Texto publicado no Literatortura (14/04/2016): “O tamanho dos seios da Mulher Maravilha”

Na minha coluna dessa semana no Literatortura…. bom, vou deixar eu mesmo resumir o que está nela, de acordo com minhas palavras no Facebook: “Na minha coluna dessa semana no Literatortura, eu falo de como a busca por uma resposta me levou a cair numa gigantesca discussão sobre o tamanho dos seios da Mulher Maravilha. Mas também falo de outros assuntos, como a relação entre bois de piranha e Maquiavel; a assimetria dos seios femininos; a grande questão de fundo de “Batman vs. Superman: A Origem da Justiça”, com espaço para confessar que, se dependesse de mim, eu nunca salvaria a Humanidade, ou seja, vocês têm muita sorte que nunca me deram tal opção; falo de Diógenes, o Cínico; falo de Nietzsche e do além-homem; falo do Dr. Manhattan e de outros personagens ficcionais, como Gilgamesh, Beowulf e Jesus Cristo; falo de Walt Whitman caminhando por Long Island enquanto lia os clássicos da literatura; falo do Ministério da Verdade do Orwell e do Clube da Luta do Palahniuk, mas, como a questão parece ser relevante, acabo respondendo sobre a Mulher Maravilha.”

Fiz uma aposta interna: quantas pessoas surgiriam para me acusar de misógino com base no título do texto. Pensei em até 20 pessoas. Contudo, ainda na madrugada, recebi o e-mail de número 22 me xingando de machista, ou seja, tem um bocado de gente que sequer lê o texto: analisa o título e, com base nele, deixa transparecer a sua opinião. Acaso alguma destas 22 pessoas tivesse lido o texto, descobriria que aquilo que menos existe nele é misoginia ou machismo, e sim um debate de ideias e sobre o motivo pelo qual nos detemos em questões secundárias ao invés de entrar nas indagações mais profundas.

Boa leitura!

 

O tamanho dos seios da Mulher Maravilha

 

Se existe algo de fascinante no mundo atual – para não dizer cansativo – é a capacidade das pessoas de transformarem qualquer assunto em fonte de discussões inócuas, que conduzem do nada ao lugar nenhum. Prendem-se em detalhes insignificantes e, enquanto isto, a grande questão passa ao largo, quase despercebida. Desperdiçar palavras e argumentos em discussões infrutíferas é uma das formas de usar mal a inteligência; é usar uma bazuca para matar uma formiga. Schopenhauer já dizia que uma das chaves da felicidade é estabelecer conversas com pessoas de inteligência no mínimo semelhante, e ele tem razão: não existe nada mais triste do que conversar com alguém que não só não nos entende, como não faz questão alguma de entender.

É fácil de ver isto em quase todas as artes: pessoas discutindo minúcias e particularidades, em uma balbúrdia enlouquecedora. Funciona como o princípio do “boi de piranha”, aplicação popular de um ensinamento de Maquiavel (que, com certeza, não pensava em bois e piranhas quando o escreveu, mas em reis e Estados). No meio rural, era costume que, quando grandes quantidades de gado fossem passar por um rio infestado por piranhas, se escolhesse um boi velho e magro para sacrificá-lo à sanha de tais peixes carnívoros. Assim, enquanto elas se banqueteavam, o restante do rebanho passava, incólume. O sacrifício de um indivíduo pelo bem da coletividade. É o que percebo nas discussões atuais: fornecem à fúria dos debatedores um assunto menor e, enquanto isto, a grande questão existencial – aquela que evitamos pensar, pois não tem resposta segura – passa sem ser notada.

Aconteceu com o recentemente lançado “Batman vs. Superman: A Origem da Justiça”. Após assistir o filme, intrigado com algumas questões, decidi procurar as discussões virtuais para ver se encontrava outras pessoas que tinham pensado o mesmo. Não achei. Em compensação, li dezenas de discussões sobre o tamanho dos seios da Mulher Maravilha, que seriam pequenos demais para a personagem.

