A descoberta do eu

Brincava com o meu afilhado de nove meses este final de semana quando aconteceu um milagre. Alguém disse o seu nome na sala e ele prontamente se virou na direção de onde fora chamado.

Pode parecer quase nada, mas uma gigantesca evolução nasceu aí. É o equivalente, para um bebê, a descobrir a América ou a pisar na Lua. Um dos mais decisivos momentos da nossa vida acontece logo no início: o instante único e trepidante em que, no meio de todos os ruídos do mundo, reconhecemos um som como o nosso nome. Ali nasce o indivíduo. Ali nasce a Humanidade.

Não lembraremos nunca o segundo em que todos os sons se juntaram em torno de uma única palavra reconhecível, e muito menos saberemos por qual detalhe a palavra acabou se prendendo na nossa memória, tornando-se a maneira pela qual seremos identificados até o final da nossa vida. São memórias que acabamos perdendo. Viver é esquecer.

Eu chamo de milagre – e perdoem o meu arrepio quando penso nisto – é por que, no simples ato de conceder um nome para alguém e este bebê ver a si mesmo como alguém distinto no meio de sete bilhões de pessoas, surge a noção de ser humano. Aristóteles deve ter feito este mesmo processo. Virgínia Woolf também. Einstein. Tesla. Freud. Kafka. Eu. Você. Todos irmãos formados por uma massa indistinta de sons e apupos até o momento em que escutamos o nosso nome, percebemos que estamos ali e passamos a possuí-lo.

“Nomes têm muito poder”, já escreveu Neil Gaiman, e recordo que, nesta mesma história, ele mencionou uma das mais fortes crenças da magia – a noção de que cada pessoa possui um nome aparente, que qualquer um pode usar, e uma denominação secreta, o nome da sua alma, que não pode ser dito em nenhum momento pois, se outro ser o souber, exercerá poder completo sobre ela.

Pode parecer algo extremo, mas a noção de individualidade está fortemente ligada ao nome. Não é à toa que tantas famílias se preocupam com a sobrevivência do seu nome para as gerações futuras; é uma das questões que está na própria necessidade de possuírem filhos, pois transmitiriam o nome para outra geração.

Uma interessante questão do passado é o sobrenome da mulher após o casamento. Ela era obrigada a adotar o sobrenome do marido, perdendo o seu de solteira. Era uma maneira subreptícia de dominação feminino, pois ela passava a pertencer ao marido inclusive naquilo que tinha de mais íntimo, a forma com que se identificava. A própria construção do nome do filho (primeiro o sobrenome da mulher e, em seguida, o do pai) fazia com que o sobrenome masculino prosseguisse e o feminino virasse poeira. Atualmente, a mulher pode escolher se vai adotar ou não o sobrenome do marido. No entanto, em relação aos filhos, a construção do sobrenome feminino acrescido do masculino continua, mais por costume do que por obrigação.

releitura hopper

Na literatura, o nome é usado das mais variadas formas. Em “William Wilson”, de Edgar Alan Poe, o narrador partilha o mesmo nome com outro homem, o que os faz possuírem os mesmos gostos e problemas de caráter. O nome idêntico os transforma em duplos, e um deles precisa morrer para que o outro recupere a identidade. Particularmente, já gosto da forma inusitada com que o nome é construído, pois “WILLIAM WILSON”, acaso dividido em sílabas, pode ser “WILL I AM WIL SON”, o que dá uma interpretação quase edipiana para o conto.

Recentemente reli “O vasto mar de sargaços”, de Jean Rhys, onde a personagem principal troca o nome Antoinette – que possuía na Martinica – para Bertha quando chega na Inglaterra. No caso, o fator essencial para esta mudança foi o desejo do seu marido, Rochester, de viver com uma mulher de nome mais civilizado. Podemos ler como uma tentativa europeia de aculturar um habitante das Américas – o que atrairia as teorias pós-colonialistas -, mas também existe a vontade de possuir não só o corpo da mulher como também a sua alma. A troca do nome pode parecer algo pequeno no contexto da trama, mas não é coincidência que a personagem se sente enlouquecer depois de tal fato. Mais importante é a mensagem de força de Rochester que esta simples decisão autoral nos transmite: um homem que força a mulher a trocar de nome é capaz de tudo – inclusive de prendê-la na sua casa.

Também existe o nome verdadeiro que ocultamos com um falso para poder realizar atos de vingança, como se o nome novo nos permitisse qualquer coisa. Possuir outra denominação é construir uma identidade renovada. No caso, recordo de “O conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas, em que Edmond Dantès assume diversos nomes falsos (lembro de Lorde Wilmore e de Simbad o Marujo) antes de se firmar como Conde de Monte Cristo.

Também lembro da uma incrível troca de nome e de personalidade em “O Dilúvio”, de Henryk Sienkwiecz, em que Babinicz era vilão e troca de nome para Kmicic, virando herói do exército polonês. Fazer a mesma personagem passar de vilão para mocinho sem perder a credibilidade é algo realmente formidável em termos de construção narrativa (P.S.: estou com a minha biblioteca em mudança, e faço citações de cabeça, pode ser que a ordem dos nomes esteja errada).

A literatura utiliza os nomes de muitas formas para criar tramas. Não costumamos muito pensar no nosso nome e no quão importante é defendê-lo. Ele simplesmente existe. Talvez por isto o simples gesto do meu afilhado de reconhecer o próprio nome tenha me deixado tão impressionado. Agora, ele sabe quem é. Sabe que é um ser de direitos e obrigações, alguém identificável e identificado, e que o seu nome poderá estar no rol de benfeitores, na lista de culpados ou até em nenhum lugar muito expressivo, pois tudo está ao alcance de qualquer criança, não existem limites para ela.

Provavelmente ele nunca desconfiará, mas saber o próprio nome representou o momento em que a sua imagem no espelho revelou como deseja ser chamada. Em silêncio, sem nenhum alarde ou confusão, o eu nasceu e iniciou a sua jornada pelo mundo. Tendo o nome como uma base sólida, a primeira e última fortaleza do indivíduo, é hora de construir o resto da personalidade. Não é à toa que a maior de todas as magias é o ser humano, a única criatura que, em constante e indeciso crescimento, precisa formar e defender o próprio nome cada vez que respira.

3 Comentários

Arquivado em Alexandre Dumas, Edgar Alan Poe, Eu, Generalidades, Henryk Sienkwiecz, Jean Rhys, Literatura, Nomes

3 Respostas para “A descoberta do eu

  1. Elizabeth

    O Arthur vai ter muito orgulho de ser teu afilhado! Parabéns pelo lindo texto! Mais um para orgulho de toda a tua família.

  2. Outro aspecto interessante no desenvolvimento da personalidade infantil é que as crianças, quando começam a falar e a construir frases, começam a falar de si próprias em terceira pessoa: O Arthur está com fome, o Arthur quer dormir. Vais ver.
    É curioso, talvez seja parte do processo de ir ganhando domínio sobre o próprio corpo, não sei. Beijos,

  3. Geni Dornelles

    Parabéns, Gustavo! Muito interessante teu texto. A leitura flui! Abraço.

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