Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (10/02/2016): “Como se inspirar batendo a cabeça”

Na minha coluna desta semana no Medium da Dublinense, eu tratei de inspiração e de como alguns autores acabaram, por vias transversas, até mesmo traumáticas, conseguindo inspiração para as suas obras. No meu caso, o problema não é propriamente estar inspirado, mas deixar de me sentir assim. Tornou-se um pouco habitual, nos últimos tempos, conversar com as pessoas e ter ideias para escrever meus textos. Este não é exceção: nasceu também de uma conversa, em especial no momento em que afirmei “Não existe tragédia maior que ver uma ótima história ser má contada por um escritor impregnado de desleixo ou preguiça”. Não existe nada pior mesmo. O resto do texto se estruturou em torno de tal constatação: não basta ser inspirado, é imprescindível fazer jus à inspiração.

Boa leitura!

 

Como se inspirar batendo a cabeça

Quando as pessoas me perguntam de onde tirar inspiração, a minha resposta é sempre a mesma: de tudo. Qualquer objeto, sentimento ou situação pode ser a mina atrás da qual o ouro da inspiração se esconde. Basta ler as obras clássicas para percebermos que os grandes escritores são capazes de usar qualquer material humano ou inumano de fonte para as suas histórias. Recordo do impacto que sofri ao ler “Objetos turbulentos”, de José J. Veiga, e ver que seus contos oscilavam em torno de objetos cotidianos, capazes de catalisar as mais diversas reações humanas no seu entorno. O próprio título é auto-explicativo: dentro de cada objeto existe uma turbulência, uma história ansiosa para se libertar. Podemos ir um pouco mais longe e utilizar uma explicação da Física: a matéria é formada por átomos em constante movimento. E se cada átomo quiser contar a sua história?

cafeteira para masoquistas, de Jacques Carelman

cafeteira para masoquistas, de Jacques Carelman

Se a inspiração está em tudo, a grande questão deixa de ser onde encontrá-la, mas como transformá-la em narrativa. Para tal tarefa, existem estudos, técnicas, estratégias, tudo com o objetivo de transformar ideias em histórias. Não existe tragédia maior que ver uma ótima história ser má contada por um escritor impregnado de desleixo ou preguiça. Para mim, equivale a um assassinato. Isto por que a história existirá, mas nunca com toda a força e energia que poderia ter. Não é à toa que comparo os clichês às sanguessugas: quando em excesso, estão ali, sugando o viço da narrativa, mas, usados com parcimônia, podem ser essenciais para que ela se sustente sozinha.

Penso em inspiração e lembro um livro fascinante, “Cuando llegan las musas”, de Raúl Cremades e Ángel Esteban. Nesta obra, os dois autores se debruçam sobre como alguns escritores latino-americanos se inspiraram para iniciar as suas narrativas. No caso de Borges, todos os seus contos nasciam de sonhos: assim que ele acordava, punha-se a falar sobre aquilo que tinha sonhado para não esquecer, e só depois colocava no papel. Pode-se dizer, assim, que grande parte da sua obra nasceu no mundo dos sonhos e veio para a literatura quase que de forma direta. Para Isabel Allende, a inspiração é ainda mais peculiar: a cada dia 08 de janeiro de todo ano, a escritora chilena senta na sua mesa de trabalho e inicia um romance. Ninguém sabe o motivo desta data em específico (existem hipóteses, destacadas pelos autores), mas sabemos que, irrelevante o que aconteça, dia 08 de janeiro Isabel Allende iniciará um livro. Vargas Llosa só consegue escrever se estiver rodeado por imagens e por bonecos de hipopótamos. Rafael Alberti escrevia em qualquer lugar e em todo tipo de material, até mesmo papel higiênico e guardanapos de bares. Contudo, na hora de dar autógrafos, não escrevia, preferindo desenhar pombas.

Dança das Musas no Monte Hélicon, de Bertel Thorvaldsen

Dança das Musas no Monte Hélicon, de Bertel Thorvaldsen

Existem aqueles para quem a inspiração nasceu de um trauma. Em algum momento da vida, eles tiveram um choque tão emblemático que a única forma que conseguiram lidar foi transformando em arte. Ao contrário do que muitos dizem por aí, a arte não tem um efeito somente recreativo, pensamento este que transforma todas as experiências artísticas em uma grande brincadeira ou forma de lazer. Ela também serve para expiar culpas, para ensinar, para alertar e para curar antigos medos.

