Texto publicado no Literatortura (25/03/2016): “Em caso de incêndio, salvem o fogo e o ar”

Na minha coluna dessa semana no Literatortura, falei de um tipo de pessoa que toda hora aparece no meu caminho e confidencia o desejo que possui de começar a vida novamente.

Sinto-me um pouco chateado, pois jamais tive tal desejo. A vida que tenho, mesmo que repleta de problemas, preocupações e uma série quase infinita de erros e mal entendidos, está de ótimo tamanho. Acho extraordinariamente divertido tudo o que faço, desde escrever textos até processar gente como advogado por este mundo afora, ainda que admita estar me sentindo cada vez mais cansado: meu corpo não anda dando conta de tanta coisa que escrevo. Não consigo mais ver um mísero filme sem uma apoteose intertextual e interdisciplinar sacudir o meu espírito. Mas, enquanto for divertido, continuarei tal trajetória de autodestruição. Até dar com a cabeça na parede tem um lado divertido.

Boa leitura!

 

Em caso de incêndio, salvem o fogo e o ar

 

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Não são poucas as pessoas que sonham com o recomeço.

Uma simples olhada nas redes sociais ou uma atenção mais detalhada nos diálogos que infestam o nosso cotidiano e veremos uma grande ânsia por reiniciar a vida, o momento definitivo em que possamos enterrar aquilo que fomos para, enfim, começar de novo, mudar, adquirirmos uma nova identidade. Deixar para trás tudo o que nos preocupa, nos enfastia, nos amarra com tentáculos invisíveis, toda a teia em que nos envolvemos desde o início da existência, para passar a viver com mais sabedoria, tendo a experiência do passado a nos auxiliar, mas sem abrir mão de tentar um outro futuro,

Temos esta ilusão. Sonhamos com aquele dia – sempre o seguinte, e em seguida o outro – em que enterraremos de vez o nosso passado e começaremos, então, a viver de verdade. Imaginamos este futuro alternativo com tanta força que ele chega a doer. Fazemos listas de erros e acertos, tentando nos ajustar para a chegada do novo eu, evitar que ele caia nas mesmas armadilhas que nos embaraçaram por tanto tempo. Pensamos nas pessoas que gostaríamos de conhecer melhor, nos amores que poderíamos tentar, nos empregos que tentaríamos, nas viagens a serem realizadas, nas experiências incandescentes que nos esperam.

Desculpem o pessimismo, mas lamento informar que isto não vai acontecer.

Existir não é um jogo em que, cansados das regras, podemos pedir um tempo, sentar na beira do gramado e recomeçar a partida como se nada tivesse acontecido. Disse Shakespeare que a vida é um palco, e nós somos meros atores; só o Destino sabe se seremos coadjuvantes, figurantes ou principais, e ele sequer tem a decência de nos informar previamente por quanto tempo ficaremos sob a ribalta. Pior ainda: integramos a peça no meio. Não sabemos se estamos em uma comédia ou uma tragédia. Não nos deram o roteiro; inclusive ignoramos se existe algum. Não conhecemos os nossos companheiros de interpretação, e sentimos que eles estão tão perdidos quanto nós. Podemos escolher se seremos os mocinhos ou vilões, e ter tamanho poder faz com que oscilamos de um papel para outro, buscando algo que nos conforte. Aliás, sequer sabemos o motivo de estar no palco! Simplesmente aparecemos, e a plateia inexistente espera que façamos algo: se é desonroso ou heroico, nem mesmo nós sabemos. A vida é uma peça de teatro que não tem como dar certo.

Não acredito que um recomeço pleno seja possível, e nem sei se gostaríamos de reiniciar a vida no meio da sua jornada. Posso não me sentir confortável com todos os aspectos do meu ser, mas eles fazem um contraponto interessante com aqueles que gosto. Ter a pretensão de começar de novo implicaria em apagar todo o indivíduo que levei anos para formar, tanto nas características positivas quanto nas negativas, e eu não gostaria de abdicar das partes que gosto a meu respeito em benefício da dúvida daquilo que pode vir. É uma aposta muito arriscada; em time que está empatando, se reza para acabar de uma vez a partida.

Um dos temas mais comuns da literatura é o recomeço, sendo que não raro ele conduz à redenção: os crimes da vida passada são apagados pelas boas ações da nova existência. São as artes que dizem que podemos mudar de vida a qualquer momento; assim como sereias, elas tentam nos afastar da resignação do caminho único a que já nascemos previamente condenados, gerando sonhos inéditos. As artes foram a maneira encontrada para suavizar uma vida áspera e cruel. Seja apreciando-a, seja concretizando-a, as artes abrem novas possibilidades para uma vida que, como os gregos antigos diziam no teatro e nunca escutamos direito, estava escrita desde antes de nascermos.

Entre todos os livros que tratam de personagens que começaram novas vidas, recordo em especial de três, mas em todos recomeços existiram problemas. Não cabe a ninguém ter duas vidas no espaço de uma. Não interessa o quanto desejamos nos enganar, sempre possuiremos uma vida só. Em “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, Jean Valjean é um homem pobre que rouba um pão para alimentar a sua família; acaba sendo preso e, em uma tentativa de fuga, é novamente capturado, permanecendo 19 anos preso – sim, por causa de um pão. Se desejam procurar Justiça, não tentem o Poder Judiciário. Ao sair da cadeia, ele tenta começar vida nova, mas o passado insiste em assombrar na figura do inspetor Javert. A figura obcecada de Javert é um lembrete para Valjean que, não importando quanto tempo passe, dentro da sua pele ainda mora o mesmo bandido que permaneceu 19 anos recolhido a uma prisão. Uma curiosa metáfora para a nossa capacidade somente relativa de reiniciar a vida; não importa o quanto desejamos mudar, no fundo ainda seremos o mesmo. As atitudes mudam, mas a essência do ser humano não.

