Vermeer e o momento exato em que o amor surge

Um assunto que me fascina há muitos anos é o instante em que surge a obra de arte. Sempre me pareceu mágico uma pessoa estar caminhando na rua e, de repente, sem nenhum aviso, sentir – mais do que ver –  algo apossar-se do seu espírito, uma ideia, um som fugaz, um fantasma, e aquilo ter necessidade urgente, quase dolorosa, de vir ao mundo na forma de arte. Não é à toa que muitos artistas comparam o ato de criar a um parto, pois o princípio é quase o mesmo. Depois deste momento inicial, tudo se torna técnica e estudo, e é a quantidade de dedicação de uma pessoa para a sua arte que pode transformá-la em algo memorável ou em uma experiência abortada. No entanto, esse primeiro momento, quando o mundo parece se tornar lógico e amigável, em que as comportas da criação se abrem, generosas, e inundam os campos secos do cotidiano – esse momento é único.

Tanto me fascina este assunto que o abordei em um conto de “O homem despedaçado” – ainda que por meios distorcidos. Em “Uma milonga para o homem-címbalo”, Nicásio Hernándes, bandido renomado por sua violência, prepara-se para agredir um violeiro cego na porta de um armazém quando este homem toca uma nota brusca no seu instrumento. Na descrição atônita do bandido, “ele [o cego] brandiu o violão e tirou uma nota: negra, áspera, cortante, linda. Foi uma magia. Naquela nota, entendi tudo, entendi por que, nas minhas noites, contemplava o céu com insatisfação; percebi qual era o meu destino. Naquela nota, estava a milonga da minha vida.” A partir de então, Nicásio começa a agir de forma estranha: o mundo se abre diante dos seus olhos de uma forma que ele nunca tinha percebido antes. O universo começa a ressoar ao seu redor, e ele não consegue entender como tudo aquilo estava sempre ali e ele nunca escutara.

Confrontado entre o seu destino de ser uma criatura cruel feita de realidade ou um homem forjado por sonhos e encantamentos, Nicásio toma a decisão última. No entanto, a minha intenção nunca foi contar a história dele, mas a de Juan Vizcayo, que sente o chamado da arte no momento mais inesperado, fazendo jus à epígrafe do conto, uma frase de Han Yu: “Tudo ressoa, mal se rompe o equilíbrio das coisas. As árvores e as ervas são silenciosas; se o vento as agita, elas ressoam. A água está silenciosa; o ar a move e ela ressoa. Assim também é o homem. Se fala, é porque não pode conter-se. Se se emociona, canta. Se sofre, lamenta-se. Tudo o que sai da sua boca em forma de som se deve a um rompimento do seu equilíbrio. (…)  E assim, quando o equilíbrio se rompe, o céu escolhe entre os homens os que são mais sensíveis e os faz ressoarem.” Para mim, esse é o verdadeiro conceito de gênese da obra artística: quando o mundo começa a vibrar como louco e algumas pessoas conseguem, então, fazê-lo ressoar.

Algumas semanas atrás, assisti a um documentário da BBC sobre Johannes Vermeer (1632-1675) chamado “The Madness of Vermeer”. Valeu muito por ver a cidade de Delft, na Holanda, e como ela continua parecida com as pinturas que Vermeer fez quase 400 anos atrás. No YouTube, tiraram o link original que assisti, mas ainda existe o filme principal dividido em quatro partes, basta procurar pelo nome.

Discordei de uma boa parte das conclusões que os documentaristas tentaram provar. Existe um desespero natural das pessoas de tentarem explicar o motivo da criação artística, como se ela tivesse uma razão em si. Não acredito que exista: alguns indivíduos possuem mais necessidade de criar do que outros, simples assim. No entanto, existe toda uma vertente de crítica que busca motivos quase transcendentais para explicar as obras de alguém: a infância pobre se refletiria em mostrar personagens humildes nas pinturas; o casamento infeliz estaria insinuado no sorriso dissimulado de uma mulher em outro quadro; brigas políticas encontrariam expressão nas roupas negras de um oficial. Pensar assim transforma os artistas em um bando de recalcados que só criam para se vingar.

