Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (05/04/2016): “As bibliotecas que falam”

Nessa semana, na minha coluna no Medium da Dublinense, falei sobre a escolha de uma frase ou cartaz para colocar na porta da minha biblioteca – e o que tal decisão acarretou na minha vida.

Boa leitura!

 

As bibliotecas que falam

 

Uma das partes mais legais de constituir uma biblioteca não é ajeitar os seus livros nas prateleiras, mas imaginá-la como um sonho em construção. Pensar naquela parte da casa como um espaço em constante debate, algo que possui espírito, personalidade e humor: a biblioteca como uma criatura viva, formada por inúmeras vozes dissonantes. Neste caso, o local espalha tentáculos invisíveis não somente pela residência, transformando-se no seu anônimo coração, como também pela vida do proprietário. Não é tão difícil entender o fascínio das pessoas que acumulam livros por anos, às vezes por vidas. Uma biblioteca é uma fonte de diversão constante.

No momento em que escrevo estas palavras, estou sofrendo um brutal assédio de meus livros. Desde que souberam da minha intenção de colocar uma frase como modesto pórtico, eles apressaram-se para submeter as suas qualificações; dezenas de frases, ideias e imagens surgiram. Todos brigam para ter o posto de livro mais lembrado entre os demais, ainda que, para mim, mesmo o mais singelo exemplar tem a sua importância.

Cada vez que defino uma frase ou expressão ou poema para adornar o pórtico, a visão de um livro me faz alterar a vontade. Circulo entre as prateleiras, abrindo exemplares à procura de frases completas cujos pedaços a memória ainda retém, e assim passei por John Donne (“a morte é uma ascensão a uma biblioteca melhor”), por Plínio o Velho (“os espíritos imortais dos mortos falam na biblioteca”) e por Virginia Woolf (“tranque as suas bibliotecas, se quiser; mas não há nenhuma porta, nenhum cadeado, nenhum ferrolho que você possa colocar sobre a liberdade da minha mente”).

Também descartei clichês, como a frase de Cícero (“Se tiveres um jardim e uma biblioteca, nada mais será necessário”) e a de Borges (“Sempre imaginei que o Paraíso fosse uma espécie de biblioteca”), não por não gostar, mas por que já li tantas vezes que elas não me causam nenhum sentimento. Precisa ser uma frase ou ideia que sintetize além de um livro, toda a coletividade. Em suma, ser a frase exata, e neste instante Flaubert grita da prateleira “Le mot chose!”, feliz de ser lembrado, e eu preciso acalmá-lo.

No passado, era costume que as bibliotecas tivessem frases no seu pórtico, tanto para recepcionar os visitantes quanto para alertá-los sobre a cultura que lhes esperava. Não eram frases retumbantes, pois partiam do princípio de que, quanto menos letras e menos informação, mais objetividade. Na biblioteca de Nínive, construída por Assurbanipal e que abrigava milhares de placas de argila e de madeira, contam que uma frase recepcionava os consultentes, “Tenha calma”, e nunca se soube se era um conselho dos bibliotecários para os apressadinhos ou uma indicação para toda a vida.

Na entrada da Biblioteca de Alexandria, tinha uma inscrição: “aqui, cura-se a alma”. No entanto, provavelmente a melhor definição da Biblioteca de Alexandria foi dada por Fílon no século I: “eis o palácio da memória”. Seriam duas ótimas frases para encimar a minha biblioteca.

Nos seus primórdios, a Biblioteca de Alexandria não tinha somente muitas estantes com livros, mas era decorada com temas mitológicos repletos de cores estrondosas, além de seu interior ter parques temáticos, um zoológico e um jardim botânico. Praticamente uma Disneylândia dos livros, algo muito kitsch, o contrário do cenário discreto que hoje imaginamos para um espaço com livros. Por causa de tamanhos exageros estéticos, a Biblioteca recebeu de Timão de Fluinte o maldoso apelido de “Jaula das Musas”, que, como todo bom apelido, acabou ficando. Imaginar as Musas horrorizadas a caminhar pela Biblioteca de Alexandria enquanto planejam sua fuga de tamanho espetáculo de mau gosto é algo que me diverte.