Vejamos o caso de Dostoiévski. Aos 28 anos de idade, ele escreveu um livro chamado “Pobre gente”, obra ainda imberbe e longe do seu potencial pleno, mas que, mesmo assim, recebeu vários elogios. Entusiasmado, o escritor russo escreveu “O duplo” e “Noites brancas”, os quais, por sua vez, receberam críticas devastadoras. Por causa das suas amizades e das suas visões sociais, Dostoiévski foi mandado para a Sibéria, onde permaneceu durante oito meses. No dia 22 de dezembro de 1849, avisaram-lhe que o czar decidira pelo fuzilamento dos revolucionários. Depois de uma péssima noite de expectativa e de pensamentos funestos, na manhã do dia 23, Dostoiévski e os seus companheiros ficaram diante do pelotão de fuzilamento. Os soldados ergueram as armas…. e abaixaram-nas. O czar decidira comutar a pena de morte, modificando-a para trabalhos forçados e exílio. Depois se soube que, desde o início, o czar proferira a determinação neste sentido, mas mandara acrescentar o quase-fuzilamento como um ingrediente extra de perversidade.

A história da quase-morte foi descrita em uma carta de Dostoiévski para o seu irmão e, no texto, o escritor faz frequentes menções a um escrito de Victor Hugo, “Os últimos dias de um condenado à morte”, demonstrando que os impactos sofridos graças aos acontecimentos foram previamente antecipados pela literatura. O inquestionável é que, depois deste evento, o escritor nunca mais foi o mesmo. Passar tão perto da morte deixou-lhe marcas no espírito. Um homem foi colocado diante do pelotão de fuzilamento – e, quando abriu os olhos, ali estava o Dostoiévski que se tornaria tão importante para a literatura mundial.

Curiosamente, os impactos psicológicos sofridos por Dostoiévski foram melhor descritos – ou imaginados – em outra obra ficcional. Em “Verão em Baden Baden”, Leonid Tsipkin conta a história do Dostoiévski pós-trauma, assolado por problemas financeiros e pela epilepsia, que tenta melhorar de vida jogando em um cassino em Baden Baden. Ainda que se desloque entre dois focos narrativos – um é o próprio Tsipkin viajando de trem pela Rússia enquanto pensa nos seus dilemas de ser um autor proibido de publicar e o outro é a suposição do que aconteceu com Dostoiévski naquele final de semana -, o autor imagina um Dostoiévski sacudido por demônios indevassáveis, com as suas histórias ainda presas no corpo tentando sair, sendo sistematicamente humilhado, um homem frágil e instável incapaz de lidar com a própria mente e que, ainda assim, deve continuar vivendo.

Outro escritor que sofreu um decisivo abalo psicológico – no caso dele, um “abalo psicológico” no sentido literal do termo – foi Michel de Montaigne. Existiu um tempo em que Montaigne não pensava em escrever como forma de melhor usufruir da existência. Escrevia os seus textos, sim, mas eram superficiais, para seu próprio deleite. Morava na propriedade deixada pelos seus pais, tinha família e posses, mas sentia que algo estava faltando. Aos 36 anos de idade, imerso em uma vida da qual não via muito sentido, Montaigne pegou o cavalo para passear dentro das suas terras e visitar as casas dos servos mais distantes, como fazia com frequência.

Nestes passeios, Montaigne era acompanhado por um grupo de servos, que estavam ali para protegê-lo. Vivia-se um período violento, com guerras entre protestantes e católicos, e era normal encontrar bandidos vagando à esmo. Naquele dia em específico, ninguém soube direito o que aconteceu: Montaigne afirmou que tentaram lhe acertar um tiro e ele caiu do cavalo, batendo com a cabeça no chão; os servos contaram que um deles teria passado à frente do cavalo do filósofo francês que, em um solavanco repentino, o derrubou. O inquestionável é que Montaigne caiu e desmaiou.

Foi levado para a sua casa, onde permaneceu mais de uma semana em coma. Os familiares estavam convictos de que ele morreria. No entanto, ao cabo de 17 dias, Montaigne voltou à consciência. E dizendo que tinha assistido a tudo que lhe acontecera desde o desmaio, inclusive no período de coma. Ele descreveu como se sentiu naquela época:

“Parecia que a vida pendia dos meus lábios por um fio; fechei os olhos, querendo, ao que me parecia, ajudar a soltá-la; e senti prazer em ficar cada vez mais lânguido e me entregar. Essa ideia apenas flutuava na superfície da minha alma, delicada e frágil como todo o resto, mas na verdade não só livre de qualquer aflição como misturada àquela doce sensação que experimentamos ao nos deixar deslizar para o sono.”

Andar próximo da morte, assim como Dostoiévski, fez Montaigne escrever com maior afinco. À reunião dos seus escritos, com o passar do tempo, decidiu chamar de “Os ensaios”. Dotados de forte tom subjetivo, os textos possuem um constante flerte com a morte. O fato de ele se sentir como se tivesse morrido naquele incidente o forçou a escrever com mais constância e determinação sobre todos os assuntos. A morte estava espreitando a sua vida e, para afastá-la, só lhe restava escrever sem parar.

