Texto publicado no Literatortura (07/04/2016): “A necessidade de contar histórias”

Bom, vamos lá. Na minha coluna dessa semana no Literatortura, falei da incrível capacidade que tenho, talvez meu único superpoder: fazer com que as pessoas tenham vontade de me contar histórias. Acontece com muita frequência e é algo que, ao mesmo tempo em que muito me honra (por ser o escolhido para tantas confissões), também me deixa bastante cansado e desiludido com a Humanidade. No entanto, não é algo que escolho, e sim algo para o qual os outros me elegem.

Boa leitura!

A necessidade de contar histórias

Em recente saída, enquanto esperava na fila de pipoca, uma senhora de aproximadamente 50 anos aproximou-se e disse que o seu filho estava preso. Porte de drogas, acrescentou. Logo após esta confissão dolorida e íntima, lançou-se a um longo monólogo sobre os motivos que levaram seu filho a seguir o caminho das drogas enquanto o sobrinho virava um pastor evangélico, “um verdadeiro santo!” nas suas palavras. Se a Pietá pudesse falar, teria a voz angustiada desta senhora. Em seguida, como se fosse algo absolutamente natural, ela se afastou e seguiu caminho. A moça atrás de mim na fila perguntou se eu conhecia a mulher. Não, nunca a tinha visto. E nunca mais a verei.

Não é a primeira vez que isto me acontece, e nem será a última. Pessoas que se aproximam para confidenciar as suas histórias de vida e revelar segredos torturantes. Depois vão embora como se nada tivesse acontecido, como se o continuum do tempo-espaço não tivesse quebrado por um momento fora da ordem para a revelação da história de vida para um estranho qualquer. Não sei o motivo pelo qual me escolhem entre tantas pessoas, mas suspeito que existe algo em minha atitude que me torna um pararraios de histórias. Talvez seja uma questão de empatia. Ou as pessoas sabem, no seu mais fundo, que eu as escutarei sem fornecer juízos de valor e as entenderei, por mais vergonhoso que seja o que pretendem confidenciar.

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Como observei que as pessoas geralmente iniciavam a conversa perguntando o que eu fazia, deixei de responder “advogado” (nem me atrevo a dizer que também escrevo, receio o que esta revelação pode causar) e escolhi o insípido “sou estudante”. Todos são estudantes, até os mestres. Mesmo assim, isto só diminuiu a quantidade de histórias, mas não cessou o fluxo. As pessoas precisam falar. Eu, que já ando cheio com as minhas histórias próprias, não gostaria de ganhar novas. Mas, ainda assim, as escuto. Com fascínio e desconforto, como se fosse convidado a invadir a existência do outro e olhar o mundo pelos seus olhos.

Depois de tantos anos, notei que a maior característica das pessoas é a indecisão. Ninguém sabe direito como agir ou aquilo que deve ser feito. Contar a história de vida para algum desconhecido faz com que, por alguns instantes, o mundo passe a fazer sentido. E, quando encontram alguém que não só escuta a história como a entende de forma quase empática, juntam o melhor de dois mundos. Não tenho respostas, mas percebo que a indecisão fica um pouco menor se a história puder ser compartilhada e passada adiante.

Às vezes, acho que as pessoas simplesmente preferem transferir as suas dores para a minha biblioteca interna de relatos. São tantas as conversas que, nos últimos tempos, aquilo que mais ambiciono é o silêncio. Um gigantesco cansaço me domina quando alguém surge do nada e diz “deixa eu te contar uma coisa…”. Em algumas ocasiões, sinto subir um desesperado pedido de piedade do meu peito, e preciso sufocar a vontade de me afastar correndo, como se estivesse temeroso do que outro drama pode me causar por dentro. Pois eu sinto cada maldita história como se fosse a minha vida. Por que eu as vivo com toda a intensidade.

E todos são tão indecisos, tão imprecisos. Ninguém sabe direito o que fazer, se está agindo de forma correta ou não. Percebo que a literatura se apropriou desta questão. As obras que mais admiro se centram no entre-espaço da dúvida, na angústia da incerteza. Em “Dom Casmurro”, do Machado de Assis, não sabemos se Capitu traiu ou não Bentinho. Na “Missa do Galo”, nunca saberemos o que a mulher realmente quis dizer para o jovem. Em “Hamlet”, de Shakespeare, a questão primordial resume a condição humana: ser ou não ser. Em “O Sul”, de Borges, nunca saberemos o resultado final do duelo para o qual o narrador se desloca. Nunca saberei quem invadiu a casa de “A casa tomada”, do Cortázar. Nunca temos certeza de nada. E é isto o que nos torna grandes e, paradoxalmente, tão miseráveis.

