Texto novo no Literatortura (08/09/2015): “As histórias que nunca serão contadas”

Existem histórias que conto e histórias que nunca irei contar, e é assim que funciona. Não é por uma questão de proteção ou de timidez que algumas histórias jamais escreverei, mas é a sensação de que palavras não são capazes de dar conta de um sentimento. A certeza de que não sou capaz de transmitir a intensidade do sentimento me impede de sequer tentar conspurcá-lo com palavras. Mas não é algo ruim: mantenho estas histórias como pequenos tesouros, que compartilho com poucas pessoas, de forma ciumenta e possessiva.

Todos os meus textos tem fundamento em alguma experiência que passei ou que soube. Não tem nada de fantasioso neles, talvez a estrutura ou a forma com que os contei. Na minha concepção, sou o escritor mais realista que conheço: aquele que sabe que a realidade não existe e está em constante construção.

Espero que gostem.

As histórias que nunca serão contadas

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Muitas pessoas refletem sobre as histórias produzidas na literatura, mas quase ninguém trata daquelas que jamais foram escritas.

Se considerarmos que cada narrativa possui um ponto de vista e que este implica em uma escolha arbitrária do autor, podemos presumir a quantidade imensa de histórias abortadas, esquecidas e modificadas. Neste sentido, um dos melhores livros – e dos mais inquietantes – é “O Livro dos Livros Perdidos”, de Stuart Kelly, que conta a história de obras que desapareceram, nunca foram escritas ou acabaram sendo destruídas. Impossível não se arrepiar ao ler como o último exemplar das “Obras Completas” de Ésquilo foi queimado na Biblioteca de Alexandria. Ou pensar em Nikolai Gogol, que recebeu de um padre, como penitência, a ordem de destruir os manuscritos das partes II e III de “Almas Mortas”. O escritor russo queimou folha a folha. Quando acabou de matar o próprio trabalho, Gogol fez o sinal da cruz e chorou. Deixou de se alimentar. Nove dias depois, estava morto.
No melhor estilo do defendido por Sócrates no diálogo do “Fedro” de Platão, é possível considerar a escrita como uma forma de matar a memória e impedir o crescimento do livre pensamento. Escrever é fazer escolhas dolorosas entre histórias que devem ou não ser contadas, e isto depende do autor. Quando lemos um livro, jamais imaginamos as sombras e fantasmas que morreram para que ele existisse. Qualquer obra artística, assim, não passa de um cemitério de ideias mortas. Um monumento à Obra Desconhecida, aquela que nunca será lida por decisão ditatorial (e inevitável) do seu autor.
Reflito sobre este assunto por ter notado, na minha conduta, uma espécie de ética autoral. Existem histórias que escrevo e outras que não posso escrever. “Não posso” não demonstra incapacidade técnica, mas algo que reside no fundo da consciência. A certeza de que existe um limite moral e ético incapaz de ser ultrapassado. Algo completamente pessoal, que não pode ser disciplinado ou iludido. Histórias tão íntimas e que me tocam de uma forma tão significativa que, se eu colocá-las no papel, irei estragá-las. Ou – o mais perturbador – narrativas tão próximas da minha pele e tão fortes que podem me dilacerar se eu tentar passá-las adiante. É a noção inescapável de que existem situações maiores do que o homem capaz de descrevê-las.
Há histórias que escrevo e outras que nunca escreverei. Por motivos que escapam da lógica, as histórias não escritas são as melhores. São os diamantes secretos que, antes de dormir, eu retiro da caixinha e admiro em silêncio. Meus pequenos tesouros. As poucas pessoas que as escutaram – o fato de não escrevê-las não quer dizer que não possa contá-las – garantem que são ótimas. Não raro, tais ouvintes choram, dão risadas gigantescas ou ficam pensativos por um bom tempo. Existe humildade na opção de não contá-las: palavras não darão conta de todo o alcance da história (pois criar, além de ser uma questão de adotar um ponto de vista, também é se comprometer com uma visão de mundo). Existe, ainda, uma grande piedade. O sentimento quase inato de que algumas pessoas não merecem ser devassadas, ridicularizadas ou analisadas por aquilo que fazem, pois elas não merecem.
