Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (12/01/2016): “Os leitores assassinos”

No meu retorno à coluna da Dublinense em 2016, escrevi sobre uma modalidade de leitores que me fascinam: os assassinos. Aqueles que, talvez sem querer, acabam matando a obra ou um personagem ou até mesmo as aspirações e vontades do seu autor. Bom, alguns até podem matar os autores, mas aí seria assunto para outro texto.

A qualidade de um escritor decorre – e muito – do nível dos seus leitores. Neste sentido, não posso reclamar. Conforme menciono no texto, nos últimos tempos tenho recebido vários retornos dos leitores, com comentários, sugestões e dúvidas, e todos são muito apreciados. Aprendo muito com meus leitores, e mesmo os assassinos me ensinam bastante.

Boa leitura!

 

Os leitores assassinos

Nos últimos tempos, por um destes motivos sazonais que não possuem uma explicação lógica, tenho recebido muitas mensagens de leitores e leitoras. São todas semelhantes: um breve itinerário de como chegaram até “O homem despedaçado”, um relato de que leram meu livro (boa parte está na segunda ou terceira leitura) e, em seguida, alguma reflexão sobre os contos, ou dúvida, ou epifania que tiveram. Boa parte delas mostra certo constrangimento, como se estivessem falando o óbvio ou com receio de me incomodar. Muito pelo contrário – as mensagens são lidas com atenção. Contudo, minhas respostas são insuficientes: também sou meu leitor, e tenho tantas dúvidas quanto as que me apresentam. É ilusão pensar que o autor sabe tudo sobre o seu livro; a obra é sempre menos decepcionante do que o homem.

Em geral, os leitores são criaturas muito afáveis. Gostam dos personagens, identificam-se com as narrativas, mandam palavras de estímulo e até mesmo as suas críticas e dúvidas mostram as eventuais fraquezas de uma história. Aprendo muito com os leitores. Também é verdade que uma parcela deles me assusta um pouco, em especial os que levam tudo ao pé da letra ou que consideram seus erros de caráter legitimados pelas minhas narrativas.

No entanto, existe uma modalidade de leitor que, assim como Moriarty, desliza por entre os textos ficcionais, buscando brechas por onde possa enfiar sorrateiras facas, seus passos sempre pressentidos nas sombras dos parágrafos, seu olhar frio escondendo-se atrás dos números de capítulos. São os leitores assassinos, aqueles que, talvez sem saber, leem um livro com a intenção de matá-lo.

faca no livro

A invisibilidade destes leitores dificulta muito na compreensão dos seus métodos, mas, assim como os astrônomos, não precisamos ver um buraco negro para saber que ele existe, basta analisar o comportamento do espaço ao seu redor. Ainda não fui capaz de catalogar todos os tipos. O leitor assassino é melífluo e inconstante; adapta a sua tática às particularidades da vítima. É como o assassino perfeito descrito por Agatha Christie na última aventura de Hercule Poirot, “Cai o pano”: o assassino perfeito não é aquele que mata, mas que convence sutilmente outros a matarem em seu nome.

Uma das suas táticas é fazer com que a originalidade de uma trama seja falsa, pois o livro seria a versão ficcional de algo que realmente aconteceu. Após o livro, o leitor espalha a notícia de que é a versão não-autorizada de um episódio da sua vida e, com tal atitude, transforma a obra em um pastiche malfeito da realidade. Acontece com todos os escritores: leitores que se aproximam e dizem que a trama descrita na ficção tinha acontecido consigo, mas os nomes estariam trocados. Contudo, é mais provável que o autor tenha escutado dezenas de casos semelhantes para formar a sua narrativa, não somente uma história repleta de imperfeições.

