As estranhas pessoas que ainda são capazes de se maravilhar

Às vezes, eu me pergunto se não existem mais maravilhas no mundo que nos cerca ou se as maravilhas continuam existindo, mas nossos olhos são incapazes de apreendê-las.

Percebo um grande cinismo a se disseminar pela Humanidade, associado à arrogância: imaginamos que sabemos tudo e que nada mais pode nos surpreender. Achamos que o mundo inteiro foi devassado e explicado. Pensamos que somos o centro da realidade, em um antropocentrismo mais virulento do que aquele imaginado pelos nossos antepassados (de quem hoje debochamos).

É evidente que estamos errados.

De tão domesticado pela realidade, o olhar acabou se esquecendo do encantamento. Aquela sensação de descobrir que o mundo, apesar de tudo, é um lugar grande e cheio de instabilidades. Que a realidade é um constructo arbitrário, um fogo-fátuo. Boa parte dos nossos problemas nasce do fato de que desaprendemos a nos encantar. Existem maravilhas em todos os lugares e, se formos menos cínicos e tentarmos ver a vida da mesma forma que uma tábula rasa encara o pincel que lhe dará significado, saberemos muito a nosso respeito. Aprenderemos mais do que ficar lendo as opiniões e pensamentos alheios – voltar-se para si mesmo é um aprendizado bem mais interessante.

Percebi isto em uma cena de dois minutos do filme “Mr. Turner” (2014).  Nela, o pintor William Turner sobe as escadas de um palácio e, de repente, ingressa no meio da Exposição de Verão da Academia Real de Arte de 1832. Eis a cena:

Um pouco de contextualização histórica vem a calhar. No passado, os artistas organizavam-se através de academias, que ditavam os termos da arte do período. Apesar de muitos afirmarem que estas academias sufocavam tendências artísticas, impedindo os seus autores de exibirem artes fora dos seus critérios estéticos, também penso que existiam membros da Academia capazes de transcender o medo do novo e aceitar expressões artísticas diferentes do consagrado. Agindo assim, eles ajudavam a proteger a tradição, mas sem aderir a modismos. A arte nasce e se desenvolve em um contexto social; o sol pode ser tapado por alguns momentos, mas não para sempre, senão a arte seria algo estanque e imutável.

Nesta cena do filme, Turner entra naquilo que seria a Exposição de Verão da Academia Real de Arte, um evento que acontecia uma vez a cada estação e onde novos e antigos artistas exibiam os melhores trabalhos. Obras de arte estão espalhadas por todas as paredes, indo do chão ao teto, em uma overdose de sensações. Os artistas se encontram, conversam, trocam gracejos e se ajudam mutuamente, além de um analisar a produção do outro. Claro que também existem correntes artísticas diferentes colidindo no interior da mesma sala – e muita vaidade -, mas a arte ainda prepondera. Inclusive a sequência desta cena descreve um famoso incidente envolvendo Turner e Constable, em que Turner “depreda” a própria tela e, diante dos olhos de todos, a retifica, fazendo com que Constable se sentisse humilhado.

Vale a pena ver como a cena foi construída detalhe a detalhe, desde o fato do diretor possuir o catálogo real da Exposição de Verão da Academia passando pelo objetivo de juntar as quase 200 obras em uma tomada. Uma das minhas maiores reclamações sobre o cinema atual é que ele deixa pouco espaço para a imaginação do espectador, por causa da onipresença de efeitos especiais. Contudo, no caso do filme, a imaginação é levada ao seu paroxismo quando descobrimos que existiam 04 ou 05 salas tomadas por obras (a cena só mostra UMA sala e a antessala) e que a omissão é ainda mais rica do que aquilo que conseguimos enxergar (existem autores cujas obras não temos a mínima ideia do que representavam, uma espécie de “one hit wonder” da pintura. Fizeram um quadro, participaram de uma exposição e desapareceram, tanto o artista quanto a obra. Com quantos artistas isto aconteceu, nunca saberemos ao certo, mas podemos imaginar as obras brilhantes que espocaram uma vez no firmamento e, depois, sumiram para sempre).

