Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (12/04/2016): “A leitora fantasma”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, falei de algumas leitoras muito especiais: a leitora fantasma na Biblioteca Pública do ERGS; Melânia, a Jovem, que, graças aos seus dotes de leitura,  encantou Santo Agostinho e o chato do São Jerônimo; Leonor de Aquitânia, que passou a vida inteira lutando para assegurar a sua família no poder para, nos últimos anos, poder se dedicar ao prazer da leitura; de Benjamin Franklin, que sonhou em virar livro depois de morto. A morte é somente uma circunstância desagradável para um leitor, nunca um impeditivo. E a minha lista de leituras pós-morte só cresce…

Boa leitura!

 

A leitora fantasma

 

Não faz muito tempo, contaram-me que, na Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul, existe uma fantasma leitora, uma mulher que desliza entre as prateleiras carregando consigo um livro. Fui procurar mais evidências desta fantasma, mas o máximo que encontrei foram detalhes esparsos, como o fato dela, às vezes, estar procurando um livro entre as prateleiras e, em outras ocasiões, entreter-se com a leitura de um exemplar. Ninguém sabe a sua origem.

Enternece pensar que uma solitária fantasma, podendo escolher tantos lugares para ficar durante a Eternidade, tenha optado por se entregar à leitura em uma biblioteca. É uma metáfora para a força da leitura: nem mesmo mortos somos capazes de parar. Estamos sempre sonhando com outras vidas e outras pessoas feitas de papel e tinta, e é um pouco melancólico imaginar que a fantasma, ao ler, sonha com aquilo que não mais possui: o toque quente de dedos repletos de paixão, o ruído que uma janela faz ao recepcionar o sol, o sono tranquilizador das noites de chuva. Assim, a leitura torna-se memória e depositário da vida que não mais percorre a sua alma. Dizia Epicteto que os seres humanos são pequenas almas carregando consigo um cadáver, mas, no caso da fantasma leitora, o cadáver se foi e a alma agora carrega livros.

Biblioteca Pública do RGS

Biblioteca Pública do RGS

O que também nos força a pensar: qual seria a lista de leitura indicada para um fantasma? Se pretende atravessar o resto dos tempos lendo, podemos presumir que irá escolher obras contemporâneas ou reler sempre os mesmos clássicos? Passar a Eternidade lendo livros ruins ou chatos seria uma verdadeira provação infernal e, se a leitura é um ato de prazer, parece uma loucura dedicar tempo para livros ruins, pois mesmo a Eternidade acabará um dia. Na minha fantasia, portanto, a fantasma leitora está finalmente lendo e relendo os livros que lhe deram prazer quando estava viva e, se depender dela, os humanos reais que a veem passeando são desinteressantes demais inclusive para serem assustados.

É tolice imaginar que seremos capazes de ler todos os livros que desejamos no espaço de uma vida; os livros são vários, em contraste com a brevidade da existência. Ler também é uma questão de escolha, e escolher é selecionar. No meio de um universo de livros, optar por um é automaticamente excluir dezenas que poderiam estar no seu lugar. Não bastando todos os livros que desejamos ler, ainda temos os favoritos que gostaríamos de reler, sem contar as leituras obrigatórias que a vida acaba nos impondo.

Não teremos tempo para ler tudo aquilo que desejamos, e talvez por isto eu tenha criado uma classificação jocosa: a lista de livros que lerei depois de morrer. Obras que possuo e não serei capaz de ler por falta de tempo nesta encarnação. No entanto, às vezes penso que seria uma ironia divina se, após a morte, por causa desta piadinha classificatória, o castigo que acabassem me atribuindo fosse justamente a leitura eterna de livros ruins e desinteressantes. Eis uma definição de Inferno a temer.

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É possível que leitores nunca morram de verdade, só experimentem uma série de mortes falsas até o dia em que chega a verdadeira. O livro, por suas próprias dimensões físicas, é algo com início, meio e fim, e, cada vez que chegamos ao final de uma história, é como se morrêssemos junto com a imitação de vida presente no seu interior. Assim como Sheherazade postergava o fim contando histórias, pensamos ser capazes de estudar a Morte lendo livros.

Cada exemplar lido é, portanto, uma experiência de morte que vivenciamos. Em uma das partes mais interessantes de “The Sandman”, na história chamada “Três setembros e um janeiro”, Neil Gaiman conta a história (verdadeira) de Joshua Abraham Norton I, que se autodenominou Imperador dos Estados Unidos. No momento em que ele morre, a Morte – irmã de Sandman – se aproxima e pede para que ele conte a sua história. A ideia de ter a Morte a escutar a história da nossa vida sempre me pareceu um grande conforto, pois, para um leitor, a figura da Morte não é uma estranha, mas alguém que estamos acostumados a ver sorrir a cada vez que o final de determinado livro que amamos se aproxima.

