Uma conversa sobre personagens, corvos e cotovelos

É semana de Natal, e todos estão pensando em festas, em temas natalinos, em presentes, em amigos secretos, em paz na Terra entre os homens de boa vontade, mas eu estou pensando no cotovelo da Anna Karenina e em Grip, o corvo de Charles Dickens que virou personagem de duas histórias clássicas.

Melhor começar de novo. Mas, em verdade vos digo, chegaremos ao cotovelo da Anna Karenina.

A unanimidade da crítica e do público aponta Dickens como autor da história de Natal mais famosa de todos os tempos: “Christmas Carol”, ou “Um conto de Natal”. Uma história tão marcante que modificou nossos hábitos natalinos e se incrustou na mentalidade ocidental. Ali estão os rudimentos do que fazemos até hoje, desde a troca de presentes até a revisão de caráter. Muitos podem imaginar que a Bíblia contém dispositivos específicos sobre o que fazemos na noite de Natal, mas não, foi a Literatura quem fez isto. E o mais engraçado é que Dickens mudou toda a nossa visão da noite de Natal por um único motivo: sobrevivência. Sim, ele queria ganhar dinheiro, muito dinheiro, e escreveu “Um conto de Natal”. Conseguiu seu objetivo e, melhor ainda, não ficou estigmatizado pela própria criação, como aconteceu com Conan Doyle e Sherlock Holmes. Impossível não lembrar a lição de Chesterton sobre Dickens: “um grande homem é aquele que faz todos se sentirem pequenos. No entanto, um homem excepcional é aquele que faz todos ao seu redor se sentirem maiores.” Um homem excepcional, eis a melhor definição para Dickens.

Não gosto de “Um conto de Natal” por um motivo talvez prosaico: simpatizo com o Sr. Scrooge antes dos três fantasmas que vão incomodá-lo. Acho divertido seu mau humor e sua sovinice. Na minha leitura, os fantasmas são um bando de chatos insuportáveis, cheios de más intenções. Considero uma história interessante e nada mais do que isto, ainda que, hoje, já a tenho resumido como “o dia em que o politicamente correto apareceu para deixar alguém culpado”. É a minha visão, e espero que ninguém concorde com ela.

Charles Dickens no seu estúdio em Gad's Hill Place

Charles Dickens no seu estúdio em Gad’s Hill Place

Para mim, a melhor história é “Natal na barca”, de Lygia Fagundes Telles. Um conto perfeito é aquele que expressa as angústias humanas com mínimas pinceladas. Quem nunca olhou um bebê no colo da mãe e teve um arrepio ao imaginá-lo morto? O diálogo travado entre a narradora e a mãe é repleto de sutilezas religiosas, e imaginar que Deus pode estar ao nosso lado, intercedendo em silêncio por caminhos misteriosos, representa muito bem o espírito natalino. O próprio cenário escolhido – uma barca – remonta ao conceito de vida como um rio por onde transitamos, conduzidos por um Caronte invisível e algo distante. Inclusive, abstraindo as alegorias e horrores que tal sugestão pode causar, seria muito mais vantajoso para as pessoas lerem, nesta data, “Natal na barca” ao invés do Evangelho, pois entenderiam melhor o sentido, mas a minha opinião deve ser a minoria da minoria.

Em 1977, Lygia Fagundes Telles foi entrevistada por Clarice Lispector. Um encontro memorável entre duas forças literárias. Ainda tenho a convicção secreta de que, um dia, seremos considerados as pessoas que viveram na época de Lygia Fagundes Telles e Marina Colasanti. A descrição sucinta da amizade de ambas, segundo Clarice, faz sorrir: “O fato dela vir ao Rio, o que me facilitaria as coisas, combina com Lygia: ela nunca dificulta nada. Conheço a Lygia desde o começo do sempre, pois não me lembro de ter sido apresentada a ela. Nós nos adoramos. As nossas conversas são francas e as mais variadas. Ora se fala em livros, ora se fala sobre maquilagem e moda, não temos preconceitos. Às vezes se fala em homens.”

Em seguida, Clarice Lispector faz um importante depoimento sobre a diferença entre escritores e escritoras: “Antes de começar a entrevista, quero lembrar que, na língua portuguesa, ao contrário de muitas outras línguas, usam-se poetas e poetisas, autor e autora. Poetisa, por exemplo, ridiculariza a mulher-poeta. Com Lygia, há o hábito de se escrever que ela é uma das melhores contistas do Brasil. Mas, do jeitinho como escrevem, parece que é só entre as mulheres escritoras que ela é boa. Erro. Lygia é também entre os homens escritores um dos escritores maiores. (…). De modo que falemos dela como ótimo autor.” O importante é escrever bem, não o gênero do autor. É evidente que mulheres possuem maior dificuldade de acesso às editoras, mas é algo que deve ser combatido junto às editoras. Nunca fui uma pessoa que escolhe livros pelo gênero, raça ou pensamento político do seu autor, sempre me guiei por este farol único que é uma boa história contada de forma ardilosa.

