureza do livro original perdeu-se. A obra modificava graças ao constante ataque de plagiadores, que tiravam versos e acrescentavam composições próprias. Hoje, não somos mais capazes de ler com segurança o livro que Brant idealizou, e sim a obra dele acrescida dos seus plagiadores e copiadores.

Outro fenômeno inédito aconteceu. Pintores famosos e anônimos, entre eles Hieronymus Bosch e Albrecht Dürer, dedicaram-se a realizar obras baseadas em “A nau dos insensatos”, de Sebastian Brant, acrescentando novos tipos à história. Para fazer jus a tais invenções, a obra precisava de mais versos, e assim as pinturas também mexeram na trama. No meio de tamanha barafunda de influências, misturas e plágios, a solitária voz de Brant não podia mais ser escutada, e o autor perdeu de vez o domínio estético que outrora tivera.

A nau dos insensatos, por Hieronymus Bosch

“A nau dos insensatos”, por Hieronymus Bosch

Um detalhe interessante de “A nau dos insensatos” de Sebastian Brant é que um dos primeiros tipos a ser descrito no seu interior é justamente “o louco dos livros”: uma pessoa que leu tanto que “gastou os próprios olhos”, cercado por livros e sempre disposto a novas histórias. Para o “louco dos livros”, o divertido é estar na companhia de outros homens e dizer, apontando para qualquer volume de obras que esteja no recinto, “tenho todos esses livros em casa!”. Qualquer semelhança com a realidade é simples coincidência. Assim que sobe ao barco, o louco anuncia “para mim, o livro é tudo, mais precioso ainda do que o ouro. / Tenho grandes tesouros aqui na biblioteca, mas não entendo bulhufas.” Isto por que “o louco dos livros” é capaz de acumular conhecimento, mas não de entendê-lo. Pois eis o erro do plagiador: ele copia, mas não conhece aquilo que copia, só está replicando ideias já mastigadas por outrem.

Agradeço as várias pessoas que se solidarizaram com este novo caso de plágio sobre meus textos. Quando alertaram Ricardo Piglia de que sua obra “El fín de viaje” fora copiada por Paulina Wendt, o argentino afirmou que não se importava, pois o plágio também é o reconhecimento de um medíocre para a excelência da sua obra. Um plágio também é um elogio embasbacado para alguém que é melhor, e o mesmo vale para uma ofensa: quem ofende outro, sabe que ele, no fundo, é melhor, tanto que só resta o caminho da ofensa gratuita para atingir a fortaleza da inteligência alheia.

Assim como não me ofendo ao ser insultado, não me chateia ser alvo de plágio. Sou melhor do que isto, e as pessoas só ofendem ou copiam quem é bom mesmo. Inclusive me diverte a ideia de que, talvez, eu seja um plagiador de mim mesmo e, em algum lugar ignorado, o verdadeiro Gustavo espera pacientemente o momento de se revelar ao mundo. Quem sabe não é ele quem está falando agora?

2 Comentários

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2 Respostas para “Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (26/04/2016): Eu, Gustavo M. C., plagiado e se divertindo”

  1. Belo texto, como sempre. Sinto que isso tenha ocorrido contigo, meu amigo. Quem faz esse tipo de coisa é um incapaz e recalcado. Porém, por outro ângulo, creio que deves sentir orgulho de ti, pois és superior não somente nas palavras, mas nas atitudes.

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