Existem leitores que conseguiram ser mais fortes do que a própria morte física, e pergunto-me se a misteriosa leitora da Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul não possa ser Melânia, a Jovem, que nasceu em torno de 385 e morreu em 439. Melânia, a Jovem foi uma leitora e escritora tão voraz que ganhou a admiração de ninguém menos do que Santo Agostinho, o qual escreveu uma carta contando a sua história e que, ultrapassados quase 1.600 anos, continua repercutindo e fazendo-nos recordar desta figura que, se não fosse o seu amor à leitura, teria desaparecido. De acordo com Santo Agostinho, Melânia, a Jovem foi uma das primeiras pessoas a formar uma biblioteca pessoal: ela pedia livros emprestados dos viajantes que chegavam no Egito ou no Norte da África e copiava-os com rapidez, acrescentando na sua coleção particular.

Além disso, e eis um detalhe interessante, Melânia, a Jovem conseguiu a admiração de São Jerônimo, tido como um dos santos mais irritadiços e chatos entre todos. Ele inclusive  enviou uma carta para Roma elogiando o temperamento da mulher. Considerando-se que, certa feita, São Jerônimo enviou uma carta repleta de xingões para o próprio Santo Agostinho (que respondeu com graciosidade e bom humor, dizendo que concordava com tudo, mas teria mudado as suas condutas mesmo com uma carta mais calma, pedindo mais amor e menos raiva para o colega religioso), o fato de Melânia, a Jovem dobrar o comportamento irascível de São Jerônimo diz muito sobre a sua personalidade.

Tão importante foi Melânia, a Jovem – e o seu incrível amor à leitura – que, no século V, Gerôncio escreveu que ela “percorria as Vidas dos padres como se estivesse comendo uma sobremesa. Lia livros que eram comprados, bem como livros que encontrava por acaso, e o fazia com tal diligência que nenhuma palavra ou pensamento permanecia desconhecido para ela. Tão avassaladora era a sua paixão pelo aprendizado que, quando lia em latim, parecia a todos que não sabia grego, e, por outro lado, quando lia em grego, pensava-se que não sabia latim”.

Melânia, a Jovem era uma leitora tão aplicada que é difícil imaginar que tenha conseguido parar de ler depois de morta. Talvez ela nem tenha notado que morreu, de tão absorta que estava na leitura deste livro, e depois daquele outro, e mais aquele outro. Melhor imaginar que ela continue lendo de forma ininterrupta, tendo esquecido dos próprios limites do corpo ou da finitude da sua existência. A leitura não pode parar, e não é algo tão ínfimo como a morte que será capaz de impedir um leitor determinado.

Melânia, a Jovem

Melânia, a Jovem

Prova disto também é a rainha Leonor de Aquitânia (1122-1204). Desde o nascimento, seu pai optou por não lhe dar uma educação somente para assuntos femininos, como era de praxe na época, mas ensinou-lhe a escrever e a ler, garantindo-lhe pleno acesso à biblioteca. Outra leitora voraz, Leonor lia tudo o que aparecia na sua frente, e tinha uma grande curiosidade em entender as culturas de outros povos. Graças ao grau de conhecimento adquirido através do estudo, a rainha Leonor da Aquitânia não só conseguiu viver durante 82 anos como esteve no auge das transformações políticas de então. A sua vida foi uma montanha russa de experiências: começou como duquesa, participou ativamente das Cruzadas, acompanhou a ascensão do marido ao trono; a seguir, foi envolvida em uma suposta conspiração que investigou o assassinato do rei, foi condenada ao exílio, conseguiu retornar à corte de forma triunfal, foi a mãe de Ricardo Coração de Leão e de João sem Terra, governou a Inglaterra e a França em um período de transição e levou o filho ao trono. No final da vida, decidiu ingressar em um mosteiro e passou o resto dos seus anos fazendo aquilo que realmente desejava – ler todos os livros possíveis.

Os historiadores afirmam que Leonor de Aquitânia foi uma das primeiras pessoas a ver os benefícios de uma Europa unida, sendo uma mulher que aliava grande visão política a uma vasta cultura. Quando morreu, contudo, Leonor de Aquitânia não foi enterrada com um sabre ou uma coroa, ou algum outro símbolo real de força. Preferiu ser representada segurando um livro aberto sobre o peito.