Não descarto este tipo de abordagem, mas não gosto quando ela é a única usada para interpretar a obra de alguém. E se o artista colocou um menino humilde por que achou que quebraria a monotonia do quadro, e se colocou a mulher dissimulando o sorriso por que não sabia pintar dentes, e se as roupas negras de um oficial foram determinadas pelo fato do pintor estar com preguiça de comprar tintas novas e precisava terminar com o preto? Basta um pequeno grão de poeira para desandar toda a máquina deste viés de análise em que se procura a vida do autor para justificar as nuances da obra, quase como se fossemos Sherlock Holmes destrinchando um recém-chegado em Baker Street, por isso a descarto como forma exclusiva de interpretação. Não creio que Vermeer tenha pintado cenas interiores para extravasar a sua angústia pelo fato do seu bisavô ter sido um espião ou um preso político, para ficar em um exemplo de conclusão apresentada no documentário. Mais provável que tenha pintado cenas do cotidiano por que as achava encantadoras dentro da sua simplicidade.

No entanto, em meio às pirotecnias interpretativas dos documentaristas, alguns críticos acabaram falando opiniões de alto valor. Entre elas, uma ideia dita quase de passagem, quase indiferente, acabou chamando a minha atenção: nas suas pinturas, Vermeer buscava capturar o momento exato em que o amor surgia entre duas pessoas.

É fácil pintar o amor ou a paixão. Desafiante mesmo é flagrar o instante em que o amor surge, a primeira explosão de reconhecimento, o segundo em que um homem ou mulher repentinamente olha alguma coisa diferente no outro e pensa, quase sem querer pensar, “então é ela!” ou “então é ele!”.

Não faz muito tempo, li um depoimento em que a moça falava que, ao contrário do imaginado, no seu caso o amor não surgira à primeira vista. Pelo contrário, só apareceu quase cinco anos depois de conhecer o rapaz, de terem feito dezenas de programas juntos, de se admirarem mutuamente, de serem confidentes e ótimos amigos, “lá pelo 2.253º olhar”, segundo a moça. Um dia, ela não soube direito o que aconteceu, os dois se encararam e só então souberam o que sentiam.  Concluiu de forma inusitadamente sábia: “o amor não surge na primeira vista, quem surge assim é a paixão, o desejo”, ao que eu comentei de volta, “o amor surge nos desvãos”.

Lembro também da bela descrição de amor contida em “O chefão”, de Mario Puzo, que deu origem ao filme “O poderoso chefão”, de Coppola (o livro é bem melhor, aliás). Na Sicília, o amor verdadeiro recebe como nome “O Relâmpago”, pois cortaria os apaixonados com força, impedindo-os de pensarem em qualquer outra coisa que não seja o bem estar do outro, o de possuí-lo. Neste sentido, se aproximaria da ideia de relâmpago, que surge nos momentos mais inesperados e muda toda a paisagem, eletrizando a pessoa que o recebe e que, no caso do livro, foi Michael Corleone ao se apaixonar por Apolonia.

É a mesma ideia que Vermeer tenta transportar para as suas obras: o instante exato em que surge um sentimento mútuo. As pessoas retratadas nas suas pinturas descobrem o amor, que se insinua como um rastro de luz no meio de uma existência trevosa. O melhor exemplo disso é a pintura “Oficial e moça sorridente” (1657-58):

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No quadro, percebe-se que a moça sorri e, aos olhos do oficial (incapaz de esconder o seu interesse e fascínio pela figura feminina), a luz súbita faz estremecer a sala e se reflete no semblante contente. É como se o amor, ao surgir, fizesse aflorar sorrisos, trazendo luz e novos interesses para um mundo cheio de interesses econômicos (o mapa na parede mostra as conquistas da Holanda) e burocráticos (é possível perceber que a cena normal do dia a dia não é suficiente para impedir a eclosão de sentimentos entre o casal).

Detalhe mesmo é a posição do espectador do quadro dentro da tela, outro assunto que me encanta. O espectador – ou seja, nós – estamos sobre o ombro do oficial, acompanhando a cena aparentemente ingênua, mas também nos apaixonando pelo sorriso da moça e pela luz que se insinua na sala sombria, uma alegoria provável para o coração do oficial. Somos simultaneamente cúmplices, voyeurs e participantes da cena. Estamos vendo o amor surgir, ainda inocente, na aurora do mundo criado pelo casal.

Vermeer sabe que o amor é transitório. Sabe que, em breve, ele se transformará em muitos outros sentimentos, mas, naquele momento inicial, a sua força é única e a sensação inigualável. Por este motivo, a obsessão em flagrar o transitório, aquilo que acontece em milionésimos de segundos e que mesmo os envolvidos são incapazes de perceber, é um objetivo tão vasto que chega a tirar o fôlego.

Em “Homem, mulher e vinho” (1658-1661), uma nova declaração de amor:

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O olhar de enlevo com que o homem acompanha o gesto da mulher de beber uma taça de vinho é revelador dos sentimentos que lhe acometem. A mão ainda segura a jarra; ele paralisou ao prestar atenção na outra que bebe, ainda indiferente, mal disfarçando um  sorriso. O violão foi esquecido, não existe música que se compare ao que ele está enxergando. As sobrancelhas alteadas expressam todo o seu interesse não no mundo, mas no curto espaço de sentido que é a moça bebendo vinho.

