Texto novo no Literatortura (08/10/2015): “Os livros insolentes”

Na coluna que escrevi para o Literatortura (www.literatortura.com), tratei dos livros que invadiram e se instalaram na minha biblioteca, e não sei como isto aconteceu. Também falo que estes livros, por mais bobos que aparentam ser, também representam o oxigênio para os outros livros, mais sérios e com finalidades claras.

No meio do texto, menciono a biblioteca do Nautilus, de acordo com o descrito por Jules Verne em “Vinte mil léguas submarinas”. Pode soar difícil de acreditar, mas foi uma menção emocionada. Tenho uma ligação muito forte com este livro. O primeiro filme legendado que assisti – e li as legendas aos gritos, algo que, imagino, deve ter deixado o cinema inteiro contente – foi justamente o “Vinte mil léguas submarinas”.

Depois que tive esta experiência, procurei o livro na biblioteca do colégio, e não achei. Foi uma grande decepção. A bibliotecária, a Tia Inês (peço desculpas às demais bibliotecárias, mas ela foi a melhor que já passou por este planeta – também foi uma das melhores pessoas que já conheci), viu a minha tristeza e não comentou nada. Uma semana depois, ela me chamou na sala de aula. Quando entrei na biblioteca, a Tia Inês abriu uma gaveta da sua mesa e, dentro, estava uma edição de “Vinte mil léguas submarinas”, do Jules Verne. Ela me contou que esperara o seu salário sair e comprara o livro para colocar na biblioteca do colégio, mas, antes de cadastrá-lo, ia me emprestar. Na época fiquei bem feliz pela oportunidade de ler o livro, e levei alguns anos para entender aquilo que exatamente acontecera – e o gesto incrível feito pela bibliotecária, a quem sempre serei grato.

Foi um grande prazer voltar à biblioteca do Nautilus, e lembrar a maneira com que a li pela primeira vez: como um local de magia e de livros raros, como o conjunto de obras que poderiam formar a mente de um homem. No entanto, o alerta do texto é válido: bibliotecas são organismos vivos. Constranger livros, impedindo a chegada de novos ou a saída dos antigos, é a chave para destruir qualquer leitor – o momento em que a biblioteca vira não solução, mas veneno.

Boa leitura!

 

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Os livros insolentes

 

Ao arrumar a minha biblioteca, deparei-me com uma estranha classe de livros: os insolentes.

São obras que surgiram no meio das prateleiras e não tenho a mínima ideia de como isto aconteceu. Algumas são surpreendentes, como é o caso de “O garanhão”, de Harold Robbins, cuja capa brega ofende não somente os pruridos de um eventual leitor como faz promessas de sexo em quartos de motéis sujos, mas deixa de lado a literatura. Outras obras não li e não sei como se materializaram, caso de “Próximo Destino: Marte”, de Marina Vidigal, que aborda um assunto que sequer me interessa muito (a colonização de Marte). Mais inquietantes ainda são os que não foram lidos, não me atraem e eu acho a ideia deles um enorme clichê, como ocorre com “A Cabana”, de William P. Young. É incompreensível a forma com que surgiram; não lembro de tê-los ganhado e, menos ainda, comprado. São livros que deveriam ser descartados em benefício de outros que me interessam mais. No entanto, a sua capacidade de resistência em um ambiente hostil permite continuá-los frequentando a biblioteca, caminhando entre os outros livros com o convencimento dos imortais. São sobreviventes.

Uma pessoa desavisada poderia achar que os livros procriam ou que, das suas conversas, pode ser gerada uma nova obra. Não é um pensamento tão absurdo; todo livro é formado por várias obras de qualidade refinada ou de bom gosto deplorável que o autor pega e mistura em um cadinho com as suas experiências e sensações, até aparecer algo inédito. No entanto, o caso dos insolentes é diferenciado. Não deveriam estar na biblioteca, mas estão. Mesmo se forem tocados fora, ressurgirão, como em um truque de mágica. Quando vistos no meio de outras obras, causam estranheza e uma dose de escândalo. Existem livros com que podemos andar na rua de mãos dadas, trocando carícias e cumplicidades, mas outros devem ficar presos nos porões, com uma máscara de ferro diante da capa, sem ver a luz do dia.

Não deixa de ser uma espécie de preconceito. Uma distinção entre livros que temos orgulho de possuir e outros que nos dão vergonha. Bibliotecas são criaturas paradoxais: muitas pessoas acreditam que são espaços de liberdade e de construção de pensamento, pontos de luz que escapam de vaidades, e não podem estar mais erradas. As bibliotecas são locais de exclusão por excelência. Ao refletirem uma pessoa, revelam, com a claridade incômoda de um espelho, os seus pensamentos mais ocultos. Podemos enganar todas as pessoas boa parte do tempo, mas, assim que lançarem um olhar para as prateleiras, saberão exatamente nossos desejos profundos. Recordo que algumas amigas me relataram o desconforto de carregarem uma obra considerada erótica, por exemplo, “Cinquenta Tons de Cinza”, da E. L. James, e transmitirem uma impressão equivocada para a sociedade. A simples escolha de um livro já revela algo da nossa personalidade. Quando colocado entre outras obras, temos um retrato perfeito do ser humano que possui tal conjunto de títulos.

