Texto publicado no Literatortura (17/03/2016): “Ainda sou livre?”

Na minha coluna no Literatortura dessa semana, tratei de um assunto que anda bem delicado nos tempos em que vivemos:  a escravidão imposta pelas opiniões dos outros. Estou farto de ver as pessoas compartilhando as mesmas piadas, as mesmas ironias e os mesmos textos no Facebook. Parece que o privilégio de refletir por si só tem sido alcançado a pouca gente na atualidade. Acredito que esta seja a forma mais sublime de preguiça, pois, a pretexto de concordância, passa-se adiante as ideias de outro sem que tenhamos que refletir e colocar elas com as nossas próprias palavras, o que é bem difícil.

Mas também falei do que importa: de Cecília Meirelles, de um documentário sobre escravidão, de Shakespeare, de Beethoven, de Max Ernst. De The Killers e de São Tomé enfiando os dedos no peito de Jesus. Ah, e da Virgem Maria dando umas palmadas no Menino Jesus.

Boa leitura!

 

Ainda sou livre?

existencialismo

Nos últimos tempos, vem acontecendo com relativa frequência. Desperto no meio da noite, saindo de algum sonho anônimo que se esconde nas brumas do quarto, e a primeira pergunta que surge na minha cabeça – triunfal, destruidora, inquietante – é “ainda sou livre?”. Preferia acordar com uma pergunta mais gentil, como “Are we human or are we dancer?” de “Human”, do The Killers, mas ninguém controla os próprios pensamentos e, assim, a dúvida que esmaga a minha tranquilidade é se posso me considerar alguém genuinamente livre.

Não é uma simples indagação, mas algo que exige uma resposta enérgica, uma tomada de decisão enfática; sinto a pergunta cravada no meu espírito como se fosse uma lança. Durante um tempo que considero eterno (não deve passar de alguns milionésimos de segundos), permaneço indeciso, e odeio passar por este sentimento, pois não sei: sou livre ainda? Posso responder com absoluta segurança de que ainda sonho os meus sonhos, não os que pertencem a outras pessoas? Continuo a trilhar o caminho desejado, não existindo outros a guiarem os meus passos com sussurros ofídicos que sou incapaz de ouvir? A dúvida se espalha e, quando consigo responder, não é com um “sim” inquestionável, mas com um “por enquanto”. Sim, por enquanto, ainda sou livre.

Toda hora vejo pessoas apregoando orgulhosamente a sua liberdade de ir e vir, de pensar, de se manifestar. Invejo quem possui tamanha segurança, pois eu, cada vez que escrevo um mísero texto, sento não só comigo, mas com centenas de outras vozes que punem, cortam, debatem, gracejam, se apavoram, rezam, recriminam e algumas até soltam gargalhadas histéricas. Eu evito escutá-las, pois, se desse atenção para o que dizem, estaria fadado a não escrever – precisaria agradar não só gregos e troianos, mas provavelmente toda a Antiguidade clássica, quiçá também até o mais insignificante dos feudos da Baixa Idade Média. Cada texto que faço é um exercício de liberdade, a certeza um tanto titubeante de que ainda sou livre. Minhas palavras não são só ideias, são meu estatuto de liberdade. Quando sentar com medo do que pretendo escrever, ou cedendo à ponderação das vozes sociais que tentam me escravizar, neste dia irei preferir o silêncio.

Assistindo a um documentário sobre escravidão, um detalhe quase ínfimo na narrativa me fez refletir: tiraram a liberdade de muitos homens e mulheres, sim, mas também existiram crianças nascidas dentro do regime escravo. No caso delas, e algumas passaram o espaço de uma vida inteira em tal condição, a liberdade nunca chegou a existir como conceito. Liberdade, cuja melhor definição pertence à literatura, nas palavras de Cecília Meirelles no “Romanceiro da Inconfidência”: “…Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda…”. Para tais crianças, era normal ser punido, destratado, humilhado e ter que se submeter a outras vontades, pois desconheciam a noção de livre arbítrio. O entrevistado não levou adiante a reflexão, mas o incômodo não cessa: o que seria melhor, conhecer a liberdade, e depois perdê-la, ou nunca chegar a conhecê-la? Existe uma maneira, agora, de ter certeza absoluta de que não somos os escravos dos pensamentos e reflexões de algum desconhecido? Podemos assegurar mesmo que não somos marionetes?

