Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (27/10/2015): “Os livros que nunca leremos”

Na minha coluna da semana passada no Medium da Dublinense, escrevi sobre um assunto que me fascina: os livros que não existem. Aqueles que acreditamos que são fidedignos ao original, mas não passam de acúmulos de detritos narrativos e de sonhos de escritores anônimos. Citei Homero, “O Livro das Mil e Uma Noites” e Shakespeare, mas poderia ter citado a Bíblia ou mesmo as obras de Sócrates. Livros que nos dizem, na capa e na crítica, que beberam da água límpida da originalidade do autor, mas não passam da sombra de outras obras há muito perdidas.

Boa leitura!

Os livros que nunca leremos

Alguns meses atrás, durante uma conversa delirante como as que estamos acostumados a praticar, a escritora Daniela Langer — autora de “No inferno é sempre assim e outras histórias longe do céu”, lançado pela Dublinense — disse ter um estranho hábito: quando estava fora de Porto Alegre, e achava um exemplar do seu próprio livro em alguma livraria ou loja, ela o adquiria. Depois acabava presenteando algum felizardo com a obra, mas era tão mágico entrar em uma livraria em outra cidade e achar a própria criação que ela não conseguia resistir. Claro que nossa conversa degringolou para a teoria de que, talvez, nossos livros não tenham mais a sequência de contos que colocamos, talvez eles estejam incorporando outras histórias ou outros personagens, ou modificando sua estrutura, usando o silêncio das prateleiras para se ajustarem sozinhos. Dizia Barthes que o mundo é um livro e dizia Mallarmé que tudo está no Livro, ou seja, não estamos tão desprovidos de razão.

Não cheguei a comentar com a Daniela, mas também tenho um hábito peculiar em relação ao meu “O homem despedaçado”: possuo somente dois exemplares na minha casa, e os dois apresentam defeitos. Um deles não possui trinta páginas, da 17 até a 47. No outro, os contos estão misturados; provavelmente os “cadernos” em que se dividem um livro foram confundidos na gráfica, gerando um volume confuso, com contos que terminam no nada e outros que se alongam, em uma experiência surrealista.

“…imaginar os braços que não existem é melhor do que vê-los” [Fonte: Wikipedia]

O mais interessante é que eu mesmo comprei estes dois livros defeituosos, um na Feira do Livro de Porto Alegre e o outro na livraria Saraiva de Caxias do Sul. Não sei o que me levou a folheá-los. Também não entro no comodismo de criticar a editora; em um universo de 700 exemplares da primeira edição, é plenamente possível 5% de problemas, e dois livros é praticamente nada. Quis o destino que eu encontrasse estes volumes imperfeitos e os resgatasse e, se menciono esta particularidade da minha relação com a obra, é para dizer que os dois livros defeituosos me comovem. São como a Vênus de Milo; imaginar os braços que não existem é melhor do que vê-los.

Nunca terão a capacidade plena do original; nunca serão completamente entendidos. Também tem um lado meu que acredita que, do jeito que eles foram reordenados, é possível que tenham adquirido outro sentido. É possível, assim, que seja um outro livro, não mais aquele que sonhei. Por isto, é melhor que eles continuem presos na minha casa.

Ampliando a ideia de que cada exemplar do meu livro tem vida própria, nada me assegura que os leitores estão lendo realmente o livro verdadeiro. Eles podem estar lendo outras obras, com outras disposições de contos, com outras palavras, com páginas adulteradas ou acrescentadas. Talvez tenham medo de me comentar para não parecerem ignorantes, ou achem algo tão pós-moderno que pensam ser quase um livro-instalação, ou tenham considerado tão arrojado e tão louco que ficam com receio de confrontar o autor. Nada pode me garantir que as pessoas estão lendo o livro que outrora escrevi — só a esperança.

Passei boa parte do domingo dando risada de Aristarco da Samotrácia (216 a.C. — 144 a.C.). Tenho um humor estranho, mas, toda vez que recordava da empáfia do grego, desatava a rir. Quem chamou minha atenção para ele foi Horácio que, no seu Ars Poetica, comentou pejorativamente sobre os riscos da crítica literária feita com excessiva frouxidão ou rigor desmedido, dizendo que, no segundo caso, o crítico pode acabar “virando um Aristarco”. Ao procurar mais dados sobre a história dele, descobri que Aristarco da Samotrácia foi o terceiro diretor da Biblioteca de Alexandria. De acordo com um cronista da época, era antipático e tinha uma aparência descuidada. Também odiava poesia, tanto que, durante o período em que esteve à frente da Biblioteca, desestimulou o crescimento dos estudos poéticos.

Representação do incêndio da Biblioteca de Alexandria [Fonte: Cultura Brasileira]

Contudo, o que caracterizou Aristarco foi o seu ódio extremo a Homero. Seus trabalhos — hoje perdidos — criticavam de forma ácida a Odisseia e a Ilíada, afirmando que os versos eram grosseiros, mal feitos e espúrios. Aristarco da Samotrácia tanto odiava Homero que acabou se transformando nele: resolveu fazer uma edição comentada e — aí está o ponto que me fez dar gostosas risadas — revista da Ilíada e da Odisseia. Retirou os versos que não gostava, emendou as partes sem sentido, modificou a estrutura do livro. Também apontou discrepâncias, e foi a primeira pessoa que usou o asterisco para designar divergências com o texto original. Alguns comentadores insinuam que ele acrescentou e retirou personagens, tudo para entrar na ideia que fazia de um livro mais adequado. Aristarco acreditava que Homero era só um homem, não uma multiplicidade, e que interpolações posteriores teriam sido acrescentadas na sua obra. Fiel a esta linha de entendimento, resolveu ajudá-la, decidindo remover tudo aquilo que, no seu entendimento, não fazia parte da Ilíada e da Odisseia originais. Não é à toa que ele foi fundador de uma estirpe de gramáticos alexandrinos, que se dedicaram a estudar e, se fosse o caso, corrigir obras literárias.