Entre todos os seus títulos, Leonor de Aquitânia considerava mais valioso ser lembrada como uma leitora, e seu túmulo, na Abadia de Fontevrault, demonstra tal condição. No livro “Nos caminhos da literatura”, lançado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, encontra-se a melhor descrição do sarcófago de Leonor:

“Assim, Leonor de Aquitânia (duquesa e rainha que conseguiu fazer valer seus direitos mesmo sobre os privilégios do seu marido e dos seus filhos varões) é perpétua leitora de um livro eternamente aberto entre as mãos da estátua jacente que cobre seu sepulcro. Leonor, vestida do jeito medieval e de cabeça ligeiramente elevada sobre um travesseiro (que se intui muito confortável apesar de ser de pedra), sorri, e esse sorriso, à vista dos séculos passados, parece a representação perfeita não só da mulher reivindicadora e reivindicativa, mas da que sabe que sabe. Quer dizer: da que, em uma sociedade de não leitoras, lê.”

Leonor de Aquitânia não conseguiu desgrudar do livro nem depois da sua morte. Deixou gravado em pedra o seu amor à leitura. Mas há quem veja nisto uma mensagem política: mais importante do que a guerra ou do que as honrarias, são os livros – a cultura – o mais importante para modificar um país. Para fazê-lo pensar e refletir sobre os seus problemas. Ao ser enterrada em um sarcófago que ostenta a sua imagem lendo, Leonor de Aquitânia quis mostrar o caminho certo para as gerações futuras.

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O sarcófago de Leonor de Aquitânia

Existe ainda um tipo de leitor que, de tão inconformado com a morte física, decide transformar-se em obra. O mundo está cheio de gente que pensou assim, e lembro aqui de Montaigne, o qual lemos com tamanha clareza mesmo depois de quase 500 anos que ele parece estar na nossa frente conversando e sendo desagradável (Montaigne era uma criatura abjeta, mas divertida e bem humorada).

No entanto, nenhum foi tão incisivo quanto Benjamin Franklin ao esboçar o seu epitáfio ideal, o qual, infelizmente, não virou realidade:

“O Corpo de

B. Franklin, Impressor

Tal como a capa de um velho Livro,

Seu Conteúdo arrancado,

E despido de suas Letras e Dourados,

Jaz aqui, Alimento para Vermes,

Mas a Obra não se perderá;

Pois irá, como ele acreditava,

Aparecer outra vez

Em nova e mais elegante Edição

Corrigida e melhorada

Pelo Autor.”

O leitor que, ao morrer, deseja virar livro e, assim, conseguir escapar das fronteiras físicas a que foi condenado é um leitor que pede para ser fantasma. Ao elaborar este epitáfio repleto de ironias, Benjamin Franklin aspirou o fim maior de qualquer leitor abnegado: ser lido para todo o sempre e, toda vez que isto acontecer, renovar a lembrança do homem que não mais está entre nós.

É muito interessante que o escritor americano tenha comparado o próprio corpo a uma Obra em andamento que, mesmo perdendo a sua estrutura física, ainda pode ser consultada por eventuais interessados, que falarão dele enquanto a sua existência gerar consequências. O Corpo como a fronteira humana para o manancial de histórias que se oculta no seu interior, eis uma imagem bem adequada para expressar o ser humano.

Enche de orgulho – e um pouco de temor – pertencer a uma linhagem de leitores que caminha por entre prateleiras, incógnitos, sussurrando segredos e desejos de leituras. Pois toda biblioteca está repleta de fantasmas que não conseguimos ver. Ao contrário da discrição da fantasma leitora da Biblioteca Pública, cada vez que vamos ler, não estamos sozinhos diante do livro, mas acompanhados por dezenas de outras pessoas que nos precederam e irão nos suceder. O verdadeiro leitor não consegue se afastar dos livros, e não será a morte que irá detê-lo. Neste sentido, vale perguntar: ainda somos humanos, ou não passamos de fantasmas perdidos em uma vasta biblioteca atrás do livro sonhado?

(texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/a-leitora-fantasma-5375d885be7#.jpe2rmzce)

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Arquivado em a Jovem, Benjamin Franklin, Biblioteca Pública do RGS, Dublinense, Fantasma, Generalidades, Leitor, Leonor de Aquitânia, Literatura, Lugares, Melânia, Neil Gaiman, Quadrinhos

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