Texto publicado no Literatortura (31/03/2016): “Quantas Capelas Sistinas destruímos por dia?”

Na minha coluna dessa semana no Literatortura, falei de um assunto que me desperta constante fascinação: como as pessoas falam coisas e não sabem direito o que estão dizendo. Lutar com palavras é a luta mais vã, dizia Drummond, e Neil Gaiman acrescenta que palavras possuem poder, mas, ainda assim, as pessoas insistem em usar palavras cujo alcance completo são incapazes de entender. Uma palavra mal usada é tão perversa quanto uma faca.

Boa leitura!

Quantas Capelas Sistinas destruímos por dia?

Se tivéssemos a capacidade de colocar problemas na mira de um microscópio de altíssima resolução, como cientistas, e fossemos capazes de ver o que se esconde na raiz das nossas aflições, provavelmente nos decepcionaríamos ao ver o quanto as preocupações possuem origens mínimas. Aquilo que vemos hoje como um elefante de guerra da época de Aníbal pode não passar de um minúsculo rato que, por jogo de sombras e espelhos, tornou-se muito maior do que a realidade.

Na base de todos os nossos problemas sociais – a violência, a corrupção, o descaso com os outros e a ignorância – encontra-se uma circunstância ínfima, e é incrível que possa crescer até virar uma avalanche: falamos palavras que não entendemos direito. Pior ainda, somos capazes de discursar por horas e preenchermos livros inteiros sem saber direito o que estamos fazendo. Sofremos de um grave problema conceitual.

Antes de mais nada, observem o pronome pessoal que utilizo: “nós”. Eu estou incluído entre estas pessoas. Não tenho certeza de que possuo algum tipo de razão, nem mesmo quando escrevo estas palavras. Duas semanas atrás, alguém me comentou que achava um gesto de extrema coragem escrever e tornar públicas as minhas palavras, ao que acrescentei “não é coragem, é loucura”. Olhem ao redor: o mundo está cheio de gente escrevendo. Alguns possuem maior habilidade, outros não, mas o fato é que passamos boa parte do dia escrevendo, lendo e transformando pensamentos em imagens, palavras, sons. Neste contexto, sou somente mais uma pessoa cheia de palavras a escorrer em telas de computador e papéis. O que talvez me diferencie são meus constantes questionamentos. Parto do princípio não de estar sempre correto quando escrevo, mas de errar o mínimo possível. Sou como o enxadrista sábio: não busco a vitória, mas tenho como objetivo não perder a partida.

Esta dificuldade conceitual está em todos os lugares, só não somos capazes de enxergar. Espalha-se por todos os cantos, e é algo tão insidioso que, quando vemos, já aconteceu e é tarde demais para voltar atrás.

Nesta semana, li o necrológio que a revista VEJA fez sobre o jogador de futebol Johann Cruyff. No início do texto, o repórter traça um paralelo entre a habilidade de Cruyff e o momento em que Picasso inaugurou o cubismo ao desmontar corpos femininos em Les Demoiselles d’Avignon. Não suficiente, disse que a inovação trazida pelo jogador holandês para o futebol foi como o momento em que Bob Dylan pegou a guitarra elétrica para tocar Like a Rolling Stone, rompendo com o folk e começando novos caminhos para a música. As duas comparações foram feitas com o intuito de demonstrar que Cruyff foi um jogador tão genial que elevou o futebol à categoria de arte.

Não. Lamento informar, mas futebol não é arte. Na realidade, é um esporte e, como muitos esportes, às vezes o seu ideal de perfeição o aproxima da noção de arte, da impressão de que aquilo está além dos limites humanos. Importante lembrar que os gregos antigos costumavam ir aos estádios e centros de treinamento para ver corpos se exercitando, e muito dos ideais estéticos que possuímos hoje nasceu dos esportes. No entanto, por mais incrível jogador que tenha sido, Johann Cruyff foi um esportista, e não um artista.