A biblioteca de Alexandria

A biblioteca de Alexandria

O que pouca gente sabe é que a Biblioteca de Alexandria sempre foi uma criatura feminina. Desde os seus primórdios, ela foi pensada como uma mulher. Era constituída por duas bibliotecas distintas, a Mãe e a Filha. Júlio César, em luta com Pompeu, acidentalmente colocou fogo na Mãe, e a Filha passou a ser a única sobrevivente. Interessante observar como ela seguiu a ideia de crescimento humano, pois começou pequena, à sombra da Biblioteca Mãe, e, com a “morte” desta, evoluiu, agigantou-se, tornou-se adulta até que, ao final do seu percurso de existência, também morreu. Outro erro muito comum é imaginar que a Biblioteca de Alexandria foi destruída em um único e gigantesco incêndio. Na realidade, foram vários incêndios no decorrer de quase dois séculos, aliados ao desinteresse do governo de alocar verbas e investir em uma biblioteca (qualquer semelhança com a atualidade é mera coincidência).

As melhores inscrições podem ser as mais simples. E nem necessariamente se referirem a livros, mas conter conselhos para quem se aproximar da biblioteca ou até mesmo lembretes para o seu proprietário.

O que me faz recordar dos Sete Sábios da Grécia. As pessoas são loucas por listas, e na Grécia Antiga não devia ser diferente. Existiu um tempo em que as cidades-estado gregas debateram para saber quem eram os seres mais sábios entre todos que pisaram no planeta.

A lista foi exaustivamente depurada. Na sua primeira versão, era formada por 41 personalidades, e incluiu pessoas reais, personagens literários e até mesmo figuras míticas. Não era uma lista muito justa: ao lado de Sólon de Atenas, estava Ulisses, da Odisseia de Homero, e Quíron, o centauro que ensinou Heracles.

Em seguida, uma nova listagem excluiu mitos e personagens, e chegou a 22 nomes, alguns dos quais, infelizmente, nunca saberemos quais eram as suas lições: Tales, Pítaco, Bias, Sólon, Míson, Cleobulo, Periandro, Quílon, Aristodemo, Epimênides, Leofanto, Pitágoras, Anacarses, Epicarmo, Acusilau, Orfeu, Pisístrato, Ferecides, Hermióneo, Laso, Panfilo e Anaxágoras.

Por fim, em um grande esforço de limpeza da lista, acabou se chegando aos sete nomes que representavam a fina nata da filosofia antiga: Cleóbulo, Quílon, Periandro, Pítaco, Sólon, Bias e Tales. O Dream Team do pensamento grego.

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Os Sete Sábios da Grécia

Pensando nos Sete Sábios da Grécia e nos seus ensinamentos curtos e precisos, se eu pudesse concentrar a sabedoria necessária para uma vida tranquila em palavras, possivelmente usaria um pequeno poema anônimo da Grécia antiga e que chegou aos nossos tempos:

“Dos sete sábios direi o nome, a cidade e a sentença.

A medida é o melhor, disse Cleóbulo de Lidos;

Quílon, da vácua Lacônia: conhece-te a ti mesmo;

Periandro, que em Corinto morou: dominar a cólera;

Pítaco, natural de Mitilene: em excesso, nada;

Sólon, da sagrada Atenas: olha para o fim da vida;

maus, na maioria, os homens, disse Bias de Priene;

e Tales de Mileto advertiu: receia a segurança.”

Seria um belo poema para ilustrar a porta da minha biblioteca, algo que daria paz de espírito àqueles que nela adentrassem e lhes aconselharia – de forma sutil – a levar alguns ensinamentos consigo.