Nos últimos tempos, não são poucos aqueles que tentam nos escravizar. Somos muito bons em criar novas formas de submissão. Existem escravidões para todos os gostos: as imposições sociais do que é beleza física; a necessidade absoluta de buscar a felicidade em tudo o que fizemos (precisamos mesmo ser felizes? Ou a felicidade é um comodismo?); o repúdio à solidão, como se fosse um crime ser solitário; para as mulheres, o destino previamente traçado de que devem casar e constituir prole, pois este seria o sentido da vida; para os homens, a determinação constante de que não podem sentir, não podem abaixar a guarda, não podem permitir a insegurança. Interessante perceber que boa parte destas escravidões a que nos submetemos alegremente estão nas raízes de todos os nossos males: a busca da beleza física leva à exclusão dos que estão fora dos padrões; almejar a felicidade pessoal a qualquer custo nos permite pisotear os outros para atingir tal objetivo, no melhor estilo de Maquiavel; a condenação da solidão leva-nos a estabelecer relações indesejadas para não termos que ficar sozinhos; o destino inflexível das mulheres está na origem do aborto e do feminicídio; a prisão da imagem a que os homens são submetidos desde o nascimento justifica a sua violência e descaso pelo semelhantes. A longo prazo, as nossas escravidões são todas destrutivas, por mais bonitas que pareçam à primeira vista.

Existe ainda a escravidão do mercado, a do consumismo e a do status social, as quais são tão espertas que disfarçam as suas correntes alegando serem condições essenciais do viver em sociedade. São escravidões insidiosas, pois não conseguimos vê-las, de tão misturadas que se encontram com as nossas vidas.

No entanto, a pior forma de escravidão – e a mais invisível de todas – é a que estamos vivendo agora, e encontra-se no cerne da pergunta que me assombra. Ainda sou livre para ter a minha própria voz, o meu próprio pensamento, sem ninguém interferir nele? Quando eu falo, estou expondo a minha opinião ou vomitando ideias de outras pessoas, que, por sua vez, deglutem conceitos de desconhecidos, em um movimento perpétuo onde não estamos mais pensando, e sim servindo de caixa de ressonância para que outros fantasmas falem por nossa boca?

É um movimento interessante, acompanhar a nossa escravidão intelectual por ideias já formatadas, e a maneira através da qual acompanhamos, de forma quase bovina, pensamentos que não nos pertencem. Neste sentido, sempre achei o botão “compartilhar” do Facebook algo de extrema ironia, pois percebo indivíduos de diferentes matizes ideológicas compartilhando os mesmos textos escritos por outras pessoas, e cada uma delas destaca a parte que melhor lhes apraz, sem levar em conta todo o conteúdo. Quem “compartilha” algo, está comungando de todo um sistema de valores alheio e, melhor ainda, sequer precisa construir a sua ideia com as próprias palavras. Que maravilha é poder deixar outra pessoa falar o que está dentro da nossa cabeça sem que seja necessário sentar e refletir a respeito! O difícil mesmo é entender o outro, ver uma obra de arte, ler um livro, assistir a um espetáculo, escutar um concerto, e conseguir usar as nossas palavras para dizer o que realmente ficou, como resíduo, na nossa personalidade.

Só quem se submete à experiência pode ver o real: é muito fácil compartilhar textos sobre “Romeu e Julieta” dizendo que o amor é lindo, o complicado mesmo é ver a encenação e perceber que Romeu e Julieta são dois jovens chatos e prepotentes que consideraram o seu amor mais forte do que tudo; ou escutar a Sétima Sinfonia de Beethoven e notar como os temas da melodia se constroem com notas discretas, que tentam ascender, mas fracassam, desmoronando como um castelo de cartas, e voltam a se erguer, e desmoronam de novo, até o instante de êxtase em que os temas se juntam em uma apoteose quase carnal de cordas, sopros e fúria para apregoar a própria existência.

Eu poderia escrever um belo texto a respeito, mas seriam os meus pensamentos, e não os dos leitores; talvez encontre repercussão, mas preferiria que eles viessem comparar as suas opiniões com as minhas, que fizessem o mesmo percurso que atravessei sozinho. Não cabe a mim ensinar, mas discutir possibilidades e ângulos, sem excluir as dos outros. Nos tempos atuais, mais do que nunca precisamos fazer como São Tomé: ver (sentir) para crer. Afundar os dedos dentro do corpo de Jesus, refestelando-se entre as suas costelas gosmentas de sangue divino, e dizer “ah, bom, agora sim eu acredito!”.

O que me faz lembrar de um dos artistas mais livres que o mundo já teve, não por coincidência um surrealista, movimento que pregava a ideia – ou seja, a liberdade – acima da imagem. Max Ernst foi alguém que nunca se submeteu a nada, e sempre seguiu o que pensava ser o certo de acordo com as suas próprias concepções de vida. Estava pouco se importando com a escravidão das ideias, preferia libertá-las. Não queria ser compartilhado, mas discutido.