Pode parecer uma discussão pequena, mas esconde uma série de questões relevantes. Se considerarmos que o futebol é algo em que determinados futebolistas podem se transformar em artistas, por que não alcançamos o mesmo direito aos demais esportes? Ao atletismo, à natação, ao levantamento de peso? Em pensando assim, o número de artistas cresceria velozmente ao redor do mundo. A propósito, quais seriam os critérios capazes de definir o que é um bom esportista e diferenciá-lo de um artista? Concordo que o futebol pode ser usado como instrumento de arte, que o digam os textos de Nelson Rodrigues, mas não como arte em si mesma.

Podemos ir além: por qual motivo circunscreveríamos ao esporte a possibilidade de alguém virar um artista? Um professor, um advogado, um engenheiro, qualquer pessoa é capaz de ser um artista na sua área de atuação. Pensando assim, a palavra “artista” e a sua origem, “arte”, tornar-se-iam usuais, sendo usadas de maneira tão indiferente que, não raro, seriam aplicadas para qualquer pessoa que fizesse uma atitude correta. “Fulano é um artista, pois hoje correu e pegou o ônibus”. Eis o risco de vulgarizar as ideias e desconhecer o conceito das palavras: em um mundo onde qualquer pessoa é artista, ninguém mais é artista de verdade.

Usei o exemplo do futebol, pois está recheado de metáforas e de analogias inflamadas. No seu afã de elogiar – e de conduzir o louvor ao paroxismo -, os repórteres usam palavras a rodo, gerando expectativas injustas sobre determinados esportistas. Em alguns momentos, aproximam a experiência de uma simples partida de futebol a algo que está além do bem do mal, a uma experiência semi-religiosa em que Deus vem à Terra para ser adorado enquanto marca gols e dribla zagueiros,  à contenda entre dois exércitos selvagens (não estranho o clima belicoso que cerca as partidas de futebol atual, pois o discurso usado ao redor delas é de extrema violência). Se usarmos palavras, podemos mudar o mundo. No entanto, se usarmos palavras a esmo e sem atentar para a sua verdadeira noção, podemos acabar com a Humanidade em não mais do que dois ou três discursos desastrados.

Eu tinha falado sobre o meu desgosto com as pessoas que atualmente usam as palavras “heroi”, para quem faz qualquer coisa certa, e “genial”, para quem atinge a excelência em uma tarefa que realizou. Se vamos para conceituação clássica, “herois” são pessoas muito maiores do que quem agiu de forma correta. O verdadeiro heroi é aquele homem ou mulher que, mais do que acertar, também consegue se recuperar dos seus erros. Ele é um somatório de atitudes certas e erradas. Aquiles foi um herói, mas era um psicopata. Heitor era um heroi, mas igualmente uma vítima da sua criação militar. Ulisses fez dezenas de burradas no seu caminho para Ítaca, e é um heroi, não pelo tanto que acertou, mas pela habilidade de conviver com os próprios erros.

Da mesma forma, dizer que Fulano é “genial” tira toda a força da palavra. As pessoas “geniais” são aquelas tão inovadoras e espantosas que não possuem mais classificação possível que os distinga do resto do gênero humano. Não sei se a Humanidade conheceu até hoje 10 ou 12 pessoas geniais, e alcançar tal adjetivo para qualquer um, longe de elogiá-lo, é fazer uma ironia bem perversa. Leonardo da Vinci foi uma pessoa genial, cuja vida e obra ainda repercutem no nosso mundo. Assim, chamar um domador de cavalos qualquer de “genial” é como compará-lo a Leonardo da Vinci, e isto é quase uma ofensa pelo exagero despropositado.