A Mulher Maravilha

A Mulher Maravilha

Pessoas se insultando e se ameaçando por causa do tamanho dos seios de uma personagem de ficção, seios estes que – é evidente – também são ficcionais! Como estabelecer um parâmetro de fidedignidade com a realidade se ela própria nasceu de uma ficção? Se vamos discutir seios femininos, e comparar seios ficcionais com outros reais, temos que começar pela noção de que não existe um par de seios simétricos entre si, todos são levemente diferentes. Isto sem contar que o par pequeno para uns pode ser grande para outros.

Ainda assim, o debate era acalorado e cansativo, com gente tirando argumentos de tudo quanto é lugar para reclamar dos seios da Mulher Maravilha. Tais discussões acabam sempre nos mesmos buracos negros argumentativos (feminismo, racismo, preconceito), com as pessoas afundando-se em ideias enlatadas sem sequer pensarem no assunto.

Pobre daquele que questionasse a validade da discussão, pois seria tachado – e novamente sem reflexão alguma – de cerceador da liberdade de expressão alheia. Outro lindo eufemismo da atualidade: toda vez que meu argumento for questionado, estão tentando me cercear. Assim, nunca perderei nenhuma discussão. Aliás, no meu entendimento, as pessoas podem expressar aquilo que bem desejarem, desde que também aceitem a possibilidade de estarem falando enormes bobagens em razão de tal direito – e eu estou incluso nesta possibilidade.

A grande questão de “Batman vs. Superman: A Origem da Justiça” que passou silenciosamente despercebida é muito mais inquietante do que o eventual tamanho de um par de seios. Tem a ver com uma dúvida ancestral, sintetizada no seguinte questionamento: se você tivesse todo o poder do mundo, você salvaria a Humanidade? Este é o verdadeiro dilema enfrentado pelo Superman – devo salvar a Humanidade ou não? Afinal, merecemos ser salvos?

Claro que o filme possui vários problemas de roteiro, mas não sei se existe um roteiro capaz de abarcar todos os prismas desta dúvida, não sem parecer insuficiente. Apesar disto, a indagação persiste a incomodar, em especial por que sei a minha resposta diante de tal dilema: não, eu não salvaria a Humanidade.

Admito a verdade do que penso sem nenhum problema de ordem ética ou moral. Não vejo motivo algum pelo qual devemos ser salvos. Não nos comportamos bem. Não evoluímos para melhorar, mas para fazer os outros piorarem. Não entrarei no argumento confortável das guerras, doenças, poluição e outros malefícios que a presença humana acarreta, mas irei me refugiar no mundo que me cerca: no círculo de relações que me rodeia, pouquíssimas são as pessoas que mereceriam ser salvas. Amplificando tal percepção para o mundo, vejo ainda menos gente por quem vale a pena lutar.

Não fazemos por merecer a salvação; vivemos para vencer ou para dizimar os outros, não para construir com eles, e é um defeito tão entranhado que acredito não ter mais conserto. No último filme do “Batman” – para continuar em um exemplo do cinema -, disseram que, se um homem vive tempo suficiente, acaba se tornando vilão. Vou um pouco mais longe: se alguém vive tempo o bastante, acaba virando um cínico. Diógenes de Sinope se torna a única pessoa que disse a verdade no mundo, ele e seus cachorros.

Jean Léon Gérôme - Diogenes

Jean Léon Gérôme – Diogenes

Interessante que a dúvida do Superman sobre a validade de salvar uma Humanidade que (vá lá) prefere discutir os seios da Mulher Maravilha ao invés de outros assuntos repercute as ideias de Nietzsche sobre o super-homem, ou além-homem. Está em “Assim falou Zaratustra”: o além-homem é aquele homem que deveria ser o nosso ideal, um ser disposto a transgredir valores, defeitos e virtudes, que tenta sempre se superar e usa todo o seu poder para destruir o velho e criar novos conceitos.

