Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (19/04/2016): “Como matar um escritor”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, aproveitei a proximidade do Dia Internacional do Livro para falar de Cervantes e de Shakespeare. No entanto, não fiquei na comparação simples das suas vidas ou obras, mas preferi falar de dois momentos em que a obra se tornou tão forte que o autor dela virou seu maior inimigo – na Alemanha nazista, no caso de Shakespeare, e na Madri de Unamuno, no caso de Cervantes. Mas também falei de Uruguaiana e do dia em que quase fui desmascarado como escritor.

Boa leitura!

 

Como matar um escritor

 

Aconteceu em Uruguaiana, cidade na fronteira do Brasil com a Argentina. Tenho o hábito de, quando estou viajando e chego em uma cidade na qual nunca estive antes, perguntar aos locais onde fica o sebo mais próximo. No hotel, os funcionários levaram em torno de 10 minutos para lembrar um sebo interessante. Eles me deram as coordenadas e, pelo o que pude perceber, ficava a algumas quadras de distância, era possível ir caminhando. No entanto, em Uruguaiana, quadras são quadras mesmo, e o sebo ficava mais longe do que eu imaginara. Cheguei lá cansado e sedento, e percebi que sequer era um sebo, mas uma casa de antiguidades, que ostentava três míseras prateleiras com alguns livros enfileirados.

Para descansar um pouco, resolvi analisar os livros e, entre exemplares antigos e mal cuidados, deparei-me com algo que não esperava encontrar: “A escrita criativa – pensar e escrever literatura”, coordenado pelo professor Luiz Antônio de Assis Brasil, um conjunto de ensaios de escrita criativa lançado pela PUCRS no decorrer daquele ano mesmo, contendo textos de alguns amigos escritores. Era uma surpresa muito deliciosa para guardar somente para mim (quem diria que, no meio de um local desconhecido quase despencando para a Argentina, encontraria um livro escrito por amigos?) e resolvi tirar uma foto da capa para mandar aos autores.

Foi quando o dono da loja de antiguidades me perguntou, meio desconfiado, o que eu estava fazendo. Expliquei a situação, disse que conhecia os autores e ia mostrar que o livro deles estava correndo o mundo. Foi quando o homem se inclinou sobre o balcão e perguntou, entre o espanto e a euforia: “O senhor então conhece um escritor?”. Eu concordei, um pouco indeciso sobre como responder, e acrescentei que conhecia alguns. Ele ficou ainda mais contente: “Mas me diga, então, como é um escritor? Sempre quis conhecer um!”.

Eu poderia responder que sou um escritor, e ele acabava de encontrar um, mas preferi silenciar sobre esta condição. Fiquei um pouco envergonhado: e se eu não estivesse à altura das suas expectativas? E se ele sonhasse em encontrar a criatura idealizada e, pela frente, estivesse somente um homem cansado e com sede? E, mais importante, seria eu um escritor suficiente para merecer tal designação?

Throes of creation, de Leonid Pasternak

Throes of creation, de Leonid Pasternak

Nos tempos atuais, o que mais existe é gente se identificando como escritor. Pelo o que vejo, basta escrever um blog ou alguns parágrafos em uma rede social ou um livro de receitas para as pessoas se considerarem escritoras. Não é algo ruim, mas, em um mundo onde todos são, na realidade ninguém é. Palavras se vulgarizam pelo uso contínuo e despropositado, e escritor não é mais uma função, mas algo agregado ao currículo: “Fulano é empresário e escritor”, “Beltrana é atriz e escritora”.

Curiosamente, os escritores que mais respeito são os que possuem maior relutância em se identificar desta forma. Não existe muita honra em se reconhecer como um autor, pois parte do princípio que precisamos afirmar o nosso estatuto para vê-lo existente e, na verdade, a literatura simplesmente é. Não precisa ser declarada para existir. Não precisa ser objeto de louvor ou de execração social: escrever é respirar, e ninguém sai por aí dizendo que respira. Mesmo que não existisse papel, mesmo que não existisse maneiras de escrever, mesmo que eu não soubesse uma linguagem, ainda assim escreveria. Não sei de qual forma, mas daria um jeito. Tudo por que não consigo conceber vida sem ar e sem água, e não consigo conceber a minha existência sem escrever.