No meio da entrevista, Lygia Fagundes Telles descreve o seu método de criação de histórias e de personagens: “(…) um conto pode dar assim a impressão de ser um mero retrato que se vê e, em seguida, esquece. Mas ninguém vai esquecer esse conto-retrato se nesse retrato houver algo mais além da imagem estática. O retrato de uma árvore é o retrato de uma árvore. Contudo, se a gente sentir que há alguém atrás dessa árvore, que detrás dela alguma coisa está acontecendo ou vai acontecer, se a gente sentir, intuir que na aparente imobilidade está a vida palpitando no chão de insetos, ervas – então esse será um retrato inesquecível.”

Lygia Fagundes Telles

Lygia Fagundes Telles

É uma visão interessante, a ideia de que tudo precisa ter algo por trás para existir na literatura, e expressa uma conversa recente que tive em um jantar. Em uma mesa repleta de escritores, o único não-autor perguntou de onde tirávamos nossos personagens. As respostas foram as mais variadas possíveis: alguns tiram de pessoas reais, outros fazem uma fusão de pessoas. Lembrei de Turgueniev, que dizia ser impossível descrever um personagem sem que existisse uma pessoa idêntica a ele no mundo.

Contudo, a resposta que dei surpreendeu a mim mesmo. Confessei que não sabia se criava personagens inteiros, mas pedaços de pessoas. E coloco, nas tramas, os pedaços que melhor me interessam para efeitos narrativos: se preciso de um personagem que grita, trato da sua voz e talvez de um detalhe físico; se necessito de uma mulher bonita, descrevo os seus detalhes anatômicos, mas não abordo as suas imperfeições, a não ser que concedam mais charme. Para mim, personagens são pedaços, e não criaturas de carne e osso. Pode acontecer de alguma pessoa se enxergar em alguém que descrevi, mas depende mais do olho do observador ansioso para se encontrar do que da minha intenção.

Pior ainda: enquanto respondia, notei, para meu pavor, que escrevera um conto inteiro descrevendo o meu método de criação de personagens. Impressionante quando a literatura nos explica algo que a consciência própria ainda não tinha visto. É o conto que abre meu livro, e se chama “Antes da batalha”. Resumo ele da seguinte forma: na longa praia da criação, pedaços de personagens se juntam para criar um único personagem inteiro, alguém capaz de confrontar o seu criador. É um conto autobiográfico – o desejo secreto que os personagens que criei se juntem para me dar uma sova.

Mais tarde naquela mesma noite, percebi que não sou eu o errado, mas o mundo inteiro é assim. Olhamos somente detalhes das pessoas; construímos personagens com base em observações insuficientes e equivocadas. Não sei se temos a capacidade de compreender alguma pessoa de forma integral. Quando achamos que a compreendemos, ela não é mais a mesma. Como também falamos sobre Waterloo no jantar, alguns podem achar que Napoleão era um déspota, mas outros, com as mesmas informações, podem considerá-lo um salvador. Tudo depende do ângulo – ou daquilo que queremos ver por trás da árvore mencionada por Lygia Fagundes Telles.

Os personagens são somente espectros em que o autor faz incidir a sua própria vontade. Charles Dickens tinha um corvo, o Grip. Ele amava o pássaro. Divertia-se contando as suas histórias em todos os encontros literários. Era praticamente um membro da família. Ficou famosa a história de quando um amigo de Dickens, no meio de um jantar enfadonho, exclamou que o autor estava “louco por um corvo” [raven mad], expressando a paixão do outro pelo animal de estimação. A expressão correu Londres e, alguns dias depois, um jornal publicou, mencionado uma “fonte conhecida”, que Dickens estava “louco furioso” [raving mad].