Diz Nietzsche: “Eu vos ensino o super-homem. O homem é algo que deve ser superado. Que fizestes para superá-lo?” Podemos realmente dizer que estamos melhorando no nosso propósito de sermos humanos, ou esperamos que alguém nos diga o que fazer para melhorar? Tentamos superar os nossos limites hoje ou continuamos discutindo assuntos irritantemente insípidos? Tal evidência fica clara no filme, com as sucessivas chances que o Superman dá para a Humanidade mostrar o seu valor – e sempre sai decepcionado. O otimismo do Superman é algo que sempre me irrita, pois é ingênuo demais. Não temos espaço para ingenuidade no planeta Terra: ser humano é para fortes, não para fracos.

O desconcertante é que, na hora decisiva da resposta, quem enfrenta este dilema encontra justificativa não no coletivo humano, mas em particularidades. A Humanidade é salva na batida final do gongo, não por mérito próprio, mas por uma conjunção de sorte e circunstância. No caso do filme, Superman dá a própria vida em sacrifício para salvar todos nós, tudo graças ao seu amor por Lois Lane, o que é um motivo altamente piegas (e talvez aí esteja o desconforto do público com o filme, pois não é um motivo assim tão forte para salvar os seres humanos).

Mesmo entrando no perigoso campo da religião, decisão idêntica foi tomada por este angustiante personagem chamado Jesus Cristo, que se imolou por amor à Humanidade, por achar que ela deveria ter uma segunda chance. Gilgamesh teve o mesmo procedimento, mas se exilou, assim como Beowulf. Estamos cercados de pessoas que se matam para nos salvar, e continuo sem saber se merecemos tamanhos sacrifícios.

Recordo que, em “Watchmen”, de Alan Moore, o Dr. Manhattan passa pelo mesmo questionamento (salvo a Humanidade ou não?) e acaba se decidindo por particularidades ainda mais tênues, formada pelas várias manifestações de vida que insistem em aflorar mesmo quando toda a lógica diz que é melhor não existir vida. Contudo, no caso dele, é justamente por que a vida é espantosa e a Humanidade é versátil – tanto para o bem quanto para o mal – que elas devem ser preservadas. Somos tão ruins, incompetentes e geniais que devemos ser preservados, eis a conclusão a que chegou o Dr. Manhattan. Alan Moore já virou um cínico muitos anos atrás.

Dr. Manhattan em Marte

Dr. Manhattan em Marte

Nietzsche afirma que o além-homem existe para superar o homem impregnado de humanismos e de uma cultura que o prende a si mesmo. Na tentativa de se superar, ele deve ascender sobre todos os parâmetros morais que impedem o homem de ter uma existência plena. Por sua vez, a Humanidade hoje é formada por homens escravos do seu próprio tempo, acomodados, conformados, abraçando qualquer crença – por mais absurda que seja – para não ter que enfrentar a si próprio e aos seus limites.

Voltando a Nietzsche, “os mais preocupados perguntam hoje: ‘como conservar o homem?’ Mas Zaratustra é o primeiro e único a perguntar: ‘como superar o homem?’.” Mais importante do que manter o status em que estamos – uma preocupação constante atual, manter o emprego, manter o casamento, manter as aparências – é tentar superar o momento atual, e isto leva às perguntas que realmente são importantes de serem feitas, não o eventual tamanho dos seios de uma personagem de ficção.

Na literatura, Walt Whitman foi a pessoa que melhor descreveu a sua vontade de superar os próprios limites, e conseguiu isto através da leitura de autores melhores do que ele e da observação incessante de si mesmo. Ao invés de afundar nos pensamentos massificados do seu tempo, Whitman procurou a sabedoria dos antigos, ver onde eles se destacavam e, assim, atingir a excelência literária que imaginava existir dentro do seu corpo. Conta Walt Whitman:

“Mais tarde, a intervalos, no verão e no outono, eu costumava ir para o campo ou para as praias de Long Island, às vezes por toda uma semana – ali, em presença das influências do ar livre, li de ponta a ponta o Velho e o Novo Testamento e absorvi (provavelmente com mais proveito do que em qualquer biblioteca ou lugar fechado – faz muita diferença onde você lê) Shakespeare, Ossian, as melhores traduções que pude obter de Homero, Ésquilo, Sófocles, os velhos nibelungos germânicos, os poemas hindus antigos e outras obras primas, Dante entre elas. Aconteceu de eu ler a maior parte deste último num velho bosque. […]. Desde então, pergunto-me por que não fiquei soterrado por aqueles poderosos mestres. Provavelmente por que os li na presença plena da Natureza, sob o sol, com paisagens e panoramas a perder de vista ou o mar quebrando na praia.”

