Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (22/03/2016): “Quando os olhos nos enganam”

No texto dessa semana que publiquei no Medium da Dublinense, falei de como os olhos podem nos enganar. Sou uma pessoa extremamente cautelosa com aquilo que vejo; coloco tudo sob suspeita, pois não sei se o que estou vendo é real ou se estou desejando muito ver algo que não está ali. Minha mente me prega peças diárias e, se eu não ficar adstrito àquilo que consigo ver mesmo, sem nenhuma ponderação em cima, posso acabar gerando uma série de mal entendidos. Aliás, boa parte dos problemas do Brasil, e talvez do mundo, decorram do fato de que as pessoas não sabem enxergar sem ver uma série de coisas que não existe ali: um sorriso vira um convite; um piscar de olhos, uma promessa; um virar de cabeças, um interesse. Temos que nos cuidar para não entender errado aquilo que nos rodeia.

Boa leitura!

Quando os olhos nos enganam

Nem tudo o que enxergamos é verdade, e a visão é o sentido mais fácil de ser enganado. Olhamos não aquilo que é, mas aquilo que desejamos ver. A realidade não passa de uma distorção diária, em que o meu mundo é diferente do teu, e os nossos são diferentes de todos os outros.

Passei por uma experiência destas no domingo passado: próximo ao Monumento ao Expedicionário no Parque Farroupilha, em Porto Alegre, um grupo de pessoas gritava palavras de ordem e protestava, erguendo bandeiras desanimadas e faixas. No final da noite, li que uma manifestação com 5.000 intelectuais portoalegrenses tinha acontecido no Parque. Com todo o respeito à minha cidade, não sei se o número de intelectuais dela chegaria a encher uma Kombi; no Brasil inteiro, é provável que enchessem um ônibus. O termo mais apropriado seria “agentes de cultura”, mas as pessoas normalmente confundem conceitos, o que também é um tipo de cegueira seletiva.

O incontestável é que, no horário da dita manifestação, não percebi as alegadas 5.000 almas no Parque Farroupilha. Talvez 100 pessoas estivessem ali. Foi o que vi, com esses olhos verdes que a terra um dia há de comer.

No entanto, não desconfio da contagem que chegou a 5.000 pessoas. Desconfio dos meus olhos. Teria eu eliminado 4.900 pessoas regularmente presentes na manifestação? O meu olhar distraído teria captado somente um punhado de pessoas onde deveriam estar centenas? Muitas pessoas se refugiam naquilo que viram para apregoar a verdade, mas, e se a verdade estiver mentindo e modificando a visão? Só quem já lidou com testemunhas sabe o quanto uma história pode modificar, que não há uma narrativa única. Inclusive existe um livro muito interessante de Raymond Queneau, “Exercícios de estilo”, em que ele conta a mesma história de 99 maneiras diferentes. Apesar dos experimentalismos que o escritor francês faz com a linguagem, existe uma lição aí: coloque um bode dentro de uma sala com 99 pessoas e poucas irão realmente ver um bode. É possível que enxerguem desde Satã até um unicórnio que deu errado, mas não a dura realidade.

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A luta entre imaginação e ficção é mais antiga do que imaginamos. Quando vemos pessoas discutindo números, corpos e presenças em uma passeata, reprisamos uma discussão ancestral, entre o que os outros viram e aquilo que nós enxergamos. Uma discussão repleta de valores e considerações pessoais, para não dizer preconceitos.

O curioso é que, no passado, consideravam os pintores como os grandes responsáveis pela adulteração da realidade. O objetivo do pintor da Antiguidade clássica não era retratar aquilo que via, mas fazer a sua obra tornar-se tão real quanto o mundo. Existiam disputas sobre qual pintor era mais capacitado para representar a realidade. Plínio, o Velho conta que, por alguns anos, Zêuxis foi considerado o pintor mais hábil do mundo, pois desenhara um cacho de uvas tão real que os pássaros se arremessavam contra a parede tentando bicá-las. Acabou sendo derrotado pro Parrásio, que desenhou uma cortina tão precisa que Zêuxis tentou abrir, imaginando que a obra se escondesse atrás dela. Também podemos lembrar o caso de Apeles de Cós, que desenhou um cavalo tão verdadeiro que outro cavalo o reconheceu como um semelhante. Os pintores retratavam aquilo que viam, forçando as pessoas a questionarem as suas próprias visões sobre o que seria real e imaginado.

Quando surgiu a fotografia, foi unânime o alívio: tinha acabado o reinado mentiroso dos pintores. Com a sua capacidade de retratar o real, a fotografia era incorruptível, imutável, verdadeira. Ninguém mais poderia ditar aquilo que seria ou não real. Não foi à toa que Edgar Allan Poe saudou a fotografia – a qual chamava de “fotogenia”, do grego “pintar com o sol” – como “a mais importante e extraordinária façanha da ciência moderna”. Paul Valéry elogiou a capacidade da fotografia de ressuscitar e até mesmo rejuvenescer a nossa visão sobre um determinado fato.

