Escrever é uma forma de oração

Não é uma frase minha: “escrever é uma forma de oração”. É de Kafka. Estou revisando os apontamentos que fiz no ano passado para uma palestra sobre Kafka, e acabei me deparando com esta frase, ao lado de dezenas de outros assuntos que não cheguei a mencionar.

(Algum dia escreverei um livro: As palestras que nunca proferi”. Pois faço exaustivas preparações visando a fazer a melhor palestra possível e, na hora H, o que menos faço é seguir o script. As palestras que não dou são fantásticas – pena que nunca cheguei a realizá-las.)

Pensar na escritura como uma forma de prece é algo em que acredito, mas não no sentido religioso. Quando alguém se senta para escrever, deve ter um objetivo mais amplo do que somente escrever. Como rezar. Quem disse que a Literatura não pode ser uma espécie de religião, com seus milhares de seguidores, propagadores e acólitos? Na origem de todas as religiões, encontra-se um livro. E se estamos rezando para os deuses errados?

Tenho lido livros desgastantemente vazios, sem nenhuma história que não seja uma gigantesca vacuidade de pensamentos e voos estilísticos escondendo a ausência de visão de mundo própria, só um monte de enlatados culturais.

Não só os livros, mas eventos literários se tornaram antecâmaras de tortura da literatura, e aqui lembro outra frase que não disse na palestra, outro desabafo inconformado de Kafka: “Tudo que não é literatura me aborrece, e eu odeio até mesmo as conversas sobre literatura”. Melhor do que falar sobre literatura é pensar com responsabilidade nela, ter algum respeito com a história que desejamos contar. Não escrevemos sozinhos; fazemos parte de uma tradição de outros homens e mulheres que imaginaram serem capazes de mudar o mundo através de palavras. Devíamos ser mais sérios, menos levianos.

 

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Nas minhas pesquisas, acabei encontrando a íntegra de uma carta que Kafka enviou para o seu amigo Oskar Pollak em 1904. Já li muitas vezes uma única frase desta carta, a qual  inclusive virou meme, mas não imaginava que a parte importante dela estava antes da frase:

“No fim das contas, penso que devemos ler somente livros que nos mordam e nos piquem. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos ao trabalho de lê-lo? Para que nos faça feliz, como diz você? Meu Deus, seríamos felizes da mesma forma se não tivéssemos livros. Livros que nos façam felizes, em caso de necessidade, poderíamos escrevê-los nós mesmos. Precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, que nos façam sentir como se tivéssemos sido banidos para a floresta, longe de qualquer presença humana, como um suicídio. Um livro tem de ser um machado para o mar gelado de dentro de nós. É nisso que acredito.”

Não respeito muito livros que desejam me fazer feliz. Quero obras que me quebrem ao meio, não histórias edificantes. Procuro livros que sejam capazes de me matar, de se cravarem no meu espírito como um gládio romano e me fazer sangrar até a última respiração. Livros que façam aflorar o desejo de suicídio na minha alma. Livros que me mostrem aquilo que não tenho coragem de enxergar.

Se não for para escrever como se fosse matar alguém, melhor nem começar.

2 Comentários

Arquivado em Franz Kafka, Literatura Contemporânea, Temas de crítica literária

2 Respostas para “Escrever é uma forma de oração

  1. Durval Augusto Jr.

    A literatura como uma faca que dilacera carapaças.

  2. rascunhosdocotidiano

    Gostei muito do texto. Concordo plenamente com Kafka, escrever é, de fato, uma forma de oração. Por isso é preciso muita bossa, muito amor, muita tristeza e muito riso para se fazer um texto e também para ler. Por favor, me visite quando puder: https://rascunhosdocotidiano.wordpress.com/

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