Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (16/02/2016): “O dia em que me quebraram ao meio”

Na coluna que escrevi para a revista eletrônica da Dublinense nesta semana, falei de um assunto que me gera constante perplexidade: as pessoas que conseguem dizer que algo – ou alguém – é o melhor do mundo. Todas as pessoas tem um momento da vida em que descobrem alguém que lhes supera. No meu caso, descobri, e foi da pior forma possível.

Boa leitura!

O dia em que me quebraram ao meio

Às vezes, quando estou especialmente confiante, eu recordo de Louis Marchand, organista francês de renome, e sinto o mesmo efeito de um balde de água fria percorrer as minhas até então inabaláveis certezas. Consta que, em 1717, em Dresden, um grupo de aristocratas apostou quem seria o melhor organista do mundo e chegaram a dois nomes. Um deles era Louis Marchand. Na véspera do grande embate, disfarçado, Marchand foi assistir a um ensaio do seu concorrente. No dia seguinte, sem nenhuma explicação, ele fugiu de Dresden. Atualmente, podemos entender o motivo de tal pânico, pois o adversário do músico francês era ninguém menos do que Johann Sebastian Bach. Impossível não imaginar o que passou pela cabeça de Marchand olhando o ensaio de Bach e percebendo que o seu melhor não chegava aos pés do outro. Mais prudente uma fuga precipitada do que reconhecer em público que, ao contrário de Bach, ele era um reles ser humano, não um artista completo.

Sempre existe alguém melhor do que nós. O fato de ainda não termos encontrado dita pessoa não quer dizer que ela não exista, e esteja esperando para aparecer no pior momento, aquele em que estivermos mais fragilizados.

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Aconteceu comigo, há questão de dois anos. Estava palestrando sobre literatura de terror para crianças de uma escola da zona rural de um município do Rio Grande do Sul. Chovia muito naquela manhã, e eu estava no ginásio de esportes, com os pingos de chuva destroçando o zinco do telhado. Estava quase impossível para que eu próprio me escutasse, e o microfone não estava ajudando muito. Neste cenário improvável, ao final da palestra, como sempre fazia, abri espaço para as crianças contarem as suas histórias de terror. Uma menina (jamais esquecerei o seu rosto) pediu para que eu contasse uma história minha e – não sei direito o que aconteceu, talvez tenha sido o momento, ou o clima, ou a distração com o microfone e seu fio curto, ou a balbúrdia da chuva – eu tranquei. Não conseguia pensar em nenhuma história. Um grande vazio se apossou da minha cabeça.

Existe um momento na vida em que toda pessoa diz “isso nunca me aconteceu antes”, e este foi o meu. Eu gaguejei, caminhei de um lado para o outro, tentei duas ou três vezes, e nada. Dezenas de crianças esperavam a história do palestrante, a insatisfação e a descrença se avolumando ao meu redor. Foi quando a própria menina me salvou: “tio, posso contar uma?” Estendi o microfone para ela e a menina não conta uma história, mas me larga um petardo ficcional, um uppercut de criatividade, falando sobre o dia em que abriu a porta da sua casa e viu uma criatura sombria saindo correndo do galinheiro, de como os vizinhos se armaram e foram atrás daquele ser, de como o encurralaram e acabaram descobrindo que era o filho de uma mulher que fora deixado para morrer no meio do mato e que, agora, gostava de invadir quartos para ver o sono tranquilo das outras crianças. Uma impressionante mistura de “Frankenstein”, da Mary Shelley, de “A Ilha do Doutor Moureau”, do Wells, de “Peter Pan”, do Barrie, e do conto “O Horla”, de Maupassant. A forma com que ela contou foi tão intensa que até eu acreditei no que estava falando (a menina jurava que testemunhara tudo, e este truque antigo de verossimilhança tornou a história real).

Quando terminou, eu agradeci a história e pedi uma salva de palmas. Neste momento, a única atitude sábia é pretextar controle, mas, no meu íntimo, sempre soube a verdade: aquela menina me quebrou ao meio. Se eu tivesse a oportunidade de, assim como Marchand, assistir ao ensaio e ter noção do que iria acontecer, é possível que tentasse escapar da cidade, do Estado, do mundo, mas fiquei e tive que engolir em seco o momento em que alguém me superou ao natural, sem sequer fazer esforço. Alguém de roupa da Minnie e de atilho no cabelo.