Aliás, outro erro comum das pessoas é imaginarem que, para ser escritor, a pessoa precisa lançar um livro. Conheço ótimos autores que não fazem questão alguma de mostrar ao mundo as suas histórias, são felizes de compartilhá-las em pequenos grupos, com a namorada, amigos ou familiares. Outros excelentes escritores escrevem somente para si: participam de grupos de criação literária, lapidam o seu fazer artístico por anos e não lançam nada, são felizes em escrever bem e para o melhor leitor que possuem, ou seja, eles mesmos.

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Sei que muitos excelentes escritores reconhecem publicamente o fato de serem escritores. Ambiciono chegar a tal status, pois, no dia em que eu conseguir me identificar como escritor – sem me sentir uma fraude – será o dia em que não terei mais dúvidas, em que saberei que um texto funciona assim que o deposito em um meio físico, que gostarei dele e não verei as suas inegáveis imperfeições. Ainda não cheguei a este ponto. Cada texto é uma maldita caixa de incertezas.

Estamos na Semana Internacional do Livro e, no dia 23 de abril, comemoraremos o Dia do Livro, mesma data em que – alegadamente – faleceram dois dos maiores escritores que o mundo já teve: o inglês William Shakespeare e o espanhol Miguel de Cervantes Saavedra. Dois homens que lançaram as bases da literatura que até hoje consumimos.

Cervantes e Shakespeare

Cervantes e Shakespeare

Interessantes paralelos podem ser traçados entre os dois escritores. Ambos possuíram vidas atribuladas: entre as poucas evidências de que Shakespeare existiu, encontra-se um processo judicial pelo roubo das instalações completas do The Theatre. Sim, isto mesmo, Shakespeare e os demais integrantes da Lord Chamberlain’s Men desmontaram um teatro em um terreno e o reconstruíram em outro lugar. Sabemos também que as suas peças sempre foram sucesso de público. Quanto a Cervantes, passou parte da vida em guerra, outra parte preso por dívidas, mas ainda assim teve tempo para escrever romances (Dom Quixote), contos (Novelas exemplares) e peças de teatro (A Numancia), e fazer sucesso.

No entanto, existiu um momento delirante em que as obras de ambos se encontraram: Shakespeare era um garimpador de histórias estrangeiras, que usava para transformar nas suas peças. O sucesso de “Dom Quixote” na Espanha chamou a sua atenção, e ele escreveu uma peça de teatro chamada “Cardênio”, sobre um personagem secundário de Cervantes que encontra Dom Quixote e Sancho Pança e conta a sua história de amor frustrada para ambos. Há questão de dois anos, participei de um bate papo sobre Cervantes em que contei a história completa desta peça, a qual foi encenada em 1613 por Shakespeare (que a escreveu em conjunto com John Fletcher) e, infelizmente, acabou se perdendo. Não temos mais evidências de “Cardênio”, mas temos a imaginação, e foi o que fiz no bate papo: tentar reconstruir uma peça que não mais existe. Foi o momento mágico em que dois grandes escritores se encontraram e, como não poderia deixar de ser, aconteceu no meio de uma história, em cima de um palco.

Existe um outro paralelo entre os dois autores, e é algo perturbador: momentos que a obra foi tão forte que suplantou seus responsáveis. Foram tentativas explícitas não só de matar o autor, mas de desvinculá-lo da sua própria criação e transformá-la em outra.

Poucas pessoas sabem, mas “Hamlet” era a peça de teatro mais estimada pelo regime nazista. Foram mais de duzentas apresentações entre os anos de 1936 e 1941, quase sempre com a casa lotada. O mais conhecido intérprete de Hamlet era, não por coincidência, o maior ator que a Alemanha já possuiu, Gustav Gründgens, tão famoso que serviu de base para o livro “Mefisto”, de Klaus Mann (o que foi assunto para um longo processo judicial, mas é outra história).