Por este motivo, me incomoda a dicotomia insinuada atualmente, sobre o fato de, se alguém possui mais obras de autores homens em relação às mulheres, ter uma conduta machista ou sexista. É uma análise muito primária, pois são editados mais homens do que mulheres, e eles recebem mais divulgação do que as autoras femininas. Por critérios matemáticos, parece-me que, se mais homens possuem obras editadas e divulgadas, a proporção deles será maior em qualquer biblioteca. O mais interessante seria afastar a análise dos hábitos de leitura (aceitando a biblioteca como o lugar de exclusão formado por uma pessoa) e tentar descobrir por que menos mulheres são editadas e divulgadas. Tirar o foco do leitor, este preconceituoso por natureza, e se concentrar no mercado editorial.

Pensar que a biblioteca é o espaço em que nossos maiores preconceitos vêm à tona nos permite dizer que os livros insolentes são essenciais. Eles são a válvula de escape das outras obras, o contraponto cômico, a risada inoportuna que constrange um rosto no meio da tragédia. Nesta hora, recordo da biblioteca do Capitão Nemo, de “Vinte mil léguas submarinas”, de Jules Verne. Quando criança, muito imaginei a forma exata da biblioteca que adornava o Nautilus, os exemplares vetustos depositados nas estantes, as lombadas acariciadas pelo capitão. Também fiquei triste quando o submarino foi a pique, levando obras preciosas para o vazio oceânico. Nunca esqueci o comentário do capitão ao apresentar este espaço para o visitante: “os meus livros são os únicos elos que me ligam à terra. Quando entrei no Nautilus, e comprei os últimos exemplares e panfletos que iam me acompanhar para o interior do oceano, assumi a ideia de que, a partir deste instante, a humanidade não produziu mais nenhuma obra digna de valor”.

A biblioteca do capitão Nemo era formada por cerca de 12 mil exemplares, escritos em quase todas as línguas, “tudo o que o homem produziu de mais belo na Humanidade”. A maioria dos livros eram científicos, e grandes raridades da mecânica travavam contato com tratados das ciências naturais. Não tinha nada de economia política, pois o capitão achava que o leitor devia construir as suas teorias nesta área. Não existiam livros recentes nas prateleiras, eis que Nemo só lia os clássicos. Por fim, eles estavam distribuídos em uma lógica conhecida somente pelo proprietário da biblioteca, independente de idioma ou de temática, e os exemplares de aspecto surrado deixavam entrever que não existiam somente como objetos de decoração, mas como fonte constante de consultas e leituras. A biblioteca continha as maiores obras de literatura, de moral, de ciência, todas reunidas no mesmo local.

Não consigo imaginar que, dentro do espaço exíguo de um submarino, o capitão Nemo se desse ao luxo de ter livros insolentes. Ele arrancaria os cabelos ao ver, no meio de sua biblioteca tão arduamente selecionada para lhe acompanhar durante a sua vida inteira, algo que não devia estar ali. Por não existir entradas e saídas, não teria como outros autores se insinuarem na biblioteca do Nautilus e, assim, o capitão Nemo tinha uma biblioteca estática, imutável, perfeita – e, por isto mesmo, assassina.

Na segunda parte de “Vinte mil léguas submarinas”, o capitão Nemo vira juiz e carrasco da Humanidade. Entrega-se ao terrorismo. Com base nas suas leituras e no conhecimento por elas proporcionado, acredita ser a única pessoa no planeta capaz de separar o bem do mal e, investido de tal poder, não hesita em arrematar contra todas as pessoas. O humanitário dotado de uma biblioteca transforma-se, assim, em um déspota violento.

Em uma biblioteca dotada de livros que representam o caráter e a moral do seu proprietário, a inexistência de livros insolentes é perigosa para o próprio indivíduo. Eles são a argamassa que dão estrutura para o muro de saber. São o ponto cego onde a lógica não manda. São o erro e o caos que se intrometem na nossa existência e lembram que, parafraseando Wander Wildner, não conseguimos ser sérios o tempo todo.

Uma biblioteca formada somente por livros escolhidos pelo seu dono é uma temeridade; qual pessoa consegue olhar o tempo todo para a própria imagem sem enlouquecer? Como qualquer organismo vivo, a biblioteca é formada por um trânsito de seres e de intenções. As obras são dadas como presente, doadas por mortos, acrescidas por uniões, separadas por divórcios; elas andam livremente, à procura de um local em que consigam sobreviver. No caso dos insolentes, são convidados inoportunos em uma festa fechada, mas, ainda assim, vivem, respiram e comem seus salgadinhos com as traças, esquecidos.

Os livros insolentes não sobrevivem às limpezas por serem teimosos, mas, para nos lembrar de que sempre existe incerteza. Ao excluí-los do seu convívio, o capitão Nemo condenou-se aos pensamentos estagnados dos livros, cometendo um erro imperdoável: imaginar que o mesmo conjunto de obras incessantemente lidas sempre daria pensamentos novos para o seu proprietário, quando é o surgimento dos livros inesperados, revoltosos, que permite a oxigenação das ideias. Então, que seja bem vinda a insolência ao seio da minha biblioteca, e que os livros desaforados continuem me envergonhando quando surgem no meio das prateleiras, pois são a prova de que a minha visão de mundo não está paralisada no tempo.

 

Link original: http://literatortura.com/2015/10/os-livros-insolentes/

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Arquivado em Jules Verne, Literatortura, Literatura, Livro

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