Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (01/03/2016): “Os livreiros não podem morrer”

Na coluna que escrevi essa semana para o Medium da Dublinense, falei de uma figura sui generis que todo apreciador de livros conhece: o livreiro. Devo muito do que sou aos livreiros que a vida colocou no meu caminho. Já conheci os mais variados tipos, mas os que me divertem mesmo são os livreiros involuntários, aqueles que a vida colocou um  volume de livros na mão e desconhecem o seu valor real. Não faz muito tempo, no Brique da Redenção, em um canto estava um rapaz vendendo um livro por 2 reais e 10 por 10 reais. No meio, verdadeiros clássicos da literatura, todos de ótimas traduções e capa dura. Comprei 10 livros, todo afobado (vá que desaparecessem), e ele me disse, com olhar perscrutador “está baixo o preço, né?” e eu respondi “muito!”. Aquela foi uma bela manhã de sol.

Boa leitura!

 

Os livreiros não podem morrer

Se existe uma profissão que merece o mais amplo respeito é a de livreiro. No início de 2016, um fato singular aconteceu em Hong Kong: livreiros começaram a desaparecer. Eram sumiços discretos, um de cada vez, e, em uma megalópole, era esperado que ninguém fosse notar quando um dos seus habitantes deixava de frequentar os lugares costumeiros. Afinal, ele podia estar visitando algum parente distante ou, talvez, tirando merecidas férias. Contudo, não eram simples pessoas quem estavam desaparecendo, eram livreiros. Quando iam comprar livros ou trocar alguns dedos de prosa, o livreiro preferido não estava ali, e não era uma ausência fácil de ser substituída. Não é fácil trocar anos de confiança em um livreiro por qualquer livraria estilizada de shopping! O povo se inquietou com tal sumiço silencioso e não tardou a notar um elo que ligava pessoas tão díspares: eram homens acostumados a vender livros que o regime comunista chinês considerava subversivos. Concluíram que, de forma quase imperceptível, a China estava removendo eventuais obstáculos para as suas políticas, começando por donos de lojas que não seguiam a cartilha do regime, e este foi o estopim para os habitantes de Hong Kong tomarem as ruas e, com passeatas e placas, exigirem o retorno dos livreiros.

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Pergunto-me quanto tempo levaríamos no Brasil para notar o sumiço de um livreiro. Apesar dos sorrisos de escárnio dos que acham que, diante do nosso nível cultural, provavelmente nunca perceberíamos o sumiço de um, discordo: notaríamos de imediato. Eles são homens e mulheres espaçosos, mas não no mal sentido, e sim de que se espalham pelo ambiente, transformando-o em uma extensão da sua personalidade. Quase toda a vez que entro em uma livraria, o livreiro está conversando com os clientes, ondulando entre os livros, dando sugestões, ajeitando alguma prateleira, cadastrando algum misterioso exemplar, sorrindo e sendo agradável, e não é algo que fazem para ganhar o cliente, mas sim por hábito. Não são poucas as pessoas que simplesmente adentram na livraria para abanar para o livreiro, para dizer oi, para dar um abraço, para falar uma gracinha, para fazer um gesto jocoso, e saem sem comprar nenhum livro. É como se precisassem ver se o livreiro ainda resiste, se ainda está ali. Provavelmente nem estes intrusos sabem o motivo que entram na livraria se não pretendem comprar livros. No entanto, percebo uma tendência: entramos na livraria para que ela organize a nossa vida, para que sirva de contraponto ao caos do cotidiano. Saber que o livreiro está ali é como saber que existe um Deus a vigiar os nossos passos e a dar sentido para eles. Acredito que eles sabem disso, pois, para mim, na qualidade de uma pessoa que lida com gente o dia todo e, às vezes, tem vontade de procurar um botão que faria chover bombas nucleares por todos os cantos, é a única explicação possível para as suas personalidades tão afetuosas e expansivas.
Livreiros – os de verdade, não as pessoas que vendem livros, mas aquelas que vivem a venda dos livros de forma quase corpórea – são cada vez mais difíceis de encontrar. São seres em extinção, e impressiona que não lutemos para preservá-los da mesma forma que os habitantes de Hong Kong fizeram pelos seus. Um pouco inquietante perceber que só damos valor para a importância real de alguém quando esta pessoa desaparece. Não existe mercado de reposição para função tão importante. Não vejo nenhum jovem dizendo para os seus pais que sonha em ser livreiro. É como se, a partir de certo momento da vida, algo maior lhes tocasse o ombro e dissesse “vai, filho (ou filha), ser livreiro na vida!”. É um chamado, algo que se aproxima do conceito católico de vocação. Sempre tive medo da vocação, este toque invisível de anjos que determinariam o meu destino de forma inapelável. E receber o chamado para ser livreiro em um país que não gosta de livros e muito menos de cultura é – para ficar em outra imagem católica – como os primeiros cristãos pregando para os leões que pretendiam lhes despedaçar e comer no Anfiteatro Flávio. Uma tarefa inglória, fadada a muitas tristezas e decepções, mas com a alegria selvagem que somente um brilho repentino no olho do leão, um lampejo ainda que fugaz de reconhecimento à pregação, poderia proporcionar.