A própria posição da janela, indiscretamente revelando o amor que surge intermediado pela presença entorpecedora do vinho, não está ali por acaso. A luz ilumina a cena com carinho, quase cálida, acariciando as múltiplas cores do cenário. Um mundo ainda escuro abre-se como uma flor diante do primeiro orvalho. É o amor que surge, capturado no exato momento em que uma relação ainda indiferente transforma-se em arrebatamento.

Também é possível pensar em uma continuação deste quadro. Em “Moça com copo de vinho” (1659-1660), quase a mesma cena é reprisada, e na mesma sala da pintura anterior, como podemos notar pela janela:

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No entanto, desta vez a mulher está com a taça entre as mãos. Surgiu ainda um homem no canto da tela – há quem acredite que Vermeer tenha se colocado intencionalmente dentro do quadro, e o cavaleiro de cabeça baixa ao fundo da pintura seria o pintor visitando o próprio cenário. O olhar da mulher em direção ao espectador, o rubor nas suas faces e o sorriso meio envergonhado mostram que ela sabe o que está acontecendo. O homem lhe faz um galanteio, curvado, olhos fixos esperando as suas reações, visivelmente apaixonado. O amor já surgiu de um lado do casal, mas está ainda despertando na mulher, que evita os olhares masculinos com o mesmo receio que a corça possui diante do seu algoz.

Refletindo na ideia de que Johannes Vermeer tentava capturar o amor no momento do seu surgimento quase efêmero, como uma reação química que só conseguimos ver em um microscópio e de forma muito veloz, talvez o maior de todos os seus milagres seja mesmo “Moça com brinco de pérola” (1665-1666):

Johannes_Vermeer_(1632-1675)_-_The_Girl_With_The_Pearl_Earring_(1665)

O olhar intenso da moça, os lábios entreabertos e a tranquilidade do semblante escondendo um emaranhado de emoções confusas (não é à toa que comparam esta obra com a “Mona Lisa” de Da Vinci, pois o mistério nunca respondível da sua expressão é o que mais nos atrai) revelam que Vermeer tentou o último salto para mostrar o surgimento do amor: transformar em obra de arte o momento exato em que o pintor próprio se apaixona pela sua musa, ou pelo modelo, ou pela sua obra. O momento em que alguém começa a resplandecer na nossa memória. E consegue concluir o movimento mais incrível de todos: fazer o espectador, parado ao lado do pintor, se apaixonar com a mesma intensidade pela moça repleta de mistério e de encanto. Vermeer não só capta o amor quando surge, mas faz com que qualquer pessoa se apaixone por alguém que não existe. Esse é o sentido mais puro de magia que pode existir: criar o impossível com tanta naturalidade que é como se ele sempre tivesse existido.

Na sua vida, Vermeer pintou somente 35 quadros oficialmente reconhecidos como seus. Morreu pobre. Os seus quadros foram leiloados para pagar as dívidas da família, e vendidas a troco de quase nada. Johannes Vermeer não tinha um estúdio ou atelier para trabalhar, e é incrível imaginar que ele pintou toda a sua obra no meio da sala de casa, com os filhos correndo ao redor, resolvendo problemas ínfimos como ir ao armazém, conversando com a mulher e com a sogra (com quem se dava muito bem). Não sabemos direito nem como era a sua aparência: acreditam que o homem à esquerda do quadro “A alcoviteira” seria um autoretrato seu, mas não há provas neste sentido.

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Apesar de todos os percalços pessoais, Vermeer nunca desistiu de buscar aquele segundo efêmero em que o amor surge. Ele sabia que o amor era uma chama, mas estava mais interessado na fagulha que o iniciava do que na sua transformação em fogueira. Ao mostrar leveza na luz, Vermeer destacava os traços humanos em primeiro plano, deixando-os resplandecer como se as pinturas não fossem feitas com luz, mas revelassem os segredos escondidos por trás dela. Por saber que o amor não ia durar para sempre, o pintor holandês tentava capturá-lo ainda na sua nascente. Este talvez seja o maior propósito da arte: fazer as pessoas verem aquilo que, a olhos nus, nunca conseguiriam.

2 Comentários

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2 Respostas para “Vermeer e o momento exato em que o amor surge

  1. Beleza de texto, parabéns. Beijos

  2. Belíssimo texto, ou melhor não é texto é um bordado na alma da leitora

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