Se hoje confesso tal fato, é com humildade. Tenho plena noção de que existem pessoas que podem nos superar, nos momentos mais inesperados, e nos deixar com caras de principiantes. Por tal motivo, considero no mínimo estranho esta necessidade que muitos possuem de catalogar os bons e os ruins de uma determinada época ou período histórico. É uma noção própria da contemporaneidade: a certeza de que podemos separar o joio do trigo ao mesmo tempo em que o saco de trigo está sendo enchido, sem o necessário tempo de reflexão.

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É equivocada a noção de que alguém pode ser bom em tudo aquilo que faz, e de manter a regularidade na sua produção. O que existe são pessoas que, em um determinado momento, conseguiram atingir a excelência diante dos seus pares. Impossível dizer com precisão que alguém é o melhor escritor ou artista ou engenheiro ou arquiteto quando tudo pode ser uma questão de tal pessoa não ter encontrado o oponente certo na sua época. Neste contexto, ao invés de pensarmos “Fulano é o melhor da sua geração”, o mais adequado seria refletirmos “Fulano fez algo bom, mas existem pessoas que não conhecemos que podem estar fazendo melhor”. Se a menina não tivesse levantado a mão, eu nunca teria confrontado a verdade de que, mesmo andando em território conhecido, posso saber nada. Se Marchand não tivesse ido assistir ao ensaio, nunca reconheceria que Bach era muito melhor.

Mas faz parte da nossa ansiedade, imaginar que podemos ser os primeiros a reconhecer um gênio ainda anônimo caminhando entre nós. Tão angustiante é esta sensação que, em especial no mundo da arte, a cada semana nasce um “gênio”. Neste exercício de futurologia, consideramos gênios todo mundo, e deixamos o Tempo separar os acertos dos erros.

Sobre tal atitude, Dostoiévski conta uma anedota muito peculiar. Após concluir “Gente pobre”, um de seus primeiros romances, ele deu uma cópia para Grigorovitch, que a emprestou para o poeta Nekrassov. Os dois leram a obra juntos, em voz alta, e se sentiram maravilhados. Tamanho foi o fascínio de ambos que, às quatro horas da manhã, resolveram procurar o escritor russo e dizer que o seu romance era uma obra prima. Alguns dias depois, Nekrassov emprestou a cópia para o crítico Bielinski, anunciando “Um novo Gogol apareceu na Rússia!”. Na mesma hora, Bielinski replicou “Ora, para você, os Gogol nascem como cogumelos!”. Algum tempo depois, o crítico acabou reconhecendo que o romance era excelente, mas o fato de Dostoiévski recordar desta história demonstra uma grande realidade: estamos toda hora tentando achar gênios como Gogol, pensando que eles nascem como cogumelos, mas, na verdade, gênios são raros.

Talvez o maior problema de tentar encontrar gigantes seja a capacidade de pessoas não tão geniais tentarem replicá-los. Eis outro problema da contemporaneidade: por desconhecimento das fontes clássicas, consideram geniais e inovadores meras cópias malfeitas de procedimentos artísticos, e isso nos leva à massificação de pensamentos que impede o surgimento do novo. Pior ainda – pregam que aquilo é o futuro, jactando-se da sua capacidade de antecipar as tendências, mas a arte não só já passou por aquele momento como o esgotou, esperando um redescobrimento, não uma repetição chata.

Qualquer pessoa pode colocar um copo debaixo de uma cachoeira e dizer que aquela água no copo é a melhor que já caiu, mas, e toda a outra água que escapou durante a queda? A única maneira de dizer que algo é representativo é aumentando o tamanho do copo por meio do estudo constante e da observação, não fazendo declarações estéreis sobre o que é melhor para o mundo (momento em que a água contida em um dedal subitamente vira a mais límpida e deliciosa do universo).

Recordo aqui de Émile Zola. Em 1876, o escritor visitou o Salão Internacional de Pintura, que acontecia anualmente em Paris, reunindo as tendências mais modernas da arte então em voga. Em um artigo que escreveu para comentar tal visita, Zola inicia dizendo que, pelo terceiro ano consecutivo, os pintores impressionistas apresentaram a sua obra fora dos salões oficiais. Isto por que, diante das majoritárias tendências realistas na pintura, as obras impressionistas não eram bem recebidas, tanto que o próprio nome “impressionismo” era um deboche, apropriado pelos pintores de tal estilo para se diferenciarem dos demais. Zola tenta definir o impressionismo: “Penso que devemos entender por pintores impressionistas os pintores que pintam a realidade, e que se orgulham de representar a própria impressão da natureza, que eles não estudam em seus detalhes, mas em seu conjunto.” Em seguida, conclui “Daí uma pintura de impressão e não uma pintura de detalhes. Mas felizmente, além dessas teorias, há outra coisa no grupo; quero dizer que há verdadeiros pintores, dotados do maior mérito.”

