Mães não podem sangrar

O plano era perfeito: hoje é dia do aniversário da minha mãe. Eu gostaria muito de encontrá-la e cumprimentá-la pessoalmente, mas precisava viajar cedo. Assim, planejei pedir uma carona até a rodoviária e, desta maneira, conseguiria cumprir com a minha intenção.

Era um plano perfeito, mas deu errado, muito errado. Por que eu esqueci a data. Tão logo entrei no carro, começamos a conversar sobre diversos assuntos, acho até que discutimos em alguns momentos, eu ri dos palavrões que a mãe fala no trânsito, discutimos o preço para se mandar fazer chaves e tratamos até do peso das escrivaninhas. Esqueci por completo. Quando estava na rodoviária, lembrei e imediatamente telefonei para me desculpar. Conversamos pelo telefone, mas não foi a mesma coisa.

Enquanto tomava café, pensei na extrema dificuldade que deve ser para uma mulher ser mãe de uma criatura, alguém que é, ao mesmo tempo, parte sua, parte de outro e, não bastando, uma pessoa completamente inédita. Um cadinho de sonhos, vontades e DNA. Em especial, pensei na dificuldade que devia ser para a dona Elizabeth Melo Czekster ser a mulher que o Destino e a biologia escolheram para se tornar a minha mãe. Não é uma tarefa fácil. Deve ser um exercício de paciência diário.

Quando criança, tinha certeza de que a minha mãe me abandonaria. Ela iria encontrar uma forma de se livrar do fardo que eu representava. Muitas vezes, quando ela buscar o carro ou me deixava sozinho em algum lugar, eu pensava: é hoje. É hoje que a minha mãe não volta. Cansou de me aguentar. Quer uma chance de ser feliz de novo, de recuperar a vida que tinha e que a minha presença lhe roubou. Durante vários anos, tive esta certeza oculta, a de que seria deixado para trás. O pior é que nem a culpava por isto; eu a entendia. Até que a paciência dela durara muito. A única alternativa lógica para o nó górdio chamado Gustavo era descartá-lo. Eu fazia simulações virtuais de como seria a minha vida agora que fora abandonado, e pensava que não conseguiria sobreviver sem a minha mãe, mas ela tinha o direito de ser feliz, e eu não a incomodaria pedindo para voltar. Teria hombridade o suficiente.

Contudo, a minha mãe sempre voltou. Aliás, até hoje ela volta. E nem suspeita o quão aliviado eu me sinto ao perceber que ainda não me abandonou, ainda não desistiu.

Não existe ser na Terra que brigue mais comigo do que a minha mãe. Nossas brigas e discussões se contam aos magotes. Por semana, desligamos o telefone um na cara do outro várias vezes. Nós mutuamente nos exasperamos, e somos muito bons nisto, naquele nível de ganhar medalha olímpica. Já chegamos ao ponto de brigarmos por não lembrar quem causara a briga anterior.  No entanto, nunca colocamos em dúvida o fato de nos amarmos, ainda que seja deste jeito abrupto. E eu sei que o mundo pode desmoronar por inteiro que a minha mãe estará ao meu lado – provavelmente me xingando e vendo se estou agasalhado. E isto não é um clichê.

A única pessoa no planeta que me ama de verdade é a minha mãe, e saber disto me enche de medo. Meu calcanhar de Aquiles tem aproximadamente 1,70m e anda por aí cometendo loucuras e andando em calçadas desparelhadas. Em tempos recentes, minha mãe passou mal diante dos meu olhos – uma grande quantidade de sangue jorrou do seu nariz, assim, do nada. Depois que a situação se estabilizou, mandei uma mensagem para ela: “mãe, nunca mais faça isto. Nunca mais sangre na minha frente. Eu não tenho estrutura para aguentar de novo. NÃO.” Devo dizer que, desde então, ela tem se comportado e mantido o sangue por dentro da pele. Mães não podem sangrar – simplesmente não é certo.

Como sempre acontece nesta data, perco um precioso tempo pensando no presente que poderia dar para a minha mãe, e não chego a uma resposta. É estarrecedor o quão pouco conheço de alguém tão importante. Não sei quais as musicas favoritas dela. Não sei quais são os seus livros prediletos. Não consigo recordar nem qual cor é mais abundante no seu guarda roupa. Não sei quanto calça, quanto mede e quanto pesa, só tenho suposições. Sei que ela gosta de chicletes, mas não posso dar uma caixa de Tridents de presente de aniversário. Não sei nem a idade que está completando (quando perguntam, afirmo que ela tem 40 anos, e logo viverei a esdrúxula situação de ser mais velho do que a minha própria mãe). 

Sempre digo que as pessoas precisam ser observadoras e criativas, e a minha mãe é a prova viva de que também fracasso: se no observei nada relevante nestes 38 anos, como posso dizer para os outros fazerem algo de que sou incapaz com alguém que está ao meu lado? A minha mãe, esta esfinge, até assim me ensina a ser humilde. Decifra-me ou te devoro, e ainda não decifrei nada. Mas a triste verdade é que não a considero um ser humano. Para mim, ela nunca foi. Minha mãe é uma força da Natureza. Simplesmente está ali. Alguém pergunta a cor da tempestade, o sabor do vento, a estrutura da chuva? Não presto atenção na minha mãe por que ela está em todos os lugares, em especial dentro de mim, e a minha consciência, moral e ética tem a voz dela. Minha mãe está em tudo que sou – inclusive neste texto.

Tenho uma política interna de escritura. Existem assuntos sobre os quais não escrevo, prefiro sentir a pureza dos meus pensamentos do que distorcê-los com palavras, e família é um deles. Nunca escrevi sobre a minha mãe e, se estou rompendo esta regra, não é por estar me sentindo culpado (hum, certo: PODE SER). Na verdade, escrevi o texto foi para falar sobre Michel de Montaigne. O filósofo francês era muito amigo de um intelectual chamado La Boétie: os dois passavam os dias juntos, conversavam como irmãos, dividiam sonhos e visões de mundo. Um dia, La Boétie adoeceu, no meio de um surto de praga. Montaigne o levou para seu castelo. Quando a morte se aproximou, o moribundo pediu para a família deixar o quarto e só que Montaigne ficasse. A morte do amigo devastou psiquicamente o filósofo, mas Montaigne resolveu publicar os seus “Ensaios” como uma forma de homenagem. Certa vez, perguntaram para ele o motivo de gostar tanto de La Boétie, e Montaigne respondeu: “por que ele era ele, e por que eu sou eu”, o que virou o mote de todo o Romantismo. Para mim, é uma das maiores de todas as declarações de amor: saber que não existe lógica alguma para tal sentimento, saber que ele simplesmente é por eu ser eu, mãe, e por tu seres tu, estes dois seres repletos de carinho e de raiva que não conseguem viver um sem o outro.

Feliz aniversário. Daqui a pouco te passo em idade.

3 Comentários

Arquivado em Uncategorized

3 Respostas para “Mães não podem sangrar

  1. Elizabeth

    Meu menino! Se estás ou estavas com dificuldade em me dar um presente, não pensa ou procura mais. Já me deste! Este texto é o maior e melhor presente que recebi até hoje de ti! Imagina…. ser alvo de um texto escrito por ti e, com alma, coração e muito, muito amor! Achas que é preciso pensar em um outro presente. NÃO, é claro que não. Ele está imortalizado aqui. E foi para mim – um ser que conseguiu gerar três preciosidades. Obrigada, meu filho. Te amo!!!!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s