Texto publicado no Literatortura (09/11/2015): “Onde está o público dos eventos culturais?”

Nos últimos tempos, tenho frequentado muitos eventos culturais, e sempre chama a minha atenção a ausência de pessoas neles. Após uma série de reflexões e conversas com outros frequentadores, cheguei a algumas conclusões, que expus no texto abaixo. Algo a se pensar é a quantidade de pessoas que entrou em contato comigo para concordar com aquilo que falei – dar Educação sem Cultura para um povo é absolutamente inútil.

Um texto um pouco triste, pois nadar contra a correnteza é sempre desgastante, mas que espero ser capaz de suscitar indagações e novos pensamentos.

Boa leitura!

 

Onde está o público dos eventos literários?

 

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Em uma conversa recente com um amigo, comentei sobre a baixíssima presença de público nos eventos literários que frequento. Parece impressionante que, no meio de uma cidade com mais de um milhão de habitantes, como é o caso de Porto Alegre, consideramos bem sucedido qualquer evento literário capaz de reunir entre dez a quinze presentes. Onde está o público, então?

Não bastando, não são poucas as ocasiões em que pessoas se aproximam e reclamam da falta de opções intelectuais para frequentar. A cidade pulsa de cultura; tem para todos os gostos, todos os dias da semana, nos mais variados horários. Temos museus, casas de espetáculos, bibliotecas (ainda que a Biblioteca Pública local esteja vergonhosamente fechada e assim permanecerá por tempo indefinido, algo que considero um crime de responsabilidade de todos os governos); temos shows de música clássica, de samba, de funk, de MPB; temos cinemas com programações que escapam dos blockbusters que infestam os shopping centers; temos eventos literários por todos os lados, com palestras e bate-papos dos assuntos mais diversos; temos programas infantis, juvenis e adultos. Temos tudo isto – e tudo está vazio.
O meu amigo escutou em silêncio. Quando cheguei ao final, ele suspirou e disse: “Olha, cara, toda a cultura que preciso saber aparece no Jornal Nacional. Se for sair de casa, no meio de tanta insegurança e de tantos gastos com estacionamento, gasolina, comida, bebida, prefiro ficar assistindo televisão mesmo.”

Há algum tempo que não assisto aos telejornais, mas, na época em que assim agia, parece-me que a parte cultural ocupava, no máximo, dois ou três minutos, e era destinada a artistas estrangeiros, exposições fora do país e lançamentos de filmes internacionais. Aliás, este tipo de eventos estão sempre lotados, mostrando que existe interesse de público pelo artista de fora, não pelo local. Mesmo assim, os assuntos eram completamente comprimidos e, não raro, era substituída por reportagens que tentavam ver o futebol ou o vôlei somente pela ótica cultural.

A Marina Franconeti, que também é colunista aqui no Literatortura, está atualmente estudando em Paris. Ao lado de fotos lindas e de opiniões sensíveis sobre o melhor da arte mundial vista in loco, as observações de Marina sobre o cotidiano francês – ainda que não tenham nenhum objetivo contrastante com o Brasil, como tanta gente costuma fazer de forma enfadonha, “na França é assim, no Brasil é assado” – nos permite uma série de pensamentos sobre a nossa realidade.

Na semana passada, a Marina relatou que foi a um curso gratuito de História da Arte no Museu do Louvre e tinha uma fila gigantesca de interessados. Ao final, 697 pessoas se espremeram no salão para ouvir falar sobre a arte, e uma parcela significativa do público era formada por franceses.

Uma análise apressada poderia argumentar da diferença cultural entre o público francês e o brasileiro, mas estamos em uma etapa do nosso conceito de nação em que é possível deixar de lado este eterno viralatismo e choradeira: sim, somos produtores de excelente cultura, passível de ser admirada pelo mundo todo. Outra análise igualmente rasteira poderia argumentar que um curso de arte no Museu do Louvre é muito diferente do que um curso aqui no Brasil. Contudo, é uma opinião também equivocada. Temos museus com muitas histórias e com obras igualmente relevantes. Talvez não em quantidade, mas a qualidade é indubitável.

Então, qual seria a diferença entre as plateias lotadas de outros museus e nossos eventos entregues às moscas? Após muita reflexão, consegui detectar dois fatores que me desagradam e, se não explicam totalmente tal discrepância de interesses, ao menos lançam alguns assuntos para serem debatidos.

Em primeiro lugar, a ideia de que Arte é Lazer e, como tal, é algo a ser feito nos momentos de ócio ou nas sobras do orçamento familiar.

