Quando escritores se reúnem: sobre a “Antologia de Literatura Fantástica”, de Borges, Ocampo e Bioy Casares.

Foi com certa tristeza que fui informado, nessa semana, do encerramento das atividades da editora Cosac Naify. Sou (era) um dos maiores clientes dela. Adquiri inúmeros livros de autores que adoro: Tolstói, Melville, Victor Hugo, Henry James, entre outros. Também investi em autores que não conhecia e muito me surpreenderam: Rogério Teixeira, Angélica Freitas, Ronaldo Correia de Brito. Livros que não somente possuíam conteúdo primoroso, como eram verdadeiras obras de arte.

Dois anos atrás, convidado pelo amigo e escritor Antonio Xerxenesky, escrevi uma resenha sobre “Antologia de Literatura Fantástica”, seleção clássica de textos feita por Jorge Luis Borges, Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares. Era um livro que, por muitos anos, tive vontade de ler, mas não existia de forma integral no Brasil. Quando recebi o convite para resenhá-lo, prontamente aceitei, e o resultado foi este texto. Como não sei o que acontecerá com as resenhas localizadas no blog da Cosac Naify, achei prudente trazê-lo para cá.

O texto parte de uma premissa simples: o que acontece quando escritores se reúnem? Quando forças criativas se localizam em um espaço reduzido? Com certeza, algo acontecerá. Seja um livro ou uma conversa instigante, mas o equilíbrio do mundo nunca mais será o mesmo. Tentei imaginar as reuniões de Borges, Bioy Casares e Ocampo, falando histórias fantásticas e as discutindo nos mínimos detalhes. O resultado de tal esforço imaginativo é este texto.

Boa leitura!

 

antologia

 

Quando escritores se reúnem
Por Gustavo Melo Czekster
29/10/2013 às 16:26

Coisas muito estranhas ocorrem nos encontros de escritores. Como lembra Ursula K. Le Guin, quando Lord Byron, Percy Shelley, Mary Shelley, John William Polidori e Claire Clarmont resolveram passar juntos o verão em um vilarejo próximo de Genebra, na Suíça, provavelmente não imaginavam que, após uma noite de tédio e um jogo perigoso, chegaria ao mundo Frankenstein, assustadora alegoria que nos mostra que todo homem é formado por pedaços de outros (ou cada escritor também é a síntese de vários). Nunca saberemos as conversas que o quinteto teve enquanto caminhava na beira do lago, as histórias urdidas pelo frigir das mais leves ideias, as faíscas criativas que surgiam nos jantares, nos coquetéis ou dentro do mais prosaico “boa noite”.

Da mesma forma, só podemos presumir os chás, o estremecer de colheres de prata em xícaras delicadas, os risos polidos e o reluzir dos olhos de Jonathan Swift, Alexander Pope, Robert Harley, Mortimer, Thomas Parnell e outros artistas que, reunidos para trocar ideias em um clube de Londres, acabaram criando um autor fictício, amálgama obsceno de demiurgos. Ele assumiu o nome de Martinus Scriblerius e passou a assombrar as obras dos seus inventores; dizem que é o verdadeiro autor de As viagens de Gulliver. No Brasil, o chá foi trocado por bebidas mais adequadas aos trópicos e, ao redor de uma mesa de bar, ao som de risadas brejeiras e de desafios impregnados de poesia, Olavo Bilac, Aluísio Azevedo, Coelho Neto e Pardal Mallet convocaram do vazio a figura de Victor Leal, o autor que escrevia aquilo que eles não podiam dizer, o supremo bode expiatório da literatura alheia. Quando escritores se encontram longe do olhar dos leitores, qualquer maravilha pode acontecer. Entre elas, até mesmo uma inocente conversa, se é que podemos usar tal adjetivo para literatos.

Quando Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo se encontraram para conversar em uma noite perdida do ano de 1937, abriu-se uma janela no espaço-tempo da criatividade. Como as nuvens negras precedem o alívio do relâmpago, era evidente que o mundo não escaparia ileso de tal reunião. Escritores deste tipo não conversam; eles adejam no limite da criação, na zona sem fim que cerca as impossibilidades. Nunca saberemos por quais meandros a conversa acabou chegando ao assunto que lhes apaixonava: a literatura fantástica. Nunca conheceremos as provocações, as ironias, as demonstrações de cultura com que os três autores se brindaram nesta noite eterna. Só temos acesso ao resultado: a Antologia de Literatura Fantástica, esboçada em 1937 e lançada em 1940.

