Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (10/11/2015): “Sobre ideias – e demônios – que andam no ar”

Em épocas normais, não me divirto muito escrevendo: é algo que causa mais preocupações do que alegria. Por isso, é muito estranho que tenha feito este texto, “Sobre ideias – e demônios – que andam no ar”, e me divertido horrores enquanto o escrevia.

Provavelmente por causa de São Macário, cuja vida insólita tem momentos de extrema picardia (ainda mais pícaros por não ser esta a intenção do santo, que foi buscar o isolamento em uma caverna e acabou fundando uma colônia de eremitas, algo que deve ser o pesadelo de qualquer eremita). No texto, não tive oportunidade de contar outra história engraçada envolvendo São Macário: certa vez, o governante de alguma região no Egito achou que tinha muitos pagãos em determinada localidade. Então, resolveu sequestrar São Macário e mais dois santos, levá-los para a cidade – que ficava em uma ilha, cercada por um pântano – e deixá-los lá, para remover o paganismo. Uma espécie de “limpeza étnica”. Ao cabo de três meses, mandou buscar os santos sequestrados e acabou encontrando uma cidade temente a Deus. Não consigo parar de sorrir ao imaginar os três santos acordando, em uma cidade desconhecida, cercados por pagãos, e pensando “ok… simbora trabalhar!”

E pensar que o texto inteiro teve início em uma observação prosaica: alguns dias antes de escrevê-lo, observei que, em alguns lugares onde eu estava, surgiam abelhas do nada. No início, foi uma constatação indiferente, mas, quando as abelhas passaram a tentar entrar nos copos que eu usava ou pousavam na minha roupa, acabei chegando à evidente conclusão de que as abelhas só podiam ser, na verdade, demônios disfarçados. O resto é história.

Boa leitura!

 

Sobre ideias – e demônios – que andam no ar

abelhas

Na semana passada, comentando sobre a quantidade de demônios existentes no Inferno, lembrei de São Macário, que disse que os demônios são tão numerosos quanto as abelhas e, via de regra, andam próximos delas. Desde então, as abelhas parecem me perseguir, algo que, se não comprova a tese de São Macário, ao mesmo demonstra que existe uma espécie de ironia divina a adejar sobre o mundo.
São Macário foi um homem singular. Viveu nos gloriosos anos 300 após Cristo, ou seja, naquela fase trepidante em que as pessoas acreditavam em tudo e discutiam as suas ideias estapafúrdias sem medo de alguma câmera colocá-los no YouTube. Não tão diferente de hoje, em que continuam falando insanidades, a diferença é que sabemos um pouco mais rápido do que no passado.
Uma particularidade de São Macário: no início da sua vida, quando estava com 20 anos, foi acusado de engravidar uma mulher. Isto em uma época em que não existia exame de DNA. Ele foi preso, torturado e acusado de hipocrisia. Mesmo assim, enviava os ganhos da sua família e parte da sua ração na prisão para a acusadora, argumentando que precisava sustentar a criança (mesmo sem ser pai dela, mas provavelmente por não existir outra maneira de conseguir sustento para a mulher).
No entanto, ao que tudo indica, Deus ouviu falar desta história e resolveu fazer uma intervenção: a mulher só teria o filho depois de revelar o nome do verdadeiro pai. A gravidez se estendeu além do prazo – e deixo para a imaginação alheia o quanto e o como isto aconteceu – até que a mulher confessou a verdade, e São Macário foi libertado. Logo depois deste episódio, o até então aprisionado virou herói da cidade – um “plot twist” na sua história, digno de merecer nos tempos atuais, talvez, uma reportagem motivacional no Fantástico.
Depois deste episódio, São Macário saiu da cidade e foi morar em uma caverna, onde passou os outros 60 anos da sua existência em estado eremítico. A justificativa que ele deu para sair da cidade foi “excesso de estima”, o que o transforma no primeiro antissocial que se tem notícia. Com o passar dos tempos, outros eremitas buscaram as cavernas contíguas, e eles iniciaram uma espécie de condomínio de eremitas nas montanhas de Esquita, algo bem complicado para alguém que buscava intencionalmente o isolamento. Afinal, a própria ideia de se transformar em eremita implica em ser deixado em paz, não cercado pelos colegas eremitas.
Mas, mesmo preferindo o isolamento, Macário saiu bastante, teve as suas aventuras de santo (chegou a ressuscitar um homem, mas só conseguia fazê-lo falar e não levantar e sair andando, ou seja, um morto falastrão e bem inconveniente) e até mesmo há evidências de que, junto com Santo Antônio, deu umas voltas no deserto – “rolê no deserto”, a forma mais habitual de diversão para os santos no período.