De acordo com as teorias de apreensão artística, é evidente que a Arte – e aqui falo de qualquer tipo – possui um caráter estético fortíssimo, algo que nos causa prazer pelo simples fato de estarmos expostos à sua influência, seja diante de uma pintura, seja apreciando uma escultura, seja lendo um livro. No entanto, Arte não é só Lazer, também possui um aspecto de formação do caráter e da personalidade. Parece-me impossível explicar algo sem utilizar um dos variados aspectos da Arte: como explicar o que é narcisismo, este amor extremo por si mesmo, sem mostrar o quadro “Narciso”, do Caravaggio? Como falar do pecado sem contar os dilemas expostos por Dostoiévski em “Crime e castigo”? Como tratar da redenção sem escutar o “Réquiem” de Mozart?

Explicar os conceitos sem a utilização da Arte me parece algo extremamente vago. Charles Baudelaire estabelecia distinção entre a arte pura e a arte filosófica, dizendo que a primeira era a arte que visava a alçar o espírito humano e a segunda seria uma forma de transmitir noções de História, de Geografia, de Matemática. Qual seria o problema de utilizar em conjunto os dois conceitos de Arte, tanto como inspiração quanto como forma de ensino? Neste instante, é imperativo constatar a ausência maciça dos professores em eventos que não estejam relacionados com as suas escolas. Existe uma tendência a considerar que aquilo que existe na Arte é diferente daquilo que está nos sistemas de ensino, mas não consigo ver uma distinção deste tipo. Nada impede que a Arte vá até as escolas ou que os sistemas de ensino incluam espontaneamente a apreciação da Arte como meio de passar conhecimentos. Um pouco de criatividade não faz mal a ninguém.

Arte não é só Lazer ou entretenimento; Arte também pode ser uma fonte de pesquisa e de expansão dos pensamentos. Não é justo que seja condenada a luxo supérfluo e como primeiro item a ser cortado em caso de crise econômica. Pelo contrário: é onde o investimento pessoal deveria ser mais intenso em tempos de crise, como forma de escapar dela.

Em segundo lugar, e aqui é necessário realizar um mea culpa, os eventos culturais no Brasil não sabem atrair público, e isto decorre da falta de conhecimento dos organizadores do que seja cultura. Os museus nacionais possuem exposições cansadas; consideram mais válido atrair exposições internacionais do que investir na prata da casa. É difícil de entender por que não usam, por exemplo, o método arqueológico conforme Foucault tratou em “A arqueologia do saber”, e estabelecendo não cortes laterais de exposições, mas viés longitudinais: fazer, por exemplo, a história do fogo de acordo com a Arte, usando músicas, instalações e pinturas. Este tipo de criatividade é inexistente. Ou fazer como uma exposição atual no Canadá, onde Alberto Manguel contou a história das bibliotecas e organizou uma visita virtual a algumas famosas bibliotecas do mundo, inclusive a dele mesmo.

O mesmo pode ser dito dos eventos literários, que oscilam entre dois extremos: ou são excessivamente acadêmicos e com uma linguagem distante da realidade do público, ou são eventos que visam a enaltecer ou elogiar autores, falando platitudes e descrevendo processos de criação literária. Para mim, soa muito improvável alguém sair de casa, após um dia cansativo de trabalho, para sentar em um determinado local e assistir a um grupo de pessoas discursando obviedades. Novamente penso em Foucault e pergunto: não seria mais interessante um evento que, ao invés de discutir a obra de um determinado autor, analisasse um assunto em que determinadas obras pudessem vir à tona, permitindo inclusive a participação do público com as suas próprias leituras e opiniões? Quem protagoniza eventos literários parece ter medo de mostrar o seu itinerário de leituras – ou o que permaneceu de cada obra lida na sua memória. A sensação constante é que, a qualquer momento, pode surgir uma pergunta inoportunamente inteligente, quando os seguranças e guarda-costas removerão o escritor às pressas do evento, com medo que a qualidade da obra seja colocada em risco pela presença do homem que a engendrou.

No início deste texto, perguntei onde estava o público dos eventos culturais, e a resposta é simples: está em casa. Ele não vê motivo algum para sair, pois entende que Arte é um item supérfluo (inclusive também é algo que o governo acredita e que a mídia prega) e os eventos culturais disponíveis não lhe atraem em razão da sua pouca inventividade. Enquanto estes dois elementos estiverem presentes, não há motivo algum para imaginarmos grande presença do público a prestigiar os nossos artistas. No entanto, basta desequilibrar uma das pontas da gangorra – seja mostrando o valor da Arte e, por conseguinte, da Cultura como patrimônio do ser humano, seja deixando os eventos culturais mais interessantes – e toda a estrutura acabará sendo abalada.

Ao contrário do que dizem por aí, a chave para o sucesso de um país não está na economia, na política ou no desenvolvimento social – sem Cultura, ainda que falemos a língua dos homens e dos anjos, seremos como o bronze que soa ou o címbalo que retine. Sem Cultura, nunca seremos algo, pois sequer entenderemos o quanto falta para sermos humanos.

Texto originalmente publicado em http://literatortura.com/2015/11/onde-esta-o-publico-dos-eventos-culturais/

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Arquivado em Cultura, Generalidades, Literatortura, Público

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