Um detalhe interessante é que o estilo literário e filosófico do francês foi determinado pela sua gata. Em uma noite, Montaigne estava escrevendo junto à janela quando ouviu a gata ronronar atrás de si. Percebeu que ela estava sentada sobre uma poltrona, esperando que ele parasse de escrever para brincar consigo. Montaigne obedeceu – foi até a poltrona e, enquanto brincava com a gata, de acordo com o que escreveu, começou a pensar em como ela devia observar o mundo. Por alguns segundos, Montaigne entrou na visão da gata e tentou perceber a realidade através dela, saindo dali a famosa frase “Quando brinco com a minha gata, como sei se não é ela quem está brincando comigo?”. Pode parecer uma observação ínfima, mas está no cerne de todo o seu sistema filosófico: para apreender a realidade, precisamos entrar na pele do outro e ver o mundo como ele veria, não como nós gostaríamos que ele o enxergasse. Uma lição muito válida para os tempos atuais. Em termos literários, não deixa de ser notável a humildade do filósofo, saindo do patamar de homem para olhar o mundo através da sua gata e, assim, descobrir a voz narrativa que buscava.

Gato na poltrona
Outro incidente notável que mudou de forma definitiva a história de um escritor aconteceu com Borges. Em 1938, ele chegou à casa da sua mãe e, ao subir correndo a escada que levava para o segundo piso, não viu uma janela aberta. Borges acertou a cabeça com força no batente da janela aberta e, durante meses, como a ferida infeccionou, precisou caminhar com a cabeça enfaixada como se fosse um turbante.

Quando lembrava desta época, Borges mencionava que se sentia como se fosse um cego, posto que não enxergava direito por causa da atadura, e necessitava de uma bengala para se locomover. Estela Canto, em “Borges à contraluz”, afirma que foi neste momento que nasceu o escritor Jorge Luis Borges que o mundo conheceria:

“Durante esse período de cegueira, [Borges] compôs momentaneamente a figura que haveria de mostrar ao mundo anos depois, já velho, trêmulo e glorioso: um cego patético e transparente, tateando o caminho com uma bengala branca, um humilde velho que pedia ao transeunte desconhecido que o ajudasse a atravessar a rua, um pouco Ulisses mendigo em Ítaca, Édipo em Colona, um rei disfarçado. Sua vida tinha se convertido numa fábula. O mito não era uma fuga da realidade, era seu apogeu. A literatura não era o consolo dos fracos, mas a vida intensificada, a vida exaltada e com sentido.”

O escritor argentino transmitiu este fato para a sua literatura. No conto “O Sul”, Borges conta a história de Dahlmann, um homem normal e enfadonho que, certo dia, ao subir correndo as escadas da sua casa, bate com a cabeça na janela e, a partir deste momento, passa a viver em uma realidade disforme, em um estado delirial constante. As leituras outrora feitas parecem se confundir e se entremear graças ao trauma experimentado. Dahlmann resolve empreender uma viagem pelo “Sul’, um local mais mítico do que real, atrás dos mitos fundadores do país e, neste processo, acaba entrando em um bolicho, onde uma situação limite acontecerá. Borges considerava este o seu melhor conto, e tem muito de autobiográfico nele. Para ser sincero, tenho dúvidas se Borges não pensava que Dahlmann era o Borges real e ele, o de carne e osso, a criatura fictícia que se arrastava pelo mundo. Misto de Dom Quixote e Madame Bovary, Dahlmann é enganado pelas leituras realizadas, que guiarão os seus passos até um problemático confronto com a realidade.

Isso não quer dizer que as pessoas precisem sair por aí batendo cabeça em paredes ou arrumando brigas com czares russos. Experiências traumáticas podem parecer importantes para a literatura, mas nem só de trauma se forma um artista. Shakespeare teve que pagar o ressarcimento por um teatro inteiro que roubou, e isto dói decisivo para forçá-lo a escrever os seus melhores trabalhos no espaço de dois anos; Cervantes foi preso por dívidas e, na cadeia, sem nada para fazer, começou a escrever “Dom Quixote” ao encontrar um tradutor mouro cheio de histórias na mesma cela. Não adianta nada ter inspiração se não souber transformá-la em palavras e, se existe algo que a literatura nos ensina, é que a imaginação é o único espaço livre por natureza. Sempre temos grilhões, mas, quando se trata de sonhar, não temos limites.

 

Originalmente publicado em https://medium.com/colecao-dublinense/como-se-inspirar-batendo-a-cabe%C3%A7a-16f5f353835#.7x34sgz34

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Arquivado em Dostoiévski, Dublinense, Generalidades, Inspiração, Jorge Luis Borges, José J. Veiga, Literatura, Montaigne

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