Antes de sair por aí distribuindo os seus poemas, Walt Whitman dedicou-se ao estudo e ao aprimoramento de si mesmo através da leitura. É uma das chaves para melhorar o nível das discussões atuais. Antes de nos perdermos em detalhes ínfimos dentro de um todo maior, seria oportuno tentar ver qual a grande questão imanente que se esconde por trás de qualquer obra artística (seja um filme, um livro, uma pintura) e perceber como a visão do artista articulou tal questão.

Walt Whitman

Walt Whitman

Uma pessoa pode olhar “Guernica”, do Picasso, e perceber uma cena de guerra, mas também pode encarar a obra como uma expressão do vazio. Alguém pode escutar a “Abertura 1812”, do Tchaikovsky, e achar bonita a forma com que canhões e sinos passam a fazer parte da melodia, mas também pode ver, dentro das notas musicais, a “Marselhesa” de Napoleão ser sucessivamente “atacada” e desconstruída por canções folclóricas russas, primeiro de forma tímida, depois cada vez mais contundentes, até o momento em que, enfim, a Rússia sobrepuja o Pequeno Corso, não só na realidade, mas também na música. Mais importante do que discutir minúcias, como a textura da roupa de uma personagem ou a fidelidade da voz (!) de uma criatura ficcional (!), o que nos falta é a vontade de sermos melhores, percebendo as verdadeiras questões que se oferecem diante dos nossos olhos, ainda sem resposta.

Às vezes, penso que George Orwell tinha mais razão do que imaginava quando criou, em “1984”, o Ministério da Verdade, cuja função era espalhar mentiras e inverdades, atribuindo-lhes a pecha de realidade. É muito possível que já exista um Ministério da Verdade por aí (assim como o “Clube da Luta” do Palahniuk, a primeira regra do Ministério da Verdade provavelmente é não falar do Ministério da Verdade), sempre distorcendo as discussões importantes e escondendo-as atrás de uma grande série de irrelevâncias. Neste caso, o nosso dever é superar a vontade de discutir platitudes e tentar entrar nas profundezas das questões que nos atemorizam em segredo. Somente isto nos fará pessoas melhores: a vontade de sermos melhores, não que o outro, mas que nós mesmos.

Bom, quanto ao tamanho dos seios da Mulher Maravilha… desculpem, não tive tempo de observar. Estava muito ocupado com aquela explosão de feminilidade, de segurança e de paixão que surgiu na tela do cinema. Existem pessoas que olham corpos e existem pessoas para quem o corpo é um mero envoltório físico para algo muito maior, e estou na segunda categoria. Ficarei devendo sobre este assunto.

Texto originalmente publicado no link http://literatortura.com/2016/04/o-tamanho-dos-seios-da-mulher-maravilha/

1 comentário

Arquivado em Batman vs. Superman, Cinema, Diógenes, Filosofia, George Orwell, Literatortura, Literatura, Maquiavel, Música, Mulher Maravilha, nietzsche, Quadrinhos, Tchaikovsky, Walt Whitman, Watchmen

Uma resposta para “Texto publicado no Literatortura (14/04/2016): “O tamanho dos seios da Mulher Maravilha”

  1. Bár-ba-ro! Assisti o filme, mas confesso que não gostei muito. Gustavo, nunca pensei que pudesse haver discussão sobre o tamanho dos seios da Mulher Maravilha. Por favor! Agora, convenhamos, quanta futilidade, hein?! Mas há um pouquinho de criatividade também. Não achas? Será que é do pessoal de Publicidade e Propaganda? Risos.

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