Gründgens recusava-se a interpretar Hamlet como um homem repleto de dúvidas e questionamentos. Em carta que enviou para o crítico de um jornal, o ator alemão disse como enxergava ao príncipe dinamarquês: “Quando as cortinas se levantam, eu não quero interpretar Hamlet, quero regressar a Wittenberg. Contra a minha vontade é que carrego o peso de uma verdade a que não posso renunciar. Quero atuar, mas devo saber. Se for o contrário, não posso atuar.”

Por causa desta visão do personagem, o Hamlet de Gründgens era um homem valente e decidido, incapaz de mostrar qualquer vestígio de dúvida. Chama atenção o resumo da Sociedade Shakespereana Alemã fez em 1936 sobre esta versão de “Hamlet”: “Hamlet não é um personagem artisticamente fraco ou nervoso, mas um jovem brilhante cujo mundo é sacudido por incríveis fardos espirituais”. Para conseguir tal modificação, suprimiram todas as falas da peça que demonstrassem qualquer tipo de hesitação. Mais ainda, tiraram toda a quarta cena do ato IV de “Hamlet”, evitando estragar a força da interpretação. Gründgens não se vestia como um príncipe, mas colocava um casaco de pele junto com um chapéu de aba vertical, parecendo mais um arrojado estudante do que um guerreiro. Segundo Richard Biedrzynski, um crítico da época, o Hamlet de Gründgen era “mais ativo, mais mente aberta, mais perigoso, mais alerta, mais pronto para atacar”. Ou seja, bem o contrário do personagem idealizado por Shakespeare.

Diz Curt Riess, biógrafo de Gründgens: “Nasceu um novo Hamlet, um que nunca tinha sido visto antes. Um Hamlet cheio de responsabilidade, um Hamlet pronto para a ação e que não tinha medo algum de parecer um tonto. […].” O custo desta interpretação de Hamlet era afastar o seu criador do personagem. Shakespeare não podia ser mais o criador de Hamlet, pois o personagem do ator inglês não estava à altura daquilo que ele realmente significava. Assim, o único problema do verdadeiro Hamlet era o seu escritor. Shakespeare não tinha entendido direito o próprio personagem, e cabia aos nazistas “corrigirem” Hamlet.

Pode parecer engraçada a ideia de que um personagem seja tão forte que o seu criador passa a atrapalhar ao invés de auxiliar, ainda mais nos tempos modernos, em que o nome do autor precisa ganhar ascendência sobre a própria obra. No entanto, se considerarmos a grande dúvida (o que é mais importante, a trama ou o personagem?) e a sábia resposta de Aristóteles (personagem É trama), podemos dizer que o grande objetivo do escritor talvez não seja aparecer no seu livro, mas manipular a realidade de tal maneira que ele também consegue se esconder nos meandros da ficção. Assim, quando a Alemanha nazista descartou Shakespeare para reconstruir Hamlet, ele conseguiu o maior sucesso literário que um autor pode almejar: ser assassinado pela própria obra.

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Fenômeno idêntico aconteceu com Cervantes. Na época do mesmo bate papo que mencionei acima, eu estava fascinado por Miguel de Unamuno, escritor espanhol que, no livro “Vida de Don Quijote y Sancho”, defendeu uma tese inovadora: Cervantes não era o autor de “Dom Quixote”. Ao contrário, Dom Quixote é quem tinha criado o personagem Miguel de Cervantes Saavedra para escrevê-lo. Afinal, Dom Quixote era um personagem tão perfeito que simplesmente não podia ter sido criado por outro homem, ele se escrevera sozinho.

É uma ideia ousada. Unamuno declara de forma taxativa logo no início do livro: “Para falar a verdade, não se pode dizer que Dom Quixote é produto de Cervantes.” (traduções minhas do espanhol). Em seguida, pede para que o leitor não o considere um crítico literário, mas sim um Quixotista ao invés de um Cervantista. Unamuno defende que os personagens da ficção não existem somente nela, mas também em nosso mundo, havendo boas razões para acreditar que Dom Quixote foi “um louco prudente e não um rescaldo da ficção, como comumente se acredita. Ele foi um daqueles homens que comeram, beberam, dormiram e morreram.”