Ao contrário, em “Grandes Esperanças”, de Charles Dickens, a mudança de vida de Pip acontece por causa do amor. Apaixonado por Estela, ele amaldiçoa a sua pobreza e luta para sair desta condição e, assim, merecer a estima da mulher amada. Para ele, se tiver mais educação, mais cultura e mais dinheiro será mais fácil fazer com que Estela aceite o amor que os une. O seu desejo de recomeçar a vida está ligado às visões de outra pessoa, e isto é mais frequente do que imaginamos: quase todo desejo de reiniciar a vida não parte de uma necessidade interna imperiosa, mas para nos adequarmos a outra pessoa. Conhecemos inúmeras pessoas que fizeram tal movimento: deixar a própria vontade de lado para se adequar aos desejos de outrem. Está no cerne de todos os relacionamentos que fracassam. Quando Pip enriquece graças a uma herança, os seus problemas mudam de esfera, e a chance de virar uma nova pessoa digna do amor da mulher precisa ser constantemente recordada, pois o dinheiro não traz a mudança pretendida, mas aumenta a carga de responsabilidades e infortúnios.

De todos, o menos clássico dos livros que recordo é o mais aterrador sobre a impossibilidade de reiniciarmos a vida de forma plena, pois sempre estaremos presos na bigorna de quem outrora fomos. Em “Não matem as flores” de J.M. Simmel, o advogado Charles Duhamel é dado como morto em um acidente de avião. Infeliz com a vida luxuosa que levava, ele resolve recomeçar. Adota um outro nome, pega um emprego modesto, conhece uma mulher simples por quem se apaixona e sente-se feliz e confortável na nova existência. No entanto, o passado volta a procurá-lo na figura da esposa da outra vida que, movida por despeito, insiste em dizer que ele continuava vivo, e faz uma longa busca até o momento em que Charles Duhamel precisa se conformar com a ideia de que nenhuma pessoa pode viver duas vidas. O personagem é punido pela ousadia de realizar o sonho que conforta as nossas noites insones.

Eu não admiro as pessoas que sonham em recomeçar (posto que é impossível apagar a existência anterior), mas as capazes de mudar partes da sua personalidade. Aquelas que aprendem com os erros e constatam que, do jeito que vai determinada situação, não pode continuar. Nenhuma mudança necessita ser brusca, como imaginaram Valjean, Pip e Duhamel. Elas podem ser graduais. Se não somos capazes de começar tudo de novo, podemos reiniciar partes da vida. Começar um novo emprego. Uma relação não danosa. Um livro novo. Ser menos sério e mais brincalhão. Qualquer coisa. Não começar tudo de novo, mas uma mudança de perspectiva sobre uma parte do que somos.

Não sou uma pessoa refratária a mudanças de aspectos da minha personalidade. Estou constantemente aprendendo com meus erros e tentando retificá-los, algumas vezes com sucesso, em outras não. Não perco tempo sonhando que um Deus ex-machina ou o gênio de uma lâmpada mágica será capaz de zerar a minha existência e perdoar todos os erros que cometi até hoje. Ao invés de ter este pensamento viciado que entorpece tantas pessoas e as permite seguir sonhando impossibilidades (e, pior ainda, faz com que elas vivam na ilusão de que a sua vida pode mudar a qualquer momento), prefiro ir mudando aos poucos.

Uma história famosa: no início do século XX, em pleno auge do movimento surrealista, os artistas de tal escola artística cogitaram em incendiar o Louvre. Para eles, não existiam mais obras de arte, pois a fotografia tinha acabado com o sentido de produzir pinturas. Um repórter decidiu provocar Jean Cocteau, perguntando o que o escritor francês salvaria do museu acaso tivesse que escolher somente um item. A resposta foi imediata: “O fogo!”.

Anos depois, outro repórter engraçadinho resolveu confrontar Salvador Dalí com a mesma pergunta: acaso incendiassem o Museu do Prado, e ele pudesse salvar um único item, o que seria? O pintor espanhol – provavelmente conhecendo a resposta de Cocteau – respondeu “O ar”. Em seguida, acrescentou “mas só o ar que existe dentro do quadro ‘As meninas’, de Velázquez”.

Lembro destas duas histórias quando me perguntam se eu gostaria de mudar de vida ou ter a existência de outra pessoa. Não, muito obrigado. Estou plenamente satisfeito com as minhas falhas, contradições e problemas. Ninguém sabe o cheiro do ar que respiro. Ninguém sabe a intensidade da chama que me anima. Posso mudar as paredes do meu museu interno – esta catedral de memória e sensações construída de pele, cinzas e sonhos – ou posso mudar a ordem dos quadros, mas nunca modificar a essência do que sou, nunca mexer no fogo que me sustenta e no ar que me preenche. Saber que não sou a pessoa que sonha em ser outra, mas alguém que está em constante revisão e aperfeiçoamento, é o que me faz acordar todo dia.

2 Comentários

Arquivado em Charles Dickens, Generalidades, Jean Cocteau, Literatortura, Salvador Dali, Victor Hugo, Vida

2 Respostas para “Texto publicado no Literatortura (25/03/2016): “Em caso de incêndio, salvem o fogo e o ar”

  1. Gostei muito da sua reflexão!

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