Texto publicado no Literatortura (2/02/2016): “O que leem os políticos?”

Na minha coluna dessa semana no Literatortura, tratei de um assunto que está me causando perplexidade: o que leem os nossos políticos? Será que leem algo? Uma breve pesquisa sobre o tema e descobri que os americanos são muito preocupados com esse assunto, o qual inclusive é objeto de curiosidade nacional, enquanto que, no Brasil, nossa indigência cultural se revela no triste fato de que não perguntamos o que os políticos estão lendo por que não nos interessa. Nem mesmo a imprensa, tão vigilante em tantos assuntos, possui este tipo de curiosidade.

Mas eu sou um utópico, tanto que ouso sugerir um novo tipo de critério para analisar candidatos: o literário. Não vai dar em nada, claro, antevejo os sorrisinhos de escárnio e as risadas debochadas, mas, do jeito que está, pelo menos é um critério que entendo válido.

Boa leitura.

 

O que leem os políticos?

Não sou a pessoa que mais assiste programas de televisão, nem tanto por uma questão de princípios, mas por motivos de falta de tempo e por achar todos os programas desprovidos de originalidade, algo que, em geral, me causa sono. Ainda assim, na semana passada, acompanhando sem querer a escolha dos candidatos a presidente nos Estados Unidos, acabei assistindo na CNN a um programa dedicado a analisar as obras atualmente lidas pelos candidatos democratas e republicanos. Pena que era um analista político quem tentava “entender” os candidatos através das suas leituras; consideraria mais apropriado um especialista em literatura.

Ainda assim, impressionei-me com o nível de leituras dos candidatos. Donald Trump disse ler “Moby Dick”, de Herman Melville; se está entendendo ou aquilo que está captando da leitura, aí é outra história. Hillary Clinton encontra-se relendo “Mulherzinhas”, de Louisa May Alcott, mas declarou a sua admiração por “A cor púrpura”, de Alice Walker, livros que, de certa forma, se relacionam com as lutas femininas. Ainda assim, achei Trump mais corajoso por admitir – ou talvez mentir – a leitura de uma obra portentosa. Na minha opinião, Hillary Clinton jogou para cair nas graças do público, ficando dentro da zona de conforto do seu eleitorado.

Tal programa me levou a investigar as leituras dos demais presidentes americanos. Existem muitas reportagens e artigos escritos sobre este assunto. Podemos entender muito da personalidade de alguém analisando as suas leituras e, quando se trata de ver aquilo que os outros pensam, não existe maneira melhor do que observar os seus hábitos de leitura.

Por exemplo, George Washington, fã da primeira escritora negra que lançou um livro de poemas nos Estados Unidos. Phillis Wheatley era uma ex-escrava que tinha recebido educação formal, e escreveu um poema em homenagem ao presidente americano. Ao lê-lo, Washington enviou uma carta para a poeta, declarando admiração pelos “seus grandes talentos poéticos” e dizendo para Wheatley que, se algum dia estivesse passando por Cambridge, em Massachussets, seria uma honra recebê-la para uma visita, ou, nas suas palavras, “eu ficaria muito feliz em ver uma pessoa tão favorecida pelas Musas”.

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Phillis Wheatley

Quanto a Abraham Lincoln, era um grande admirador de Robert Burns, ao ponto de saber várias das suas poesias de cor. Em certa ocasião, Lincoln foi convidado a fazer um discurso em homenagem ao escritor predileto. Declinou de tal honra, enviando uma carta: “Eu não posso fazer um discurso em honra a Burns. Não posso dizer nada que seja merecedor do coração generoso dele e do seu gênio transcendente. Pensando no que ele disse, percebo que não há nada a dizer que valha a pena ser dito”. Um poeta cuja obra é capaz de tirar as palavras sempre fecundas de um político – eis uma criatura a ser temida.

Thomas Jefferson também possui uma história curiosa com o seu escritor predileto. Durante viagem aos Estados Unidos, o poeta irlandês Thomas Moore foi apresentado para Jefferson, e as impressões do poeta foram altamente desfavoráveis, pois confessou, em carta escrita para a sua mãe, que o americano lhe tratou com “incivilidade pontual” e “hostilidade selvagem”. Em outras ocasiões, o irlandês também se referiu pejorativamente ao homem que outrora conhecera. Anos depois, quando Jefferson leu a poesia de Moore, declarou “Nossa, esse é o pequeno homem que me satirizou tanto! Nossa, ele é um poeta mesmo, apesar de tudo!”. Pelo resto da sua vida, o presidente americano admirou os poemas de Moore, apesar do contato pessoal entre ambos não ter sido tão favorável.

Thomas Moore

Thomas Moore

Analisando-se as leituras dos demais presidentes americanos, percebe-se uma grande inclinação por poesia. Os mandatários mais atuais têm optado pela prosa, como é o caso de Barack Obama e a sua predileção explícita pela obra “A canção de Salomão”, de Toni Morrison. Obama também é um leitor profícuo: as suas listas de leituras de férias sempre percorrem a mídia tão logo são divulgadas, e é frequente ele citar as obras que leu nas suas conversas, ou seja, não pratica uma leitura descompromissada.