Em outra postagem no blog, escrevi sobre “gabinetes de curiosidades” ou “quartos de maravilhas” ( http://wp.me/p24M2p-A5 ), e é o que vemos nesta parte do filme “Mr. Turner”. A ideia da acumulação artística me atrai. Nos tempos atuais, os museus se preocupam com o excesso visual, e as obras de arte se espalham por paredes amorfas, como se o olhar de apreensão estética não pudesse nunca ser distraído de um objeto singular.

No entanto, assim como Umberto Eco disse em “A Vertigem das Listas”, existe uma espécie de apreensão estética que só se dá pelo acúmulo, pelo exagero, pela overdose. Os olhos detectam as múltiplas imagens e tentam chegar a um fio condutor, pois faz parte da nossa natureza de seres conscientes a tentativa de encontrar lógica em um caos, seja jogando varetas, seja procurando desenhos entre as estrelas, seja analisando uma multiplicidade de quadros.

A pós-modernidade – e sua ditadura do medíocre e do medo – acabou nos tirando a ideia de que existem centenas de milhares de artistas produzindo simultaneamente, e que partilhar da mesma sala não é algo feio, mas uma forma de louvar uma outra abordagem estética, formada pelo confronto, pela luta de diferentes concepções no mesmo espaço físico.

No próprio filme, perguntam para William Turner o que ele está achando da Exposição de Verão daquele ano, e a sua resposta é uma palavra só: “CORNUCÓPIA”. Não consegui controlar as gargalhadas, eis que, com esta resposta mal educada, Turner considera todos os quadros como cópias insatisfatórias do seu estilo e, ao mesmo tempo, minimiza as obras alheias e elege a sua como a única original. Uma palavra cheia de despeito, mas – apesar dos múltiplos significados – direta ao ponto.

Entre vários “gabinetes de curiosidades” na História da Arte, gosto do pintado por Johan Georg Hainz, que passa a impressão de que as pessoas podem ser esmagadas pela arte:

Johann Georg Hainz - Gabinete de curiosidades - 1666

Johann Georg Hainz – Gabinete de curiosidades – 1666

Na sua origem, os “gabinetes de curiosidades” eram formados por colecionadores e exploradores, que adquiriam estranhezas de outras partes do mundo e juntavam em um local, com o propósito de coleção. Eles deram início aos museus de todo o mundo, que não passam de extensões da mesma ideia, um local de armazenamento de obras de arte.

O que mais estimo nesta ideia é que existiu um olhar maravilhado no início de cada “gabinete de curiosidade”. Antes de começar a juntar peças e objetos, havia um ser humano e seu desejo de se maravilhar. Pois, para se encantar com algo, não é necessário ser surpreendido, basta ter a vontade de se sentir assim. Quando alguém se abre para as impossibilidades do mundo que corre em paralelo à realidade, acaba vendo muito mais do que pode imaginar. Pode achar belo o ondular trêmulo de um lago. Pode achar singular a forma com que as formigas andam em fila (e se uma tropeçar?). Pode achar que os movimentos das “birutas” não passam de mentiras piedosas feitas pelos ventos. Pode achar que o olhar intenso de alguém vale mais do que um universo inteiro.

Não tenho medo de me maravilhar. Tudo aquilo que escrevo não passa de uma frágil tentativa de espalhar as maravilhas que vejo pelo mundo, de fazer com que os outros abram os olhos e aprendam que, por mais violenta que seja a realidade, ainda existe uma possibilidade de achar que o universo inteiro nasceu ontem, e que toda a memória humana não passa de uma doce ilusão.

3 Comentários

Arquivado em Generalidades, Johann Georg Hainz, Maravilha, Mr. Turner, Pintura, Quarto das Maravilhas, Umberto Eco, William Turner

3 Respostas para “As estranhas pessoas que ainda são capazes de se maravilhar

  1. Maria Odila Menezes de Souza

    Magnífico!

  2. Ótima postagem, estou trabalhando num seminário sobre Museologia e seu texto me deu novas ferramentas.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s