A utilização errada das palavras – ou com propósitos mal intencionados –  me faz lembrar do mais virulento crítico de Michelangelo. Pietro Aretino era um nobre da região de Arezzo que foi expulso de Roma e se instalou em Veneza, onde era sustentado pelos ricos. Ele se jactava de ser o maior crítico de arte que já existiu, além de poeta. Fazia jornalismo panfletário, no qual comentava obras de arte de forma espirituosa e cáustica. Dava a si mesmo o título de “Secretário do Universo” e de “Flagelo dos Príncipes”, demonstrando bem o medo que os poderosos tinham dos seus comentários. Foi amigo de Ticiano, de Rafael e de Jacopo Sansovino, de Vasari e de Salviati, além de ser conselheiro de jovens artistas que buscavam a sua proteção para iniciar no mundo das artes.

"Pietro Aretino", por Ticiano

“Pietro Aretino”, por Ticiano

Até o momento em que soube de Michelangelo pintando o teto da Capela Sistina. Detalhe interessante é que, por ter sido expulso de Roma, Aretino nunca vira o trabalho de Michelangelo, mas somente ouvira opiniões, entre as quais a de Vasari, que lhe enviara uma carta em que chamou o artista de “o Deus próprio da escultura”. Observem o exagero das palavras e da comparação fascinada de Vasari, em geral um homem comedido.

Tudo o que o crítico conseguiu pensar é em si mesmo: no quanto o seu nome estaria inscrito para sempre na História da Arte se as suas ideias servissem de inspiração para Michelangelo. Estava enciumado da atenção que Michelangelo recebia dos outros artistas por conta de uma pintura que jamais poderia enxergar em razão do seu exílio; neste momento, Ticiano já visitara a Capela Sistina e dissera que o colega não só era o maior artista vivo, como deveria servir de paradigma para todos os pintores e poetas que lhe sucederiam.

Por este motivo, em um gesto ousado, Aretino tentou colocar a sua assinatura invisível na obra que não lhe pertencia. Mandou uma longa correspondência, intitulada “Carta ao divino Michelangelo”, com o propósito manifesto de louvar o artista e tentar seduzi-lo através da vaidade. No meio da carta, colocou a sua visão do final dos tempos – o “Juízo Final” – e sugeriu, de forma discreta, que Michelangelo devia adotá-la como modelo para a sua pintura. Em determinados momentos, falou sobre o poder das suas críticas de arte e o quanto ele é temido, deixando sempre um leve tom ameaçador para que Michelangelo saiba o que poderia acontecer se não seguisse as suas ideias. Ao final, o crítico sugeriu uma série de imagens que podiam ser adotadas na obra ainda em fase de realização, bem como as alegorias que deveriam aparecer na imagem. Concluiu dizendo que eram somente sugestões, mas Michelangelo não devia descartá-las, pela óbvia experiência de Pietro Aretino no assunto artístico. Em suma: pretendeu ensinar para Michelangelo o que era arte de verdade.

Dois meses depois, em novembro de 1537, o pintor toscano respondeu a carta. De forma que podemos entender como irônica, Michelangelo lamentou que a carta original tenha chegado depois da conclusão do “Juízo Final”. Em uma estocada deliciosa, diz que, se Deus fosse começar o Juízo Final naquele dia mesmo, com certeza iria se inspirar nas palavras e imagens idealizadas por Aretino, tão perfeita a descrição. Se é para puxar o saco, Michelangelo faria com classe.

Contudo, o artista cometeu um erro, pois prometeu fazer qualquer coisa para agradar ao crítico, o qual, em carta imediatamente enviada como resposta, pediu de presente um desenho qualquer, até um rascunho, qualquer papelzinho mínimo contendo uma imagem e que Michelangelo pretendesse jogar no fogo.

O pintor nunca respondeu – ele tinha o teto inteiro da capela Sistina para se ocupar – e isto atraiu a animosidade de Pietro Aretino. A mesma paixão e subserviência antes demonstrada na carta metamorfoseou-se em ódio. Foi assim que, em 1545, oito anos depois, aproveitando-se das discussões religiosas na Europa, Aretino fez um texto atacando frontalmente o “Juízo Final” exposto no teto da Capela Sistina, argumentando que eram pinturas imorais por conter nus, ou seja, tais imagens jamais poderiam fazer parte de uma igreja.