Existe o estranho conceito de que escritores escrevem para se vingar de determinadas pessoas ou para revisar situações do passado, o que transformaria toda a História da Literatura na mera extravasação de um bando de recalcados. É possível que alguém faça isto, mas a raiva e a vingança nunca são bons conselheiros. Vejo muitos memes ou frases espirituosas no estilo de “cuidado! Se você não se comportar com um escritor(a), ele(a) poderá colocá-lo(a) em uma obra e matá-lo(a).” Não sei fazer isto, e não conheço nenhum escritor que faça. Afinal, existem pessoas bem mais interessantes para “matar” ficcionalmente do que a garçonete que me trouxe um café frio. Não somos assim tão irascíveis ou volúveis.

Gustave Flaubert foi sistematicamente atacado por este tipo de leitor assassino, como demonstra a sua correspondência, parcialmente juntada em “Cartas Exemplares”. Até terminar “Madame Bovary”, a luta do escritor francês era com o seu estilo e com a sua própria criação, tentando deixá-la o mais próxima da realidade. Foram inúmeras cartas com dúvidas estilísticas ou contando as vicissitudes da revisão forte de descrições. Após o lançamento do livro, contudo, as cartas de Flaubert tornaram-se polidas respostas para um sem-número de homens e mulheres que se enxergavam na narrativa de “Madame Bovary”, todas dizendo que não, o autor não tinha se espelhado em nenhuma história real para construir o seu livro. Algumas pessoas poderiam elogiar a aparência de verdade, capaz de fazer uma obra ficcional ficar tão vívida que é indistinguível da ficção. Entretanto, é injusto que um homem se tranque durante muitos meses em uma casa de campo para escrever o livro sonhado, tendo sofrimento inclusive físico para cumprir tal tarefa, e, ao final, tal esforço seja considerado como a narrativa desajustada de uma história que teria realmente acontecido.

Outra modalidade de leitor assassino foi identificada por José Castello: aquele que, por sua pressa, preguiça e desatenção, não lê com cautela um livro e, em seguida, fala mal por causa de algum detalhe que lhe desagradou. Está descrito em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, no capítulo “O senão do livro”, em que o escritor fala diretamente com o leitor: “O maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…”

Vivemos em um tempo em que a quantidade é mais importante do que a qualidade, e isto se espelha na leitura. Os leitores trocam impressões sobre velocidade da leitura ou número de páginas lidas e, com tal objetivo, é esperado que prefiram narrativas mais curtas, quase espasmódicas, com poucos personagens, construções gramaticais nada elaboradas, muitos e frenéticos diálogos. Uma leitura que não demande muita dedicação, mas que possa ser incluída como um vistoso troféu em uma sala de caçadores: os livros que li neste ano, neste mês, nesta semana.

O leitor assassino, agindo nas trevas, considera “chato” ou “sonolento” todo livro que não seja escrito de forma quase minimalista. Elevou a “linguagem cinematográfica” ao status de arte narrativa, quando nem tudo aquilo que funciona bem no cinema ou na televisão é adequado para a literatura. Assume, como crimes imperdoáveis, as digressões, os pensamentos, a interferência do autor, o deus ex-machina. Exige uma linguagem asséptica, sem ousadias. Recusa-se a ver as ironias ou não as compreende, preferindo as piadas mais evidentes. Não possui cultura o suficiente para entender os prismas que se escondem nos livros, mas se considera bom o suficiente para emitir julgamentos com base nas suas opiniões ainda pobres e em uma visão de mundo titubeante. Este tipo de leitor assassino é capaz de destruir um livro antes de entendê-lo e, em alguns casos, antes mesmo de lê-lo.

