Texto publicado no Literatortura (03/03/2016): “A beleza como forma de contágio”

Na minha coluna dessa semana no Literatortura, eu falei sobre a beleza e de como ela pode nos contagiar.

Admito que, nos últimos tempos, tenho sentido uma espécie de distanciamento do resto do mundo. As redes sociais se transformaram em formas de estabelecer discussões insossas e intransigentes. E inúteis: convenhamos, para quem leu Tucídides e a história de Alcibíades que, por inveja, sofreu o ostracismo de Atenas e teve que encontrar abrigo na cidade inimiga, Esparta, onde acabou desequilibrando a Guerra do Peloponeso, veria que a história se repete, com a diferença de que os personagens atuais não possuem caráter algum e tem uma indigência cultural quase cômica. Por este motivo, ao invés de usar as palavras para tentar convencer alguma pessoa (isso é possível?), tenho cada vez mais buscado conviver com a arte, em busca de almas que me leiam, entendam e também sejam capazes de ressoar meus pensamentos.

Boa leitura.

A beleza como forma de contágio

Estava lendo um artigo sobre o pintor flamengo Peter Paul Rubens (1577-1640) quando um detalhe descrito por Roger de Pilles, um dos seus maiores admiradores, acabou se destacando: ao abordar a rotina de Rubens, disse que ele começava a trabalhar às 10 horas da manhã, tendo sempre perto de si um leitor, homem ou mulher contratado especificamente para ficar “lendo bons livros, entre os quais Plutarco, Tito Lívio ou Sêneca” enquanto o pintor mexia com as suas obras. Toda a produção artística de Rubens foi feita, assim, ao som de literatura. Ao perscrutar os seus motivos, Roger de Pilles menciona, quase como se fosse algo lógico, que o pintor necessitava ter inspiração com os mestres e, para isto, era natural buscar o conforto das vozes dos antigos.

Peter Paul Rubens, Caçada ao Tigre

Peter Paul Rubens, Caçada ao Tigre

Era um detalhe quase imperceptível na trajetória de Rubens, mas me fez recordar outra história. Uma colega escritora – evitarei citar o seu nome por discrição, até por que estávamos em um momento de confidências sobre o fazer literário – disse que o seu livro dividia-se em seis partes principais, e cada uma delas se relacionava com uma das partes do conjunto de tapeçarias “A Dama e o Unicórnio”, quais sejam, paladar, visão, audição, olfato, tato e “À mon seul désir” (“ao meu único desejo”), que corresponderia ao amor, ao entendimento e à compreensão. Argumentei que o livro em questão não tinha nada de unicórnios e muito menos de damas, mas a escritora respondeu que lembrava de cada parte do bordado em cada capítulo, concentrando-se no sentido por ela explorado, e era como se estivesse vertendo em palavras, dentro da sua história, aquilo que estava contido na tapeçaria feita no século XV em Flandres, na França.

"

Para pessoas que gostam de intertextualidades, como é o meu caso, aquele era um prato cheio, mas observei que o livro tinha sete capítulos se incluíssemos o posfácio, e a tapeçaria era formada por seis partes. A escritora riu e pediu para que eu lesse em voz alta o posfácio ao som do segundo movimento da Sinfonia n.º 40 de Mozart, o “Andante”, e eu veria a música ajustando-se ao texto. Quando cheguei em casa, fui conferir e era verdade, as palavras respeitavam a respiração das notas musicais pensadas por Mozart. O livro inteiro tinha sido pensado como uma caixa de ressonância artística, não como uma forma de somente contar a história, e é uma pena que quase ninguém tenha percebido esta sutileza mágica na obra da minha colega.

É ilusão nossa imaginar que uma obra de arte nasce do gênio ou da inspiração exclusiva de alguém. A verdadeira obra nasce de centenas de pequenos detalhes de outras obras e circunstâncias que, ao serem apreendidas pelo olho do artista, acabam sendo digeridas e, por fim, incorporadas ao seu estilo. Nos tempos atuais, a palavra “gênio” é comumente associada ao conceito de inovação e originalidade, o que a faz ser usada para qualquer característica que nos pareça nova, como o drible inusitado de um jogador de futebol ou a pessoa que chegou ao primeiro bilhão aplicando na Bolsa de Valores. É uma palavra que, por aplicarmos para qualquer pessoa de forma indiscriminada, está perdendo o seu sentido.

A verdadeira pessoa genial é aquela que foge da ideia de ser genial. A pessoa que admite, com humildade. que o seu trabalho faz somente parte de uma grande engrenagem da arte, na qual talvez ela seja uma porca, quando muito um parafuso. Nós passaremos, pois a vida é breve, mas a arte continuará. E é por pensar assim que os grandes artistas, longe de competirem ou de criticarem os outros, souberam usar como ninguém a noção de que a beleza e a fruição estética também são passíveis de transmissão por contágio. Ficar perto da beleza é se contagiar com ela. Pensar no belo é sentir-se melhor, é altear a alma, é atingir a sensação de sublime.

