Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (03/02/2016): “As minhas criações do mundo”

Na sexta passada, caiu uma forte tempestade sobre Porto Alegre que, apesar de não deixar mortos, acabou causando muitos estragos. Sem contar que o pior do ser humano aproveitou a desgraça para aflorar: vi gente brigando por sacos de gelo, vi carros fazendo conversões proibidas e quase atropelando pedestres, vi autoridades omissas lavando as mãos e passando responsabilidades adiante. Enfim, humanos fazendo coisas humanas. Mas também presenciei cenas bonitas, como uma velhinha solitária limpando a Redenção em um final de tarde.

A tempestade serviu também para que eu refletisse um pouco não sobre a destruição, mas sobre a criação de mundos. Destruir é fácil, criar é a verdadeira dificuldade. Pensei nas criações do mundo que eu realmente gostava, e o resultado acabou se tornando este texto, que tem de tudo um pouco: desde deuses distraídos dando cusparadas e um universo engendrado por Shakespeare até a história de um quadro obscenamente fascinante e um mundo invertido em que fomos criados pelo Diabo.

Relendo o texto, duas frases me fazem dar muitas risadas: “apesar de, às vezes, o mundo parecer mais uma trama de um Ionescu chapado do que algo elegante como Shakespeare” e “A idade não nos deixa mais inteligentes, nos deixa mais doloridos”. Eis uma das partes mais estranhas da literatura: quando se vai ler algo e se pensa “uau, eu queria ter escrito esta ideia!” – e escrevi mesmo!

Boa leitura.

As minhas criações do mundo

Após a tempestade que se abateu sobre Porto Alegre na semana passada, não foram poucas as pessoas dizendo que o mundo tinha acabado. Parece-me um pouco presunçoso que o mesmo Deus, que se esmerou em requintes de criatividade mandando um Dilúvio e depois destruindo Sodoma e Gomorra com fogo, terremoto e chuva de enxofre, agora esteja tão displicente que manda só chuva e vento para limpar a Terra. Não, o mundo não acabou, por mais esfuziantes que sejam os vídeos da tormenta passada. Cabe a todos restabelecermos os serviços essenciais e voltarmos à vida de sempre, com nossos bons e velhos problemas ínfimos.

Foto de Alexandre Ludwig para o Jornal NH

Foto de Alexandre Ludwig para o Jornal NH

Essa conversa de fim do mundo me fez lembrar o contrário: os mitos da criação, e de como a Arte os observa. Desde o início da Humanidade, existem pessoas tentando explicar como o mundo surgiu. Faz parte da eterna angústia de saber de onde viemos. Não sei se é uma pergunta boa de ser respondida: prefiro pensar que ou somos milagres de uma divindade inegavelmente brincalhona ou somos partículas de caos brincando com a efemeridade, e qualquer uma das explicações é suficientemente assustadora.

Existem tantos mitos da criação que não vale a pena listá-los, até por que cada um tem o seu favorito. Impossível não lembrar o Gênesis e o seu tom monocórdio anunciando a forma com que o mundo se originou. Contudo, o meu predileto é o mito de criação da antiga Lituânia. Segundo ele, um dia, Dievas, o deus da criação, estava caminhando em uma praia e encontrou uma criatura estranha vinda no sentido oposto. Encarou-a de cima a baixo e ficou pasmo, pois não tinha inventado tal ser. Perguntou de onde tinha vindo, e o estranho foi incapaz de responder com precisão, gaguejante. Foi quando Dievas lembrou que, no dia em que criara o mundo, em certo momento cuspiu no chão, e a criatura só podia ter se originado desse gesto. Consigo imaginar uma divindade limpando a garganta através de um cuspe e, desta atitude impensada, criando homens e mulheres que se espalhariam como praga pelo planeta. Eis um Deus em que é fácil de acreditar: o distraído.

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Na pintura, não consigo pensar na criação do homem – e, por conseguinte, do mundo – de acordo com Michelangelo, com Deus tocando o dedo de Adão na Capela Sistina. Considero uma versão asséptica e correta demais para um gesto por demais caótico. Ou seja, muito bonito para ser verdade.

Na minha opinião, poucos quadros representam melhor a criação do que a ousadia quase desaforada de “A origem do mundo”, de Gustave Coubert, provavelmente um dos quadros mais fascinantes – e escondidos – que já foi pintado.

A história de “A origem do mundo” é quase mais incrível do que o seu conteúdo. Feito por encomenda a pedido de um diplomata turco que já adquirira outra obra erótica pintada por Courbet (“As adormecidas”), o quadro acabou sendo vendido para saldar antigas dívidas. O antiquário que comprou a obra foi acusado pela esposa de estar ostentando algo pornográfico, e decidiu escondê-la atrás de outro quadro. Émile Vial, colecionador de arte cuja especialidade era arte japonesa, em visita ao antiquário, foi apresentado à obra oculta e, sem entender direito o motivo, comprou-a.

