Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos

Há muitos anos eu procuro um livro de William Butler Yeats.

Em quase todo sebo que entro, dirijo-me de forma quase automática para os derradeiros livros e procuro este exemplar de Yeats. Não consigo encontrá-lo.

É um livro bem específico: tem capa marrom com letras douradas. Ele é antigo, ou tem uma aparência vetusta, sem estas capas chamativas que infestam as livrarias atuais. Discreto e silencioso, mas cheio de música no seu interior. Nunca chamaria a atenção de um leitor. É daqueles livros sábios, que existem sem fazer alarde e sem ser muito vendido, mas passado adiante, provavelmente em sebos ou em bibliotecas.

O exemplar que eu procuro estava na Biblioteca das Ciências Humanas da UFRGS. Eu o retirei lá, muitos anos atrás, e embrenhei-me na leitura dos poemas em inglês. Não sabia o suficiente da língua para manejar os estratagemas poéticos do escritor irlandês, e talvez por isto eu tenha mergulhado de forma ainda mais intensa nos poemas. O mesmo aconteceu quando estava aprendendo espanhol e resolvi fazer uma imersão no “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada” do Neruda de maneira tão violenta – li cada poema mais de 50 vezes tentando entender a língua e os símbolos poéticos – que os poemas acabaram se tornando parte da minha essência. Não sei mais se eu os sonhei, se eu os escrevi ou se eu os li, estamos completamente misturados.

Não acho o livro de Yeats. O exemplar da Biblioteca da UFRGS se evadiu, e suspeito que ele fosse o último em todo o mundo. Um livro que fora feito para um único leitor, e ele acabou o perdendo. (Às vezes acho que roubei o livro, ou que o tenha queimado, pois este sumiço é muito estranho, até mesmo para mim)

William Butler Yeats

Lembro da ordem dos poemas que estão no livro. Lembro da cor da tinta das palavras. Lembro das páginas acobreadas. Lembro do ruído que o ondular das folhas fazia.

Porém, mais do que tudo, lembro do que mais gostava: Yeats era um poeta que lidava com a perda. Cada poema dele terminava com suavidade, como se o leitor desvanecesse no vazio das palavras silentes. Não era apoteótico ou irônico ou triste; era somente a perda. A noção de que tudo vem e passa e, eventualmente, acaba. Isto foi muito importante naquele momento da minha vida, e tive um excelente professor a me explicar tudo que perdi e ainda perderia. Como no caso deste poema, “Death”:

Death

Nor dread nor hope attend
A dying animal;
A man awaits his end
Dreading and hoping all;
Many times he died,
Many times rose again.
A great man in his pride
Confronting murderous men
Casts derision upon
Supersession of breath;
He knows death to the bone –
Man has created death.

Ou na tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos:

Morte

Medo não tem, nem esperança,
Um animal a agonizar:
Aguarda um homem o seu fim,
Tudo a temer, tudo a esperar;
Já muitas vezes morreu ele,
As muitas vezes retornando.
Em seu orgulho, um grande homem,
Homens que matam enfrentando,
Sobre a substituição da vida
Atira um menosprezo forte;
Sabe ele a morte até os ossos
– Foi o homem quem criou a morte.

Nunca esqueci a última frase: “man has created death”. É algo que surge em alguns momentos dos meus contos – a noção de que só morremos por que desistimos. A morte não precisa ser necessariamente algo físico, pode ser o final de uma ideia de mundo ou a representação de uma mudança de pensamento. Pode ser até o final de um relacionamento. Somos histórias em aberto, e cabe a cada um colocar o ponto que a encerra no seu devido lugar.

Gosto muito do início: a pessoa não tem mais medo do que vai acontecer e nem esperança de uma salvação de última hora. Está agonizando, naquele momento em que a morte ainda não aconteceu mas já é uma inevitabilidade. Neste instante final, Yeats mostra que cada homem que morre leva consigo uma parcela dos outros, uma ideia que também surge em John Donne, “A morte de cada homem diminui-me, pois eu faço parte da humanidade; eis porque nunca pergunto por quem dobram os sinos: é por mim.” Também surge em Neruda: “caminhamos sobre os cadáveres de todos que nos antecederam”.

A perda também surge em outro poema perfeito de Yeats, “When you are old”:

When you are old

When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.

Novamente na tradução do Péricles:

Quando fores velha

Quando já fores velha, e grisalha, e com sono,

Pega este livro: junto ao fogo, a cabecear,
Lê com calma; e com os olhos de profundas sombras
Sonha, sonha com o teu antigo e suave olhar.

Muitos amaram-te horas de alegria e graça,
Com amor sincero ou falso amaram-te a beleza;
Só um, amando-te a alma peregrina em ti,
De teu rosto a mudar amou cada tristeza.

E curvando-te junto à grade incandescente,
Murmura com amargura como o amor fugiu
E caminhou montanha acima, a subir sempre,
E o rosto em multidão de estrelas encobriu.

A perda da juventude está diretamente ligada ao amor que surgiu e desapareceu da vida da mulher. Ela teve a chance de corresponder ao amor que lhe foi direcionado, e a desperdiçou. O final, com o semblante do amor subindo a montanha e desaparecendo no meio das fugidias estrelas, passa a sensação de uma perda irreparável, amarga.

Não sei se existe uma declaração de amor mais incrível do que esta: “But one man loved the pilgrim soul in you, / And loved the sorrows of your changing face”. Amar a alma peregrina e a tristeza do rosto do outro são as verdadeiras provas pelas quais o amor atravessa, pois todas as almas são voláteis e inconstantes, e os dias de pequenas tristezas são mais frequentes do que os dias alegres. S[ó quem ama de verdade sabe o abismo de significado que Yeats descreveu em duas singelas frases.