Recordo que, alguns anos atrás, em viagem no interior do interior da Serra gaúcha, acabei chegando em um armazém que possuía fotos antigas ostentando pessoas em poses estranhamente falsas. Existia algo perturbador naquelas fotos, algo difícil de captar a olho nu.  Perguntei para o dono do local o que era aquilo – raras pessoas prestam atenção nas paredes dos locais onde estão fazendo compras – e ele explicou: no passado, era difícil para qualquer pessoa possuir uma máquina fotográfica. Assim, quando alguém morria, para preservar o semblante e a memória do defunto, deixavam o cadáver insepulto até que o fotógrafo estivesse passando pelo lugar, quando o morto era vestido com suas melhores roupas e tirava fotos com os familiares. Era a única prova da existência de alguém no nosso planeta. Sabia disto em fotos antigas de vitorianos ou em instantâneos tirados no Velho Oeste americano, e foi espantoso ver que, mesmo no mais inóspito lugar do Rio Grande do Sul, a fotografia era considerada como instrumento apto de nos assegurar um mundo real.

O mórbido costume vitoriano de preservar a memória dos mortos

O mórbido costume vitoriano de preservar a memória dos mortos

Apesar de ser o meio mais seguro de separar aquilo que era real do que não era, a fotografia foi atacada por um dos maiores expoentes do realismo. Em setembro de 1862, Honoré de Balzac mandou uma carta para a revista Le Boulevard defendendo os artistas contra a ditadura da fotografia, pois, para ele, a arte também significava em uma recusa de copiar a realidade vigente para transformá-la em outra possibilidade. Ao escolher a sua visão do real, o artista ajudava outras pessoas a abrirem a mente para novas viabilidades, escapando do cotidiano.

Foi uma carta furibunda: em determinados momentos, Balzac ridicularizou os fãs da fotografia, chamando-os de “tolos que pretendem a reprodução exata da natureza”. Em uma provável tentativa de afastar interessados pela fotografia, Balzac desenvolveu a teoria de que “toda fotografia é um crime espectral”: a cada foto que tiramos, um pouco da camada espectral que rodeia o nosso ser seria roubada, o que nos força a concluir que a fotografia é algo que nos mata aos poucos, um assassinato em andamento. Tal teoria nunca ficou provada, mas, a julgar pela quantidade de fotos que tiramos nos dias atuais, dificilmente chegaríamos aos 20 anos de idade acaso dito “crime espectral” acontecesse.

Graças à noção de que a fotografia representa o real, não são poucas as pessoas que acreditam que fotos não mentem, e saem por aí passando imagens adiante para provar os seus argumentos. No entanto, cada vez mais esta ideia é contestada pela tecnologia. Nos tempos em que vivemos, fotos são cada vez menos verdadeiras. As possibilidades de manipulação da realidade contida nelas é inesgotável. Certa vez, um amigo publicitário me disse que existiam poucas obras mais ficcionais do que a revista Playboy. Não seria espantoso, assim, que me mostrassem uma foto com 5.000 pessoas no Parque Farroupilha no domingo, e novamente eu seria forçado a questionar a minha visão, e o corte longitudinal na realidade que ela aplicou. Chegamos ao ponto reverso: hoje, uma pintura é considerada mais real do que uma fotografia. Pelo menos, ela não pode ser manipulada ao bel prazer de quem a utiliza, e contém uma única visão da realidade.

Ainda assim, temos uma necessidade quase infinita de separar o joio do trigo, mostrar o que é realidade e o que é ficção. Todo leitor sonha que a sua história favorita tenha existido mesmo no mundo, o que explica os ardorosos fãs procurando a entrada de Hogwarts no metrô de Londres. Por muitos anos após a leitura de “Operação Cavalo de Troia”, de J. J. Benitez, achei que fosse um livro real. Ele era construído com tantos dados científicos, tantas notas de rodapé e tantas explicações de várias áreas diferentes que não podia ser ficção. Inverossímil seria imaginar que uma obra tão verdadeira fosse falsa. Tínhamos grupos de discussão no colégio sobre “Operação Cavalo de Troia”, e sempre acreditamos que a história do cientista que volta no Tempo e presencia a crucificação de Cristo era real. As descrições médicas dos efeitos corporais sofridos por Jesus Cristo durante o seu suplício ainda frequentam a minha memória. O que estragou tal sensação foi o próprio autor, que começou a lançar livros em sequência com a mesma temática e logo vimos que era mentira: uma viagem no Tempo era possível, mas várias já era abuso da nossa boa vontade.

Também existem livros que eu gostaria muito que fossem reais, mas não são. Para ficar nas minhas leituras de adolescência, adoraria que “Médico de Homens e de Almas”, de Taylor Caldwell, fosse verdade. Imaginar os diálogos de Lucas com filósofos da sua época sempre me fascinou. Também queria muito que “Agosto”, de Rubem Fonseca, tivesse um pé (ou os dois) em uma história real. Ajudaria a explicar melhor o agosto de 1954 ou, pelo menos, daria um sentido mais imanente para o mês em que o Brasil enlouqueceu (um dos meses em que o Brasil enlouqueceu, eles andam se tornando frequentes). Na minha visão de mundo, contudo, os dois são tão reais que realmente existiram. Não interessa o que os historiadores digam, para mim as obras aconteceram e se incorporaram na realidade.