No início do século XX, o quadro foi comprado por um aristocrata húngaro, o barão François de Hatvany, que levou “A origem do mundo” consigo para Budapeste. Contudo, durante a Segunda Guerra Mundial, o Exército russo roubou o trabalho de Courbet, devolvendo-o somente após solicitação expressa dos sucessores do barão. Estes, por sua vez, venderam o quadro para o famoso psicanalista Jacques Lacan, que o colocou na sua casa de campo, mas atrás de um anteparo de madeira, para escondê-lo de eventuais visitantes. Era, assim, uma obra de arte apreciada por somente um homem, Lacan em pessoa. Após a morte do psicanalista, o desenho desprovido de pudor foi então doado ao Museu D’Orsay, onde se encontra até os dias atuais.

"A origem do mundo", de Gustave Coubert

“A origem do mundo”, de Gustave Coubert

“A origem do mundo” era um quadro que, entre sucessivas idas e vindas, tinha tudo para acabar destruído, seja por querer, seja de forma acidental. Não se pode ignorar o quanto a sociedade é conservadora, por mais liberal que pretenda se identificar, e o quanto o quadro subverte todos os sensos de moralidade com a sua visão explícita e abrangente do sexo feminino. Ainda assim, ao contrário de tantas obras desaparecidas na História da Arte, logrou sobreviver, em boa parte graças à força quase hipnótica em que faz submergir o observador. É um quadro resistente. O título é tão definitivo que nos força a olhar o conteúdo com a certeza de que o nosso mundo começa ali mesmo: no meio das pernas de uma mulher. O nosso mundo, o de Alexandre o Grande, o de Marie Curie. O de Hitler também.

Em 2013, ocorreu uma grande polêmica ao redor de “A origem do mundo”, pois surgiu o boato de que a pintura correspondente à parte de cima – o rosto da mulher – teria sido encontrada. Por muito tempo acreditou-se que Gustave Coubert fizera um díptico: enquanto o rosto da mulher – identificada na suposta pintura como Joanna Hiffernan – resplandeceria de beatitude, as pernas abertas mostrariam uma outra realidade, algo que, sem dúvida, geraria novas interpretações. Contudo, os críticos ainda não possuem uma unanimidade sobre tal descoberta, até por que a ideia de um sexo feminino ter nome, rosto e endereço tira boa parte da universalidade da obra.

Ainda sobre este quadro, lembro um divertido livro do escritor chileno Jorge Edwards, chamado também “A origem do mundo”, que inicia com o personagem principal e a sua namorada observando a obra de Courbet no Museu D’Orsay. Ao perceber que a namorada estava com um semblante estranhamente absorto, naquela noite, antes dos dois transarem, o narrador tenta criar um jogo sexual com ela, pedindo para que imitasse a posição presente no quadro. Diante da recusa enfurecida da namorada, o narrador passa a prestar mais atenção nos relacionamentos do casal, e, quando morre o seu melhor amigo (de quem tinha ciúmes por reconhecer o seu poder de sedução sobre as demais mulheres), descobre, dentro da gaveta do criado mudo, a foto de uma mulher na mesma posição de “A origem do mundo”. Enciumado, basta olhar a foto para concluir que a sua namorada transara com o amigo, pois só podia ser o sexo dela constante na imagem, o que explicaria a sua estranheza quando viram o original, e o restante do livro é uma investigação desastrada para descobrir se a traição aconteceu mesmo. Apesar de servir para mostrar a situação política do Chile e as discussões entre os exilados, o livro de Edwards também demonstra algo do poder enlouquecedor da arte e a sua capacidade de modificar o nosso destino.

Em outro mito da criação que aprecio muito, Shakespeare é quem assume o lugar de demiurgo e dá origem ao nosso universo. No poema “Shakespeare”, do romeno Marin Sorescu (1936-1996), autor infelizmente ainda desconhecido no Brasil, o poeta descreve um mundo com sentimentos e personagens criados pelo bardo (abaixo, na tradução de Luciano Maia):

