OK, agora sou um velho

Em uma conversa recente, perguntaram-me qual o momento em que tomei consciência de que era um adulto. A resposta veio fácil: foi o dia em que alguma pessoa, em lugar não mais lembrado, chamou-me de “senhor”. Não “guri”, “moço”, “cara” ou  “tu aí”; foi um vistoso “bom dia, senhor”. Eu ultrapassara a barreira da irresponsabilidade da juventude e chegara, enfim, ao mundo dos adultos e de suas obrigações. As outras respostas foram igualmente interessantes: o dia em que recebi uma conta bancária com o meu nome estampado; o dia em que entrei na faculdade; o dia em que levei uma namorada na casa dos meus pais. Momentos em que pensamos: OK, agora sou um adulto.

Muitos livros tratam da transição que separa um jovem da maturidade, mas poucos abordam outra passagem igualmente importante: quando a velhice chega. O instante delicado em que precisamos assumir que os anos não voltarão, e a última etapa da vida está iniciando. É um momento vital da nossa existência, aquele em que a Morte abana no horizonte e torna-se cada vez mais visível.

Na semana passada, um cliente falou algo de inesperada sabedoria. Conversando sobre o cansaço que sentia, ele acrescentou “Doutor, a gente nunca sabe quando virou um velho. Na minha cabeça, ainda sou novo.” É um fato incontestável: um dia temos todo o futuro pela frente e, no instante seguinte, estamos contando o futuro com sovinice. No início, a vida parece infinita e, a partir de uma data imprecisa, começa a contagem regressiva. Uma das minhas frases favoritas de filmes está em “Gladiador”, de Ridley Scott: os germanos preparam um ataque contra o exército romano. Um centurião comenta com o general Maximus que não sabe o motivo pelo qual os germanos ainda não se renderam à dominação estrangeira. Em resposta, o general pergunta: “você sabe o dia em que será derrotado?” Ninguém sabe. Ninguém acorda pensando que hoje será o último dia (a não ser os estoicos, mas eles estão preparados para que todo o dia seja o primeiro ou o último ou nenhum dos dois). Da mesma forma, não sabemos o momento da morte ou a data exata em que a velhice chegou.

A velhice chegará para todos nós. A questão é como iremos encará-la.

Não é segredo o meu apreço por Cícero. Sempre me arrepia imaginar a força retórica de um homem que, no período tempestuoso que marcou a mudança do regime da República romana para o Império, conseguiu não só continuar vivo, como usou as palavras para pregar aquilo que acreditava ser o certo (ainda mais um homem que nadou no meio de tubarões como Pompeu, Júlio César e Catilina, para não citar outros). No seu “Saber envelhecer”, Cícero aborda a velhice, destrinchando os problemas normalmente associados a ela e oferecendo respostas, a ponto de concluir que “somente os idiotas se lamentam de envelhecer”.

A lição principal de Cícero é a seguinte: envelhecer é uma arte e, como tal, deve ser encarada como um aprendizado de si próprio. Não adianta se lamuriar sobre o avanço da idade e a consequente decadência da memória, do corpo e do vigor sexual. Ao contrário, é necessário se adaptar às novas circunstâncias, utilizando a sabedoria inata da idade em seu benefício.

Existem duas situações inesquecíveis – uma nos quadrinhos e outra no cinema –  que abordaram o momento em que homens tomaram conhecimento amargo de que não podiam mais se comportar como jovens, e tiveram que se ajustar à sua idade. Deixaram de se lamuriar sobre a juventude perdida e passaram a usar a idade avançada como vantagem ao invés de problema.

O primeiro instante está em “O Cavaleiro das Trevas”, de Frank Miller. Um Batman envelhecido sai da aposentadoria em que se encontrava para defender Gotham mais uma vez. O problema é que o mundo está diferente: os EUA estão sob a égide de um regime fascista controlado pelo governo em conluio com os meios de comunicação, o Super Homem virou um fantoche controlado pelos políticos e o crime se modernizou.

Quando retorna, Batman continua pensando como jovem. Acredita que ainda vive na Gotham da sua maturidade. Contudo, enquanto ele envelheceu, os criminosos estão cada vez mais fortes, mais rápidos e mais ensandecidos.

É neste descompasso que Batman decide enfrentar o supremo comandante dos jovens criminosos, um ser de força descomunal, movido a drogas: o Líder Mutante. Imagina que, cortando a cabeça da cobra, conseguirá eliminar toda a ameaça.

Ele leva uma sova. Pior ainda: leva uma sova sendo humilhado. O Líder Mutante quebra o Homem Morcego de todas as formas, pontuando as porradas com frases como “Você é LERDO, velho” e “Está cansado, velho?”. Ele debocha dos socos e chutes do inimigo, mostrando a pouca importância que dá para a força do outro. Se não fosse a intervenção de um Deus ex-machina franzino (a nova Robin), Batman teria morrido.

Após ficar muito próximo da morte, Bruce Wayne se recupera e decide ter uma revanche contra o Líder Mutante. No entanto, desta vez, ele aprendeu a lição, tanto que reconhece, com humildade, que “Meu erro foi tentar ser selvagem como ele. Querer lutar como um jovem.”

Quando vai de novo enfrentar alguém mais jovem e mais forte, Batman decide usar a sabedoria: inicialmente, escolhe o terreno ideal para a batalha, onde a velocidade do outro será drasticamente reduzida (uma fossa repleta de lama). Em segundo lugar, inicia a luta mirando um ponto não tão essencial do corpo do inimigo: logo acima do supercílio. O sangue surge e se mistura com a lama, embaçando a visão do Líder Mutante. Em seguida, inutiliza um braço do adversário, atingindo os nervos do deltoide. Com o inimigo machucado, parcialmente cego e com os movimentos limitados, basta escolher a melhor maneira de liquidá-lo. Usando a sabedoria da idade e a experiência, Batman transforma em vitória retumbante a luta que seria uma derrota certa. Um homem velho adaptando-se à sua idade.