Grande parte do meu interesse pelas leituras dos políticos partiu de uma constatação pessoal: não existe maneira melhor de analisar alguém do que saber aquilo que ele leu. A pessoa consegue esconder tudo a respeito da sua personalidade, ficando atrás de máscaras sociais (ou, no caso dos políticos, dos marqueteiros), mas, quando se trata de leitura, não existe meio termo – ou leu ou não leu. Sou o tipo de homem que, ao entrar na casa de alguém, tenta traçar um perfil psicológico analisando as obras que estão lá, a forma com que as prateleiras foram organizadas, a sua disposição em relação ao resto da casa e mesmo as predileções e idiossincrasias dos proprietários dos livros. Até a inexistência de prateleiras ou de livros diz muita coisa. Até hoje, tal tipo de observação não me decepcionou e se, às vezes, pareço antecipar o futuro, não é por uma questão de sorte, mas meramente por entender a mensagem subjacente que se esconde por trás dos livros de outrem. Quem lê livros também sabe ler seres humanos.

O passo natural seguinte era buscar as leituras dos políticos brasileiros e, então, deparei-me com um silêncio absoluto. Existiam, contudo, notícias ocasionais. Quatro anos atrás, um jornalista descreveu os hábitos de leitura dos políticos de Goiás, que oscilavam entre Maquiavel e Paulo Coelho, mas passando pela Bíblia (alguns políticos se orgulhavam de ler somente ela), por Chico Buarque e por muitas biografias de esportistas. Detalhe assustador foram os quatro parlamentares que disseram não ter lido nenhum livro importante para a sua formação. No entanto, era possível ver claramente quem foi sincero e quem jogou com o clichê, como a parlamentar do PC do B que disse ter como leitura predileta “O Capital”, de Karl Marx, uma forma de propagandear a sua ideologia. A ingenuidade de outros políticos ficou patente, como os parlamentares que disseram desconhecer e mesmo não gostar da literatura goiana, Estado que tem, nas suas hostes literárias, nomes como Bernardo Élis, José J. Veiga e Cora Coralina. É aceitável que alguém não goste da literatura de determinado lugar, mas o desconhecimento sobre ela também é inquietante.

Cora Coralina

Cora Coralina

No que diz respeito ao panorama nacional, uma breve notícia, ainda da época da primeira campanha eleitoral de Dilma Rousseff, informava que o seu livro predileto era “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, sobre o qual declarou “acho inigualável”. Ainda assim, como lembra a reportagem inclusive mostrando o vídeo, em outra ocasião, quando questionada sobre o seu livro preferido, Dilma Rousseff não soube responder e se confundiu por completo. Entendo tal confusão, pois já estive em situação análoga, no meio de um evento repleto de pessoas, e, ao ser indagado sobre o mesmo assunto, percebi que esquecera subitamente todos os meus livros favoritos. Não é uma pergunta fácil de ser respondida assim, de chofre. Ainda na mesma época da eleição, José Serra declarou ser admirador inconteste de “Crime e castigo”, de Dostoiévski, e de Machado de Assis. Outra resposta sem riscos, estilo a proferida por Hillary Clinton, que visa a agradar gregos e troianos.

Chamem-me de utópico, mas acredito que as campanhas eleitorais seriam muito mais interessantes se, ao invés de escutar dezenas de esperanças, de promessas vazias e de números distorcidos, falássemos sobre as obras literárias preferidas de cada candidato. É evidente que qualquer candidato de sã consciência vai defender sempre as mesmas variáveis: mais segurança, mais saúde, mais emprego. Saber o que alguém pensa do Capitão Rodrigo, de “O Tempo e o Vento”, do Érico Veríssimo, me parece mais significativo do que um clichê qualquer sobre investimentos em segurança. Perscrutar o que alguém acha de Macabéa, de “A Hora da Estrela”, da Clarice Lispector, é mais revelador do que cem frases feitas por algum marqueteiro.

Torna-se claro que este tipo de investigação desnudaria muitas pessoas que imaginamos inteligentes, mas os não leitores ávidos são capazes de gostar de uma boa história, e é nela que encontraremos a sua essência. Nos tempos atuais, tornou-se lugar comum chamar de elitista toda a pessoa que busca o conhecimento, mas qualquer forma de expressão artística – entre elas a literatura – mostra muito sobre como uma pessoa se posiciona diante dos seus semelhantes, se cruel ou benéfico, se aberto ao diálogo ou intransigente. Acaso a outra pessoa não queira mostrar suas leituras (eu entendo, é algo íntimo e revelador demais), que diga a sua opinião sobre um quadro ou sobre uma música.

Como não temos acesso ao que verdadeiramente pensa um político, e qual a sua visão de mundo, a literatura é uma chave para compreensão do humano, assim como qualquer expressão artística. Não é minha intenção dizer que planos e projetos para qualquer localidade não são importantes, mas conhecer bem as pessoas é uma forma de saber para onde elas pretendem nos direcionar.

Diante do voyeurismo com que a mídia americana aborda as leituras dos seus presidentes, percebi que o nosso problema talvez não sejam as respostas, que mostrariam a verdade sobre muitos políticos, mas a absoluta incapacidade da mídia local de realizar as perguntas que realmente importam, protegendo-se sempre atrás do “óbvio ululante”, para usar outra expressão que adoram. Não mostraríamos a falta de cultura básica dos políticos, mas sim a dos repórteres. É uma pena que tenhamos que nos sujeitar a esta visão míope, em que os entrevistadores fazem perguntas clichês esperando as mesmas respostas evidentes. Diga-me o que estás lendo e te direi quem és, mas, se ninguém perguntar, estaremos sempre condenados a votar no candidato que melhor se encaixar no estereótipo de “salvador da pátria”. Uma dica, contudo: jamais votem em quem disser que seu personagem favorito é Aquiles. Há grande perigo aí.

Texto originalmente publicado em http://literatortura.com/2016/02/o-que-leem-os-politicos/

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Arquivado em Cora Coralina, Herman Melville, José J. Veiga, Leitura, Literatortura, Literatura, Phillis Wheatley, Políticos, Robert Burns, Thomas Moore, Toni Morrison

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