Durante minhas leituras sobre a literatura inglesa escrita por mulheres, constatei um interessante viés de crítica direcionado de forma quase exclusiva à produção feminina: as escritoras eram criticadas por colocarem demais as suas vidas no interior da obra, escrevendo “romances pessoais”. Era escandaloso que uma mulher tomasse este tipo de conduta. No caso, as autoras eram criticadas por não separarem a obra da própria vida (uma forma também de diminuir a sua qualidade literária), revelando detalhes muito íntimos para o público. Não sei se a mesma ressalva era feita em relação às obras masculinas, mas é algo que, às vezes, ainda percebo em críticas sobre obras atuais de mulheres: a necessidade de buscar um inevitável paralelo entre a ficção e a vida, em uma atitude um tanto voyeur.
A literatura nasce da observação do mundo, e exigir que uma mulher deixe de escrever sobre aquilo que lhe rodeia em benefício da “preservação dos valores” é algo muito questionável. Nenhum artista pode criar excluindo a si mesmo da obra. O que podem fazer é silenciarem sobre as experiências a serem ou não partilhadas com o público. Nos tempos atuais, em que todos precisam falar de forma abundante e ininterrupta, cultivar o silêncio torna-se uma atitude digna. Nem tudo aquilo que sentimos pode virar uma obra, e escolher é uma decisão sábia.
Ainda hoje causa uma relativa polêmica quando escritores realizam obras muito próximas da sua vida. Recordo que, quando li “O Filho Eterno”, de Cristóvão Tezza, o cerne da discussão entre meus colegas foi se o escritor não teria exposto demais a sua intimidade. O narrador falava com a voz de uma pessoa inequivocamente real. Tínhamos raiva e simpatia do autor ou do ser humano? O mesmo aconteceu ao ler “Divórcio”, de Ricardo Lísias. As conversas e debates sobre o livro centraram-se mais na vida do homem do que na qualidade estética da obra do escritor. Persistia a sensação incômoda de estarmos falando sobre livro tão íntimo. Apesar disto, em ambos os casos, esteve presente a intervenção de um criador (um demiurgo), que direcionou o olhar do leitor usando a sua figura de homem como baliza com a realidade, em uma forma de transmitir verossimilhança. Existiram cortes, acréscimos e, mais do que tudo, existiram mentiras e simulações, pois a literatura é constituída por fraturas de realidade.
Em alguns momentos, fico triste por não dividir parte das sensações e histórias que escutei ou vivenciei: o silêncio imemorial do campo em uma noite cheia de infinito e de estrelas. O mate dividido com desconhecidos no meio de estrada deserta do Uruguai. O amor puro e honesto declarado em público fazendo a plateia ver, por alucinantes segundos, através dos olhos do apaixonado. O rumor das fagulhas de sol sobre a superfície de um lago anônimo. A primeira vez que fiz uma criança séria sorrir. O vinho que tomei com um casal de mendigos na rodoviária de Cachoeira do Sul, quando a energia elétrica foi desligada. A chuva salvadora sobre o meu rosto em um dia de desespero. Uma caixa extraviada, como retornou às minhas mãos e como a deixei ir embora de novo. Estas e outras histórias não virão ao mundo, não por egoísmo, mas por eu não ser capaz de transmiti-las de forma correta. Elas pertencerão à biblioteca do meu palácio da memória, onde estão os livros não escritos que me acompanharão até a morte, e isto é algo que todos temos em comum: histórias não contadas, com seus pequenos mistérios, arestas ríspidas e delicadezas.

 

(publicado originalmente em http://literatortura.com/2015/09/as-historias-que-nunca-serao-contadas/ )

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Arquivado em Generalidades, Literatortura, Narrador em primeira pessoa, Temas de crítica literária

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