Bioy Casares, Silvina Ocampo e J. L. Borges

Bioy Casares, Silvina Ocampo e J. L. Borges

No prólogo, Bioy Casares conta a origem do livro e afirma que, para organizá-la, seguiram um “critério hedônico”. Não foram escolhidas as obras exemplares de alguns escritores ou as mais famosas. Guy de Maupassant, que possui vários contos com teor sobrenatural, teve escolhido “Quem sabe?”, história que não se destaca na sua produção. O critério maior foi o prazer e a maneira com que as tramas ainda retiniam na memória dos organizadores da antologia. Por não terem feito um livro para agradar aos outros leitores, mas a si mesmos, eles acabaram chegando ao âmago do fantástico: aquilo que continua inquietando o espírito do leitor mesmo quando as palavras morrem.

Quem espera uma antologia convencional irá ficar espantado. Borges, Bioy Casares e Ocampo pretendem uma antologia de literatura, ou seja, algo que não possui uma forma exclusiva. Contos extensos cedem lugar para trechos de romances, que, por sua vez, são sucedidos por excertos de peças de teatro. Histórias de alto teor de complexidade são alternadas por fábulas quase pueris.

Por trás desta escolha, encontra-se o maior objetivo da antologia: mostrar que o inesperado desliza ao lado da rotina, apto a ser visto por qualquer pessoa que se disponha a aceitar que nada é aquilo que aparenta ser, que tudo é flutuação, tudo é instabilidade – inclusive o mundo dito “real”. Para fortalecer a ideia, algumas histórias sequer são idênticas às originais. Sofreram interferências dos organizadores, tanto na sua tradução quanto no “esmerilhamento” de detalhes, como muito bem destaca Walter Carlos Costa no ensaio que encerra o livro. Ele conta que alguns autores da antologia podem ter sido “imaginados” pelos escritores e que certas tramas são falsas atribuições. Existe um grande mérito em fazer uma antologia de literatura fantástica, mas trazer o fantástico para a forma displicentemente aleatória com que ela foi construída e inserir elementos irreais no seu meio é outra característica que deixa a leitura mais envolvente. Nunca se sabe qual será a versão do sobrenatural que espera em cada página – e nem se estamos lendo uma história “verdadeira”. Dentro do livro, o universo se torna trêmulo.

Borges, Bioy Casares e Ocampo recusam-se a ceder aos confortos do gênero literário, transitando entre autores, épocas e estilos diferentes para destacar aquele coeficiente de estranheza que os fascina e faz as histórias permanecerem assombrando as suas recordações. Escritores famosos, arqueólogos, exploradores, autores desconhecidos, dramaturgos ou filósofos, não existem diferenciações quando o assunto é o imponderável. A organização por ordem alfabética faz com que as histórias desprezem a cronologia em que surgiram, permitindo que diferentes visões da literatura fantástica travem um contato hesitante, no qual o leitor se sente numa montanha russa de espantos.

É um exercício pensar qual escritor foi o responsável pela lembrança de cada segmento, tomando por base a sua obra para tecer suposições. Ainda assim, o acúmulo de autores desconhecidos, as histórias mágicas que não encontraram a devida ressonância na sua época e os trechos descontextualizados de escritores que tocaram de forma involuntária nas fímbrias do fantástico, tudo contribui para transformar o livro em um desafio às leis da verossimilhança. Ao se aventurar pela Antologia, os leitores esquecem as linhas que separam o real do imaginário. Perseguem uma nuvem que constantemente se esquiva; quando pensam que entenderam o significado mais puro da irrealidade, a história seguinte desmorona com esta pretensão. O fantástico está sempre dois passos à frente, mandando piscadelas cúmplices para o leitor que tenta compreendê-lo, até o momento em que ele desiste e passa a aceitar as suas regras, formadas por neblina e labaredas. Passa a aceitar que pode ser um fantasma lendo um livro.

Nunca saberemos a temperatura desta noite “tão longa quanto o medo”, ou a comida que foi servida (se é que foi servida alguma), ou as bebidas degustadas. Nunca saberemos o timbre das vozes, a ordem em que a conversa se sucedeu, se era em tom de paródia ou de prepotência. O que sabemos é o seguinte: em uma determinada noite de 1937, três escritores se reuniram e, enquanto o Tempo batia nas janelas tentando entrar, enquanto o mundo rugia ao redor com seus compromissos e pressas, eles trocaram histórias sobre fantasmas arrependidos, sobre demônios que fazem contratos pela alma de artistas, sobre homens que se transformam em deuses e deuses que se arrastam pelas ruas. A realidade esmurrava portas e tentava se esgueirar por frestas, mas, dentro da improvável sala, o fantástico e o impossível rolava de boca em boca, de história em história, assumindo as mais diferentes formas no bruxuleio da lareira. Quando escritores se reúnem, o fantástico está sempre à espreita, ansioso para participar da conversa. E muitas histórias começam assim: “Em uma certa noite de 1937, três escritores se reuniram para conversar sobre literatura fantástica”. O resto é história e História.

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Arquivado em Adolfo Bioy Casares, Artigo, Jorge Luis Borges, Literatura, Literatura Fantástica, Produção Literária, Silvina Ocampo, Temas de crítica literária

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