No entanto, também tenho um lado perverso, e ele recorda que, por muitos anos, a única maneira que existia de alguém ter um belo livro era roubando. Os livros eram caros e feitos de forma artesanal. Ou as pessoas roubavam exemplares inteiros ou arrancavam as folhas que lhe interessavam. Como não existia controle possível, nem câmeras, nem monges suficientes para guardar os tesouros, existia o costume de amaldiçoar as pessoas que roubavam livros.

Neste sentido, talvez fosse oportuno – como uma espécie de aviso delicado – colocar na porta da minha biblioteca uma placa com os mesmo dizeres que adornam as paredes do mosteiro de São Pedro, em Barcelona:

“Para aquele que rouba ou toma um livro emprestado e não devolve um livro de seu dono, que o livro se transforme em serpente em suas mãos e o envenene. Que seja atingido por paralisia e todos os seus membros murchem. Que definhe de dor, chorando alto por clemência, e que não haja descanso em sua agonia até que mergulhe na desintegração. Que as traças corroam as suas entranhas como sinal do Verme que não morreu. E, quando finalmente for ao Julgamento Final, que as chamas do Inferno o consumam para sempre”.

Não seria muito simpático, mas a biblioteca não é um espaço para ser agradável, ainda mais quando o assunto envolve o sumiço de livros.

Contudo, acaso eu tivesse o necessário espaço para tanto, faria como Michel de Montaigne fez na sua biblioteca, no interior da França. Montaigne possuía um castelo e, ao lado, existia uma torre desocupada. O escritor e filósofo francês resolveu transformá-la na sua biblioteca de sonhos e, para tanto, planejou uma inovação arquitetônica. Ao invés do formato quadrado ou retangular esperado para prateleiras de livros, Montaigne deixou a biblioteca em formato de círculo, da mesma maneira que as paredes internas da torre. Assim, quando entrava na sua biblioteca, os livros estavam sempre visíveis, sempre lhe cercando. Para a época, foi uma grande inovação estrutural realizar prateleiras circulares, e imagino que Montaigne deve ter enlouquecido os arquitetos e responsáveis pela obra.

Não suficiente, o agitado filósofo resolveu não colocar uma única e limitada frase para definir a sua biblioteca. Seria difícil escolher uma e, por conseguinte, por que não colocar várias? Em todas as vigas da biblioteca, Michel de Montaigne mandou gravar frases de filósofos gregos e romanos que admirava, e no seu idioma original. Também colocou frases da Bíblia, em especial do livro do Eclesiastes e do Cântico dos Cânticos.

Montaigne Castle, birthplace of philosopher Michel de Montaigne (1533-1592). The Castle was destroyed by fire in 1885, the Library-tower alone remained. The wooden ceiling of the Library is inscribed with Greek and Latin quotations.

O teto da biblioteca de Montaigne.

As frases são muito interessantes e irei transcrevê-las já traduzidas para o português:

1 – Para o homem o extremo da ciência é considerar boas as coisas que acontecem e não se preocupar com o restante.

2 – O desejo de conhecer foi dado por Deus ao homem para seu tormento.

3 – O ar infla os odres vazios; a presunção infla os homens sem discernimento.

4 – Tudo o que há sob o sol está sujeito à fortuna e à lei.

5 – Pois a vida mais feliz é não ter pensamento.

6 – Isso não é desta maneira mais que daquela outra ou de nenhuma das duas.

7 – Há em nós uma noção do grande e do pequeno mundo das coisas que Deus fez em tão grande número.

8 – Vejo com efeito que todos nós, tanto quanto somos, nada mais somos que fantasmas e sombras diáfanas.

9 – Oh desventurados corações dos homens! Oh inteligências cegas! Em que trevas e em meio a quantos perigos se escoa esse pouco tempo que vivemos!

10 – Quem conta com sua elevação será derrubado pelo primeiro infortúnio que ocorrer.

11 – Todas as coisas, céu, terra e mar, nada são, perto da totalidade do grande todo.