Fotografia e arte unidas para enganar o olho, dos artistas Joe e Max

A adulteração da realidade também pode ser o embrião de ideias perigosas. No início do século XVIII, na Alemanha, um crítico literário chamado Johann Herder saiu-se com uma ideia inusitada: Shakespeare não era inglês, na verdade ele era alemão. O seu apreço por temas nórdicos, a forma com que construía as suas histórias, o respeito que tinha pelos símbolos germânicos, tudo isso representava o desejo oculto de Shakespeare ser alemão, e foi um acidente que tivesse nascido na Inglaterra.

Esta ideia foi seriamente discutida na época, mas logo caiu em esquecimento (ou assim imaginamos, pois as teorias mais estapafúrdias não deixam de existir, elas só circulam anônimas pelo mundo). No entanto, em 1940, ressurgiu com força, desta vez com o crítico de teatro Wolfgang Keller que, em discurso dirigido à Sociedade Shakespeariana da Alemanha, perguntou se ainda podiam considerar Shakespeare como filho do solo inglês ou se seria mais adequado transformá-lo em escritor alemão.

Para provar a sua teoria, Keller apresentou uma série de argumentos: a Alemanha teria sido o primeiro país europeu a traduzir Shakespeare e, por causa de tal atitude, ao reconhecer seu valor antes dos próprios ingleses, os alemães teriam reivindicado seus direitos sobre o dramaturgo. Além disso, ele acrescentou que, depois de dois séculos abordando criticamente a obra de Shakespeare, analisando-a, interpretando-a e lendo-a nas suas faculdades, era mais crível para um alemão imaginar que Shakespeare fosse um autor alemão ao invés de inglês, com quem ele não tinha sequer relação temática. As peças que possuíam temas ingleses eram como se um escritor alemão fantasiasse a realidade de um país distante.

Por fim, o argumento mais perigoso de todos: a Inglaterra da época do bardo era muito semelhante ao Terceiro Reich. Assim, Shakespeare estava tratando não de temas da sua época, mas de assuntos ligados ao Terceiro Reich, só que se passando em outra era. Para embasar tal teoria, Keller afirmou que “o sentido da vida dos isabelinos era heróico, militar, jovem e buscava o progresso, utilizando-se de ações e aventuras”, como acontecia nas peças de Shakespeare. A conclusão bombástica: a Inglaterra só produzira um Shakespeare por que, ao contrário da Alemanha, tivera sucesso em viver 300 anos sem judeus. Por conseguinte, os judeus eram os verdadeiros responsáveis por Shakespeare não ser alemão.

Pode parecer um discurso ilógico, mas diz muito a respeito da nossa vontade de distorcer a realidade. Quando Keller defendeu que Shakespeare não devia mais ser inglês, e sim alemão, ele pretendia não só roubar um escritor para o seu país, mas todo um sistema cultural. Por trás da loucura de tal pretensão, escondiam-se argumentos defendíveis ou, no mínimo, ousados. Diante do olhar de Keller, era evidente que Shakespeare só podia ser alemão, e o fato dele ter nascido e vivido em outro local era um mero detalhe. Fazer tamanha elucubração mental sobre a realidade mostra que, se quisermos, podemos acreditar em qualquer coisa – até mesmo no imponderável.

É provável que eu nunca saiba quantas pessoas estavam realmente reunidas no domingo no Parque Farroupilha. Mas também não podemos confiar em fotografias e nem mesmo na literatura, pois quem nos garante que Machado de Assis não sofreu um processo de absorção por parte da literatura brasileira, sendo, talvez, um paraguaio? E todo mundo está nos mentindo até hoje? Não temos certeza de quase nada, e gostamos de mentir uns para os outros que basta nos seguirem e chegarão à verdade.

Para mim, a melhor versão da realidade ainda foi dada por Borges: quando abro os olhos, o mundo nasce comigo. Quando caminho, aquilo que olho se forma com rapidez diante dos meus olhos. Atrás de mim, existe um grande vazio que, quando me viro, se constrói instantaneamente. Quando eu morrer, o mundo inteiro morrerá comigo. Estamos sempre construindo e desconstruindo a realidade, e sempre de acordo com a nossa conveniência. Assim, na ótica do escritor argentino, vivemos em um mundo cuja realidade não existe, mas que se encontra em constante e laboriosa construção, passando pelo mais enganoso dos filtros: a nossa vontade de ver algo, seja 100 pessoas, seja 5.000 intelectuais. Não existe, assim, o real; existe aquilo que eu desejo ser verdade.

 

Texto originalmente publicado em https://medium.com/colecao-dublinense/quando-os-olhos-nos-enganam-8ed2ea2a2ed1#.de9yrllt4

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Arquivado em Dublinense, Fotografia, Generalidades, Honoré de Balzac, Johann Herder, Jorge Luis Borges, Literatura, Olho, realidade, Rubem Fonseca, Taylor Caldwell, Visão, Wolfgang Keller

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