Existe uma série de histórias interessantes ligadas às leituras que Aristarco da Samotrácia fez de Homero, inclusive a forma bizarra com que algumas de suas anotações surgiram, já no século XIII. Seria legal contá-las, mas iria me estender demais. Contudo, é assustadora uma constatação: é muito provável que o Homero que hoje lemos não seja o Homero original, mas, sim, a obra reformada pelo bibliotecário, seu adversário figadal. A ideia da Biblioteca de Alexandria era consolidar, em um só local, todas as obras existentes no mundo. Assim, é muito possível que, entre os livros fugidos do incêndio, não estivessem a Ilíada e Odisseia originais, mas a versão modificada por Aristarco.

Causa tristeza a ideia de que nunca leremos Homero como ele realmente foi. Hoje é um outro livro que o emula e se identifica como se fosse ele, não mais aquele teor fresco e recendendo a espadas gloriosas que encantava os habitantes das polis gregas.

O mesmo acontece com outros livros: no ano retrasado, assisti a uma palestra do professor Mamede Mustafa Jarouche, tradutor de “Livro das Mil e Uma Noites” para o português. Após contar a sua epopeia para localizar textos e as diferenciações existentes entre o ramo sírio e o ramo egípcio do mesmo livro,o professor afirmou que jamais conheceremos o teor integral do “Livro das Mil e Uma Noites”. As histórias andaram por tantas bocas e escribas diferentes que elas se transformaram. Nos tempos atuais, lemos um livro que nos dizem ser o “Livro das Mil e Uma Noites”, mas não o original. Prova maior disto é que sequer existem mil e uma histórias como o título promete, e “Ali Babá e os Quarenta Ladrões” e “Sinbad, o Marujo” não fazem parte do original, são acréscimos contemporâneos. Além disto, existem lapsos inexplicáveis entre as histórias contadas por Sheherazade, tirando a ideia de continuidade, em que uma trama engata na outra.

Ao final da palestra, o professor Mamede comentou que, na melhor tradição dos escribas anteriores que definiram inúmeras versões do livro, ele também acrescentara algumas histórias esparsas do ramo persa e modificara trechos para permitir uma visão mais complementar e profunda do livro. Foi um momento arrepiante: a história ainda vive. Transforma-se e modifica-se, mas acaba se adaptando aos ambientes, invencível. É a teoria darwinista aplicada à literatura — só as histórias fortes sobreviverão, mas desde que se adaptem.

Impossível não lembrar que também jamais leremos o Shakespeare no original. O bardo inglês era um dramaturgo profícuo, não escrevendo para ser lido, mas para ser representado. Durante a sua vida, nunca existiu a preocupação de manter um registro acurado das peças. Afinal, nem William Shakespeare sabia que, um dia, seria William Shakespeare. Não só isso: como a rainha às vezes pedia apresentações particulares na corte, era normal que Shakespeare adaptasse a peça solicitada para o público específico, acrescentando trechos de louvação a determinadas correntes políticas, inclusive a do Conde de Westminster, e retirando palavras de baixo calão.

Anos após a morte do dramaturgo, ocorreu a formação dos Fólios, compêndios que reuniam as suas obras, mas, como eles foram feitos de forma fragmentada, é muito possível que alterações feitas por atores ou outros escritores tenham passado a integrar o conjunto da obra, não sendo mais possível diferenciar o original dos acréscimos posteriores. Inclusive existem histórias muito engraçadas sobre superposições ilógicas nas mesmas peças, tais como personagens que morrem e depois reaparecem e outros que mudam drasticamente de opinião sem nenhuma explicação convincente.

Nem todo livro chega ao leitor da maneira que saiu das mãos do escritor. [FONTE: zazzle]

É uma pena que nunca leremos as versões originais de Homero, do “Livro das Mil e Uma Noites”, de Shakespeare. Entretanto, também nesta possibilidade existe magia: a certeza de que a literatura se faz independente de homens ou de mulheres, mas com histórias. Quando Daniela Langer compra o próprio livro em outra cidade, tem a ilusão de que, na troca geográfica, outra obra nasceu, e pode ter acontecido.Quando eu mantenho exemplares imperfeitos do meu livro na biblioteca, tenho o delírio de que eles contam histórias diferentes das que engendrei, e pode ser igualmente verdade.

Não temos como saber o que acontece dentro dos limites estreitos de um livro.Não sabemos o que vocês, leitores, estão fazendo com as nossas criações. A única certeza que temos é que nenhum leitor atravessa duas vezes o mesmo livro — nem mesmo o seu autor.

(Publicado originalmente em https://medium.com/colecao-dublinense/os-livros-que-nunca-leremos-a184707ee64#.8e7jqzxbq )

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Arquivado em Daniela Langer, Dublinense, Generalidades, Homero, Literatura, Livro, Livro das Mil e Uma Noites, William Shakespeare

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