12 – Viste um homem que se julga sábio? Há mais a esperar de um insensato do que dele.

13 – Pois que ignoras como a alma é unida ao corpo, não conheces a obra de Deus.

14 – Pode ser e pode não ser.

15 – O bom é admirável.

16 – O homem é de argila.

17 – Não sejais sábios a vossos próprios olhos.

18 – A superstição obedece ao orgulho como a seu pai.

19 – Deus não permite que ninguém além dele se orgulhe.

20 – Não deves nem temer nem esperar teu último dia.

21 – Homem, não sabes se isto te convém mais que aquilo ou ambos igualmente.

22 – Homem sou, e nada que é humano me é alheio.

23 – Não sejas mais sábio do que é preciso para que não te tornes insensato.

24 – O homem presunçoso de seu saber ainda não sabe o que é saber.

25 – O homem que nada é, se julga ser alguma coisa, está seduzindo a si mesmo e se enganando.

26 – Não sejais mais sábios do que é preciso, mas sede sobriamente sábios.

27 – Nenhum homem soube nem saberá nada de certo.

28 – Quem sabe se a vida é o que chamamos morte e se morrer é viver.

29 – Todas as coisas são difíceis demais para que o homem possa compreendê-las.

30 – Há grande possibilidade de falar tanto a favor como contra.

31 – O gênero humano é muito ávido de narrativas.

32 – Quanta inanidade em todas as coisas!

33 – Vanidade em todas as coisas.

34 – Guardar a medida, observar o limite, siga a natureza.

35 – Por que te glorificares, terra e cinza?

36 – Ai de vós que sois sábios aos vossos próprios olhos!

37 – Desfruta agradavelmente o presente; o restante está fora de teu alcance.

38 – A todo argumento pode-se opor um argumento de mesma força.

39 – Nosso espírito vagueia nas trevas; cego, não pode discernir a verdade.

40 – Deus fez o homem semelhante à sombra, que julgará depois do ocaso do sol.

41 – Não há nada certo exceto a incerteza, e nada mais miserável e mais orgulhoso que o homem.

42 – De todas as obras de Deus, nada é mais desconhecido ao homem que o vestígio do vento.

43 – Cada qual tem suas preferências entre os deuses como entre os homens.

44 – A opinião que tens de tua importância te porá a perder, porque te julgas alguém.

45 – Os homens são atormentados pelas ideias que têm sobre as coisas, não pelas próprias coisas.

46 – Convém que um mortal não eleve seus pensamentos acima da humanidade.

47 – Por que cansares teu espírito com eternos cuidados que estão acima de teu alcance?

48 – Os julgamentos do Senhor são um grande abismo.

49 – Nada decido.

50 – Não compreendo.

51 – Mantenho-me na dúvida.

52 – Examino.

53 – Tomando como guias os costumes e os sentidos.

54 – Pelo raciocínio alternativo.

55 – Não posso compreender.

56 – Nada mais.

57 – Sem se inclinar para lado algum.

Impossível não imaginar a seguinte cena: ao final de um dia lidando com a sua família e com os criados, Montaigne entra na biblioteca e senta-se na cadeira para escrever. Ao seu redor, todos os livros lhe espiam; sobre a sua cabeça, frases sábias recordam-lhe do que é importante sempre manter em mente. Não é tão difícil de entender, neste cenário, como Montaigne conseguiu escrever “Os Ensaios”, pois tudo conspirava a seu favor.

Ainda não sei qual a frase que usarei para encimar o modesto pórtico da minha biblioteca. Estou imerso em dúvidas, e não consigo definir algo que represente a intensidade da relação que tenho com meus livros e vice versa. Enquanto isto, reunidos no seu espaço, eles planejam campanhas silenciosas para me convencer. Prevejo tempos de muita diversão.

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/as-bibliotecas-que-falam-4f109f88330c#.s9r6zs8hk

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Arquivado em Biblioteca, Dublinense, Filosofia, Montaigne, Sete Sábios da Grécia

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