No passado, era comum que os artistas, antes de qualquer atitude criativa, estudassem de forma exaustiva não só a forma artística que pretendiam concretizar, mas também outras expressões da beleza. Picasso aprendeu a dançar para expressar melhor o corpo nas suas pinturas; Nijinski era um leitor voraz; os mais memoráveis atores são igualmente excelentes leitores de Shakespeare e de Racine; a Sinfonia n.º 40 de Mozart foi arduamente estudada por Beethoven, e os críticos acreditam que o seu quarto movimento pode ter servido de inspiração e leitmotiv para o terceiro movimento da 05ª Sinfonia de Beethoven. Existe uma voltagem invisível por trás de toda obra artística, uma força que a alimenta, invisível aos olhos do público em geral, mas da qual os artistas se embebedam com vagar, atingindo êxtases sem a ajuda de nenhuma substância química. O verdadeiro artista, quando faz a sua obra, sente-se como um empulhador, pois consegue perceber os traços dos demais de cuja fonte bebeu. Para o público, ele pode parecer original e único, mas, para sua exclusiva tristeza, o artista consegue ver as partes que formam o todo, e saber quem é o verdadeiro responsável por cada uma delas.

Contudo, também existe arte em pegar várias peças dispersas e combiná-las de uma forma inédita e, para isso, a apreciação estética é fundamental. O artista sente-se arrebatar pela beleza que desliza por trás do mundo, sempre distante, sempre ao alcance da mão. Para isso existem museus, bibliotecas, casas de espetáculos, teatros – para que possamos conhecer a beleza e nos apropriarmos dela, trazendo-a para as nossas vidas. O que chama a atenção para o fato de que, com raras exceções ao redor do mundo, estes são os lugares que menos buscamos para encontrar alguma espécie de conforto estético, preferindo o refúgio na frente da televisão ou em salas de cinema. Estamos cada vez mais preguiçosos, e a beleza que não é oferecida ao olhar de forma abundante, voluptuosa, cansa por nos forçar a procurá-la dentro de um quadro ou escutando as nuances de um concerto. Basta pensar na imensidão de pessoas discutindo filmes de duas horas enquanto poucas são as pessoas que abordam quadros, ou espetáculos musicais, ou esculturas, ou livros. O cinema é algo bom de se assistir, mas (com algumas honrosas exceções) também é uma ode à preguiça de pensar com maior vagar sobre a beleza.

Não faz muito tempo, recebi uma mensagem de teor bem-humorado, com uma dúvida que passou a me perseguir: “E se todas as bibliotecas existem não para os leitores, mas para despertar novos livros dentro das pessoas?” Por trás da inversão irônica da ideia comum (todos acham que as bibliotecas existem para servir leitores), pairava um questionamento perturbador: e se existir uma obra dentro de cada pessoa, e ela estiver esperando o livro certo, a pintura exata, a escultura imprescindível, a música única, para então vir à tona? Se pensarmos assim, a beleza não está no mundo para nos encantar, mas para despertar novas formas de beleza, em um contágio incessante, espalhando-se e gerando ondas ao redor de todo o planeta.

Por este motivo, acho muito inusitado quando leio ou escuto entrevistas de artistas contemporâneos dizendo que fazem questão de não conhecer os mestres antigos “para não se contaminarem”. Passam a ideia de que a obra dos antepassados serve como uma influência negativa, quando, na verdade, os grandes artistas trataram-nas como contágio, como forma de dispersão da beleza por eles encapsulada. Em um interessantíssimo texto publicado em 1681, Jacques Restout pregou a noção de que o verdadeiro pintor precisa ser, antes de tudo, um ótimo poeta, ao descrever as características ideais de alguém que pretenda se dedicar à pintura: “É preciso, ainda, que seja poeta, pois existe uma relação entre essa arte e a nossa: a poesia é uma pintura falante, e a pintura, uma poesia muda; de modo que o que uma escreve no papel, a outra pinta em uma tela, e ambas usam as mesmas regras para compor suas obras. Consequentemente, o pintor deve ter perfeito conhecimento da história sagrada, profana e fabulosa, bem como da astronomia, cosmografia, geografia, cronologia e, sobretudo, da aritmética, geometria e ótica, cujos princípios infalíveis são o fundamento da pintura e da poesia.” Essa noção humanística – de que o artista deve buscar todas as formas de arte para atingir a essência do humano – parece cada vez mais dissipada nos tempos atuais, em que se privilegia a fama, o lucro, o público bovino e não-questionador ao invés do desafio, da transgressão dos limites, da perfeição estilística.

Pode parecer que estou falando só da arte, mas as pessoas cada vez menos buscam o belo na sua vida. Para quem não procura achar a beleza nas coisas, tudo lhe parece feio. A beleza funciona por contágio: assim como Rubens escutando literatura clássica para pintar, ou o pintor perfeito de Jacques Restaut tendo que se aprofundar na poesia para entender a sua arte, ou mesmo a minha amiga colocando uma tapeçaria medieval e uma sinfonia em código quase invisível dentro do seu livro, a beleza encontra maneiras de se espalhar, e é um pouco temeroso viver em um mundo onde não se ensina a apreciar o belo. Um mundo assim é o local em que pessoas matam por nada e não possuem a noção horripilante de que não mataram somente alguém, mas o mundo inteiro que orbitava ao redor de tal indivíduo. A arte existe para despertar o nosso humanismo e, por preguiça e medo dos artistas atuais com o seu receio de se “contaminarem” com o belo, está cada vez mais superficial, cada vez mais indiferente. Cada vez menos humana.

 

Texto originalmente publicado no link http://literatortura.com/2016/03/beleza-como-forma-de-contagio/

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s