“SHAKESPEARE
Shakespeare criou o mundo em sete dias.
No primeiro dia fez o céu, as montanhas e os abismos da alma.
No segundo dia fez os rios, os mares, os oceanos
E os restantes sentimentos –
Que deu a Hamlet, a Júlio César, a António, a Cleópatra e a Ofélia,
A Otelo e a outros,
Para que fossem seus donos, eles e os seus descendentes,
Pelos séculos dos séculos.
No terceiro dia juntou todos os homens
E ensinou-lhes os sabores:
O sabor da felicidade, do amor, do desespero
O sabor ciúme, da glória e assim por diante,
Até esgotar todos os sabores.
Por esse tempo chegaram também uns indivíduos
Que se tinham atrasado.
O criador afagou-lhes compassivo a cabeça,
E disse que só lhes restava
Tornarem-se críticos literários
E contestarem a sua obra.
O quarto e o quinto dia reservou-os para o riso.
Soltou os palhaços
Para darem cambalhotas,
E deixou os reis, os imperadores
E outros desgraçados divertirem-se.
Ao sexto dia resolveu alguns problemas administrativos:
Forjou uma tempestade,
E ensinou ao rei Lear
O modo de usar uma coroa de palha.
Com os restos da criação do mundo
Fez o Ricardo III.
Ao sétimo dia viu se havia algo mais a fazer.
Os diretores de teatro já tinham coberto a terra de cartazes,
E Shakespeare concluiu que depois de tanto esforço
Também ele merecia assistir ao espetáculo.
Mas antes disso, esfalfado de todo,
Foi morrer um pouco.”

Assim como Harold Bloom acredita que Shakespeare criou o Humano, não é tão difícil imaginar um mundo repleto de situações, personagens e tramas shakespereanas (apesar de, às vezes, o mundo parecer mais uma trama de um Ionescu chapado do que algo elegante como Shakespeare). Se precisamos tanto da imagem de um Deus, é melhor que ela corresponda à de um artista completo, e não a de um ser indiferente e distante. Shakespeare mostra-nos a dúvida, o sentimento humano mais palpável de todos: ele nos mostra os caminhos, mas deixa que cada um faça a sua escolha, e existe algo de divino nisto.

William Shakespeare (Hulton Archive/Getty Images/VEJA)

William Shakespeare (Hulton Archive/Getty Images/VEJA)

A ideia de qualquer artista ser capaz de criar e povoar um mundo é algo que atrai a curiosidade alheia, e representa uma fonte de fascínio quase tão grande quanto o quadro de Courbet. No interior da obra, o autor é Deus, mas as consequências da sua criação repercutem no mundo externo. Neste contexto, prefiro ter um Deus shakespereano ao invés de outros escritores mais superficiais. Nesse caso, como diz o Riobaldo de Guimarães Rosa, “se Deus vier, que venha armado”.

Ainda existe um último mito de criação que me encanta, e está no poema “Novo Gênesis”, de Affonso Romano de Sant’Anna. Nele, quem cria o universo é o Diabo. Cria a cobiça, a usura, a inveja, a gula, a preguiça, a soberba e a ira, e vê que os pecados capitais são bons. Cria as guerras, as epidemias, a opressão, a mentira e, no sétimo dia, quando vai descansar, um anjo chamado Deus se revolta e é expulso para os céus, onde passará o restante da Eternidade travando pequenas escaramuças que não mudarão em nada os eventos humanos.

A inversão da história bíblica e a exibição do Diabo como o verdadeiro poder, contra o qual a bondade de Deus se insurge, demonstra uma grande desesperança com o próprio ser humano. O mal é o estado natural das pessoas, o bem é a exceção, e basta vermos as notícias para constatar o quanto tal fato é verdadeiro. A cada dia que passa, fica mais difícil acreditar na figura de um Criador benevolente, e o poema de Affonso Romano de Sant’Anna, com a sua inversão, soa muito mais verídico do que as outras histórias que nos contaram.

Existem muitos mundos, e todos eles foram algum dia inventados do nada. Seja criado por Shakespeare ou pelo Diabo, esteja no cuspe indiferente de um deus ou no meio das pernas de uma mulher, o universo renasce a cada vez que abrimos os olhos. Se será um universo bom ou ruim, cabe a nós decidirmos. Por algum tempo, nos meus anos iniciais, acreditava que a cada dia bom sucedia-se um dia ruim, e vice versa, e este arranjo meu com o Destino funcionou adequadamente por alguns anos, até que a equiparação acabou e uma sucessão de dias ruins é agora interrompida, às vezes, por um único dia razoável. A idade não nos deixa mais inteligentes, nos deixa mais doloridos. As pessoas acham-se tão importantes que tem a certeza de que o mundo acabará quando elas morrerem, mas, sinto dizer, vai continuar. O único fato que podemos mudar é o rumo da nossa história, a forma com que nosso mundo se articula. Somos só passagem, e não fim.

 

Texto originalmente publicado em https://medium.com/colecao-dublinense/as-minhas-cria%C3%A7%C3%B5es-do-mundo-2dea0104d510#.roymlefmm

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Arquivado em A origem do mundo, Affonso Romano de Sant'Anna, Arte, Dublinense, Gustave Courbet, Jorge Edwards, Literatura, Marin Sorescu, Mito da criação da Lituânia, William Shakespeare

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