Também existem leitores que se especializaram na arte do assassinato de personagens. Um perigo em conversar com os leitores é dar razão para as suas críticas e ver o óbvio que se escondia dos olhares do próprio criador. Aconteceu com vários escritores, mas Anthony Trollope, autor inglês de muitas obras de ficção histórica e incompreensivelmente não traduzido no Brasil, tem a melhor descrição do momento em que tal tipo de leitor assassino o atacou:

“Eu estava sentado certa manhã trabalhando [em The Last Chronicle of Barset] no fim do comprido escritório do Atheneum Club – como eu costumava fazer na época quando havia dormido a noite anterior em Londres. Enquanto eu estava ali, dois clérigos, cada qual com uma revista na mão, sentados, um de um lado da lareira e o outro do outro lado, perto de mim. Logo começaram a criticar o que estavam lendo, e cada um lia uma parte de algum romance meu. O ponto fundamental da reclamação deles estava no fato de que eu reintroduzia os mesmos personagens com muita frequência! ‘Aqui’, disse um deles, ‘está aquele arquidiácono que aparece em todos os romances que ele já escreveu.’ ‘E aqui’, disse o outro, ‘está o velho duque sobre o qual ele falou até todo mundo se cansar dele. Se eu não pudesse inventar novos personagens, não escreveria romances.’ Então um deles se aborreceu com a sra. Proudie. Era impossível para mim não ouvir as palavras deles, e quase impossível ouvi-las e ficar em silêncio. Levantei-me e, ficando em pé entre os dois, identifiquei-me como o culpado. ‘Quanto à sra. Proudie’, eu disse, ‘irei para casa e matá-la-ei antes do final da semana. E assim o fiz.”

Anthony Trollope

Anthony Trollope

Sobre este fato, Edith Wharton conta a história vivida por Trollope (mencionando que os dois clérigos eram “dois idiotas quaisquer do clube”) e manifesta seu espanto ao perceber que a descrição da morte da sra. Proudie, “provocada de modo tão arbitrário”, é uma das maiores páginas já escritas por ele. Assim, os leitores assassinos tinham razão ao provocar Trollope, ainda que de forma involuntária. Não foram poucos os autores que mudaram todo o rumo das suas narrativas ou o destino dos seus personagens por causa da opinião ácida de um leitor. Aconteceu comigo, no terceiro livro que escrevi, quando tinha 15 anos. Mostrei para dois amigos e ambos foram unânimes: o personagem principal era um chato. Se eu o removesse, a trama ficaria bem melhor. Diante da minha incapacidade de realizar tal ato, o livro pertence hoje às minhas gavetas e, cada vez que o releio, ele continua não parecendo tão ruim quanto a opinião dos leitores assassinos deixou entrever. Mas, eu posso estar enganado e, como não tenho a coragem de Trollope de cortar um personagem importante, prefiro não mexer no original.

Como afirmei antes, é impossível descrever todas as táticas usadas pelos leitores assassinos. Eles costumam aparecer quando menos esperamos, e nem sempre são serial killers, pois assassinam um que outro livro, um que outro personagem. Ao contrário do que possa parecer, leitores assassinos são um mal necessário. É graças a eles que a literatura se desenvolve e cresce, que escritores aprendem a não subestimar a atenção do seu público e que personagens inconvenientes são removidos das tramas.

Mesmo que existam tantos leitores dispostos a assassinar uma história, o ideal de qualquer escritor é encontrar aqueles descritos por Italo Calvino em “Se um viajante numa noite de inverno”: exigentes, sim, mas que “gostariam que um escritor fizesse livros do mesmo jeito que uma macieira faz maçãs”. Leitores que sentassem à sombra das histórias para degustar a imitação de vida nela presente, não pensando na árvore que lhe deu origem, mas no gosto único, irrecuperável, que cada maçã possui. Sem pensar em cortar a macieira assim que terminarem de comer o seu fruto.

Texto originalmente publicado em https://medium.com/colecao-dublinense/os-leitores-assassinos-2f100d7a0e53#.rt30j2qq7

1 comentário

Arquivado em Anthony Trollope, Gustave Flaubert, Italo Calvino, Leitor assassino, Literatura, Machado de Assis, Madame Bovary, O Homem Despedaçado, Temas de crítica literária, Uncategorized

Uma resposta para “Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (12/01/2016): “Os leitores assassinos”

  1. Nada como receber comentários que agregam – independentemente da crítica ser positiva ou não, desde que ajude. A maioria dos “leitores assassinos” não são bons leitores.

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