Zola era capaz de reconhecer o mérito dos pintores impressionistas ao mesmo momento em que eles estavam apresentando as suas obras, tanto que ficou amigo de vários pintores (Manet e Cézanne) e usou da sua habilidade com as palavras para elogiá-los, defendendo publicamente o impressionismo.

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No entanto, em 1896, o escritor francês voltou a comentar os Salões Parisienses para o jornal Le Figaro. Vinte anos tinham se passado. Zola não era mais o mesmo, e nem os impressionistas. Agora, eles não estavam mais fora do Salão; ao contrário, tinham se tornado a maioria das obras apresentadas. O movimento, antes proscrito a alguns poucos artistas, subitamente se tornara a sensação. E, com ela, veio junto a decadência, o descaso, o desleixo, a cópia descuidada e barata dos princípios que eram puros, o que leva Zola a comentar:

“Mas o que redobra meu assombro é o fervor dos convertidos, o abuso da nota clara, que faz com que certas telas se pareçam com tecidos desbotados por uma lavagem excessiva. O que as novas religiões têm de terrível é que quando se misturam com a moda, elas ultrapassam todo bom-senso. E diante deste Salão lavado, tratado com cal, de uma brancura giz, insípida e desagradável, quase sinto saudade do Salão escuro, do Salão de betume de antigamente. Ele era escuro demais, mas este aqui é branco demais. A vida é mais variada, mais quente, mais flexível. E eu, que lutei tão violentamente pelo ar livre, pelas tonalidades loiras, sinto-me exasperado diante desta fila contínua de quadros exangues, de uma palidez de sonho, de uma anemia premeditada, e surpreendo-me desejando um artista de rudeza e trevas!”

O autor francês demonstra o seu desencanto com aquilo que ajudou a constituir como movimento estético. Considera que as ideias acabaram sendo deturpadas por copiadores que, sem entender direito aquilo que pregava o impressionismo, achavam que colocar qualquer mancha de qualquer cor sobre uma tela bastava para transformar a obra em algo impressionista. O excesso malfeito leva à destruição do ideal de perfeição buscado, e Zola encerra o seu artigo com uma nota de desespero ao perceber o que tinha feito:

“Desperto e estremeço. Então, na realidade, foi por isso que lutei? Foi por essa pintura clara, por essas manchas, por esses reflexos, por essa decomposição da luz? Meu Deus! Eu estava louco? Isso tudo é muito feio e me causa horror. Ah! Futilidade das discussões, inutilidade das fórmulas e das escolas! Eu deixei os dois Salões deste ano perguntando-me com angústia se minha antiga batalha teria sido nociva. […].”

A tentativa de revelar gigantes faz com que qualquer pessoa alta se identifique desta forma, mesmo sem ser gigante. Zola se decepcionou com o movimento impressionista por que, antes dele estar devidamente desenvolvido, o seu esforço em considerá-lo como o futuro da arte fez com que os ideais se deturpassem. Quando uma pessoa nos diz que existe alguém melhor do que todos os outros, está completamente errada, pois não tem como conhecer todos os outros. Pior ainda: periga sufocar uma voz original, que, na tentativa de copiar o modelo de excelência, acaba esquecendo a sua própria criatividade.

Portanto, o melhor é ser criativo e não pensar em ser o melhor para os outros, mas o melhor para si. Senão, é grande a possibilidade de que, em uma manhã ainda desconhecida, uma menina de não mais do que 12 anos levante na plateia e acabe com toda a sua presunção de conhecimento em longos (quiçá intermináveis) 3, 4 minutos. Podem acreditar – aconteceu comigo, e não foi uma experiência agradável. Ninguém sabe o dia em que, enfim, será batido e humilhado.

 

Texto originalmente publicado em https://medium.com/colecao-dublinense/o-dia-em-que-me-quebraram-ao-meio-a0c92decd526#.nu48kynx6

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Arquivado em Arte, Émile Zola, Dublinense, Impressionismo, Johann Sebastian Bach, Literatura, Música

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