Foi pensar assim que me fez notar: a verdadeira literatura não se faz de certezas, mas de dúvidas. Temos inseguranças por todos os lados. Desde autores que não sabem se estão se expressando corretamente até personagens que, tão humanos, ficam em constante questionamento sobre as suas atitudes. Se pensarmos na arte como um microcosmo da vida, vemos que os artistas são pessoas que, em alguma encruzilhada da vida ou mesmo dúvida estética, optaram por seguir um lado. Velázquez poderia ter colocado a corte da rainha em outra posição que não fosse a presente no “As meninas”; Rodin poderia ter levantado o queixo da mulher em “O beijo” e ela deixaria de ser abandono para se transformar em desafio; Beethoven poderia acrescentar algumas notas na Quinta Sinfonia e deixá-la mais leve, e menos fúnebre. No entanto, os artistas fazem opções, e são elas que acabam determinando o sucesso ou o fracasso da obra – assim como acontece com a vida.

Acredito que a melhor definição deste homem frágil e indeciso vem do Fernando Pessoa, quando diz:

“Ninguém sabe o que quer.
Ninguém conhece a alma que tem.
Nem o que é mal nem o que é bem.
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.”

São palavras sábias. Quem pode dizer com segurança aquilo que quer? Gostaria de aplacar as pessoas, dizer que os seus dilemas não possuem respostas, e isto é normal. Quem nos disse que todas as dúvidas precisam ter tranquilizadoras certezas? Por menor que seja o problema ou por maior que seja a angústia, não existem decisões fáceis.
Com alguns versos, Fernando Pessoa desvenda a complexidade das pessoas como ninguém, o que me faz pensar quantas pessoas o viam caminhando pelas ruas de Lisboa e vinham interromper seus passos para contar dramas (parece que é algo que acontece com muita frequência com escritores). Ninguém sabe exatamente aquilo que quer; se não sabe, como saberá quando chegou ao objetivo? Não somos capazes de separar com precisão o bem do mal, a conduta certa daquilo que é errado, elas se misturam. A vida é incerta e derradeira.

O que precisamos é nos definir. Em um passado humanista, as pessoas tinham tempo para buscar as respostas através da auto-contemplação e da reflexão. Hoje, não temos tempo e nem espaço para tanto. Como toda busca, quanto antes definirmos o nosso percurso, melhor seria. O ideal seria nos admitirmos como seres incompletos e indecisos. Não imaginar que temos respostas absolutas, pois elas não existem. O que existe é a resposta dada em um determinado momento.

Também cresce em mim a convicção de que existem perguntas que funcionam melhor se jamais forem respondidas, pois não podemos lidar com a verdade. Assim, não perguntamos se somos boas pessoas, se estamos agindo certo, se a outra pessoa gosta ou não de nós. Pois a verdade é insuportável, ao passo que a ilusão traz conforto.

Quanto antes admitirmos a falibilidade, mais rápido seremos capazes de entender que tudo possui o seu próprio ritmo, que sempre teremos dúvidas e que elas fazem parte da nossa essência. Admitirmos que somos sínteses, como disse Kierkegaard:

“O homem é uma síntese do infinito e do finito, do temporal e do eterno, da liberdade e da necessidade, mas essencialmente é uma síntese. Uma síntese é a relação ente dois fatores. Pensando assim, o homem não é sequer um ser completo.”

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Kierkegaard

Quando as pessoas se aproximam para contar os seus dramas, no fundo elas desejam compartilhar as dúvidas. Reconhecer que o outro também é inseguro. Sequer pretendem respostas ou conselhos. Elas só querem mostrar que a indecisão do como agir lhes corroi por dentro. E esperam compaixão. Esperam que uma invisível mão pouse sobre o ombro e afaste as dúvidas, diga que está tudo bem, que foi a decisão certa.

Ao buscarmos o conforto alheio, seja na forma de uma relação, seja na forma de uma conversa, queremos dividir a nossa angústia de não sabermos se estamos agindo certo ou errado. Se ainda somos capazes de conseguir um perdão impossível: o perdão por existirmos e causarmos consequências indevassáveis por onde andamos. Pois viver, no final das contas, é tomar decisões e destruir possibilidades.

Se eu tivesse que sintetizar Deus em uma expressão, diria que o divino é não ter dúvidas ou incertezas. Por isso, somos humanos. E nunca passaremos de sínteses, este espaço do pulo entre dois extremos, criaturas cheias de incertezas e questões irrespondíveis.

(Texto originalmente publicado no link http://literatortura.com/2016/04/necessidade-de-contar-historias/)

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Arquivado em Fernando Pessoa, Generalidades, Literatortura, Soren Kierkegaard

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