A campanha de Aretino foi forte, e tinha um único objetivo: se Michelangelo não seguira as suas ideias sobre o “Juízo Final”, a obra inteira deveria ser destruída. Os adjetivos outrora usados na carta – divino, magnífico, magistral, genial – foram substituídos por outros menos nobres – torpe, insignificante, vulgar, trabalho infeliz. Afirma que o teto da Capela Sistina inteiro é uma obra derivada de um homem “impiedoso” (Michelangelo não professava a fé católica como se esperava), além de ser licenciosa e possuir total falta de decoro. Continua afirmando que Michelangelo era um artista excelente, mas aquela pintura deveria ser destruída pelo bem da religião católica.

Apesar de todo o veneno destilado por Pietro Aretino, a obra sobreviveu à campanha difamatória e, se conseguimos hoje enxergá-la e nos admirar com o gênio de Michelangelo, foi por que as palavras insensatas dirigidas contra o afresco não foram levadas em consideração. Entretanto, existiram anos a convicção artística da Igreja Católica balançou, e não foram poucos os momentos em que a obra de Michelangelo correu risco de ser destruída por “fogo amigo” de religiosos, e as palavras de Aretino voltaram à tona, e em todas as ocasiões a pintura conseguiu sobreviver, mas sempre em uma luta ingrata contra a inveja do homem outrora preterido.

"O Juízo Final", de Michelangelo

“O Juízo Final”, de Michelangelo

Sobre este episódio que envolveu um crítico de arte e um dos mais completos artistas que já existiu, fica uma dolorosa lição. Quantas vezes não usamos as palavras de forma criminosa, tentando demolir os outros, sem atentar para a força das nossas opiniões? Um elogio falso pode esconder a vontade nada disfarçada de subjugar o outro; quando não pensamos no alcance real das palavras que dizemos, podemos não estar ajudando, mas atrapalhando. Recordo ainda o caso de uma amiga que colocava várias fotos na internet, sendo sempre elogiada pela sua beleza, até o dia em que um rapaz a recusou por achá-la feia e ela nunca mais se recuperou. Quem foi pior, o rapaz que disse o que pensava ou as pessoas que lhe inflaram o ego com elogios vazios? Sempre fiquei em dúvida.

Por pouco Aretino não destruiu a Capela Sistina com as suas opiniões repletas de vaidade e orgulho (vale lembrar que, por muitos anos, as partes consideradas “obscenas” da obra de Michelangelo foram tapadas para não ferir susceptibilidades religiosas). Podemos destruir várias capelas Sistinas por dia se não atentarmos para as palavras que usamos sobre aquilo que sentimos. Se está com vontade de dizer “eu te amo”, diga sentindo de verdade ou então não diga, pois mentir sobre isto é imperdoável. Se pretende dizer “eu te odeio”, que não seja por um motivo pueril como política ou futebol, mas diga com vontade de odiar e por questões intransponíveis. Se tiver a intenção de chamar alguém de “amigo”, reserve estas palavras para os verdadeiros amigos, não para pessoas que sequer conhece.

No momento em que usamos palavras cujo sentido foi esvaziado, podemos estar destruindo as aspirações de alguém. Ao chamarmos de “heroi” uma pessoa que não entra na ideia de heroísmo, de “artista” alguém que não faz arte ou de “genial” quem teve um único lance de sorte ou de habilidade, estamos não elogiando, mas criando uma bolha conceitual que pode explodir a qualquer momento – e até se virar contra nós. Coloquemo-nos dentro de um microscópio e perceberemos que grande parte dos nossos problemas e preocupações poderão ser evitados se simplesmente falarmos as palavras certas ao invés de criarmos ilusões discursivas.

Texto originalmente publicado em http://literatortura.com/2016/03/quantas-capelas-sistinas-destruimos-por-dia/

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Arquivado em Arte, Futebol, Literatortura, Michelangelo, Palavra, Pietro Aretino

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