Yeats escreveu “When you are old” para Maud Gonne. Ele era ferozmente apaixonado por ela, mas, depois de receber várias recusas, teve que vê-la se casar com outro homem. Maud acabou se divorciando – o marido tratava-a de forma abusiva, assim como a sua filha – e passou uma única e delirante noite de amor com Yeats. Ao final dela, disse que os dois não poderiam ficar juntos, arrematando com uma frase inquietante: “Poetas não devem casar nunca. O mundo deveria me agradecer por não casar contigo”. Yeats casou com outra mulher, mas as feridas deste amor por Maud Gonne nunca cicatrizaram em definitivo.

Recordo com muito carinho do “What then?”, tanto que não são poucas as ocasiões do dia a dia em que me pergunto “tá, e daí?, perguntou o fantasma de Platão”:

What then?

His chosen comrades thought at school
He must grow a famous man;
He thought the same and lived by rule,
All his twenties crammed with toil;
‘What then?’ sang Plato’s ghost, ‘what then’?

Everything he wrote was read,
After certain years he won
Sufficient money for his need,
Friends that have been friends indeed;
‘What then?’ sang Plato’s ghost, ‘what then?’

All his happier dreams came true –
A small old house, wife, daughter, son,
Ground where plum and cabbage grew,
Poets and Wits about him drew;
‘What then?’ sang Plato’s ghost, ‘what then?’

‘The work is done’, grown old he thought,
‘According to my boyish plan;
Let the fools rage, I swerved in nought,
Something to perfection brought;’
But louder sang that ghost ‘What then?’

 

Na tradução de Péricles:

E daí?
Na escola achava, cada amigo mais chegado,
que ele viria a ser um homem celebrado;
pensando o mesmo, ele viveu com esse humor,
fartando os seus vinte anos de labor;
“E daí?” “E daí?” – cantou o fantasma de Platão.

Tudo o que ele escreveu, tudo foi lido;
Depois de certos anos tinha já obtido
dinheiro suficiente para sua precisão,
e amigos que deveras foram seus amigos;
“E daí?” “E daí?” – cantou o fantasma de Platão.

Seus sonhos mais felizes realizaram-se:
uma velha casinha; esposa, filha; um filho ele houve,
e em seu quintal cresciam ameixeira e couve;
poetas e intelectuais juntavam-se-lhe à mão;
“E daí?” “E daí?” – cantou o fantasma de Platão.

“A obra está feita”, pensou ele, envelhecido,
“segundo o que em menino dei por decidido
que os tolos raivem, eu não me desviei em nada,
alguma coisa eu trouxe à perfeição”;
“E daí?” – cantou mais alto a sombra de Platão.

Em épocas que todos almejam destacar-se de alguma forma, vale a reflexão: e daí? O importante é construir uma obra, não deixar um legado, e a vida correta é a maior obra que qualquer pessoa pode desejar. O fantasma de Platão lembra a vacuidade das vitórias, a perda dos momentos (eles passarão) e o tempo inevitável que corrói a vida com o vagar de uma traça fazendo círculos concêntricos em livros.

É uma pena que não consiga mais encontrar este livro. Existe uma vontade um pouco perversa de conferir se a imaginação fecha com a realidade. Não sei mais se li realmente o livro ou se o sonhei, não garanto sequer que ele tenha existido. Pior ainda: hoje sinto que os poemas de Yeats se misturaram com os meus pensamentos e entrelaçaram-se neles como cercas vivas ao redor de um poste. Não confio mais na memória – posso estar achando que penso em Yeats e ser algo meu ou posso estar me achando extremamente original e estar copiando o poeta irlandês. Estamos confusos – eu e Yeats e o Neruda e tantos outros livros e pensamentos. O que me faz recordar outro poema dele:


Aedh wishes for the cloths of heaven

Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

 

De acordo com a tradução de Péricles:

Aedh deseja os tecidos dos céus

Fossem meus os tecidos bordados dos céus,
Ornamentados com luz dourada e prateada,
Os azuis e negros e pálidos tecidos
Da noite, da luz e da meia-luz,
Os estenderia sob os teus pés.
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos.
Eu estendi meus sonhos sob os teus pés
Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos.

Um aviso final muito oportuno. Caminhe com suavidade e discrição pelo mundo, poeta, não atrapalhe os meus sonhos com os teus poemas. Por mais paradoxal que seja, a cada vez que procuro o livro perdido nos sebos, eu anseio por nunca mais encontrá-lo. Tenho sérias dúvidas se este livro algum dia existiu, assim como não tenho certeza se Yeats existiu ou mesmo se escreveu os poemas que infestam a minha memória como uma praga de gafanhotos.

Não procuro o livro para tê-lo. Procuro este exemplar em específico para saber o que de mim ainda existe dentro dos meus pensamentos – e o que pertence a outro poeta. É possível que esta seja a qualidade mais inquietante da leitura: a cada livro lido, é como se outra pessoa passasse a morar no nosso corpo e a ditar as nossas condutas. Hoje, eu sou tão Yeats quanto Gustavo, e não sei mais a sombra de quem nos persegue.

2 Comentários

Arquivado em Literatura, Livro, Pablo Neruda, Yeats

2 Respostas para “Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos

  1. Vanessa Monique

    Versos fortes. Ainda não tinha ouvido falar desse escritor.
    Meu blog é novo, gostaria muito que você me fizesse uma visita.

    http://www.meuimpeto.wordpress.com

    Beijão!

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