 

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Existe uma livraria no mundo em que os escritores homenageiam os livreiros que lhe dão sentido. É provável que nem os escritores saibam o motivo de prestar seus respeito a tal lugar, mas continuam fazendo. Pois esta livraria – chamada Alabama Booksmith, localizada em Birmingham, cidade do estado norte americano do Alabama – não fica em um centro de compras, não está nas grandes rotas de turismo e não é muito conhecida. Pelo contrário, fica em uma rua do subúrbio de uma cidade pequena e, vista de fora, parece-se muito com um trailer. No entanto, a sua proposta é singular: só vende obras autografadas. No passado, tais obras eram somente primeiras edições autografadas, mas, atualmente, são quaisquer edições, desde que estejam assinadas. Muitos autores deixaram obras para serem vendidas lá, entre os quais Philip Roth, Harper Lee e Kazuo Ishiguro. Os livros estão expostos diante da vista de eventuais interessados em folheá-los e ver as assinaturas e dedicatórias deixadas pelos seus autores. É impossível para os autores prestarem os seus tributos para todos os livreiros do mundo, mas a circunstância de existir um local em que deixam obras autografadas para serem vendidas pelo seu preço de capa é uma homenagem silenciosa aos livreiros que persistem na sua tarefa de trazer luz para o mundo, acendendo um lampião de cada vez.
Tão ingrata é a tarefa do livreiro que, mesmo sendo reconhecido e estimado no meio pelo qual circula, pouco sabemos dos livreiros que inspiraram Cervantes, Maupassant, Dante. No livro “1599 – um ano na vida de Shakespeare”, de James Shapiro, recordo que, em um detalhado capítulo, o autor faz uma alentada pesquisa sobre as livrarias da época do dramaturgo inglês e acaba encontrando inusitados traços da passagem de pessoas que, se não eram Shakespeare, podiam muito bem ser. É uma experiência delirante entrar nas livrarias do passado através da imaginação e ver livros que não mais existem, leitores vorazes cujos nomes foram apagados pela morte, grandes autores sendo paulatinamente gestados nos corredores escuros das livrarias de então. Não é tão diferente quanto vemos agora, mas com uma diferença: temos muito mais livros, muito mais vozes a nos gritarem histórias, muito mais do que Shakespeare tinha em 1599, quando pegava tramas rocambolescas de outros lugares e pensava em como transformá-las em peças de teatro. Talvez os livreiros saibam a grande verdade sobre os seres humanos: todos nós sonhamos em sair dos corredores das livrarias e passar a fazer parte das estantes delas, só não sabemos ainda em qual prateleira seremos colocados.
Existem livreiros que, de tão abnegados, acabaram enlouquecendo. Um deles ficou famoso, constituindo-se no primeiro livro escrito por Gustave Flaubert quando tinha 15 anos. A obra se chamava “O livreiro”, e romanceava uma história real, a do catalão Fray Vicente, dono de uma loja que vendia livros, e responsável pelo assassinato de doze clientes seus. O motivo não podia ser mais perturbador: o cliente entrava na livraria e, entre as demais obras, acabava se interessando por algum livro especialmente estimado por Fray Vicente, alguma obra rara ou autografada. O dono do estabelecimento era muito tímido e tinha um sério problema em dizer “não”, vendendo a obra que amava a contragosto. Depois, arrependido da sua fraqueza, ele ia atrás do comprador e o matava, recuperando, assim, o livro amado que deixara de ser seu de forma inadvertida. Quando a polícia lhe perguntou o motivo de tantos assassinatos, Fray Vicente respondeu simplesmente: “amor aos livros”. Para ele, era natural matar por causa de um livro, e não posso deixar de me perguntar quantos ímpetos assassinos não acometem os livreiros que conheço à medida que veem as suas propriedades sendo paulatinamente desfeitas por obra e graça de bibliófilos. Não me parece tão estranho imaginar um livreiro matando alguém para recuperar as obras que tanto amava.

 

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Não resta dúvida de que a profissão de livreiro é algo que atravessa os milênios, e basta pensar no quilate de alguns dos bibliotecários de Alexandria – entre os quais Calímaco, Arquimedes, Euclides, Erastótenes, Aristarco de Samos e Hipácia, a primeira mulher a ocupar tal posto – para ver o quanto eles são importantes. Não era à toa que, na coluna de entrada da Biblioteca de Alexandria, estava uma única inscrição em grego: “Aqui, cura-se a alma”. No entanto, se hoje penso em livreiros, foi por que algo inusitado aconteceu. Não sou uma pessoa acostumada a lembrar dos sonhos, posso contar nos dedos as ocasiões em que isto aconteceu. Pois esta noite passada sonhei que trabalhava em uma livraria gigantesca, perfeita, formada por todos os livros que admiro, que li, que desejo ler e aqueles que meus autores favoritos escreveram somente para colocar neste lugar, e só manusear aquelas obras e saber que logo as leria me deixava eufórico. Acordei com uma sensação estranha, misto de arrepio e de enlevo, que identifiquei com a própria noção de felicidade. No espaço do sonho, na livraria impossível que nunca terei, eu fui indecentemente feliz. E recordei algo singular: quase todos os sonhos felizes de que lembro envolvem uma livraria. Não o fato de possuir uma ou de ter à minha disposição todos os livros que desejo, mas a noção de que, em algum daqueles corredores, a alegria está me esperando, ansiosa para que eu recorde a pureza que a maturidade nos faz perder. No meu sonho perfeito, a livraria não é um paraíso; ela sou eu. O meu próprio Livreiro.

 

Texto originalmente publicado em https://medium.com/colecao-dublinense/os-livreiros-n%C3%A3o-podem-morrer-57bf384b1605#.vj8vn8f53

1 comentário

Arquivado em Fray Vicente, Generalidades, Livraria, Livreiros

Uma resposta para “Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (01/03/2016): “Os livreiros não podem morrer”

  1. lindo me inspirou um escrito, que vou colocar no lápis agora!!!

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