Uma das obras dele que considero mais divertidas é “Virgem abençoada castigando o Menino Jesus diante de três testemunhas: André Breton, Paul Éluard e o artista” (1926). Podemos considerar como uma cena doméstica – qual mãe nunca castigou o filho, seja com gestos ou com palavras? -, mas a diferença é que a mãe em questão tem uma auréola sobre a cabeça e está punindo a provável travessura daquele que, no futuro, se auto-intitularia “O Filho de Deus” (o qual, em um detalhe delicioso, deixou cair a sua auréola de cima da cabeça). Não é qualquer palmada, mas palmadas decisivas, dadas pelo ser humano na própria divindade. É o mundano dando uns tapas no celestial.

Max Ernst - “Virgem abençoada castigando o Menino Jesus diante de três testemunhas: André Breton, Paul Éluard e o artista” (1926)

Max Ernst – “Virgem abençoada castigando o Menino Jesus diante de três testemunhas: André Breton, Paul Éluard e o artista” (1926)

Na janela, como elemento destoante, três artistas surrealistas observam a cena (entre eles o próprio artista), mas parecem mais discutir entre si do que se preocupar com a sova que o Menino Jesus vai levar de uma mãe irritada. A famosa indiferença dos intelectuais diante das tragédias próximas. Cada um terá a sua própria visão da cena – todos olham para pontos diferentes -, mas nunca abarcarão a realidade concreta, onde a Virgem Maria teve que exercer as suas prerrogativas de mãe para colocar o filho nos eixos morais dos quais ele estava se desviando. É divertido imaginar, assim como Ernst fez, o quanto situações do cotidiano não se tornaram decisivas para o futuro flagelo de Jesus. O quanto uma simples surra dada por uma mãe não pode estar vinculada a uma crucificação – ou ao surgimento da noção de divindade.

Em certa ocasião, um jornalista pediu para Max Ernst dizer o que estava na sua obra, e essa foi a resposta:

“Minhas reflexões, minhas impaciências, minhas dúvidas, minhas crenças, minhas alucinações, meus amores, minhas raivas, minhas transgressões, minhas contradições, minhas negativas de se submeter à disciplina, inclusive a que eu mesmo determino, as visitas esporádicas da minha irmã Perturbación, a mulher de uma centena de cabeças, sendo que nada disto é favorável a um trabalho calmo e sereno. Tal como o meu comportamento, minha obra não é harmoniosa no sentido dos pintores clássicos. Sediciosa, desigual, contraditória, é inaceitável para os especialistas em arte, cultura, comportamento, lógica e mesmo da moralidade. Tem, no entanto, o dom de fascinar os meus cúmplices, os poetas, os patafísicos e alguns analfabetos”.

Em um mundo no qual se privilegia o pensamento dos outros, os clichês argumentativos alheios e a preguiça de chegar a conclusões sozinho, é consolador imaginar um artista que não tenta doutrinar, mas gentilmente permite aos outros pensarem o que bem entender das suas pinturas. A resposta de Max Ernst, ainda que repleta de ironia, revela que a obra possui todas as fraquezas do artista no seu interior – mas não consegue contê-lo por completo, pois somos seres repletos de contradições. Podemos criar algo que não gostamos. Podemos concordar com alguém que nos é contrário. Podemos amar a quem nos tem a mais absoluta indiferença.

Assim como os três surrealistas da pintura de Max Ernst, podemos também calmamente discutir uma cena sem tomar partido dela. Quem disse que precisamos ter decisões tomadas sobre tudo? Não passa de outro tipo de escravidão, a ideia de que sempre devemos ter opiniões próprias sobre qualquer assunto. O importante é lutarmos pela nossa liberdade de pensamento a cada dia, não nos expressando até o infinito, desde o futebol até o voo das andorinhas no inverno, mas evitando a escravidão fornecida pelos pensamentos alheios, os quais são extremamente hábeis em sufocar a nossa originalidade.

É a única maneira de sermos verdadeiros livres: deixar a preguiça de lado e pensarmos por nós mesmos. Passarmos pelas experiências e nos posicionarmos, sempre buscando o diálogo, com a consciência de que não sabemos tudo; afinal, a Virgem Maria pode estar sendo justa ou injusta quando dá umas lambadas heréticas no Menino Jesus. Assim, quando a voz da noite interromper os teus sonhos com a pergunta inefável, “ainda sou livre?”, poderás responder com a tranquilidade que tanto ambiciono, posto que ainda tenho dúvidas: sim, sou livre, não por que outros me disseram, mas por que posso pensar sozinho.

1 comentário

Arquivado em Arte, Cecília Meireles, Generalidades, Liberdade, Literatortura, Literatura, Max Ernst

Uma resposta para “Texto publicado no Literatortura (17/03/2016): “Ainda sou livre?”

  1. Oi gustavo fiz um comentário mas não sei se foi porque sempre esqueço a senha…kkkk maravilhoso texto como sempre mas tinha feita uma provocaçãozinha Laura

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s