Não irei entrar nos detalhes da minuciosa investigação que Unamuno faz sobre “Dom Quixote” com a intenção de provar que Cervantes não poderia ter sido o seu autor, mas a sua argumentação é sedutora e convincente. Em um breve resumo, podemos dizer que, para o autor espanhol, “a ação segue o ser” e, se Dom Quixote gerou repercussões no nosso mundo, ele é mais real do que muita gente de carne e osso que anda por aí. São muito divertidas as críticas que Unamuno desfere contra Cervantes. Sobra até para o tradutor mouro Cide Hamete Benengeli, que aparece na obra, o qual Unamuno considera um truque literário baixo de Cervantes.

A partir de determinado momento do livro, Miguel de Unamuno admite que, por uma questão lógica, não pode afastar a autoria de Cervantes. No entanto, considera que o outro era um homem burro e iletrado demais para entender as nuances psicológicas de Dom Quixote. E faz a acusação mais séria que se pode lançar contra um escritor: Cervantes fez a história não por mérito próprio, mas por que Dom Quixote foi muito maior do que ele e conduziu a sua mão de autor. Para Unamuno, Cervantes foi um mero instrumento de Dom Quixote, e não o seu criador. Vai um pouco mais longe: nem o leitor é capaz de entender toda a capacidade psicológica de Dom Quixote, somente alguns detalhes, e o culpado é Cervantes, que não soube escrever direito a história que Dom Quixote lhe entregou.

Vale lembrar que a autoria de “Dom Quixote” é algo que intriga os escritores, e onde há fumaça, há fogo: talvez Unamuno não esteja exagerando. Não foi à toa que Borges escolheu Cervantes para ilustrar o seu conto “Pierre Menard, autor de Quixote”. Da mesma forma que Unamuno, a ideia de Borges é dizer que Cervantes não escreveu “Dom Quixote”, e sim Pierre Menard, um autor ficcional. É a ficção gerando os seus próprios rebentos, que passam a infestar o mundo, enfrentando a dureza da realidade.

As ideias de Miguel de Unamuno são fascinantes, mas, assim como o Hamlet de Gründgens, elas chegam ao mesmo ponto: o autor atrapalha a própria criação, posto que é humano e possui deficiências. Criar é algo que vai além de tal dimensão humana. O objetivo final de toda história é chegar a tal grau de excelência que ela prescinde da própria autoria, que se torna um fardo insuportável, posto que a limita. Um livro existe não só para questionar os leitores, mas também para afrontar aquele que lhe trouxe à vida. Livros desejam se libertar do nome que lhes aprisionou em um cativeiro de papel. É o Complexo de Édipo levado às últimas consequências: a Obra mata o Pai para conseguir crescer e casar com a Vida.

Na Semana Internacional do Livro, vale a pena refletir: não estarão todos os livros arquitetando as mortes dos seus autores para, enfim, correrem livres pelo mundo? Talvez isto explique a minha relutância em me identificar como escritor em uma pequena loja de antiguidades de Uruguaiana. Talvez esteja me escondendo, e este seja o grande segredo que norteia os autores: no mundo da imaginação, toda história é perfeita, pois tem o narrador ideal, as frases mais espirituosas, a graciosidade necessária, o comedimento exigido. Contudo, ao colocá-la na nossa realidade, o escritor estraga com a sua maravilha idealizada e, desde então, a história o persegue como um leão enfurecido, ansiosa para se libertar novamente e conhecer a perfeição que mora na não-concretude. Sócrates dizia isto: escrever é matar a memória e exterminar com as possibilidades de uma boa história, portanto, não escrevam, mas contem as histórias e deixem elas soltas. Pena que os escritores não são tão sábios – somos um bando de insensatos, nós e este hábito desagradável de chamar a Morte para dançar.

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2 Respostas para “Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (19/04/2016): “Como matar um escritor”

  1. Este texto é sensacional. Uma aula! Eu sempre aprendo contigo, Gustavo. Obrigada!

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