Sêneca e um objetivo para 2016

Não foi um ano fácil, esse 2015. Não elencarei todos os problemas que me afligiram, as decepções que tive, as pessoas que me decepcionaram, as pessoas que decepcionei. Foi um ano bem problemático. Imaginei que 2014 tinha sido um “terribilis anno“, mas 2015 conseguiu ultrapassá-lo em más notícias.

Ao invés de pensar nas minhas angústias, prefiro lembrar das vitórias e dos pequenos contentamentos. Em 2015, fiz uma série infindável de eventos e bate-papos, e tive a oportunidade única não só de conversar com pessoas que muito prezo como discutir assuntos e livros instigantes. Participei de várias antologias de contos, “Herdeiros de Dagon”, “Festchrift”, “Estrada para o Inferno”. Mesmo enfraquecido e abalado por circunstâncias pessoais, consegui passar na seleção para Doutorado em Escrita Criativa na PUCRS, e até agora não sei como isto aconteceu. Fiz artigos e revisei trabalhos; publiquei contos em jornais, em revistas, em sites da internet. Acompanhei os primeiros passos do meu afilhado. Fiz novas amizades. Viajei e conheci bibliotecas. Ainda estou construindo a minha biblioteca em casa, em um espaço como sempre sonhei. Ministrei um curso sobre “Literatura Inglesa Escrita por Mulheres” em Porto Alegre e em Passo Fundo. Participei de um sarau. Engoli um caroço de ameixa e, para meu espanto, sobrevivi. Tomei até um café rosa, com gosto de “Esticadinho” (aliás, foi o argumento da vendedora que me convenceu), algo que seria completamente impensável em outros tempos.

 

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Eu e um café rosa. O coração era dispensável. E, sim, ele tinha gosto de “Esticadinho”

 

No entanto, quando comecei o ano de 2015, meu propósito era muito mais ambicioso do que sobreviver a outros 365 dias. Foi Sêneca quem ditou minha meta para 2015 e, na simplicidade aparente do seu ensinamento, concedeu-me a mais complexa de todas as tarefas.

Está lá, em “Epistulae Morales ad Lucilium”, cuja tradução mais apropriada seria “Cartas Morais para Lucílio”, mas, no Brasil, ganhou o título de “Aprendendo a viver”. Nos seus últimos anos de vida, exilado e distante do poder de Roma, Sêneca dedicou-se a refletir sobre a vida na forma de cartas enviadas para seu amigo Lucílio. Aos que tiverem interesse, sugiro a leitura da integralidade das cartas (são 127), que estão disponíveis para download na internet.

A leitura de Sêneca me acalma. Sua clareza de pensamento e as palavras simples que escondem lições profundas sempre me fazem procurá-lo no final do ano, para baixar o ritmo dos últimos dias do ano. Foi assim que, no final de 2014, li uma frase de Sêneca que causou grande impacto. Explicando para Lucílio como estava se sentindo no início do exílio forçado, o filósofo escreveu: “Perguntas-me qual foi o meu progresso? Comecei a ser amigo de mim mesmo.”

Não aparenta ser uma frase complexa, mas esconde uma lição avassaladora. Quando a li, notei que não era mais meu próprio amigo. Não simpatizava mais com a pessoa que me tornara e, não raro, me considerava meu maior inimigo. Se eu me conhecesse por aí, não seria meu amigo.

Foi assim que passei 2015 inteiro tentando reativar a amizade que tive um dia comigo. Um ano tentando me admirar mais. Um ano respeitando meus limites e não puxando meu corpo além dos seus desejos. Um ano colocando o Gustavo como centro da minha amizade, encontrando pessoas que acrescentariam coisas para ele e falando sobre aquilo que o daria orgulho de me conhecer.

Não atingi ainda meu objetivo. Não sou uma pessoa fácil de fazer amigos, mesmo que seja uma amizade comigo mesmo. Meu consolo é que o próprio Sêneca disse que estava “começando” a ser seu próprio amigo. É uma atitude que vai durar toda a minha vida, mas, parafraseando Sun Tzu, “um homem que conhece a si mesmo não precisa temer o resultado de cem batalhas”. Imaginem só se ainda for seu próprio amigo!