São Macário

São Macário

Mas falar de São Macário me fez pensar nas coisas que andam por aí, no ar. Ao identificar abelhas com demônios, e dizer que eles andam por aí a nos espreitar, o santo também deixou implícita a ideia de que tentações, pecados e crimes estão ao redor, podendo nos invadir ao seu bel prazer e nos transtornar. Algo não tão difícil de acreditar quando muitas pessoas argumentam “impulsos irrefreáveis” ou “desejos que cegam” para realizar as mais variadas loucuras.
Todos sabem que o ar que nos rodeia é formado por oxigênio, nitrogênio e gás carbônico, entre outros. Em alguma aula do passado, um professor de Ciências explicou que, tão logo respiramos pela primeira vez, desencadeamos um processo que nos levará inevitavelmente à corrosão das células e, por assim dizer, à morte. O oxigênio nos mantém vivos, mas, ao mesmo tempo, nos mata de forma devagar e cruel, pois ele é veneno. Assim como o caráter duplo da literatura que, de forma idêntica ao ar, é “phármakhon”: tanto serve como “medicina”, ou remédio para a alma, por meio da perpetuação das memórias, quanto como “veneno”, ou morte para as histórias, que, não fossem o meio escrito, necessitariam sobreviver na forma oral. Assim, a literatura tanto nos salva quanto nos mata, e em todo texto existe uma pulsão de morte a nos lamber, lasciva. Não se preocupem, não sou eu quem diz isto, mas foi o Sócrates – não a parte da lascívia da lambida, evidentemente.
É interessante imaginar que este ar que nos rodeia, ao mesmo tempo em que nos permite viver e nos sentencia à morte, além de estar cheio de demônios, também é frequentado por histórias. Em fevereiro de 1895, Jules Renard escreveu no seu “Diário” a constatação mais verdadeira já feita sobre o fazer literário: “A história que estou escrevendo existe, escrita na forma mais absolutamente perfeita, em algum lugar, no ar. Tudo o que preciso fazer agora é encontrá-la e copiá-la.” Descrito assim, até parece simples, mas são tantas histórias que infestam o ar que separar o joio do trigo é mais complicado do que ter ideias, e isto explica o fato de todo mundo achar que tem uma história para contar ou um livro para escrever.
Pensar que existem histórias à solta no ar, esperando que alguém as “cheire” e seja por elas “possuído”, é algo que vem desde a Grécia Antiga, quando diziam que os artistas eram “bafejados” pelas Musas. Impossível não imaginar uma Musa se aproximando por trás de uma pessoa e, sem que ela veja, lançando-lhe uma baforada de inspiração no rosto. Sempre considerei injusto que alguns artistas vissem as Musas e conversassem com elas – puxa, Boécio chegou a passar uma noite inteira na prisão conversando com a Filosofia transformada em criatura de carne e argumentos -, mas hoje sei que, como disse Henry James, ter uma história (ou uma ideia) sem ter um estilo (sem saber passar adiante aquilo que se pretende) é algo inútil. Por isso, fico até feliz de saber que as Musas erram o meu endereço; elas me deixariam muito confortável e preguiçoso. Só posso confiar em mim mesmo, não em bafejadas efêmeras e voláteis.
Não são poucas as pessoas que acreditam, ainda hoje, que as ideias circulam pelo ar, procurando homens e mulheres que sejam capazes de captá-las e transformá-las em arte, circunstância que transformaria cada artista em uma antena parabólica de histórias ou de imagens. Não é algo tão desprovido de lógica. Seria como a frase clássica de Sinhô sobre o samba: “samba é que nem passarinho, está no ar e é de quem pegar primeiro”. Pensando nestes termos, podemos ver que artistas são seres capazes de desviar de demônios, mas que capturam histórias ou imagens que andam por aí, desgarradas, à espera de um dono. Ou seja, capturando passarinhos – ou pescando borboletas, como Nabokov fazia na vida real e na literária, de acordo com suas memórias. Ainda assim, é somente uma questão de sorte o que separa “As Três Graças” de Bernini de uma pilha de pedras empilhadas de forma desajeitada. Nem sempre a ideia respirada é algo benéfico e lendário. Às vezes, é uma simples piada de mau gosto, como tantas assim designadas “obras de arte” que não passam de arremedos trágicos de uma ideia que o artista não entendeu direito.
Existem perigos em respirar qualquer ideia que esteja vagando no ar, ainda mais em períodos no qual todo mundo parece estar respirando o mesmo oxigênio, compartilhando de idênticas inspirações, momento em que isto deixa de ser algo original e se torna período artístico. Erich Auerbach, no seu “Ensaios sobre a Literatura Ocidental”, afirma que “quando uma ideia é aceita porque é moeda corrente, porque está no ar que se respira – e esta foi a sorte de muitas ideias no final do século XIX e início do século XX -, sua expressão torna-se geralmente frouxa e confusa, uma vez que parece supérfluo o esforço de expressão precisa; uma alusão, uma palavra-chave, alguns torneios de frases familiares sugerindo um certo viés de pensamento parecem bastar; nesses casos, uma mera palavra a respeito de uma das ideias que estão no ar é suficiente para induzir uma compreensão geral ou, pelo menos, um vago sentimento do que o autor deseja transmitir”.
Em seguida, falando de Pascal, Auerbach refere que a maior qualidade do filósofo francês era a sua capacidade não de tirar ideia do ar, mas do mais profundo dos seus pensamentos, dos seus sentimentos mais ocultos. Eis uma definição interessante para os artistas que desejam a permanência das suas obras, a perpetuidade da sua experiência criativa – buscar aquilo que está no ar e, ao mesmo tempo, como um submarino, mergulhar no oceano profundo da própria alma para descobrir como as ideias se acumulam no mais escuro recôndito do subconsciente.
Não está errado sair por aí pegando ideias no ar e transformando em arte. Mas, seguindo o exemplo de São Macário, talvez seja prudente se afastar um pouco do “excesso de estima” que nos cerca e, através do isolamento e da reflexão, pensar muito bem antes de se entregar à obra artística. Vejo pessoas com uma produção quase industrial de obras de arte; é evidente que a qualidade vai sofrendo uma perda progressiva. Contudo, não podemos esquecer que o dever primeiro de um artista é com a sua obra e com a ideia que se apossou do seu espírito, não com a sociedade ou com os seus valores, e não existe nada mais trágico do que uma obra mal executada, aborto estético caminhando por aí a assombrar os passos alheios.

 

Originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/sobre-ideias-e-dem%C3%B4nios-que-andam-no-ar-a3ca15dd1534#.6008d41yg

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Arquivado em Abelhas, Crítica Literária, Demônios, Dublinense, Erich Auerbach, Filosofia, Generalidades, Jules Reanrd, Literatura, Pascal, São Macário

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