Quando Grip morreu, o escritor mandou empalhá-lo (aliás, as descrições de Dickens, feitas em carta, dos últimos momentos do pássaro, que estava no “leito de morte” e ficou subitamente animado quando surrupiou e tomou o óleo de castor que o médico levara, são cômicas e tristes ao mesmo tempo). Mas, pouco antes do falecimento de Grip, Dickens resolveu transformar o corvo em um personagem de “Barnaby Rudge”, conforme admitiu em carta: “Como Barnaby é um idiota, minha ideia é fazer com que esteja sempre acompanhado de um corvo de estimação, infinitamente mais inteligente do que ele. Portanto, venho analisando o meu pássaro, e acho que posso transformá-lo em um personagem bem diferente.”

Grip virou personagem de “Barnaby Rudge”, mas não se limitou aí a sua importância para a literatura. Uma das primeiras pessoas a resenhar “Barnaby Rudge” nos Estados Unidos foi Edgar Allan Poe. Mesmo elogiando o livro, Poe criticou a fraqueza da trama e a obviedade do desenlace final. No entanto, durante a resenha, ele analisou o corvo como personagem, e lamentou que ele tivesse sido pouco desenvolvido, pois “o seu grasnido podia ser ouvido profeticamente no decorrer da trama”. Dois anos depois, ao escrever o poema “O corvo”, Poe pensou em um papagaio, mas achou colorido demais. Acabou escolhendo um corvo, e é assim que Grip, o mau humorado pássaro de Dickens, entrou sem querer em duas obras literárias.

Gerald Dickens, sucessor de Charles Dickens, com Grip, o Corvo

Gerald Dickens, sucessor de Charles Dickens, com Grip, o Corvo

Não sabemos de onde os personagens podem sair, mas é inegável que eles se escondem em qualquer lugar. Durante dois anos, Leon Tolstói sonhou em escrever a história de uma mulher sufocada pela sociedade do seu tempo, mas não achava a voz narrativa e a aparência dela. Certa vez, em uma festa na casa do general Tulubyev, o autor viu uma bela mulher de cabelos negros encaracolados e caminhar suave. Perguntou para a sua cunhada quem era, e descobriu que se chamava Maria Hartung, filha de Alexandre Pushkin.

Na mesma noite, o escritor russo estava deitado no seu estúdio quando teve um súbito devaneio e, nele, distinguiu o cotovelo nu de alguém. A imagem se abriu aos poucos e Tolstói viu uma mulher se revelando como uma flor diante do orvalho, vestida em um elegante vestido verde de baile. No entanto, apesar do clima festivo ao redor, o olhar feminino estava impregnado de tristeza. Tolstói voltou a si, mas sabia que encontrara, enfim, a sua Anna Karenina.

Quando leu a notícia de que Ana Stepanova Pirogova, que estava de caso com um vizinho seu, ao saber que ele escolhera outra mulher para casar, se jogara na frente de um trem, soube qual seria o desenlace do seu romance. Tão forte foi a impressão que Maria Hartung causou que Tolstói releu a obra de Pushkin, encontrando, no outro, a maneira de contar o romance que estava ansioso para aflorar de dentro de si. Na primeira versão do livro, como forma de homenagem, o russo decidiu colocar na família de Anna Karenina o sobrenome de Pushkin, mas isto não se manteve na revisão.

Seja em uma árvore, seja em um corvo, seja em um cotovelo, os personagens estão por aí. E todos os dias nós criamos personagens, tomando por base uma risada, um piscar de olhos, um sorriso distraído. Nunca entenderemos completo o outro, somente aquilo que seus pedaços querem dizer e, se existe algo que podemos exercitar neste período de festas (em especial perto do “tio do pavê”), é aprender não a julgar com base nas imagens que fazemos, mas a perdoar os outros por suas fraquezas. Nenhum personagem nasce forte. É o conjunto dos seus detalhes que acaba lhe dando a fortaleza necessária. Olhamos somente pedaços, nunca teremos panoramas absolutos sobre qualquer pessoa. Eis a nossa fraqueza – e eis a nossa força.

"Maria Alexandrovna Hartung" (1860), em quadro desenhado por Ivan Makarov

“Maria Alexandrovna Hartung” (1860), em quadro desenhado por Ivan Makarov

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1 comentário

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Uma resposta para “Uma conversa sobre personagens, corvos e cotovelos

  1. Meu querido Gustavo que presente de Natal este teu texto.
    expressas o quanto te dedicas na pesquisa literária, e a meu ver gostas muito das autoras e esta lembrança do conto da Ligia F. Telles, me veio a mente e o lerei no jantar de Natal na minha família, este ano.
    Elae foi uma autora qu muito li, durante o curso de letras..Além de te receber minhas palmas e Bravo, jáimaginei muitos momentos de Roda de leituras contigo em novos formatos este 2016.
    Assim seja! Feliz Natal Laura

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