Mas, é final de 2015, e novamente me socorro com Sêneca, meu farol para os momentos de dúvida ou de fraqueza. E está ali, em outra carta para Lucílio, o meu objetivo maior para 2016:

“I – Da economia do tempo:
Comporta-te assim, meu Lucílio, reivindica o teu direito sobre ti mesmo e o tempo que até hoje foi levado embora, foi roubado ou fugiu, recolhe e aproveita esse tempo. Convence-te de que é assim como te escrevo: certos momentos nos são tomados, outros nos são furtados e outros ainda se perdem no vento. Mas a coisa mais lamentável é perder tempo por negligência. Se pensares bem, passamos grande parte da vida agindo mal, a maior parte sem fazer nada, ou fazendo algo diferente do que se deveria fazer.
Podes me indicar alguém que dê valor ao seu tempo, valorize o seu dia, entenda que se morre diariamente? Nisso, pois, falhamos: pensamos que a morte é coisa do futuro, mas parte dela já é coisa do passado. Qualquer tempo que já passou pertence à morte.
Então, caro Lucílio, procura fazer aquilo que me escreves: aproveita todas as horas; serás menos dependente do amanhã se te lançares ao presente. Enquanto adiamos, a vida se vai. Todas as coisas, Lucílio, nos são alheias; só o tempo é nosso. A natureza deu-nos posse de uma única coisa fugaz e escorregadia, da qual qualquer um que queira pode nos privar. E é tanta a estupidez dos mortais que, por coisas insignificantes e desprezíveis, as quais certamente se podem recuperar, concordam em contrair dívidas de bom grado, mas ninguém pensa que alguém lhe deva algo ao tomar o seu tempo, quando, na verdade, ele é único, e mesmo aquele que reconhece que o recebeu não pode devolver esse tempo de quem tirou.
Talvez me perguntes o que faço para te dar esses conselhos. Eu te direi francamente: tenho consciência de que vivo de modo requintado, porém cuidadoso. Não posso dizer que não perco nada, mas posso dizer o que perco, o porquê e como; e te darei as razões pelas quais me considero miserável. No entanto, a mim acontece o que ocorre com a maioria que está na miséria não por culpa própria: todos estão prontos a desculpar, ninguém a dar a mão.
E agora? A uma pessoa para a qual basta o pouco que lhe resta, não a considero pobre. Mas é melhor que tu conserves os teus pertences, e começaras em tempo hábil. Porque, como diz um sábio ditado, é tarde para poupar quando só resta o fundo da garrafa. E o que sobra é muito pouco, é o pior. Passa bem!”

Diante dos últimos eventos que me aconteceram neste 2015, torna-se imperativo pensar sobre o tempo perdido. O único patrimônio que realmente perdemos na vida é o tempo. É tão fácil tirar tempo de alguém, forçá-lo a esperar ou retardar o desfecho das situações, que, quando vemos, o nosso instante de decisão já passou.

O alerta de Sêneca é válido: “aproveita todas as horas; serás menos dependente do amanhã se te lançares ao presente. Enquanto adiamos, a vida se vai. Todas as coisas, Lucílio, nos são alheias; só o tempo é nosso.” Portanto, para 2016, espero que vocês façam como eu e não percam mais tempo fazendo o que não querem, esperando quem não merece e postergando decisões que já deveriam ter tomado. Valorizem ao máximo o tempo, pois ele é nosso, e não tem muita paciência.

seneca_Metropolix

7 Comentários

Arquivado em Filosofia, Generalidades, Sêneca, Tempo

7 Respostas para “Sêneca e um objetivo para 2016

  1. Ahhhh… o Estoicismo. Devo ler mais Sêneca. Seu texto veio numa hora certeira!! Às vezes exigimos demais das pessoas, sem antes olharmos pra nós mesmos, como se não enxergássemos as ranhuras do nosso tecido da vida.

    • Obrigado pela leitura, Ana! Sim, temos um padrão de exigência absurdo em relação aos outros, mas não usamos o mesmo rigor para analisar as nossas próprias condutas. Devemos ser mais justos conosco e com os outros. Um abraço, e feliz 2016 para ti.🙂

  2. Que legal, ler um texto assim… como a gente perde tempo, e não ser amigo de si mesmo… quanto desperdício. Obrigado Gustavo. Vou compartilhar o Alerta de Sêneca é válido.

  3. Que texto, Gustavo! Nossa! Bem, quero parabenizá-lo pela aprovação do doutorado (sabia somente que fazia em Letras, não o da Escrita Criativa). Desejo que 2016 compense o ano que passou, em todos os sentidos. És um homem raro, sabes que digo isso de coração. E sabes também o quanto te admiro. E não esqueças que sempre podes contar comigo. Beijo!

  4. Elizabeth Melo Czekster

    Sêneca como tu era um sábio. Sinto que ora estejas realmente valorizando teu tempo em todos os sentidos!

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