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O mais vibrante nesta cena nem é a vitória física de Batman, mas o triunfo sobre si mesmo. Ele reconhece o fato de agora ser um velho, tendo que lutar como alguém da sua idade, não como o lutador que foi no passado. Tem a grandeza de espírito e a humildade de notar que o seu tempo de glória passou, e um novo homem existe na pele daquele que se imaginava para sempre jovem. Um homem que luta não com os punhos, mas com a inteligência. Neste sentido, Batman lembra outro trecho do “Saber envelhecer” de Cícero, quando ele fala da força física e das pessoas que acreditam que seu corpo se manterá para sempre inexpugável:

“Que frase mais pungente a de Mílon de Crotona! Envelhecido, e observando no estádio atletas em treinamento, eis que ele olha seus próprios bíceps e exclama num lamento: ‘Ai, os meus estão agora arruinados!’. Não são apenas teus bíceps que estão arruinados, imbecil, mas tu mesmo! Pois não é a ti, mas a teus bíceps e abdominais que devias teu renome.”

Muitas pessoas prorrogam ao máximo o momento de confrontar a velhice, mas a pior imaturidade não é a do corpo, é a do espírito. Batman passou pelo teste: olhou-se no espelho e reconheceu que precisava representar a idade que tinha, não uma outra.

Outro instante inesquecível está no filme “Rocky Balboa”. Na minha interpretação, o filme não passa de uma comovente metáfora para o avançar da velhice e a progressiva tomada de consciência dela. A luta de boxe encenada é um embate entre a força arrogante da juventude e a experiência serena da maturidade, em que nenhum dos lados tem a possibilidade de vencer.

No momento em que Rocky decide enfrentar um lutador mais jovem e mais forte, está entrando em uma luta onde a derrota parece certa. Neste contexto, só lhe resta usar a idade como vantagem. É quando o treinador Duke estabelece a estratégia que o boxeador mais velho deve adotar:

 

Em uma transcrição, eis o que treinador fala:

“Duke: You know all there is to know about fighting, so there’s no sense us going down that same old road again. To beat this guy, you need speed – you don’t have it. And your knees can’t take the pounding, so hard running is out. And you got arthritis in your neck, and you’ve got calcium deposits on most of your joints, so sparring is out.

Paulie: I had that problem.

 Duke: So, what we’ll be calling on is good ol’ fashion blunt force trauma. Horsepower. Heavy-duty, cast-iron, piledriving punches that will have to hurt so much they’ll rattle his ancestors. Every time you hit him with a shot, it’s gotta feel like he tried kissing the express train. Yeah! Let’s start building some hurtin’ bombs!

 

Este discurso motivacional faz lembrar também a lição de Sun Tzu, de como um general deve agir quando o seu exército encontra um terreno desesperador. A princípio, remover toda a esperança dos soldados: explicar que estão em uma situação impossível de ser resolvida, que não existe maneira de serem salvos e que cada um deve lutar o máximo que puder pela própria vida. Descartada a opção de vitória, e condenando os soldados ao fim inevitável, eles lutarão com todas as suas forças. Quando Duke destaca todos os pontos negativos da idade de Rocky, está deixando implícito que o cenário é um terreno desesperador clássico, e a única maneira de vencer sobre o ringue é usar o máximo de força possível. Saber que a derrota é inescapável desde o começo, deixando a esperança como a única força capaz de mudar o resultado.

Ao invés de velocidade, Rocky desvia todo o treino para intensificar a força bruta. Quando abre mão da defesa e se concentra em melhorar o ataque, o lutador sabe que irá apanhar muito, mas confia na sua força de vontade – e no fato de que cada soco seu irá machucar o oponente. Uma tática suicida. Na luta definitiva, ocorre um novo Deus ex-machina (por causa de um soco mal dado, o oponente machuca a mão esquerda e fica algumas rodadas da luta usando somente a outra), mas não tira o mérito de Rocky reconhecer que não é mais um garoto e não pode lutar como um, e que, lembrando Cícero, “sem dúvida alguma, a irreflexão é própria da idade em flor, e a sabedoria, da maturidade.”

Tenho visto muitas pessoas imaturas por aí, tanto homens quanto mulheres. A imaturidade independe de gênero. O que realmente me consterna é acharem que a sua imaturidade pode durar para sempre. Usando a alegoria de Santo Agostinho, a vida humana é o sopro de ar quente que forma um vaso de vidro. Somos passagens, não fins (agora, usando a alegoria de Nietzsche). Reconhecer que a idade avança e que a velhice chegará é sintoma de maturidade.

O único patrimônio que perdemos é tempo. E não existe nada pior do que ser um velho bobo, alguém que, nas palavras de Cícero, pensa possuir todo o tempo do mundo, sem desconfiar que o tempo, com seus dentes carcomidos de madrepérola, é quem o possui.

6 Comentários

Arquivado em A Arte da Guerra, Batman, Cícero, Cinema, Estratégia, Filosofia, Frank Miller, Generalidades, Quadrinhos, Rocky Balboa, Sun Tzu, Velhice

6 Respostas para “OK, agora sou um velho

  1. Tá uma beleza esse seu texto.

  2. Texto gostoso de ler e com boas análises. Me fez pensar em sobre como o passado acaba nos definindo.

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